Entre o Esquecimento e o Portento
Literatura
Entre o Esquecimento e o Portento
25 de outubro de 2026 0
Tenho a impressão de que o escritor italiano Alberto Moravia (1907-1990) está meio fora de moda no Brasil. Praticamente não há edições novas por aí, tenho visto pouquíssimas citações de seu nome em resenhas. Procurando no arquivo do jornal Folha de São Paulo, por exemplo, achei um texto importante, de janeiro deste ano, sobre as crônicas de Moravia reunidas em “Américas: Relatos de Viagem” – mas nada recente sobre sua obra de ficção. Isso não era assim na minha adolescência: li “A Coisa”, que reli há pouco tempo, indicado pela Revista Veja, que falou maravilhas deste livro de contos. Mais do que isto, Alberto Moravia tinha um verbete nas páginas principais da Enciclopédia Abril, o que para mim era a maior prova de que alguém era realmente importante. Resolvi reler “A Romana” (Abril Cultural, 415 páginas, lançado originalmente em 1947, traduzido por Marina Colasanti), um romance que tinha me agradado muito na adolescência. O livro é contado em primeira pessoa por Adriana, uma garota linda e pobre que resolve ser prostituta, muito influenciada pela mãe – uma mulher amarga para quem a falta de dinheiro era a principal, senão única, preocupação de sua vida. Ela se se envolve amorosamente com um motorista de moral duvidosa, o Gino, e chama a atenção de Astarita, alto funcionário do governo que fica completamente apaixonado por ela. Dois outros homens têm importância fundamental na história, Mino, um estudante revolucionário e intelectual, e Sonzogno – mas nem vou falar muito dos dois para não dar spoiler. A história de Adriana se passa durante a década de 1930, em plena Itália fascista, e o romance está conectado com o neorrealismo italiano. Uma inconsistência fundamental de “A Romana” é que Adriana não teve nenhum estudo e escreve divinamente. Outra coisa que deve estar colaborando com a perda de importância de Alberto Moravia é que ele escreve em primeira pessoa sobre a vida pessoal e sexual de uma mulher das classes baixas da sociedade – não teria muito lugar de fala, portanto. Mas, como literatura, “A Romana” é um portento. Você consegue se sentir na Roma dos anos 1930, Adriana é extremamente bem construída, assim como os demais personagens e, como escrevi acima, Alberto Moravia escreve divinamente. Espero que ele volte a ficar na moda, ele merece! *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
História
O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
18 de outubro de 2026 0
Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que – pelo menos no caso de Lagerfeld – eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983. Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Os Testamentos renova o universo de Margaret Atwood com frescor narrativo
Séries
Os Testamentos renova o universo de Margaret Atwood com frescor narrativo
11 de outubro de 2026 0
Como se sabe, no universo de O Conto da Aia, o mundo vive uma séria crise de natalidade decorrente da poluição, doenças e desastres ambientais. Na distopia criada pela escritora canadense Margaret Atwood, a enorme dificuldade da população em ter filhos gera um pânico global. Em última análise, esse cenário abre espaço para um golpe de Estado nos Estados Unidos, cujos novos governantes rebatizam o país como Gilead. Trata-se de uma ditadura teocrática militar, de viés fundamentalista cristão, que impõe um controle rígido sobre as mulheres — proibidas inclusive de ler e estudar. Mas, se a realidade de regimes fundamentalistas costuma ser associada a terras devastadas, a fictícia Gilead é um lugar lindo e organizado, onde todos têm um papel rigorosamente definido: os já citados comandantes, suas esposas ricaças, as aias — mulheres férteis estupradas ritualisticamente para procriar —, as tias, as econopessoas, e por aí vai. A série Os Testamentos: Das Filhas de Gilead (2026), criada por Bruce Miller e baseada no livro Os Testamentos, de Margaret Atwood (sobre o qual comentei aqui), apresenta um grupo pouco explorado na obra original: as Violetas. São adolescentes ricas, filhas de comandantes, que esperam a primeira menstruação para serem arranjadas em casamento com outros oficiais (quando passam a se vestir de verde, a cor das Esposas). Como se pode imaginar, todo o contraste característico de Gilead está presente: um universo visualmente impecável — em cenários, figurinos e design de interiores —, mas brutalmente cruel, no qual pessoas são condenadas à morte e expostas enforcadas em muros públicos por transgressões morais, como sexo fora do casamento. Sério, gente: depois de penar da segunda à sexta temporada de O Conto da Aia — sendo que a primeira é uma das minhas séries preferidas, ao lado de Arquivo X — assistindo a minutos intermináveis de close-ups no rosto de Elisabeth Moss fora de Gilead, como comentei aqui, eu merecia uma produção maravilhosa como Os Testamentos. Tudo funciona: as atrizes Chase Infiniti e Lucy Halliday estão perfeitas como Agnes e Daisy (a garota vinda do Canadá tentando se infiltrar em Gilead), os figurinos e locações impressionam, e o roteiro é envolvente do início ao fim. Não vou me aprofundar nos detalhes para não estragar a surpresa. Só posso concluir dizendo que Os Testamentos é tão boa que nem as aparições pontuais de June atrapalham o ritmo. *** Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional
Literatura
O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional
4 de outubro de 2026 0
A escritora franco-cubano-americana Anaïs Nin (1903-1977) era casada com o banqueiro Hugh Guiler e acabou tendo um caso com o também escritor americano Henry Miller (1891-1980) e se apaixonou pela namorada dele, June. A história desse “quadrângulo amoroso” que ocorreu em Paris no início dos anos 1930 foi contada nos diários da escritora na época, que só foram publicados oficialmente em 1986 – com o título em português de “Henry e June: Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931-1932)” (L&PM, tradução de Rosane Pinho, 256 páginas). Os diários foram publicados com enorme sucesso, a ponto de terem tido uma versão cinematográfica famosa, lançada em 1990 e dirigida por Philip Kaufman. No livro, Anaïs Nin aborda a própria sexualidade de maneira incomum para a época, tendo um tórrido caso com Henry Miller. O marido, chamado simplesmente de “Hugo” na edição brasileira, era um banqueiro que viajava muito e que basicamente não se incomodava com os casos da esposa: a escritora e o amante chegavam a dormir a noite inteira juntos nas ausências dele. A presença de June, a namorada de Henry Miller, é extremamente impactante nos diários: Anaïs a vê logo no início, mas, mesmo com a partida de June para uma viagem, não consegue tirá-la da cabeça, dividida entre uma atração sexual poderosa e o ciúme de Henry. O dinheiro de Hugo praticamente sustentava o escritor, que sofria de uma pobreza extrema – na vida real, o compreensivo banqueiro chegou a pagar a primeira edição do primeiro livro de Henry Miller, o clássico “Trópico de Câncer”. O problema todo de “Henry e June” é que o livro não foi composto para ser publicado, e mais parece uma sessão de psicanálise do que uma obra literária: a escritora frequente e repetidamente dá opinião sobre a personalidade das outras pessoas – “ele é forte”, “ele é amoroso” – sem deixar com que o leitor chegue a conclusões por si. Mas o contraste mais chocante é quando ela transcreve cartas de Henry Miller – este sim, um grande escritor – que são literariamente espetaculares, deixando o estilo de Anaïs Nin ainda pior. Mas a leitura valeu por ser o retrato íntimo de uma época famosa – os “anos loucos” da Paris dos anos 1930 – e, no meu caso, também para me incentivar a ler Henry Miller pela primeira vez – estou lendo “Trópico de Câncer” e já estou amando. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem obtida no Claude.
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Quando 90 Minutos São Pouco: O Caso de “Antártida”
Cinema
Quando 90 Minutos São Pouco: O Caso de “Antártida”
27 de setembro de 2026 0
O recém-lançado “Antártida”, de Bruno Safadi (93 minutos, Paris Filmes/Globoplay), conta a história de um grupo de pesquisadores e oficiais da Marinha na Base Comandante Ferraz, na Antártida. No dia em que o último navio deixa o continente gelado e todos se preparam para os rigores da estação, a recém-chegada Inês (Marina Ruy Barbosa) sofre uma violência sexual após uma festa, mas não lembra quem a agrediu. A temporada fria não começa bem: além da agressão, a previsão indica um inverno muito mais severo que o normal. Para piorar, o gerador de energia apresenta falhas — obrigando todos a racionarem combustível e passarem frio —, e o comandante Barros (Antonio Calloni) revela um câncer no cérebro, ficando incapacitado de liderar a equipe. Com tudo isso, a subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) assume não só a chefia da estação, como também a investigação do crime. Todos os oito homens da equipe tornam-se suspeitos, sustentando a tensão constante do filme, marcada por acusações e agressividade. Pouco tempo atrás escrevi aqui que, se pudesse dar uma sugestão aos realizadores, diria para não fazerem filmes com mais de noventa minutos. Neste caso, tive que engolir minhas palavras. O pouco mais de uma hora e meia de “Antártida” infelizmente não consegue desenvolver a contento as tensões criadas. Como o projeto foi pensado inicialmente como série, dá para entender essa falta de aprofundamento. Apesar de tudo, “Antártida” é um filme muito bom, com uma boa história, personagens críveis e visualmente impecável. Mas o grande destaque é a atuação soberba de Andréa Beltrão como Elisabeth: ela transita entre vulnerabilidade e força quase ao mesmo tempo, num desempenho inesquecível. Não à toa, as resenhas apontam o trabalho dela como o ponto alto da produção. *** Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Entre o Mito da Internet e a Realidade das Termópilas: Uma Resenha de “The Spartans”
História
Entre o Mito da Internet e a Realidade das Termópilas: Uma Resenha de “The Spartans”
20 de setembro de 2026 0
Acho difícil para alguém fascinado por História não se fascinar também por Esparta. A cidade-estado grega, grande inimiga e, às vezes, aliada de Atenas, é famosa por sua educação extremamente rígida e por moldar seus cidadãos, basicamente, para que fossem excelentes guerreiros. O historiador Thiago Braga fez alguns vídeos em seu canal do YouTube (Brasão de Armas) avacalhando com a coragem e o caráter dos espartanos e, para tirar a cisma, resolvi procurar algum livro que descrevesse a história real da cidade. Em uma rápida pesquisa na internet, o primeiro escolhido foi “The Spartans”, de Paul Cartledge (Channel Four Books, 285 páginas, ano de publicação original: 2002). Embora apresente elementos da trajetória completa da cidade, desde as origens até o período helenístico, o livro se concentra basicamente no Período Clássico da Grécia Antiga (séculos V a.C. e IV a.C.), que representa o auge do poder militar, político e cultural de Esparta. Muito do que o historiador comenta é surpreendente para alguém, como eu, desconhecedor da história espartana. Por exemplo, as mulheres da cidade tinham muito mais liberdade — inclusive a de serem proprietárias — que as correspondentes gregas da mesma época: são muitas as críticas, vindas até de intelectuais como Aristóteles, em relação a como os espartanos obedeciam às suas esposas e mães, e como as garotas estudavam quase como os rapazes, fazendo inclusive exercícios nuas ou com pouquíssima roupa. Os espartanos também eram profundamente religiosos, deixando de guerrear se os augúrios não fossem bons. Outro detalhe que me chamou a atenção é que os guerreiros deixavam seus cabelos longos, ao contrário do costume de quase toda a Antiguidade Clássica — inclusive a romana. E, vale ressaltar, Paul Cartledge declara que, sim, os espartanos eram combatentes formidáveis e que a história dos “300” — quando três mil e trezentos soldados gregos, liderados por trezentos espartanos e pelo Rei Leônidas, sacrificaram-se heroicamente no estreito desfiladeiro das Termópilas para atrasar o massivo exército persa e inspirar a união da Grécia — aconteceu praticamente do jeito que a lenda conta. Infelizmente, “The Spartans” entra em detalhes excessivos sobre diversos personagens da história local — não à toa o título da tradução em português é “Os Espartanos” —, tornando a leitura um pouco confusa para quem ainda não está familiarizado com o tema, como eu. Apesar disso, é um livro brilhante sobre uma sociedade realmente fascinante. Imagem obtida no ChatGPT Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente por e-mail, clique aqui e cadastre seu e-mail
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O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
Cinema
O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
13 de setembro de 2026 0
Um jogo de futebol tem noventa minutos. A grande maioria dos filmes noir dos anos 1940 e 1950 – meu estilo preferido ao lado do terror – tem noventa minutos. Quase todos os filmes de Woody Allen têm noventa minutos. Alguns longas a que assisti recentemente me fizeram pensar bastante nessa duração quase mágica. Em A Cura, de Gore Verbinski (Estados Unidos, 2016), um jovem e ambicioso executivo é enviado aos Alpes Suíços para resgatar o CEO de sua empresa em um misterioso centro de bem-estar, mas logo descobre segredos perturbadores por trás dos tratamentos milagrosos do local. É um ótimo filme de terror, mas gostaria que alguém me explicasse por que ele precisa de 146 minutos. A Última Casa (Estados Unidos, 2026), suspense apocalíptico com Wagner Moura, parte da premissa de um fenômeno desconhecido que impede qualquer pessoa de sair de casa. O filme foi amplamente detonado pela crítica, mas acredito que, se tivesse meia hora a menos em relação aos seus 112 minutos, o público – eu incluído – se irritaria bem menos. Já Continente, de Davi Pretto (Brasil, 2024), é um terror nacional em que uma espécie de vampirismo zumbi assola uma pequena comunidade rural no interior do Rio Grande do Sul — o que me fez lembrar, em vários momentos, a obra-prima Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. O filme cria uma atmosfera opressiva e misteriosa excelente, mas até eu cortaria meia hora do meio, meio na machadada; certamente a narrativa ganharia muito mais força do que nos seus 115 minutos originais. Por fim, o melhor exemplar recente: Insaciável, de Natalie Erika James (Estados Unidos, 2026), no qual uma estudante de medicina recorre a um método extremo de emagrecimento e passa a ser assombrada por manifestações sobrenaturais. O filme é tão bom que quase justifica seus 112 minutos, mas, francamente, no segundo ato a trama se torna desnecessariamente repetitiva. Essa questão do tempo assombrou um dos meus diretores preferidos, Erich von Stroheim: na era do cinema mudo, ele simplesmente não conseguia filmar em noventa minutos nem cumprir prazos e orçamentos. Sua carreira brilhante foi interrompida precocemente porque ninguém mais se dispunha a financiar suas aventuras geniais. No fim das contas, é difícil não dar razão aos produtores que retalharam, para desespero do cineasta, joias como A Marcha Nupcial ou Ouro e Maldição. Não me entendam mal: existem obras monumentais com bem mais de duas horas, como Kill Bill e Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino; Stalker e Solaris, de Andrei Tarkovsky; os citados Bacurau e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman; e Os Bons Companheiros e O Irlandês, de Martin Scorsese. Mas essas são as raras exceções. Se eu pudesse dar um conselho a qualquer realizador contemporâneo, seria: se você não é um Kleber Mendonça Filho ou um Quentin Tarantino, mantenha os pés no chão e faça filmes de noventa minutos. Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O fascínio pelo mal sem motivo
Cinema
O fascínio pelo mal sem motivo
6 de setembro de 2026 0
Eu e a Valéria sempre assistimos a novelas e a séries juntos, mas filmes, raramente. Uma destas raras ocasiões deve ter sido uns quinze anos atrás: resolvemos ver um filme aleatório na TV a cabo e – coisa realmente rara, não custa reforçar – assistimos com atenção máxima do início até o fim. Era sobre um casal que está numa casa de campo quando são atacados por três mascarados. Eu não lembrava como o filme terminou, nem o seu nome, nem mais nada. Só sabia que uma atriz famosa, filha de um cantor de rock famoso, era a atriz principal. E só. E nunca mais esqueci do filme e – perguntando agora para a Valéria – acabei descobrindo que ela também nunca mais esqueceu: uma das coisas mais assustadoras a que já assistimos. Desde que o vi, acabei descobrindo o nome do filme, “Os Estranhos” (dirigido por Bryan Bertino, Estados Unidos, 85 min), mas tive que saber primeiro o nome da atriz (Liv Tyler), filha do famoso cantor do Aerosmith, Steven Tyler. Descobri também que o filme teve um impacto tão grande que acabou tendo desdobramentos, com uma sequência chamada “Os Estranhos: Caçada Noturna”, de 2018, e uma trilogia lançada entre 2024 e 2026 (“The Strangers: Chapter 1”, “The Strangers: Chapter 2” e “The Strangers: Chapter 3”). Como dá para imaginar, o projeto de rever aquele filme eu tenho desde aquela longínqua noite com minha esposa e, finalmente, o assisti de novo recentemente. “Os Estranhos” consegue ser muito melhor do que eu lembrava: os mascarados que invadem a casa são um homem e duas mulheres, e praticamente não falam nada durante o filme inteiro. O terror que eles perpetram contra o pobre casal é lento, esquisito, e vai crescendo desde que eles aparecem até o final. Não há nenhuma justificativa para suas ações, nada, o que deixa o filme mais impactante e, na minha opinião, muito melhor – aqui comento como é este terror injustificado o grande atrativo de filmes espetaculares, como “Canibais (The Farm)” e “Bacurau”. Por que será que o mal gratuito me atrai tanto no cinema? Provavelmente porque o mal, em si, não tem nada que o justifique; não adianta tentar me convencer do contrário. *** Imagem gerada pelo Claude. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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