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O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
Literatura
O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
5 de maio de 2026 at 16:13 0
Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que não tinha a menor condição de entender – os três principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, já reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles até o final da minha vida. Não importa muito, na verdade. O engraçado nesta história é que eu tinha certeza de que tinha amado, mas não lembrava de quase nada de Passeio ao Farol, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 páginas, traduzido por Lya Luft, ano de publicação original: 1927). Eu sei lá, eu achava que era um romance melancólico e bonito sobre um relacionamento amoroso próximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra. Mas não era bem assim: o livro conta a história do casal Ramsay — um filósofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa belíssima —, que passa o verão em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Escócia. Com eles, estão seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como satélites: um estudante acadêmico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matemático, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado é um dos fios condutores da primeira parte. No mínimo, é um livro de difícil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens são descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem está pensando sobre o quê e quem. A passagem do tempo é contada de maneira genial: o livro é dividido em três partes, sendo que a primeira e a última focam em dias específicos, separadas por um intervalo de dez anos que é narrado de forma acelerada e poética na parte central. O tom geral é muito melancólico e os personagens normalmente têm frustrações enormes e reprimidas – nada a ver com a lembrança que eu tinha, de uma história romântica e de beleza natural. Mas Passeio ao Farol é uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos são os detalhes que eu gostaria de rever por outro ângulo. Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que também brincam com a linguagem e a técnica literária, mas que eu nunca havia lido antes: a edição em espanhol Boquitas pintadas, de Manuel Puig (Booket, 224 páginas, ano de publicação original: 1969) e As meninas, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 páginas, ano de publicação original: 1973). Se “Passeio ao Farol” se concentra em análises de personagens cultos e reprimidos, “Boquitas pintadas” é um melodrama rasgado, contando a história do galã da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem belíssimo, mas tuberculoso. Um bom número de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante é o de uma empregada doméstica, “La Raba”, que se apaixona por um operário da construção que se torna policial, Pancho (amigo do galã supracitado). Cada capítulo é uma “entrega”, uma espécie de baú com diferentes documentos cada um: cartas, relatórios de polícia, diálogos, fofocas. A leitura de “Boquitas Pintadas” é frequentemente difícil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem “apresentados”, e pelos muitos diálogos cujos participantes nem sempre são nomeados de imediato. Mas é uma leitura divertida e autoirônica. Finalmente, “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, narra a história de três estudantes universitárias que vivem em um pensionato em São Paulo. Lorena é rica, apaixonada por um homem casado e costuma apoiar as amigas, especialmente Lia, uma jovem de origem humilde e militante da luta armada. Já Ana Clara é uma jovem belíssima, que enfrenta crises existenciais e problemas com drogas. Recomendo a todos que pretendem ler “As Meninas” que se informem sobre essas três personagens antes de começar! O romance é construído em primeira e terceira pessoas, e as transições entre os fluxos de pensamento de cada uma nunca são explícitas — é pelo estilo e pelo tipo de ideia que descobrimos quem está com a voz. Mas não se preocupem: depois de pegar o jeito, a leitura de “As Meninas” flui maravilhosamente.   Imagem obtida no Gemini Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
Literatura
Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
15 de fevereiro de 2026 at 12:01 0
Estava assistindo a uma série que se passa numa universidade americana fictícia no estado de Vermont e lembrei que um dos meus livros preferidos, “A História Secreta”, de Donna Tartt, também se passa numa universidade — também fictícia — no mesmo estado. É claro que deu vontade de reler esse livro que amo tanto. Aí, pensando na minha mania de listas, resolvi fazer mais uma de livros preferidos. É claro que nela estariam os três únicos romances que sempre tenho vontade de reler, citados aqui: “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, e o já citado “A História Secreta”. Para ser uma lista diferente das minhas outras, pensei que a Bíblia deveria ser encarada não como um livro único, mas pelo que ela é de verdade: um volume ou conjunto de volumes que contém os textos sagrados do Antigo e Novo Testamento. Assim, eu poderia incluir “O Livro de Jó”, que sem dúvida está na minha lista de favoritos, e deixar de lado livros que um cristão assumidamente tem um pouco mais de dificuldade de digerir — como o “Levítico”. Sobre este assunto, também decidi que os Evangelhos seriam tratados como um único livro, assim como as Cartas de Paulo, por serem, na minha cabeça, quase uma obra só. Pensei seriamente em colocar na lista as minhas suratas preferidas do Alcorão, como a de número 1, “Al-Fatiha”, e a 19, “Maryam”, mas o Alcorão, embora revelado em etapas em Meca e Medina, foi consolidado como um livro só, então não faz muito sentido separá-lo aqui. Fiquei na dúvida se deixaria a lista em ordem de preferência ou não — uma questão “importante” para maníacos por listas. Acabei decidindo pela ordem de preferência. Segue a lista, com pequenos comentários pessoais e links para o que já escrevi sobre o livro e/ou autor:
  • Os quatro Evangelhos: Eu provavelmente sei se um trecho foi ou não incluído em Mateus, Marcos, Lucas ou João, embora não seja daqueles que citam capítulos e versículos de cor.
  • O Livro de Jó: Por que Deus resolveu punir Jó, mesmo ele não tendo feito nada de errado, é uma questão que sempre me pergunto.
  • As Cartas de Paulo: Sete das cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, Filemom) têm autoria aceita pelo consenso histórico-crítico, e as outras são motivo de muita discussão. Mas só o fato de sabermos que, quando Paulo fala de si mesmo nessas cartas, até os estudiosos mais céticos concordam que o texto é dele, já é emocionante.
  • “As Irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki : Eu gostei muito dos livros do escritor japonês que tinha lido até então, mas este parece milagroso: um painel espetacular da vida no Japão no século XX, com seus hábitos, alimentação e tradições; uma história profundamente humana.
  • O Livro de Jeremias: A minha novela “Conversão” tem como epígrafe o trecho: “Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e para plantar”.
  • “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez: O livro começa com “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”, e aí se inicia uma história de dilúvios, mortes e borboletas que parece um sonho esquisito e maravilhoso.
  • O Livro de Jonas: “E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença. / Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis”. Jonas não era fácil. Deus pede para ir para um lado, ele vai para o outro.
  • Alcorão: A leitura do livro sagrado do Islã é fascinante para crentes e infiéis, ateus e teístas.
  • Gênesis: O livro começa bem, com a cosmogonia judaica da Criação, e continua no mesmo nível com as histórias de Abraão, Jacó e José. Maravilhoso também para crentes e infiéis.
  • Samuel 1 e 2: Nas Bíblias Hebraicas, estes livros são considerados apenas um (a divisão em dois veio depois, na tradução grega). A história de Davi tem traição, paixão, guerra, amor, fé, perdão e maldição. Acho que este livro deveria ser ainda mais conhecido do que é, de tão extraordinário.
  • 2666”, de Roberto Bolaño: Composto por cinco livros mais ou menos independentes, 2666 me fascinou tanto que eu passava semanas para começar o volume seguinte após terminar o anterior — simplesmente para estender o prazer da leitura.
  • “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust: Fiquei completamente maluco por esta obra gigante, a ponto de minha mãe — minha maior incentivadora literária — achar que eu já tinha passado dos limites.
  • “Verão”, de J.M. Coetzee: O protagonista “John Coetzee” já está morto, e um jornalista entrevista cinco pessoas que o conheceram para uma biografia. O texto menciona como os entrevistados têm opiniões pouco lisonjeiras sobre o autor (chamando-o de “mosca-morta” e “esquisito”). E tudo numa literatura sóbria e aparentemente sem humor.
  • “A História Secreta”, de Donna Tartt: O livro que causou este texto.
  • “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal: Meu nome foi inspirado no Príncipe Fabrizio di Salina, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa. Mas minha mãe atirou no que viu e acertou no que não viu: Fabrizio del Dongo, deste clássico de Stendhal, é provavelmente o meu personagem preferido de toda a literatura.
  • Poemas”, de Georg Trakl (Porto: O Oiro do Dia, 1968) : “Assim no escuro treme o forasteiro / Ao erguer manso as pálpebras sobre algo de humano / Que está longe; a voz de prata do vento no vestíbulo.”
  • Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto: O maior escritor brasileiro, sem nenhuma dúvida.
  • “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Editora Record, 2023): Se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?
  • “Narrativas do Espólio”, de Franz Kafka: A perfeição em pequenas histórias, magnificamente traduzidas por Modesto Carone.
  • Minha Luta”, de Karl Ove Knausgård: Coleção em seis volumes de autoficção; quase tão boa quanto Proust.
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