Literatura

O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
História
O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
18 de outubro de 2026 at 04:47 0
Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que - pelo menos no caso de Lagerfeld - eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983.
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O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional
Literatura
O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional
4 de outubro de 2026 at 01:56 0
A escritora franco-cubano-americana Anaïs Nin (1903-1977) era casada com o banqueiro Hugh Guiler e acabou tendo um caso com o também escritor americano Henry Miller (1891-1980) e se apaixonou pela namorada dele, June. A história desse “quadrângulo amoroso” que ocorreu em Paris no início dos anos 1930 foi contada nos diários da escritora na época, que só foram publicados oficialmente em 1986 - com o título em português de “Henry e June: Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931-1932)” (L&PM, tradução de Rosane Pinho, 256 páginas). Os diários foram publicados com enorme sucesso, a ponto de terem tido uma versão cinematográfica famosa, lançada em 1990 e dirigida por Philip Kaufman. No livro, Anaïs Nin aborda a própria sexualidade de maneira incomum para a época, tendo um tórrido caso com Henry Miller. O marido, chamado simplesmente de “Hugo” na edição brasileira, era um banqueiro que viajava muito e que basicamente não se incomodava com os casos da esposa: a escritora e o amante chegavam a dormir a noite inteira juntos nas ausências dele. A presença de June, a namorada de Henry Miller, é extremamente impactante nos diários: Anaïs a vê logo no início, mas, mesmo com a partida de June para uma viagem, não consegue tirá-la da cabeça, dividida entre uma atração sexual poderosa e o ciúme de Henry. O dinheiro de Hugo praticamente sustentava o escritor, que sofria de uma pobreza extrema – na vida real, o compreensivo banqueiro chegou a pagar a primeira edição do primeiro livro de Henry Miller, o clássico “Trópico de Câncer”. O problema todo de “Henry e June” é que o livro não foi composto para ser publicado, e mais parece uma sessão de psicanálise do que uma obra literária: a escritora frequente e repetidamente dá opinião sobre a personalidade das outras pessoas – “ele é forte”, “ele é amoroso” – sem deixar com que o leitor chegue a conclusões por si. Mas o contraste mais chocante é quando ela transcreve cartas de Henry Miller – este sim, um grande escritor – que são literariamente espetaculares, deixando o estilo de Anaïs Nin ainda pior. Mas a leitura valeu por ser o retrato íntimo de uma época famosa – os “anos loucos” da Paris dos anos 1930 – e, no meu caso, também para me incentivar a ler Henry Miller pela primeira vez – estou lendo “Trópico de Câncer” e já estou amando.
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Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
Ciência, Obra Literária
Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
16 de agosto de 2026 at 01:32 0
Em janeiro de 1999, o Dr. Oliver Sacks recebeu a seguinte carta:
“Meu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, é: não consigo ler. Não consigo ler música nem qualquer outra coisa. No consultório do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optométrica até a última linha. Mas não sou capaz de ler palavras, e para ler música tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso há anos, procurei os melhores médicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta.”
A autora da carta, Lilian Kallir, era uma pianista profissional que simplesmente não conseguia mais ler, fossem letras ou partituras. Continuou se apresentando com as músicas que sabia de cor. Já Patricia H. era a dona de uma galeria de arte que perdeu a capacidade de se comunicar com palavras depois de um acidente vascular cerebral:
“Pat (...) reconhecia as filhas, tinha noção de seu problema e de onde ela estava. Tinha seus apetites e desejos, sua personalidade, mas estava paralisada do lado direito e, o que era mais grave, não conseguia mais expressar seus pensamentos e sentimentos em palavras. Podia apenas olhar e fazer mímica, apontar ou gesticular. Sua compreensão da fala também estava muito prejudicada. Em resumo: estava afásica. ‘Afasia’ significa etimologicamente perda da fala, mas não é a fala propriamente dita que se perde, e sim a linguagem: sua expressão ou sua compreensão, total ou parcialmente.”
Já em janeiro de 2002, o Dr. Oliver Sacks recebeu uma carta de Howard Engel, escritor canadense conhecido pela série de histórias do detetive Benny Cooperman, em que descrevia um estranho problema. Contou que alguns meses antes acordou certa manhã sentindo-se bem, vestiu-se, preparou o desjejum e foi até a varanda pegar o jornal. Mas o jornal ao pé da porta parecia ter sofrido uma transformação impressionante:
“O Globe and Mail de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composição, nas ilustrações, nos cabeçalhos e nas legendas menores. A única diferença era que eu não conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto inglês com as quais eu estava habituado. Só que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cirílico, ora coreano. Seria uma versão servo-croata do meu jornal, feita para exportação? (...) ‘Já que não é alguém fazendo uma brincadeira, só posso ter sofrido um derrame’.”
O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurológicos:
“Desde que me conheço por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. Quando criança não me preocupava muito com isso, mas na adolescência, em um colégio novo, sofri muitos constrangimentos. Minha frequente incapacidade de reconhecer os colegas deixava-os pasmos, às vezes indignados. Não lhes ocorria (e por que deveria?) que eu tinha uma deficiência perceptual.”
O caso de Oliver Sacks nem era tão grave comparado com o de um engenheiro de mina de carvão galesa, que passou a ter os seguintes sintomas depois de um derrame:
“Não consigo reconhecer pessoas em fotografias, nem a mim mesmo. No clube, vi um estranho me encarando e perguntei a um funcionário quem era. Você vai rir de mim: era eu mesmo, olhando no espelho. [...] Tempos depois fui a Londres e estive em vários cinemas e teatros. Não entendi coisa alguma dos enredos. Nunca sabia quem era quem. [...] Comprei alguns exemplares [das revistas] Men Only e London Opinion. Não pude apreciar as fotografias, como antes. Eu era capaz de decifrar os assuntos pelos detalhes, mas assim não tinha graça. É preciso entender tudo de relance.”
Os trechos acima foram retirados de O Olhar da Mente, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 264 páginas, traduzido por Laura Teixeira Motta, ano de publicação original: 2010), livro do famoso médico e neurologista britânico que se popularizou contando casos clínicos de seus pacientes. Outros assuntos englobados no livro são a falta de visão estereoscópica (visão que permite ao cérebro enxergar em três dimensões) e como o cérebro de uma pessoa cega “vê”, mentalmente, objetos e ambientes reais. O meu interesse maior na leitura deste livro foi a pesquisa para o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, que trata de um programador de computadores que perde a visão. Mas, a princípio, a leitura não me ajudou muito: tanto cegos de nascença quanto aqueles que perderam a visão ao longo da vida imaginam o mundo de maneiras muito distintas. Existem desde aqueles que não conseguem “ver mentalmente” nada — com o cérebro basicamente processando apenas a linguagem —, até aqueles que “enxergam” com enorme precisão objetos, proporções, pessoas e cores. Mas, pensando bem, o livro até que me ajudou bastante: meu personagem pode estar em qualquer ponto entre esses dois extremos!
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Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
Literatura
Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
19 de julho de 2026 at 01:53 0
Lá em casa tínhamos algumas estantes de livros. A mais bonita, envidraçada, era minha. Eu passava horas arrumando minhas obras por preferência, autor, temática. Ali havia algumas enciclopédias e coleções bonitas, e os meus livros: Thomas Mann, William Faulkner, Virginia Woolf, muitos livros que eu lia e entendia e tantos outros que eu lia e não entendia. As estantes da minha mãe eram bem mais caóticas (como é, aliás, a minha atualmente): livros desordenados, quase todos lidos e deixados de lado. Minha mãe não fazia muito diferente do que eu faço hoje em dia: eu leio e guardo o livro, sem me preocupar onde armazenar na estante, e se é fácil encontrá-lo ou não. A diferença é que minha mãe nunca se desfazia dos livros dela – dizia que ficariam para mim –, ao contrário de mim, que passo para frente quando não pretendo reler. Outro aspecto importante de mãe e filho fanáticos por leitura, como éramos nós, era o Círculo do Livro: mensalmente recebíamos o catálogo da editora, em forma de revista, e bastava fazer o pedido do livro e esperar por ele. Uma espécie de Amazon dos anos 1980. A qualidade das edições – sempre em capa dura – era espetacular, e até hoje tenho muitos livros do Círculo do Livro na minha estante (muitos, é preciso que se diga, foram comprados bem mais recentemente, na Estante Virtual https://www.estantevirtual.com.br). Quando olhava os livros da minha estante, dois livros estavam sempre juntos e chamavam minha atenção, porque eu não conhecia os autores, nunca tinha ouvido falar das obras fora dali, e mesmo assim estavam entre os meus livros: minha mãe os tinha escolhidos no catálogo do Círculo do Livro, e foram parar na minha estante, quem sabe porque eu achei as edições bonitas, mas não lembro direito. Um deles, com uma sofisticada capa apresentando uma lebre, era "A longa jornada", de Richard Adams, um estranho clássico sobre uma sociedade de coelhos que eu li até a metade uns dez anos atrás; o outro é o tema deste texto: "Quando os Adams saíram de férias", de Mendal W. Johnson (Círculo do Livro, 277 páginas, traduzido por Carmen Ballot, ano de publicação original: 1974). A capa já entregava tudo: cinco crianças no umbral de uma porta, e uma garota amarrada se contorcendo no chão. Lembro de minha mãe dizendo, com desgosto, que no livro “as crianças ficavam torturando a babá sem parar”. Provavelmente minha mãe não terminou de ler o romance: a última dobra do papel está na página 126, e dá perfeitamente para entender por que ela parou ali. Já eu fui até o fim. No livro, Barbara, 20 anos, é a babá contratada para cuidar de Bobby (14 anos) e Cindy (10 anos), filhos dos Adams, que se unem aos irmãos vizinhos Dianne (17 anos) e Paul McVeigh, e ao amigo John (17 anos), para aprisioná-la. No prólogo, a babá está em paz levando as crianças para a igreja e para um banho no rio, mas logo em seguida ela se vê dopada e amarrada – e o sofrimento dela só está começando. O livro é bastante criticado pelo sofrimento gratuito, mas, em épocas de zoossadismo na internet perpetrado por crianças, nem sei se o livro é tão exagerado assim. A história do autor, Mendal W. Johnson, é trágica. Tendo lançado o livro em 1974, faleceu dois anos depois, vítima de alcoolismo, sem conseguir terminar os três romances que estava escrevendo. O livro também tem uma história esquisita: lançado com grande sucesso (a Abril Cultural também lançou “Quando os Adams saíram de férias” em bancas de jornais na época), ficou posteriormente décadas fora de catálogo, tendo sido relançado no exterior pela Valancourt Books em 2020, e no Brasil pela DarkSide Books/Macabra Filmes em 2022. Hoje é uma obra cultuada por amantes de literatura de terror. E merece o status que tem: “Quando os Adams saíram de férias” é extremamente bem escrito, e Mendal W. Johnson consegue descrever com profundidade os pensamentos e motivações – mesmo os de cunho mais psicopata – de seus personagens. *** Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.  
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A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
Literatura
A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
13 de junho de 2026 at 23:20 0
Em seus muitos contos, a canadense Alice Munro (1931-2024), Prêmio Nobel de Literatura de 2013, saudada como “mestre do conto contemporâneo”, escreveu sobre casais em crise, relacionamentos extraconjugais, histórias mal contadas e segredos de família. É uma autora que frequentemente focou suas narrativas em núcleos familiares ou de pessoas próximas, sempre num tom intimista. Embora alguns acontecimentos históricos — como a Segunda Guerra ou a liberação sexual dos anos 1960 — tenham sua importância em certos contos, normalmente eles são apenas pano de fundo para o que está sendo narrado. As histórias de Alice Munro normalmente se passam no Canadá, mas poderiam se passar em São Paulo. Li recentemente “Vida querida” (Companhia das Letras, 320 páginas, traduzido por Caetano W. Galindo, ano de publicação original: 2012), que é o último livro que ela escreveu. Gostei muito de contos como o angustiante “Amundsen”, o trágico “Cascalho”, e de narrativas quase contemplativas e que cobrem longos períodos temporais, como “Orgulho” e “Trem”. Mas o meu preferido mesmo foi “Corrie”, que fala sobre uma mulher rica e independente que mantém um caso secreto de anos com um homem casado: o arranjo parece perfeito, até que uma revelação mostra que o relacionamento era baseado em uma mentira muito profunda. Os últimos quatro contos do livro — “O Olho”, “Noite”, “Vozes” e “Vida Querida” — trazem, segundo a própria autora, histórias biográficas contadas pela primeira vez. Apesar do interesse natural que os fãs — entre os quais me incluo — tenham em saber mais sobre a vida de Alice Munro, não tem como não achar que, literariamente, essas histórias são um pouco inferiores ao normal da autora, que recebeu o único Prêmio Nobel, até hoje, dado a alguém especialista em contos. A verdade é que as histórias de Alice Munro são quase sempre literariamente espetaculares e perfeitamente acabadas, enquanto os últimos contos de “Vida querida” parecem apenas um ajuste de contas da escritora com sua mãe.
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“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
Literatura
“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
3 de junho de 2026 at 14:25 0

Eu confesso que não tinha lido inteiro “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Record, 448 páginas, lançamento original: 2023), quando o coloquei na minha lista de livros preferidos mais recente. Mas não é assim tão difícil de saber por quê: como eu mesmo comentei naquele texto, “se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?”. Então não precisava lê-lo inteiro para colocá-lo em uma lista de livros preferidos. Além de ser muito mais longo que suas demais obras, a “Antologia Pessoal” dá um panorama bastante completo da obra do maior escritor já nascido no Estado do Paraná. Seria o livro dele que eu levaria se tivesse que ir para uma ilha deserta.

Ao mesmo tempo, é um livro um tanto estranho para os fãs. Nas primeiras obras, como “Cemitério de Elefantes” (1964) e “Novelas Nada Exemplares” (1959), ele ainda exibia certa distensão narrativa; já em suas obras mais recentes, como “Ah, É?” (1994), “Pico na Veia” (2002) e “99 Corruíras Nanicas” (2002), ele foi ficando mais e mais telegráfico, com contos cada vez menores. É meio estranho ver exemplares de todas estas fases juntas num livro só, já que seus lançamentos originais sempre tinham uma certa uniformidade temática e na dimensão dos contos. Mesmo em coletâneas como “Contos Eróticos” (1984) ou “A Guerra Conjugal” (1975), esta uniformidade aparecia — o que não acontece em “Antologia Pessoal”.
Outra coisa que chama a atenção é que, ao mesmo tempo que Dalton Trevisan odeia a modernidade de Curitiba – em contos nostálgico-críticos como “Em Busca da Curitiba Perdida”, “Minha Cidade” e “Que Fim Levou o Vampiro de Curitiba?” –, em seus contos mais recentes ele mostra seus personagens convivendo com problemas modernos, como roubos de celulares e vício em crack.
Dalton podia reclamar, como fez no conto “Em Busca da Curitiba Perdida”, do fim dos velhos bondes, do desaparecimento dos pinheirais (”minha terra já não tem pinheiro, o sabiá não canta mais”) e da extinção de figuras clássicas da província — como os imigrantes que vinham em carroças vender produtos da colônia —, mas ele sempre soube que seus personagens – frequentemente da mais extrema pobreza, com vícios, problemas familiares e conjugais – continuam por aqui, na nossa Curitiba, perdidos e desorientados como sempre.
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Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
Ciência, História
Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
16 de maio de 2026 at 15:18 0
Faço listas basicamente desde que tive acesso à internet: melhores filmes, melhores músicas, melhores discos etc. Acho que é um bom e divertido exercício de lembrar de experiências agradáveis em vários aspectos. A lista do texto de hoje é uma que penso em fazer há tempos: quais os livros de não-ficção e não-religiosos que mais me marcaram? A lista segue abaixo, sem ordem de preferência. Alguns deles eu li há muitos anos já e nem tenho mais comigo, então eu coloco as informações de alguma edição recente.
  • A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 páginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publicação original: 1900)
A cada nova revelação deste longo, didático e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: “Nossa, isso faz tanto sentido”. Minha terapeuta não é freudiana, mas frequentemente rimos que alguma história pessoal minha bate com o que Freud dizia no começo do século XX.
  • Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 páginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publicação original: 1996)
Muitos estudiosos reclamam da conclusão principal de Goldhagen, de que os alemães realmente queriam matar judeus, dizendo que havia, sim, alemães contra o homicídio de judeus. Mas é muito difícil ler os capítulos sobre os Einsatzgruppen (esquadrões móveis que realizaram fuzilamentos em massa no início da invasão da União Soviética) e as Marchas da Morte (evacuações forçadas e brutais de prisioneiros dos campos de concentração no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e não achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro é tão perturbador que me atrapalhou o sono por semanas – e, em última análise, me impede até hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em Os Carrascos Voluntários de Hitler é pior do que qualquer terror cinematográfico.
  • O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 páginas, ano de publicação original: 1995)
Quem, como eu, acompanhava muita política nos anos 1980 pela televisão certamente se lembra bem de como o político Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e rápido, e tinha uma obsessão enorme em fazer com que todas as crianças passassem o dia na escola. Quando, no início dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (já que o político Darcy Ribeiro não me impressionava muito) e como O Povo Brasileiro realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a história da miscigenação dos povos que formaram o Brasil – brancos, negros e índios – de uma maneira como você nunca imaginou naquelas aulas chatas de história na escola.
  • Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 páginas, ano de publicação original: 1936)
Eu odeio a expressão “obrigatório” para se referir a livros, filmes, músicas: ninguém é obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria Raízes do Brasil, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro é que, ao contrário dos europeus do norte, que prezam a “fria” competência no trabalho, os brasileiros - assim como eram os portugueses colonizadores - se importam muito mais com relações pessoais. A famosa frase de que o “brasileiro é um povo cordial” tem a ver com relações “cordiais” (do coração) e não com uma suposta afetividade. Bem, é só ver o noticiário para saber de onde vem esse nosso “jeitinho” tão prejudicial para o país como um todo.
  • A Ciência Tem Todas as Respostas?, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 páginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publicação original: 2022)
Aqui eu tinha escrito um texto sobre este que é a obra de divulgação científica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso:
“Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se alguém achar que isso tem valor por alguma razão, tudo bem para mim – todos devem ser livres para praticar sua religião. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica que pode ser dada é ‘nós não sabemos’. (...) Não é que eu queira ser simpática com pessoas religiosas pela única razão de ser agradável. Para começo de conversa, eu não sou exatamente conhecida como uma pessoa agradável. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que ‘não existe a possibilidade de um criador’, ou como Victor Stenger, que Deus é uma ‘hipótese falseada’, demonstram que não entendem o limite de seu próprio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declarações presunçosas.”
Chamar o ateísmo de “teologia” – isso vindo de uma agnóstica ferrenha – meio que lava a minha alma.
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O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
Literatura
O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
5 de maio de 2026 at 16:13 0
Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que não tinha a menor condição de entender – os três principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, já reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles até o final da minha vida. Não importa muito, na verdade. O engraçado nesta história é que eu tinha certeza de que tinha amado, mas não lembrava de quase nada de Passeio ao Farol, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 páginas, traduzido por Lya Luft, ano de publicação original: 1927). Eu sei lá, eu achava que era um romance melancólico e bonito sobre um relacionamento amoroso próximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra. Mas não era bem assim: o livro conta a história do casal Ramsay — um filósofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa belíssima —, que passa o verão em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Escócia. Com eles, estão seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como satélites: um estudante acadêmico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matemático, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado é um dos fios condutores da primeira parte. No mínimo, é um livro de difícil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens são descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem está pensando sobre o quê e quem. A passagem do tempo é contada de maneira genial: o livro é dividido em três partes, sendo que a primeira e a última focam em dias específicos, separadas por um intervalo de dez anos que é narrado de forma acelerada e poética na parte central. O tom geral é muito melancólico e os personagens normalmente têm frustrações enormes e reprimidas – nada a ver com a lembrança que eu tinha, de uma história romântica e de beleza natural. Mas Passeio ao Farol é uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos são os detalhes que eu gostaria de rever por outro ângulo. Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que também brincam com a linguagem e a técnica literária, mas que eu nunca havia lido antes: a edição em espanhol Boquitas pintadas, de Manuel Puig (Booket, 224 páginas, ano de publicação original: 1969) e As meninas, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 páginas, ano de publicação original: 1973). Se “Passeio ao Farol” se concentra em análises de personagens cultos e reprimidos, “Boquitas pintadas” é um melodrama rasgado, contando a história do galã da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem belíssimo, mas tuberculoso. Um bom número de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante é o de uma empregada doméstica, “La Raba”, que se apaixona por um operário da construção que se torna policial, Pancho (amigo do galã supracitado). Cada capítulo é uma “entrega”, uma espécie de baú com diferentes documentos cada um: cartas, relatórios de polícia, diálogos, fofocas. A leitura de “Boquitas Pintadas” é frequentemente difícil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem “apresentados”, e pelos muitos diálogos cujos participantes nem sempre são nomeados de imediato. Mas é uma leitura divertida e autoirônica. Finalmente, “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, narra a história de três estudantes universitárias que vivem em um pensionato em São Paulo. Lorena é rica, apaixonada por um homem casado e costuma apoiar as amigas, especialmente Lia, uma jovem de origem humilde e militante da luta armada. Já Ana Clara é uma jovem belíssima, que enfrenta crises existenciais e problemas com drogas. Recomendo a todos que pretendem ler “As Meninas” que se informem sobre essas três personagens antes de começar! O romance é construído em primeira e terceira pessoas, e as transições entre os fluxos de pensamento de cada uma nunca são explícitas — é pelo estilo e pelo tipo de ideia que descobrimos quem está com a voz. Mas não se preocupem: depois de pegar o jeito, a leitura de “As Meninas” flui maravilhosamente.   Imagem obtida no Gemini Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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