Philip Roth

Filosofia, Literatura
Turmas
12 de janeiro de 2020 at 15:41 0
Luiz Felipe Pondé - Wikipédia

Em vídeos e crônicas, o famoso filósofo Luiz Felipe Pondé – que eu admiro muito, aliás – parece citar sempre os mesmos escritores: Fiódor Dostoiévski, William Shakespeare, Liev Tolstói, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges Bernanos e mais alguns poucos (não custa lembrar que ele está lançando um curso online sobre literatura, cujo link está aqui). Dostoiévski, então, é uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da série “Democracia na Teia”, por exemplo, há uma edição gigantesca do grande autor russo atrás de entrevistador e entrevistado – mais do que isso, ele parece sempre pronto a citá-lo a qualquer momento, com ou sem necessidade.

Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do Pondé. Do Dostoiévski, li “Crime e Castigo” quando adolescente, e “Os irmãos Karamazov”, bem mais tarde. Gostei muito, mas não me marcaram. De Tolstói li mais e gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis é um gênio, claro, mas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler “Recordações do escrivão Isaías Caminha” pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare conheço muito pouco, embora tenha lido “Júlio César” ano passado e tenha amado. Sobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu “Verão de 54”: “para ser grande literatura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues”. Bernanos eu conheci recomendado pelo próprio Pondé, gostei muito, mas achei meio confuso.

Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, também. Lembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois críticos de literatura só porque falaram mal de “2666”, de Roberto Bolaño: um deles ainda teve o desplante de escrever que outra obra do chileno, “Os detetives selvagens” – que eu achei ruim – era “mais bem acabado” (ou alguma outra expressão sem sentido) que “2666”.

De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que já citei – Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bolaño – tem ainda Patrick Modiano, Gabriel García Márquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honoré de Balzac, Junichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Clézio e mais alguns. Tem um outro autor que está na minha turma e na do Pondé, mas ele não foi citado – ainda.

Existe uma autora que acabou entrando na minha turma há uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. Em “O ano do macaco” ela conta de sua paixão avassaladora por “2666”, de Roberto Bolaño. Em “Devoção” ela fala de maneira extremamente carinhosa – como só ela consegue fazer – de Patrick Modiano e Simone Weil. Modiano e Bolaño admirados como devem ser! (A Simone Weil, cujas obras nunca li, deve ser muito boa também, haha.) Será que a turma de Patti Smith é parecida com a minha? Espero que sim.

De todo modo, por que a turma de Pondé é diferente da minha e, quem sabe, da da Patti Smith também? Porque, acredito eu, como filósofo, ele quer retirar algum ensinamento, quer “enxergar” algo por trás de uma obra literária. Dostoiévski e o problema da existência. Machado de Assis e o ciúme. Shakespeare e os sentimentos humanos. Nelson Rodrigues e a hipocrisia da classe média. Georges Bernanos e a fé. Tolstói e... sei lá o que ele quer ver em Tolstói.

Já eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra literária. Não há o que enxergar por trás de “2666”, não há nenhum ensinamento por trás desta maravilha. O livro é apenas isso – uma maravilha. [1]

Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que faz parte da minha turma e da do Pondé: o nome dele é Franz Kafka. Ele deve admirar o grande autor tcheco pela crítica à burocracia, ou pelo retrato simbólico do absurdo da existência, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka pela imaginação e pela maravilhosa técnica de contar histórias malucas como se estivesse fazendo um relatório de empresa de seguros.


[1] Algum engraçadinho pode vir me questionar dizendo que o que está por trás das obras de Balzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente o dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? Sei lá, hehe.

Leia mais +
Rápidos comentários sobre livros lidos – 8
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 8
3 de novembro de 2015 at 01:30 0
Uma pena que o primeiro livro J.M.G. Le Clézio, prêmio Nobel de Literatura de 2008, sobre o qual escrevo seja Révolutions (Gallimard). Sou um grande admirador do autor, e gostava de seus livros antes mesmo de ele ter recebido o Nobel. Suas obras frequentemente têm longos períodos em que nada parece acontecer, mas os finais são tão bonitos que fazem com que o todo faça sentido. Seus livros são plenos de bons sentimentos e poesia - mas nunca sentimentaloides ou apelativos. (mais…)
Leia mais +
Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
1 de novembro de 2015 at 01:22 0
Começamos pelo melhor: Summertime, do Prêmio Nobel de 2003 J.M. Coetzee (Viking - a edição brasileira se chama Verão, e foi publicada pela Companhia das Letras) é o terceiro volume das "memórias" do autor, e trata de vida de Coetzee na África do Sul, no início dos anos setenta. O livro composto por uma série de entrevistas, feitas por um jovem jornalista, com pessoas que conheceram Coetzee, inclusive uma brasileira pela qual Coetzee esteve apaixonado.  Uma das muitas coisas inusitadas em Summertime é que, no livro, Coetzee já está morto, o que na realidade não aconteceu - o grande escritor está vivinho da silva. Outro exemplo é que, no início dos aos setenta, o autor estava casado e com filhos, enquanto que em Summertime ele é celibatário e vive com o pai. A partir desta premissa falsa, torna-se claro que Coetzee, propositadamente, escreveu uma obra que é um híbrido de ficção e realidade - e o leitor fica sem saber onde começa uma e termina outra. Summertime mostra um Coetzee estranho, solitário e calado. Uma das mulheres entrevistadas diz que ele passa a sensação de ser "de madeira", de tão frio que é; em outro trecho é dito que ele é o tipo de pessoa que "não causa nenhuma impressão dos outros"; a brasilera, por quem Coetzee sofre uma paixão avassaladora e patética, se irrita profundamente com ele; e a única relação do autor que parece mal resolvida é com sua prima de primeiro grau, que parece ainda ter mais do que uma queda por ele. Em Summertime, os depoimentos não chegam a se contradizer, mas frequentemente temos a sensação de ver o autor muito de longe, como se fosse impossivel chegar no "Coetzee real". É esta sensação geral de mistério e esquisitice que faz com que Summertime possa ser considerada, sem exagero, uma obra-prima. (mais…)
Leia mais +
Balzac, Mann, Roth
Literatura
Balzac, Mann, Roth
13 de outubro de 2015 at 03:25 0
Foram férias boas, aquelas dos anos 80. Eu treinava natação mais ou menos até às dez da manhã e jogava futebol de salão até ao meio-dia. Depois do almoço, sentava numa cadeira de praia no meu quarto e lia até não poder mais. O meu autor preferido era o alemão Thomas Mann (1875-1955): a impressionante história de uma família burguesa (“Os Buddenbrooks”), discussões filosóficas num sanatório para tuberculosos (“A Montanha Mágica”), um compositor erudito que vende alma para o diabo para fazer obras perfeitas (“Doutor Fausto”), a impressionante história bíblica de José e seus irmãos contada em mais de mil páginas (“José e seus irmãos”), um monólogo interior de Goethe (“Carlota em Weimar”), contos espetaculares (“Mario e o mágico”). A decadência da nobreza, a ascensão da burguesia e o papel da Arte e do Artista na sociedade são seus principais temas. Li tudo dele em que consegui colocar as mãos - e não devo ter lido nada de Thomas Mann de 1990 para cá. (mais…)
Leia mais +
Rápidos comentários sobre livros lidos – 4
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 4
25 de agosto de 2015 at 13:08 0

Tenho uma razoável noção da Segunda Guerra Mundial, graças ao bom número de livros que li sobre o assunto: a guerra em si, o Holocausto, o Terceiro Reich. Por outro lado, o que eu sabia sobre a Primeira Guerra Mundial (a “Grande Guerra”) praticamente se resumia ao que se comenta sobre ela nos livros sobre a Segunda Guerra – principalmente, sobre as duras condições impostas aos derrotados alemães no Tratado de Versalhes, assinado em 1919, que foi um fator decisivo para a deflagração da guerra de 39/45. (mais…)

Leia mais +
“Complô contra a América”, de Philip Roth
Literatura
“Complô contra a América”, de Philip Roth
8 de agosto de 2015 at 06:26 0
Charles Lindberg era antissemita e um herói da aviação (foi o primeiro ser humano a atravessar num voo solitário o Oceano Atlântico, em 1927). Ele foi um dos líderes da campanha americana para que os Estados Unidos não participassem da Segunda Guerra Mundial. O que aconteceria se este sujeito fosse alçado à condição de presidente na eleição de 1940 (que, na realidade,  foi vencida por Franklin Delano Roosevelt)? É o que especula o grande Philip Roth em Complô contra a América (Companhia das Letras). A "presidência Lindberg", como era de se esperar, é bastante mais dura para com os judeus do que foi  a de Roosevelt - e os acontecimentos daqueles anos loucos anos é o tema do livro, contado em primeira pessoa por um personagem (que também se chama Philip Roth) que na época tinha cerca de oito anos. (mais…)
Leia mais +
Rápidos comentários sobre livros lidos – 2
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 2
3 de maio de 2015 at 21:20 0
Austerlitz, de W.G.Sebald (Companhia das Letras): Austerlitz é um sujeito de grande cultura geral, que fascina o personagem que é o narrador deste espetacular romance do alemão W.G.Sebald, falecido em 2001. Os encontros do narrador com Austerlitz acontecem meio aleatoriamente, em períodos muitos espaçados  e em diferentes países da Europa. Os comentários sobre arquitetura, arte e literatura de Austerlitz são profundos e interessantes. (mais…)
Leia mais +