Fabricio Muller
18 de outubro de 2026
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Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que – pelo menos no caso de Lagerfeld – eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983. Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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