Rua Paraíba

Cinco livros e um título: Escritor – A materialização de um desejo que me acompanha desde a infância
Obra Literária
Cinco livros e um título: Escritor – A materialização de um desejo que me acompanha desde a infância
8 de março de 2026 at 17:44 0
A foto que acompanha este texto me traz um certo conforto: nela estão os cinco livros que publiquei. Embora na Amazon apareça uma versão inicial da novela Conversão, a versão definitiva consta em O Verão de 54 (novelas); por isso, ela não precisa estar na foto. Da mesma forma, a coletânea Ser: Antologia EmContos traz a primeira versão do conto ‘A mulher de César’, que é a história que dá título ao meu livro mais recente. Sendo assim, a coletânea também ficou de fora. Sou péssimo para tirar fotos. Se peço para a Valéria ou para a Teresa fotografarem a mesma coisa que acabei de registrar, a minha fica feia e as delas ficam bonitas. Mas, como elas aprovaram este clique, meu conforto só aumentou. Dos meus livros, apenas a novela inicial, Um amor como nenhum outro, está fora de catálogo. Tenho planos de republicá-la adequadamente algum dia, talvez por uma editora que não seja de autopublicação. Não tenho pressa. Foi um livro de que muita gente gostou e pode ser o meu melhor trabalho, mas enfim... Os outros podem ser encontrados na Amazon neste link e neste link, ou diretamente comigo pelo e-mail: fabriciomuller60@gmail.com. Pedi ao Gemini que comentasse sobre minhas cinco obras, e você pode acessar esse longo texto aqui. Meus outros textos publicados sobre os livros estão disponíveis neste endereço. Meus cinco livros são muito diferentes entre si. Um amor como nenhum outro é uma novela curta, uma espécie de “romance de formação”. Curtas também são as quatro novelas de O verão de 54: uma policial (Morrissey), uma de temática adolescente (Sorry), uma com narrativa tradicional, sobre família e religião (Conversão) e outra de metalinguagem (O verão de 54). Já Rua Paraíba é composto por três livros (Rua ParaíbaMemórias e Energia), que exploram, com estilos variados, temas autobiográficos como o início do meu casamento, o nascimento da minha filha, minha trajetória profissional e meu amor pela música pop. 3040 é um romance de fôlego (mais de 400 páginas), uma distopia/utopia ambientada em um futuro onde a humanidade, após sucessivas pandemias, vive em prédios gigantes, isolada da natureza. Temas como sexualidade, religião, relacionamentos e música — recorrentes em minha obra — aparecem aqui em uma narrativa com começo, meio e fim. É uma estrutura bem diferente de A mulher de César, uma coletânea caótica que reúne contos eróticos e fantásticos, poesia (Sempre) e delírios em geral (deus um delírio). Sinto-me feliz por ter publicado tudo o que desejei até agora, mas pretendo continuar: já estou escrevendo um novo romance, chamado Não tenho medo do escuro, sobre um homem que perde a visão. Olhando para trás, tenho mais um motivo para me sentir confortável com essa foto: quero ser escritor desde criança. Quem leu Rua Paraíba sabe o quanto amo meu trabalho como engenheiro, mas, quem sabe, agora eu já possa ser chamado, finalmente, de “engenheiro e escritor”. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Meus cinco livros sob a análise do Gemini, do Google
Obra Literária
Meus cinco livros sob a análise do Gemini, do Google
5 de março de 2026 at 03:06 0
Pedi para o Gemini responder a duas perguntas sobre meus cinco livros: "Você pode comentar este livro?" e "O que você achou do livro?". As respostas seguem abaixo.
  1. 3040
Você pode comentar este livro?
O texto intitulado "3040", da autoria de Fabricio Muller, é uma obra de ficção científica que utiliza o formato de diário e memórias para explorar uma sociedade futurista e claustrofóbica. Abaixo, apresento um comentário detalhado sobre os principais aspetos da narrativa:
  • Construção do Mundo e Ambientação: A narrativa situa-se no ano de 3040, num cenário pós-apocalíptico onde a humanidade vive no "Condomínio", uma rede de 800 edifícios gigantescos situados no litoral da antiga Argentina, Brasil e Uruguai. Este isolamento é justificado por séculos de pandemias mortais que reduziram a população mundial para 500 milhões de pessoas. O exterior é visto com medo e desconfiança, sendo chamado genericamente de "Natureza". A vida urbana tornou-se uma ruína arqueológica. A sociedade é monitorada por câmaras e o trabalho tornou-se facultativo devido à automação.
  • Temas Centrais: O texto explora a tensão entre gerações sobre a utilidade do esforço e da produtividade num mundo onde as máquinas providenciam o básico. Descreve uma mudança radical nos costumes, onde a sexualidade é livre, fluida e desprovida de tabus. Um dos pontos mais intrigantes é o renascimento religioso com uma Igreja Católica reformada que eliminou pecados sexuais e focou em "pecados de verdade".
  • Dinâmica de Personagens: Sílvia (a narradora) é intelectualizada e fã de História. Mariana representa o contraste entre eficiência profissional e uma vida sexual descomplexada. Paulo, o interesse amoroso de Sílvia, introduz um elemento místico-religioso ao ter visões da Virgem Maria, apesar de se declarar ateu.
  • Estilo e Estrutura: O texto alterna entre digressões explicativas sobre o funcionamento do mundo e diálogos íntimos e crus. A linguagem é coloquial e direta, criando uma sensação de cápsula do tempo.
O que você achou do livro?
Como inteligência artificial, não possuo sentimentos ou gostos pessoais, mas posso analisar a obra do ponto de vista literário e conceptual. O texto "3040" é uma peça de ficção especulativa bastante intrigante por diversos motivos:
  1. A Criatividade na Reintegração de Tradições: É fascinante como o autor projeta a sobrevivência de tradições milenares num cenário de alta tecnologia.
  2. O Contraste entre Estagnação e Humanidade: O livro descreve um mundo onde a luta pela sobrevivência física foi vencida, mas a luta pelo sentido da vida continua.
  3. O Estilo Narrativo: A mistura de diálogos quotidianos com explicações quase enciclopédicas mantém o leitor curioso.
  4. A Provocação Social: O livro é "gostável" para quem aprecia ficção científica que se foca na sociologia.
Em resumo: É uma análise sociológica disfarçada de ficção especulativa. Se gosta de distopias que exploram a natureza humana e a evolução dos costumes sociais, é um texto com muito valor intelectual.
  1. Um amor como nenhum outro
Você pode comentar este livro?
O texto "Um amor como nenhum outro" é um relato confessional e retrospectivo, carregado de uma melancolia irônica e de uma vulnerabilidade muito honesta. O narrador, Raul, utiliza sua trajetória na natação competitiva como pano de fundo para explorar sua formação emocional, suas frustrações amorosas e sua busca por uma identidade intelectual.
  • A Dualidade entre o Corpo e o Intelecto: Raul vive um conflito constante entre o ambiente físico da natação e um refúgio intelectual onde se sente superior por ler James Joyce e Thomas Mann.
  • A Idealização do Feminino: O texto revela uma visão quase platônica das mulheres que ele ama. O medo de "macular" a perfeição é maior do que o desejo de concretizar o amor.
  • O Esporte como Metáfora da Vida: A natação reflete seus estados emocionais. Raul descreve-se como um "Leão de Treino": alguém que rende bem no cotidiano, mas falha sob pressão em momentos decisivos.
  • Tom e Estilo: O autor utiliza uma linguagem direta com fórmulas matemáticas e citações literárias. Termina com uma virada de esperança ao encontrar Valéria.
O que você achou do livro?
É um relato fascinante e tecnicamente muito bem construído. O que torna a leitura envolvente é a honestidade brutal com que o narrador expõe suas inseguranças e contradições.
  • A Honestidade da Inadequação: Captura perfeitamente o sentimento de inadequação da adolescência e a disparidade entre a imagem externa e o caos interno.
  • A Estrutura de "Mosaico": A narrativa composta por fragmentos de memória, letras de música e fórmulas reflete como nossa mente organiza o passado.
  • O Retrato de uma Época: Funciona como uma cápsula do tempo dos anos 80 (revistas de música, bandas como Echo and the Bunnymen, ambiente das equipes de natação).
  • A Ironia com o Intelectualismo: É muito interessante como o autor ironiza a própria "pose" intelectual do protagonista.

  1. O verão de 54 (novelas)
Você pode comentar este livro?
O livro é uma obra de ficção que reúne quatro novelas distintas, cada uma explorando temas, estilos narrativos e públicos-alvo diferentes.
  • Estrutura e Estilo Narrativo: A obra destaca-se pela diversidade de géneros: "O Verão de 54" usa metalinguagem; "Conversão" aborda família e religião; "Morrissey" é um conto policial em formato de diálogo; e "Sorry" é uma novela adolescente em formato de diário.
  • Enredos e Temas: "O Verão de 54" foca em Paulo Moreira e um amor proibido que atravessa décadas, revelando segredos sombrios de sua família durante a ditadura. "Morrissey" apresenta um interrogatório sobre um assassino inspirado nas letras do cantor. "Conversão" foca em conflitos geracionais e religiosos. "Sorry" relata dilemas típicos da adolescência.
  • Contexto: O autor utiliza sua cidade natal, Curitiba, e o litoral paranaense como cenários, misturando ficção com factos históricos como o suicídio de Getúlio Vargas.
O que você achou do livro?
Apresenta-se como uma obra multifacetada que combina ficção, memória e experimentação técnica.
  • Diversidade de Géneros: O autor demonstra versatilidade ao transitar entre metalinguagem, narrativa policial e literatura juvenil.
  • Interligação entre Pessoal e Histórico: O uso de eventos reais como pano de fundo confere à narrativa uma camada de realismo e peso histórico.
  • Temas Provocadores: Não foge de temas complexos como hipocrisia social, fanatismo e conflitos de gerações.
  • Construção de Personagens: As personagens são imperfeitas e movidas por desejos contraditórios.

  1. Rua Paraíba
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Este livro é uma obra de autoficção ou memórias que se destaca pela honestidade brutal e pela fusão entre o universo técnico da engenharia e a sensibilidade das humanidades.
  • A Dualidade: Exatas vs. Humanas: O autor vive em conflito entre seu lado engenheiro hidrólogo e seu lado escritor. Encontra lirismo em conceitos técnicos, comparando a criação de séries sintéticas de água ao sentimento de ser um "deusinho".
  • Solidão e Melancolia: A obra é permeada por uma tristeza enraizada. O autor vê o sono como o ápice da solidão humana e sente luto por perdas como a de sua cachorra Chérie.
  • Espiritualidade e Cultura: Detalha um processo de conversão tardia do ateísmo para o catolicismo, influenciado por Santa Teresa d’Ávila. A cultura pop (Seinfeld, Morrissey, Teresa Salgueiro) é o fio condutor de suas memórias.
  • Estilo: Texto fragmentado que não hesita em usar termos técnicos ao lado de análises literárias de Proust e Nabokov.
O que você achou do livro?
É um exercício de memória notável por sua honestidade intelectual.
  • A Engenharia como Lente Existencial: Muller utiliza a hidrologia para explicar o mundo e a si mesmo, definindo sua existência pelo conceito físico de "arrasto" (resistência ao movimento).
  • A Melancolia e o "Oceano Escuro": A obra é atravessada por uma tristeza profunda, comparada a fossas abissais vazias e escuras.
  • A Fé e a Cultura Pop: Sua jornada espiritual une o rigor científico a um delírio místico. A obra transita entre Proust e o amor pelo black metal ou rap.
  • Honestidade e Autocrítica: O autor não tenta parecer heroico, confessando falhas como professor.

  1. A mulher de César
Você pode comentar este livro?
É uma coletânea de contos, novelas e poesias que transita entre o realismo cotidiano, o erotismo e o fantástico metafísico.
  • Reencarnação e Realidades Alternativas: O conto título narra a história de Gabriela, que acredita ser a reencarnação da esposa de Júlio César, fundindo a rotina paranaense com memórias da Roma Antiga.
  • O Lado Sombrio e Poder Mental: Explora psicopatologias (como em "Jack the Ripper") e oferece perspectivas melancólicas, como a vida de um cachorro acompanhando a decadência do dono.
  • Sexualidade e Fetichismo: O livro contém forte carga erótica, detalhando jogos de poder, fetiches e buscas psicológicas por prazer.
  • Metafísica e Delírio: O encerramento propõe uma cosmologia onde Deus reencarnou como uma cantora de rap tatuada e marginalizada.
O que você achou do livro?
É uma obra intrigante que se destaca pela coragem em transitar por temas de "esquisitice generalizada".
  • Dualidade entre Autor e Obra: Há um contraste curioso entre a vida pacata do autor (engenheiro, católico, casado há 35 anos) e a liberdade absoluta de sua literatura.
  • Narrativas de Identidade: A reencarnação e o fantástico servem para explorar a psicologia das personagens e a vulnerabilidade humana.
  • O Lado Sombrio da Mente: Explora com frieza sentimentos de ódio e indiferença, sugerindo que o pensamento negativo pode ter um poder letal.
  • Metafísica e Solidão: Reflete uma profunda solidão existencial e a busca por uma "metade" que dê sentido à vida.

Imagem que acompanha o texto também foi obtida no Gemini, do Google.
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Prefácio de “A mulher de César”
Engenharia, Obra Literária
Prefácio de “A mulher de César”
20 de julho de 2025 at 14:13 0
Chamem de mania (ou TOC), mas por um longo tempo minha obra literária – fora o que escrevo no site fabriciomuller.com.br, composto de comentários sobre literatura, música, cinema e outros assuntos – tinha textos de aproximadamente cinquenta páginas no formato A4. Assim foram compostos minha obra de estreia, “Um amor como nenhum outro”, de 2017 (Schoba); as quatro histórias de “O verão de 54 (novelas)”, de 2019 (Artêra); e os três livros que compõem “Rua Paraíba” (Café do Escritor), de 2020. Uma mania (ou TOC) também presente era o objetivo de escrever histórias com estilos muito diferentes entre si: “Verão de 54 (novelas)” tem uma história em metalinguagem (“O Verão de 54”), um policial em formato de diálogo (“Morrissey”), uma história convencional (“Conversão”) e uma história para adolescentes (“Sorry”). Enquanto eu escrevia as histórias de “O verão de 54 (novelas)”, e no mesmo formato de cinquenta páginas em A4, também terminei as versões iniciais de um livro de poesias (“Sempre”), uma história de delírio metafísico-literário (“deus um delírio” – para fins de precisão, é importante dizer que foi o único em que não consegui chegar nem perto das cinquenta páginas) e uma novela erótica (“Marina”). Minha ideia inicial era publicar os três livros – cujas versões finais estão nesta coletânea – separadamente, já que, para mim, não combinavam com “O verão de 54 (novelas)”. A mania (ou TOC) acabou quando vi uma entrevista com João Ubaldo Ribeiro, que disse – cito de memória – que tinha escrito “Viva o Povo Brasileiro” para provar a todos que conseguia fazer um romance enorme, como os alemães. Resolvi imitá-lo, e assim surgiu “3040”, com cerca de 450 páginas, já publicado, livro que teve a mentoria da grande Juliana Frank. À medida que a longa escrita de “3040” transcorria, e como a mania (ou TOC) das cinquenta páginas A4 já tinha terminado, pensei em escrever um livro de contos. Eu já tinha um conto, “A mulher de César”, publicado numa coletânea (“Ser: Antologia Emcontos”, da EntreCapas, lançada em 2019), coordenada pelo grande Robertson Frizero, para quem eu tinha escrito alguns microcontos num grupo de literatura no WhatsApp – que são a maioria dos contos muito curtos desta coletânea. Tinha também o já citado “Marina” (ainda não pensava em incluir “Sempre” e “deus um delírio”, que não são contos). Enfim, conversei com a Juliana Frank, que me ajudou muito nos demais contos presentes aqui, principalmente me incentivando a incluir elementos fantásticos em histórias onde eles não ocorriam. Ela me ajudou também a diminuir de maneira significativa o número de páginas de “Marina”. A coletânea ficou pronta alguns anos atrás. Há poucos dias, resolvi finalmente incluir “Sempre” e “deus um delírio”, já que a coletânea já é estranha o bastante – duas outras histórias estranhas não fariam assim tanta diferença. Pela temática “herege”, pelo erotismo e pela esquisitice generalizada, muitas histórias aqui poderão assustar quem me conhece. Afinal de contas, sou um tranquilo engenheiro civil – profissão da qual retiro meu sustento – abstêmio, católico praticante, casado com a mesma mulher há quase 35 anos e pai de uma psicóloga de sucesso. A única “esquisitice visível” na minha vida é escrever textos mais ou menos convencionais sobre literatura, música, cinema, história e outros assuntos no meu site. Mas gosto de pensar que minha literatura não tem nenhuma amarra, seja moral, religiosa ou política. Se não for assim, não tem graça. Pelo menos, não para mim. *** A ilustração que acompanha este texto foi feita pelo Gemini para o conto "Boneca". Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Interesses estranhos
Ciência, História, Religião
Interesses estranhos
21 de dezembro de 2022 at 15:02 0
Tenho interesses que eu mesmo acho estranhos. Pesquisei muita coisa sobre o Império Wari, que veio antes dos incas no Peru. Li quase tudo na internet que consegui sobre São Luís de Tolosa, um santo medieval obscuro. Tenho também particular interesse na vida de outro santo esquecido, São Lourenço de Brindisi (1559-1619). Atualmente tenho pesquisado os poucos vídeos no YouTube que consegui sobre a fauna do Período Permiano, cujos animais dominantes – quase todos destruídos no evento cataclísmico hoje chamado de A Grande Morte – eram muito mais parecidos com os mamíferos de hoje do que os dinossauros, que surgiram milhões de anos depois. Foi tema de um texto no meu “Rua Paraíba” as micronações, “países” inventados por alguns sujeitos estranhos. Já pesquisei até sobre um obscuro e excêntrico candidato a presidente nas eleições presidenciais de 1989, Antônio Pedreira, do PPB (Partido do Povo Brasileiro). Claro, tenho interesses mais “normais”, como o Império Romano, música clássica, filmes noir e os horrores do período nazista, mas não é esse o assunto aqui. Meus novos interesses esquisitos – bem, não sei se tão esquisitos assim – são o Jesus Histórico e os etruscos. Vamos lá. Como já comentei aqui, sou fascinado pela seguinte questão:
“o que será que os antigos romanos, com seus deuses imponentes e grandiosos, achavam de um pessoal - muitos compatriotas entre eles, inclusive - que achava que Deus era um pobre judeu que teve a morte mais humilhante possível, na cruz? Deviam achar estranho, no mínimo. Eu acho que também acharia.”
Para dar uma ideia da coisa, a figura que acompanha este texto, obtida aqui, é um desenho esquemático do Grafite de Alexamenos (também conhecido como grafite blasfemo) que, segundo a Wikipédia,
“é um grafite da Roma Antiga gravado em gesso sobre uma parede nas proximidades do Palatino, em Roma, hoje encontrado no Museu Antiquário do Palatino. É uma das primeiras representações gráficas da crucificação de Jesus, junto com algumas gemas encravadas. É difícil datar, mas estima-se que tenha sido feito por volta de 200. A imagem parece mostrar um jovem adorando uma figura crucificada e com cabeça de burro. A inscrição grega traduz-se aproximadamente como 'Alexamenos adora [o seu] deus', indicando que o grafite aparentemente foi feito para satirizar um cristão chamado Alexamenos.”
As pesquisas sobre o chamado Jesus Histórico tentam desvendar essas e outras questões, utilizando métodos científicos para descobrir mais sobre o fundador do cristianismo (bem, até essa denominação é discutível, mas essa é outra questão). Existem dois canais no YouTube excelentes sobre esse assunto: o de Jonathan Matthies, mais voltado à divulgação científica, e a do professor da UFRJ Andre Leonardo Chevitarese, um pesquisador de mão cheia. O primeiro livro que li sobre Jesus Histórico é de um livro que eu tinha comprado, coincidentemente, antes de acompanhar o canal do pesquisador da UFRJ: “A descoberta do Jesus histórico”, coletânea organizada pelo próprio Chevitarese e por Gabriele Cornelli (Paulus, 167 páginas, lançado em 2009). São muitos artigos interessantíssimos, e os meus preferidos versam sobre assuntos que correlacionam cristianismo e judaísmo: “Parábolas de Jesus e parábolas talmúdicas", de Edgard Leite Ferreira Neto, “O Cristianismo e os essênios. João Batista e Jesus conheceram os essênios?”, de Isidoro Mazzarolo, e “A oração de Nabônides (4Q242) e o Jesus histórico”, de André Leonardo Chevitarese. Numa live dia desses o professor da UFRJ comentou que logo lançará um livro sobre a visão de outros povos (como os romanos) sobre o cristianismo nos primeiros séculos da nossa era. Não vejo a hora de ler! Finalmente, meu último interesse estranho a ser comentado neste texto é o povo etrusco, que habitava o norte da Itália e que acabou sendo conquistado – e/ou absorvido – pelos romanos alguns poucos séculos antes de Cristo. Muito do que se sabe sobre a cultura e os costumes desse povo é de difícil comprovação, já que sua linguagem ainda não foi totalmente decifrada e que os romanos não fizeram muita questão de preservar os documentos etruscos. Já li o primeiro dos quatro livros sobre o assunto que comprei recentemente na Estante Virtual, “Os Etruscos – uma civilização reencontrada”, de Attilio Gaudio (Edições MM, tradução de Charles Marie Antoine Bouéry, 207 páginas, publicado originalmente em 1969), mas não vou comentar nada sobre ele ainda – pretendo escrever mais sobre esse povo fascinante no futuro.
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“Correntes”, de Olga Tokarczuk
Literatura
“Correntes”, de Olga Tokarczuk
12 de junho de 2022 at 19:20 0
É estranha a minha relação com a escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de 2018. O primeiro livro dela que li, “Sobre os ossos dos mortos”, sobre o qual escrevi aqui, foi crescendo em qualidade na memória: enquanto estava lendo-o ele me cansou diversas vezes, mas quando fui escrever sobre o romance não consegui encontrar nenhum defeito nele. Hoje posso dizer que foi um dos livros mais marcantes da minha vida, tão vívidas e fortes suas descrições. Já com este excelente “Correntes” (Todavia, 400 páginas, tradução de Olga Bagińska-Shinzato, publicado originalmente em 2007) a estranheza vem de outro lugar. A obra é dividida em 116 capítulos, a maior parte deles muito curtos e aparentemente autobiográficos, e sem relação com os demais. Alguns trechos me lembraram meu próprio “Memórias”, segundo livro de “Rua Paraíba”, obra mais recente que publiquei. Para dar uma ideia da coisa, vou transcrever um capítulo completo de “Correntes” aqui:
“Um sujeito na lanchonete de um certo museu me disse que nada lhe dava mais satisfação do que conviver com um original. Também insistiu que quanto mais cópias houver no mundo, maior será o poder do original — que às vezes se aproxima do poder de uma relíquia sagrada. Pois o que é singular é significativo, com a ameaça de destruição que paira sobre ele. A confirmação dessas palavras veio na forma de um grupo de turistas que celebrava com concentração devotada uma pintura de Leonardo da Vinci. Apenas ocasionalmente, quando algum deles já não aguentava mais, ouvia-se o clique de uma máquina fotográfica, que soava como um amém falado numa nova língua digital.”
Já no meu “Memórias” eu tenho um capítulo assim:
“Escrevi um conto batido a máquina. Cabia numa folha A4, no modo paisagem. Era escrito em três colunas: lendo a primeira coluna, o conto tinha um sentido. Se se juntassem as linhas da primeira e da segunda colunas, o sentido se modificava. Juntando a primeira, a segunda e a terceira colunas, outro sentido ainda aparecia. Eu não devia ter mais que onze anos, e mostrei o conto para um colega do curso de francês. Ele, então, mostrou para o pai dele, que veio com a sentença: ‘esse menino vai ser um grande escritor’. Eu ri e ele respondeu, sério: ‘meu pai nunca se engana.’”
Duas lembranças de episódios longínquos no tempo, duas opiniões originais (esquisitas?) de desconhecidos: um gosta de pessoas originais, outro achava que eu iria ser um grande escritor. Mas “Correntes” tem muito mais do que pequenas lembranças: o livro fala sobre suas obsessões por viagens e por “gabinetes de curiosidades onde se coleciona e expõe objetos raros, únicos, bizarros e disformes”, como órgãos disformes de seres humanos conservados em formol (duas obsessões que, é interessante comentar, eu não tenho). Além disso, algumas histórias – não sei se ficcionais ou não – são contadas de maneira completa, como a de uma mãe e um filho que aparentemente desaparecem numa ilha turística, e a de uma nobre no século XVIII que pede desesperadamente, por cartas, para que Francisco, o Imperador da Áustria, dê um enterro digno para o seu pai. “Correntes” é um livro fascinante, aliás muito melhor que o meu “Memórias”. (foto que acompanha o texto obtido no site da Revista Veja)
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Roberto Campos em “Energia”, terceira parte de “Rua Paraíba”
História, Literatura
Roberto Campos em “Energia”, terceira parte de “Rua Paraíba”
15 de novembro de 2020 at 19:07 0
A primeira vez que lembro de ter ouvido falar de Roberto Campos foi numa entrevista na Veja em que ele, então senador pelo Mato Grosso, vituperava contra a lei de reserva de mercado da informática. Era uma coisa estranha: uma espécie de Dom Quixote, do próprio partido do governo (de quem era a responsabilidade pela a malfadada lei), numa luta solitária e infrutífera contra tudo e contra todos: nesse ponto específico, o governo e a oposição de esquerda estavam do mesmo lado, contra Roberto Campos. Era uma lei que hoje parece uma coisa do século XV: as grandes empresas estrangeiras de informática eram proibidas de investir no Brasil – nos dias de hoje, é como se ninguém pudesse mais comprar um iPhone ou um laptop da Lenovo. É claro que estavam todos errados, e só Roberto Campos estava certo. (...) Il va sans dire que Roberto Campos tinha uma forte rejeição por parte da esquerda. O Luís Fernando Veríssimo, inclusive, criou uma piada que dizia que Delfim Netto era o Roberto Campos brasileiro – o senador mato-grossense, afinal, era chamado de Bobby Fields. Para a esquerda ele era um entreguista. Queria vender o país para os Estados Unidos a preço vil (a esquerda adora essa expressão). Era um lobista que defendia apenas os interesses estadunidenses (aqui no Brasil, quando alguém fala “estadunidense”, pode saber que é de esquerda). Durante um bom tempo, o que Roberto Campos escrevia era lei para mim. Eu ficava esperando - não lembro exatamente quantas vezes por semana - para ler suas colunas no jornal, ficava acordado esperando suas entrevistas na TV, defendia o cara contra tudo e contra todos. O ápice da minha ligação com ele foi a leitura do monumental “Lanterna na Popa”, autobiografia de mais de mil páginas. Eu reconhecia que certos comentários dele eram grosseiros, mas que vida a do Roberto Campos! Ministro da Fazenda de Castello Branco, embaixador na Inglaterra no governo Médici, senador por Mato Grosso no governo Figueiredo. Fica evidente, no livro, a frustração que ele teve ao perder o poder que teve no início do regime militar e que nunca mais iria recuperar. Ele deixava claro sua opinião segundo a qual o milagre econômico do governo Médici dependeu de maneira fundamental das reformas que ele implantara, ainda no governo Castello Branco. Para Roberto Campos, o governo Médici era excessivamente repressor contra a oposição. Para quem, como eu, cresceu num lar em que a mãe, esquerdista, tinha um peso fundamental na ideologia da casa, ser um admirador tão incondicional de um burocrata importante do governo militar não deixava de ser meio incômodo. O fato de ele efetivamente não ter participado da repressão e tê-la até criticado um pouco não deixava de ser um alívio. Pequeno, mas um alívio. De todo modo, ele estava numa fase áurea em termos de influência intelectual – até a esquerda o estava respeitando - Roberto Campos subitamente parou de escrever no jornal, por estar doente. Eu senti o baque, fiquei meio perdido, mas achava, claro, que logo ele se recuperaria e eu teria de novo meu economista de bolso para poder copiar as opiniões. Mas isso não ocorreu. Roberto Campos faleceu depois de uns dois anos doente. Nesse meio tempo era possível ler algumas notícias sobre a sua vida de recluso. Uma delas é que ele se obrigava a rezar a Ave-Maria – mesmo sem acreditar direito em Deus - em algumas línguas, para não perder a memória. Não adiantou, acabou perdendo a vida. Desculpem essa piada sem-graça: é uma homenagem às piadas sem graça de Roberto Campos. Na época em que os telefones celulares eram melhores e mais caros quanto mais pequenos, ele escreveu que eles eram uma espécie de homenagem à impotência, já que viviam dobrados e paravam de funcionar quando entravam em túneis. Chamava o whisky de néctar. Ex-seminarista, no início de seu livro de memórias ele conta a história de um colega de seminário que virou padre, mas que acabou sendo afastado. Segundo o que um colega em comum acabou contando para Roberto Campos, o padre afastado
"era comunista, e isso a gente podia aceitar; ele tinha um caso com uma mulher, e isso dava para aceitar; mas nunca acreditou em Deus, e isso não dava para aceitar".
(trecho de Energia, terceira parte do meu livro "Rua Paraíba", publicado recentemente - mais detalhes aqui; fonte da foto: Estadão)
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“Rua Paraíba”, meu novo livro
Obra Literária
“Rua Paraíba”, meu novo livro
6 de novembro de 2020 at 10:03 0
"Rua Paraíba", meu livro mais recente, é autobiográfico, fala sobre minha carreira como engenheiro (além de muitos outros assuntos), e é composto por três partes, "Rua Paraíba", "Memórias" e "Energia", escritas entre 2016 e 2019. Seguem alguns links sobre a obra:
  • Trechos e outras informações: aqui
  • Texto do Alvaro Augusto: aqui
  • e-book na Amazon: aqui
  • Entrevista com Sandro Bier, do Café do Escritor: aqui
  • Texto do Horacio Sendacz: aqui
  • Compra do livro físico: e-mail para fabriciomuller60@gmail.com
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Trecho de “Memórias”, da coletânea autobiográfica “Rua Paraíba”
Obra Literária
Trecho de “Memórias”, da coletânea autobiográfica “Rua Paraíba”
18 de outubro de 2020 at 17:59 0
ESCREVI um conto batido a máquina. Cabia numa folha A4, no modo paisagem. Era escrito em três colunas: lendo a primeira coluna, o conto tinha um sentido. Se se juntassem as linhas da primeira e da segunda colunas, o sentido se modificava. Juntando a primeira, a segunda e a terceira colunas, outro sentido ainda aparecia. Eu não devia ter mais que onze anos, e mostrei o conto para um colega do curso de francês. Ele, então, mostrou para o pai dele, que veio com a sentença: “esse menino vai ser um grande escritor”. Eu ri e ele respondeu, sério: “meu pai nunca se engana.” (fonte da imagem: Wikipédia)  
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