Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.
Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.
Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
“Marianne” (2019) é uma série francesa de terror da Netflix com oito episódios de cerca de cinquenta minutos cada um. Ela conta a história de Emma, uma escritora de romances de terror que acaba percebendo, para seu desgosto, que os personagens de seus livros tinham correspondentes na vida real. A série é assustadora, tem belas paisagens e ótimas atuações, principalmente de Victoire Du Bois, a atriz principal. Não se impressione pelo fato de a Netflix ter cancelado a série depois da primeira temporada: Stephen King é fã, e isso diz tudo.
Belíssimas paisagens também são um destaque de “Labirinto verde” (“Zone Blanche”), série franco-belga da TV France 2, distribuída por aqui pela Netflix, com duas temporadas com oito episódios de cerca de 50 minutos cada uma – está prevista uma continuação para este ano. A série conta a história de uma pequena cidade ficcional na França, Villefrance, que tem uma quantidade de crimes muito superior à da média nacional. Para tentar resolvê-los, a capitã Laurène Weiss (Suliane Brahim, ótima) conta com poucos ajudantes. “Labirinto verde”, cuja primeira temporada foi lançada em 2017, é uma série muito bem conduzida e com alguns toques fantásticos.
“Downton Abbey” é uma série inglesa de grande sucesso lançada entre 2010 e 2015, com seis temporadas de mais ou menos oito episódios com cerca de uma hora cada um. Ela foi produzida pelo canal ITV e atualmente é transmitida aqui no Brasil pela Amazon Prime. A série conta a história dos Crawley, família nobre inglesa fictícia, entre 1912 e 1925. “Downton Abbey” aborda temas históricos – a decadência da nobreza inglesa, o naufrágio do Titanic, o início da mudança nos rígidos costumes da época, a Primeira Guerra – com brilhantismo, e tem um grande número de personagens (tanto nobres e como seus criados) muito bem construídos e interpretados. A série mereceu todo o sucesso que fez – está previsto, aliás, um filme sobre ela.
Comentei anteriormente sobre o romance “O homem do castelo alto”, de Philip K. Dick; a série baseada nele, da Amazon Prime, foi lançada por aqui com o nome original, “The man in the high castle”. Ela tem quatro temporadas, lançadas entre 2015 e 2019, cada uma com dez episódios de cerca de uma hora. A história conta sobre um mundo paralelo em que alemães e japoneses ganharam a Segunda Guerra Mundial e dividiram os Estados Unidos em duas partes – o leste alemão e o oeste japonês. É interessante notar, entre outras coisas, a coerência da série tendo em vista a ideologia dos vencedores: os americanos, vistos como arianos pelos alemães, não sofrem preconceito e chegam a altos postos na administração nazista, mas são considerados inferiores pelos japoneses. “The man in the high castle”, que não terá mais continuação, é uma ótima série distópica, mas menos assustadora do que “The handmaid’s tale”, por exemplo: afinal de contas, sabemos que os nazistas e japoneses já perderam a guerra, mas não temos certeza de que loucuras como as de Gilead jamais acontecerão.