Alcorão

Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
Literatura
Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
15 de fevereiro de 2026 at 12:01 0
Estava assistindo a uma série que se passa numa universidade americana fictícia no estado de Vermont e lembrei que um dos meus livros preferidos, “A História Secreta”, de Donna Tartt, também se passa numa universidade — também fictícia — no mesmo estado. É claro que deu vontade de reler esse livro que amo tanto. Aí, pensando na minha mania de listas, resolvi fazer mais uma de livros preferidos. É claro que nela estariam os três únicos romances que sempre tenho vontade de reler, citados aqui: “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, e o já citado “A História Secreta”. Para ser uma lista diferente das minhas outras, pensei que a Bíblia deveria ser encarada não como um livro único, mas pelo que ela é de verdade: um volume ou conjunto de volumes que contém os textos sagrados do Antigo e Novo Testamento. Assim, eu poderia incluir “O Livro de Jó”, que sem dúvida está na minha lista de favoritos, e deixar de lado livros que um cristão assumidamente tem um pouco mais de dificuldade de digerir — como o “Levítico”. Sobre este assunto, também decidi que os Evangelhos seriam tratados como um único livro, assim como as Cartas de Paulo, por serem, na minha cabeça, quase uma obra só. Pensei seriamente em colocar na lista as minhas suratas preferidas do Alcorão, como a de número 1, “Al-Fatiha”, e a 19, “Maryam”, mas o Alcorão, embora revelado em etapas em Meca e Medina, foi consolidado como um livro só, então não faz muito sentido separá-lo aqui. Fiquei na dúvida se deixaria a lista em ordem de preferência ou não — uma questão “importante” para maníacos por listas. Acabei decidindo pela ordem de preferência. Segue a lista, com pequenos comentários pessoais e links para o que já escrevi sobre o livro e/ou autor:
  • Os quatro Evangelhos: Eu provavelmente sei se um trecho foi ou não incluído em Mateus, Marcos, Lucas ou João, embora não seja daqueles que citam capítulos e versículos de cor.
  • O Livro de Jó: Por que Deus resolveu punir Jó, mesmo ele não tendo feito nada de errado, é uma questão que sempre me pergunto.
  • As Cartas de Paulo: Sete das cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, Filemom) têm autoria aceita pelo consenso histórico-crítico, e as outras são motivo de muita discussão. Mas só o fato de sabermos que, quando Paulo fala de si mesmo nessas cartas, até os estudiosos mais céticos concordam que o texto é dele, já é emocionante.
  • “As Irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki : Eu gostei muito dos livros do escritor japonês que tinha lido até então, mas este parece milagroso: um painel espetacular da vida no Japão no século XX, com seus hábitos, alimentação e tradições; uma história profundamente humana.
  • O Livro de Jeremias: A minha novela “Conversão” tem como epígrafe o trecho: “Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e para plantar”.
  • “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez: O livro começa com “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”, e aí se inicia uma história de dilúvios, mortes e borboletas que parece um sonho esquisito e maravilhoso.
  • O Livro de Jonas: “E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença. / Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis”. Jonas não era fácil. Deus pede para ir para um lado, ele vai para o outro.
  • Alcorão: A leitura do livro sagrado do Islã é fascinante para crentes e infiéis, ateus e teístas.
  • Gênesis: O livro começa bem, com a cosmogonia judaica da Criação, e continua no mesmo nível com as histórias de Abraão, Jacó e José. Maravilhoso também para crentes e infiéis.
  • Samuel 1 e 2: Nas Bíblias Hebraicas, estes livros são considerados apenas um (a divisão em dois veio depois, na tradução grega). A história de Davi tem traição, paixão, guerra, amor, fé, perdão e maldição. Acho que este livro deveria ser ainda mais conhecido do que é, de tão extraordinário.
  • 2666”, de Roberto Bolaño: Composto por cinco livros mais ou menos independentes, 2666 me fascinou tanto que eu passava semanas para começar o volume seguinte após terminar o anterior — simplesmente para estender o prazer da leitura.
  • “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust: Fiquei completamente maluco por esta obra gigante, a ponto de minha mãe — minha maior incentivadora literária — achar que eu já tinha passado dos limites.
  • “Verão”, de J.M. Coetzee: O protagonista “John Coetzee” já está morto, e um jornalista entrevista cinco pessoas que o conheceram para uma biografia. O texto menciona como os entrevistados têm opiniões pouco lisonjeiras sobre o autor (chamando-o de “mosca-morta” e “esquisito”). E tudo numa literatura sóbria e aparentemente sem humor.
  • “A História Secreta”, de Donna Tartt: O livro que causou este texto.
  • “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal: Meu nome foi inspirado no Príncipe Fabrizio di Salina, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa. Mas minha mãe atirou no que viu e acertou no que não viu: Fabrizio del Dongo, deste clássico de Stendhal, é provavelmente o meu personagem preferido de toda a literatura.
  • Poemas”, de Georg Trakl (Porto: O Oiro do Dia, 1968) : “Assim no escuro treme o forasteiro / Ao erguer manso as pálpebras sobre algo de humano / Que está longe; a voz de prata do vento no vestíbulo.”
  • Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto: O maior escritor brasileiro, sem nenhuma dúvida.
  • “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Editora Record, 2023): Se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?
  • “Narrativas do Espólio”, de Franz Kafka: A perfeição em pequenas histórias, magnificamente traduzidas por Modesto Carone.
  • Minha Luta”, de Karl Ove Knausgård: Coleção em seis volumes de autoficção; quase tão boa quanto Proust.
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Três romances para reler
Literatura
Três romances para reler
10 de setembro de 2023 at 22:19 0
É meio que um mistério isso. Só costumo reler ficção quando não lembro nada do livro – normalmente no caso de obras que li muito novo, e quando algo me diz que não custaria nada ter uma ideia do que eu tinha lido. Entre os muitos autores de livros relidos nesta categoria eu posso citar Kafka, Faulkner, Jorge Luis Borges, Machado de Assis, Lampedusa, Homero e Virginia Woolf; e normalmente a releitura é prazerosa. Outro caso são os livros de alguns autores que “deixo fazer parte do passado da minha memória”, conforme eu tinha comentado aqui, como Thomas Mann, Honoré de Balzac e Philip Roth (se bem que já mudei de ideia quanto a este último). Situação semelhante é de “Em busca do tempo perdido”, da Marcel Proust, que me deixou completamente alucinado quando o li no final dos anos 1980; cheguei a reler os dois primeiros da série, mas não me vejo mais retomando Proust no futuro. Outros casos específicos são a Bíblia e o Alcorão: estou sempre lendo um pedacinho destas obras sagradas, não é como se eu tivesse necessidade de tomar a iniciativa de relê-los. E, se eu fosse apontar hoje quais os romances que mais gostei até hoje, eu apontaria “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki, e “2666”, de Roberto Bolaño: mas me aprofundei tanto na leitura deles que não vejo muita necessidade de uma releitura. Finalmente, vamos então aos livros da minha pequena lista de três romances que, misteriosamente, sempre quero reler e que sei que ainda vou reler muitas vezes ainda (clicando no nome dos romances abaixo tem outros detalhes sobre os livros, que eu tinha comentado anteriormente neste site), começando por um que só li duas vezes: “A história secreta”, de Donna Tartt. Nunca tinha ouvido falar deste livro e um belo dia minha mãe me mostrou, dizendo que tinha comprado pouco tempo antes e que o tinha amado. Resolvi ler, e nunca esqueci a história maluca de uns estudantes universitários americanos de literatura clássica grega que bebiam sem parar. Na primeira releitura, o romance me pareceu melhor ainda. Conforme comentei aqui, é impressionante como odiei “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, na primeira leitura. Depois que descobri que muito do que ele escrevia era irônico, resolvi reler o romance e ele me pareceu melhor que nunca. Sempre lembro da cena em que o narrador – baseado no próprio Lima Barreto – descobre o preconceito, numa estação de trem, contra a pele negra dele. O melhor livro da literatura brasileira, e não admito que ninguém tenha uma opinião contrária (brincadeira, admito sim, só não concordo). Só não sei se o li três ou quatro vezes, mas isso não importa, né. Finalmente, “A Cartucha de Parma”, de Stendhal. Lembro como fosse hoje quando comprei uma linda pequena edição em francês deste clássico em papel-bíblia, num sebo. Carrego esse livro sempre comigo, e já li o romance quatro vezes no total, tanto em francês quanto em português. É engraçado que meu nome é baseado do personagem Fabrizio de Salina, de um romance de Lampedusa chamado “O Leopardo”: um bom livro, mas que nem se compara com “A Cartucha de Parma”, cujo personagem principal é outro xará meu: Fabricio del Dongo é um sujeito apaixonante e amalucado, meu personagem preferido na história da literatura. Minha mãe, mesmo por vias meio tortas, me batizou muito bem.
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Livros lidos recentemente – julho de 2023
História, Literatura, Religião
Livros lidos recentemente – julho de 2023
30 de julho de 2023 at 18:45 0
“Viver é prejudicial à saúde”, de Jamil Snege (Arte e Letra, 78 páginas, publicado originalmente em 1998): meu grande amigo Renê Bettega me recomendou este livro porque, segundo ele, o estilo é parecido com o meu. Não poderia haver um motivo maior para despertar minha curiosidade! Não sei se escrevo tão bem, mas, de fato, “Viver é prejudicial à saúde”, que conta a história em primeira pessoa de um arquiteto decadente, é delicioso e divertido! Quero ler agora outro livro do autor, “Como eu se fiz por mim mesmo” (um título que eu usaria para uma obra se eu tivesse tido a ideia, com certeza). “O território do vazio – a praia e o imaginário ocidental” de Alain Corbin (Companhia das Letras, 385 páginas, tradução de Paulo Neves, publicado originalmente em 1988): este foi o primeiro livro não profissional que comprei depois de casado, e tenho carregado a obra comigo desde então, em todas as mudanças que fiz - mas não a tinha lido até agora. O tema, a história da concepção ocidental sobre a praia desde a Antiguidade até o século XIX, é fascinante - mas “O território do vazio” é tão detalhista que acaba por ser chato. É um livro raro, vale de uns cem a trezentos reais na Estante Virtual, mas não vou me desfazer dele por motivos de: lembranças afetivas. “Tudo é rio”, de Carla Madeira (Record, 209 páginas, publicado originalmente em 2014): Lucy é uma prostituta que gosta muito da profissão, e Venâncio é o marido de Dalva, uma mulher com um comportamento mais convencional. Ele comete um crime inominável e toda a história se desenrola a partir deste fato. Erótico, forte, muito bem escrito, “Tudo é rio” merece o sucesso que faz. “O Alcorão – Livro Sagrado do Islã (Edições BestBolso, 489 páginas, tradução de Mansour Challita): como literatura, é uma perfeição. “O Hiduísmo”, de Louis Renou (Publicações Europa-América, 130 páginas, tradução de Eduardo Saló, publicado originalmente em 1951): apesar de ser de família católica, a primeira religião pela qual me interessei de verdade foi o Hinduísmo, ainda no final da infância, mas depois me afastei dele. Este “O Hinduísmo” serviu para mostrar que tenho muito o que aprender sobre o assunto ainda. “O que é fascismo? E outros ensaios”, de George Orwell (Companhia das Letras, 160 páginas, tradução de Paulo Geiger, organização e prefácio de Sérgio Augusto): autor dos clássicos “A revolução dos bichos” e “1984”, George Orwell era também um ensaísta de mão cheia – eu gostei mais do prefácio dele no livro “Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift, do que do próprio romance. Este “O que é fascismo? E outros ensaios” se concentra mais em ensaios literários (ele comenta livros de gente como T.S. Eliot, Joseph Conrad e Oscar Wilde) e é sensacional.
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“A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson
Religião
“A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson
1 de janeiro de 2021 at 15:44 0
G. Willow Wilson é uma autora de HQs, criadora da super-heroína Kamala Khan da Marvel. A americana também é ensaísta e jornalista, e seu livro autobiográfico “A leitora do Alcorão” (Rocco, 318 páginas, tradução de Antônio E. de Moura Filho, lançado originalmente em 2010) é fascinante. Estudante de história e de língua e literatura árabes na Universidade de Boston, inicialmente ela tinha a visão blasée que boa parte da intelectualidade tem em relação à experiência religiosa. Com o tempo ela passou a sentir como que um “chamado divino”, e inicialmente pensou em se converter ao judaísmo, porque admirava “a ideia do Deus indivisível que é um e todo ao mesmo tempo”. Mais tarde, já vivendo no Cairo, aonde fora trabalhar como professora de inglês,  acabou se convertendo (ou se “revertendo”, pela terminologia muçulmana) ao Islã, religião pela qual ela já se sentia atraída um bom tempo antes. Também no Cairo ela se casa com Omar, um professor de física que era seu “guia cultural” local. Tudo é fascinante no livro de G. Willow Wilson: a descrição dos contrastes entre as culturas e hábitos ocidentais e egípcios, o relato do aprofundamento de sua relação com Islã - e com Deus, por consequência -, a coragem da autora em enfrentar todos os problemas causados por suas decisões. Segundo a Wikipédia, ela continua casada com o Omar – hoje um advogado especializado em refugiados – e, pela foto que acompanha este texto, obtida da mesma fonte, ela parece muito feliz como muçulmana, não acham?
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Alcorão
Literatura, Religião
Alcorão
22 de setembro de 2015 at 03:27 0
Não lembro o personagem e nem em qual livro de J. M. G. Le Clézio essa história apareceu. Mas era uma das muitas andarilhas/fugitivas dos livros dele, que acabou se hospedando na casa de um rapaz muçulmano. Ele não era religioso nem nada: tinha uma vida, digamos, "alternativa". Mesmo assim ele dizia que não havia livro árabe como com a qualidade do Alcorão Sagrado - que, como todos sabem, é o livro revelado por Deus ao Profeta Muhammad (segundo a crença muçulmana). Indo no mesmo caminho, o Alcorão Sagrado é publicado pela Penguin Classics, a mais importante editora de livros clássicos do mundo. A Introdução da edição da Penguin começa assim: "O Alcorão é a primeira e a melhor obra de prosa clássica árabe". (mais…)
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