"Naquele ano, disputou-se o melhor Campeonato Paranaense de todos os tempos, em pontos corridos e com todos os times muito bem-preparados. O gol do título coxa-branca, marcado por Paulo Vecchio em fria noite na Vila Capanema, entrou para a história pela emoção da histórica conquista no último minuto do clássico."Se Carneiro Neto não chega a assegurar que aquele foi o maior Atletiba de todos, poucas dúvidas há – até hoje – de que aquele foi o melhor Campeonato Paranaense da História. O campeonato começou turbulento: o Atlético, que tinha ficado em último lugar no ano anterior, simplesmente se recusava a ser rebaixado – a lei do acesso e descenso começara a vigorar pouco tempo antes. Começou uma luta de bastidores entre o então presidente atleticano, Jofre Cabral, e o presidente da Federação Paranaense de Futebol, José Milani. Como forma de fazer pressão, o presidente rubro-negro contratou grandes jogadores: Bellini (ex-campeão mundial de futebol), Dorval (ex-companheiro do Santos de Pelé), o goleiro Muca e os grandes jogadores Zé Roberto e Nilson Borges. Tanto se fez que se conseguiu que tanto Atlético quanto Paranavaí – primeiro colocado da divisão de acesso, na época chamada Primeira Divisão (enquanto os principais clubes formavam a Divisão Especial) – tivessem vaga garantida no Campeonato Paranaense de 1968. (Além disso, mais um outro clube foi convidado: o vencedor de um torneio entre os participantes da divisão de acesso.) Toda essa movimentação fez com que o campeonato pegasse fogo. Segundo as palavras do Professor Francisco Genaro Cardoso, em seu "História do Futebol Paranaense" (Federação Paranaense de Futebol. Curitiba, 1978):
"Nunca se viu tantas casas em Curitiba ostentando bandeiras e faixas de clubes de futebol, com predominância de atleticanas e coritibanas. (...) Nunca se viu tanto ardor, tanto fanatismo por parte dos torcedores de ambas as agremiações. Nos cinco jogos em que os rivais fizeram durante o ano, as rendas foram recordes. A nota triste do campeonato foi a morte do presidente atleticano, Jofre Cabral, em 2 de junho daquele mesmo ano. “Voltando ao futebol: na última rodada do campeonato, o Coritiba precisava de um ponto contra o Ferroviário para levar a final para uma série de três partidas com o Atlético – e este ponto só foi conseguido nos momentos finais de um emocionante jogo num Alto da Glória superlotado: 2 a 2.”Conforme contam Vinícius Coelho e Carneiro Neto em seu "O Campeoníssimo" (Coração Brasil Editora. Curitiba, 2003):
"Como havia perdido em casa para o Furacão, 15 dias antes, em disputa pela vaga do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (...), o Coritiba sabia das dificuldades que teria na decisão do campeonato. No primeiro jogo, 2 a 1 para o Coritiba no então estádio Belfort Duarte – atual Couto Pereira. Ao Coritiba bastava o empate no jogo seguinte, no Estádio Durival de Britto, na quarta-feira, evitando assim o terceiro jogo. Acho que será mais interessante para o leitor se forem simplesmente reproduzidas as palavras de Francisco Genaro Cardoso sobre aquele que, possivelmente, tenha sido o maior atletiba da História: "Constituiu-se no mais espetacular 'Cotejo da Rivalidade' dos últimos 20 anos. Durante 90 minutos, o Atlético vencia por 1 a 0. Estava-se nos descontos. O 'povão' rubro-negro já começava a comemorar a vitória e renasciam as esperanças de que em nova peleja, seria campeão. Que barulho sua torcida fazia. Já decorriam 30 segundos além do tempo regulamentar. Falta na intermediária rubro-negra. Pelo lado esquerdo. Cobrança pelo lateral esquerdo do Coritiba: Nilo. Nove jogadores coritibanos na área rubro-negra contra onze. Arnaldo César Coelho, carioca, o árbitro. Mais de 25.000 espectadores em suspense. Jogo noturno. Silêncio absoluto no Estádio. Era a derradeira oportunidade do Coritiba empatar. Cigarros não fumados. Mascados. Dentes cerrando dentes. Dentes comendo unhas. Torcidas estáticas. Um minuto além do tempo. No gramado, um empurra-empurra entre jogadores dentro da área penal, com que os atleticanos esperavam retardar a cobrança e ouvir o apito final. Arnaldo César Coelho, com muito custo, colocava a casa em ordem. Adverte, ameaça. Procura ângulo melhor para controlar a área. Vem o apito para a cobrança de falta. Nilo levanta a pelota para a frente do arco. Gil, o goleiro, salta. Saltam vários jogadores. Um bouquet humano, branco, verde, vermelho e preto. O mais feliz foi o comprido meia-cancha coritibano, Paulo Vecchio. Era o gol de empate e o título de 1968."(Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
Falando agora do principal objetivo deste texto: no dia 16 de março de 2021 fui diagnosticado com Covid-19. Além de dar graças a Deus por nem eu nem minha família termos tido casos graves da doença, tive como principal sintoma um cansaço profundo e duradouro. Olhando meu gráfico de rating de xadrez a partir desta data, notei um persistente declínio, conforme mostra a figura que acompanha este texto, que apresenta o meu desempenho no Chess.com nos últimos 90 dias. O gráfico é, de certa forma, impressionante: se no dia do meu diagnóstico eu estava com um rating de 1042, pouco mais de um mês depois, em 27 de abril, eu tinha caído para 902. Só fui passar de 1000 no dia 22 de maio, mais de dois meses depois do meu diagnóstico, e desde então não baixei mais deste limiar, chegando no valor de 1096 no dia de hoje.
É claro, repito, que só tenho de agradecer a Deus por ter sido só isso, mas achei interessante compartilhar esta minha experiência específica com esta doença terrível.
Mais importante que isso ainda, acho, é o abraço que o técnico do River Plate, Marcelo Gallardo, dá no grande campeão numa partida em 2019, quando o Millonario jogou com o Gimnasia, time que Maradona treinava na ocasião - veja o video, numa reportagem ainda com mais algumas informações, aqui.
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Finalmente, quem foi melhor, Pelé ou Maradona? Eu acho que esse é um assunto inútil e divertido.
Mas se fosse para eu responder, eu faria uma relação com o xadrez: normalmente os analistas deste esporte dizem que os jogadores de hoje em dia ganhariam dos melhores do passado, se estes pudessem ser teletransportados para o dia de hoje, simplesmente porque aprenderam com quem veio antes. Então, não tem como fazer uma comparação justa.
Do mesmo modo, para mim, no futebol comparações entre jogadores de épocas diferentes são injustas por natureza.
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Descanse em paz, Maradona.

O jogo é na Islândia, no Reykjavík Rapid de 2004. As partidas já começaram, os jogadores já estão cada um de um lado de suas mesas, mas um enxadrista ainda não chegou. Seu adversário está lá, andando de um lado para outro, com a expressão perdida. Ele toma um refrigerante, o que combina com sua própria idade: o jogador que já chegou tem apenas treze anos, mas sua aparência é de ainda menos idade: é um pré-adolescente, quase criança. Mais tarde o garoto diria que não queria ganhar o jogo pela ausência de seu adversário, já que ele queria mesmo jogar aquela partida.
O adversário finalmente chega na sala, esbaforido. Ele se senta de seu lado da mesa, cumprimenta a criança, que está jogando com as brancas e faz o primeiro lance. O adversário – um senhor de quarenta anos, com cabelos muito curtos e já grisalhos – põe as mãos na cabeça, parece preocupado, pensa um pouco e logo faz seu primeiro lance.
O jogo termina empatado: o garoto, que estava melhor na partida mas que teve problemas com o tempo, acabou fazendo um lance ruim no final do jogo, que permitiu que o senhor mais velho acabasse conseguindo um empate.
Os melhores momentos deste jogo são apresentados num vídeo com mais de cinco milhões de visualizações, apresentado no YouTube neste link, e a partida é dissecada com a habitual competência por Rafael Leite no seu Xadrez Brasil, neste link. O garoto do vídeo se chama Magnus Carlsen, o jogador que alcançaria o maior rating ELO[1] da história (2882, em 2014) e é campeão mundial desde 2013. Já o senhor se chama Garry Kasparov, russo campeão mundial[2] entre 1985 e 2000, considerado por muitos o melhor jogador de xadrez de todos os tempos.
Em 2004, quando ocorreu o jogo descrito acima, Kasparov nunca tinha disputado uma partida contra um adversário tão jovem. Suas expressões de espanto, em muitos momentos da partida, são muito engraçadas: o gênio russo não parecia se conformar em estar sofrendo contra um garotinho aparentemente tão inofensivo.
Mas o que é maravilhoso mesmo no vídeo é que ele pode ser
considerado o momento simbólico do final de uma era – a do domínio de Kasparov –
e o início de outra, a de Magnus Carlsen, atual campeão mundial.
[1] O rating Elo é um método estatístico utilizado para se calcular a força relativa entre jogadores de xadrez, inventado pelo físico americano Arpad Elo.
[2] A história dos campeonatos mundiais de Kasparov é meio complicada, já que ele brigou com a FIDE em 1993.

Paulinho era um surfista extraordinário. Suas rasgadas, seus floaters, seu flow, sua direita absolutamente fantástica assustavam os adversários. Não era o melhor tube rider que o mundo já tinha visto, mas estava entre os melhores. Já no primeiro campeonato do CT, da WSL, ficou em segundo lugar, perdendo apenas em Pipeline, e na final, para o eterno campeão Kelly Slater. Já no ano seguinte não teve para ninguém, e ele já era matematicamente campeão já na etapa de Peniche, em Portugal. Paulinho, então com apenas 17 anos, seria o novo Kelly Slater? Ultrapassaria a quantidade de onze campeonatos mundiais do maior surfista de todos os tempos? Eram esses os maiores questionamentos da imprensa especializada a respeito de Paulinho, depois de seu primeiro – que seria o último – campeonato mundial pela WSL.
Sim, último. Logo no ano seguinte à sua vitória no CT, um novo surfista chegou para assombrar o mundo do esporte: Gabriel Medina – brasileiro como Paulinho e que, assim como ele, foi matematicamente campeão da WSL já na etapa portuguesa. No ano seguinte o havaiano John John Florence ganhou o “caneco” mundial, e meio que foi se revezando com o brasileiro Medina em vitórias nos campeonatos da WSL nas duas décadas e meia seguintes – as quais ainda contaram com vitórias solitárias do sul-africano Jordy Smith e do brasileiro Ítalo Ferreira.
E o Paulinho? Continuou disputando o CT sempre com bravura, mas nunca mais passou do quinto lugar. A princípio, poderia parecer que a reversão completa das expectativas em relação àquela promessa do surf mundial foi devida a algum motivo psicológico, ou mesmo físico – mas não: Paulinho continuou surfando como sempre surfara, mas não conseguiu, jamais, fazer as manobras inovadoras e progressivas que eram a característica principal da nova geração (Medina, John John, Filipe Toledo, Ítalo Ferreira, Jordy Smith, e por aí vai), a qual Paulinho pertencia apenas em termos cronológicos: seu surf era ultrapassado desde o início – o que ninguém, por incrível que pareça, tinha percebido a tempo.
E não que ele não tentasse dar os aéreos que deliciavam os amantes do esporte, e que tanto deviam à influência do skate – John John Florence, é sempre bom lembrar, era um excelente skatista. Mas Paulinho não conseguiu, nunca, acertar um aéreo que fosse.
Cinco anos depois que Paulinho tinha vencido seu único campeonato da WSL (anos nos quais ele treinou sem sucesso fazer manobras inovadoras e progressivas), ele teve uma espécie de luz: percebeu que jamais seria um John John Florence, que jamais seria um surfista realmente grande – ao contrário da expectativa geral anterior, inclusive dele.
No dia em que ele finalmente teve consciência disso, chamou seu grande amigo Gabriel Medina no canto e desabafou: “irmão, nunca mais vou ser campeão mundial, nunca vou conseguir dar uma manobra inovadora”. O então campeão mundial olhou bem nos olhos de Paulinho e respondeu: “Jesus tem um propósito maior pra você, bro, não se preocupe com isso”.
Paulinho, que nunca acreditara em Deus, hoje frequenta cultos evangélicos – quase sempre ao lado de seu amigo Medina – em Boiçucanga, na Igreja Bola de Neve.
(O texto acima, uma ficção com personagens reais, é uma resposta ao seguinte desafio literário proposto por Robertson Frizero: "escreva, em 500 palavras, um conto cujo tema seja a mediocridade. O protagonista deve ser um artista - não importa qual a sua expressão artística - e a cena mostrada deve retratar o momento em que a personagem dá-se conta do quanto está iludida quanto ao seu 'talento'. O que a personagem fará depois dessa constatação deve ser o desfecho do conto.")
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