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O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
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O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
5 de maio de 2026 at 16:29 0

Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.

Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.

A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.

Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
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De Bridgerton a A Idade Dourada: como o sistema de sinais (+ e -) torna a crítica de séries mais humana
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De Bridgerton a A Idade Dourada: como o sistema de sinais (+ e -) torna a crítica de séries mais humana
17 de abril de 2026 at 12:01 0
Criei um Gem no Gemini para organizar fichas técnicas de séries, com informações detalhadas sobre direção, lançamento e formato. Nas sugestões abaixo, as fichas foram geradas pela IA, enquanto os comentários e as notas refletem a minha opinião pessoal. A ideia é compartilhar algumas dicas das séries que tenho assistido. Já tinha feito a mesma coisa aqui. Agora só mudei um detalhe: estou usando notas no esquema 1-, 1, 1+, 2-, 2, 2+, 3- e assim por diante. Segundo o Gemini: “Muitos educadores defendem que o sistema de sinais é mais humano e pedagógico:
  • Um 10- diz ao aluno: ‘Seu trabalho foi perfeito, mas houve um erro de descuido’.
  • Um 9,7 parece apenas um cálculo matemático frio. O sinal de minus (-) em uma nota alta como o 10- serve especificamente para 'puxar a orelha' de um aluno excelente, indicando que ele atingiu a nota máxima, mas não de forma impecável.”
Não sabia anteriormente desta interpretação, mas realmente para mim 10- é bem mais legal que 9,7. Mais um detalhe: nota 10, para mim, é só para Arquivo X, sobre quem comentei no meu livro “Rua Paraíba”, e para a primeira temporada de Handmaid’s Tale (obrigado, Alvaro Augusto de Almeida, pela pergunta que você me fez um tempo atrás). Pode ser que eu venha a gostar tanto de uma série quanto uma dessas duas, mas por enquanto a minha maior nota é 10- mesmo. Vamos aos textos sobre as séries: Bridgerton (2020), Bridgerton, Chris Van Dusen (Criador/Showrunner), Nicola Coughlan, Luke Newton, Julie Andrews, Adjoa Andoh, Golda Rosheuvel, EUA. 3 temporadas (8 episódios por temporada), 60 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Baseada na série de livros de Julia Quinn, a trama acompanha o competitivo mundo da alta sociedade londrina durante o período da Regência, focando nos dramas românticos dos oito irmãos da família Bridgerton. A série é amplamente elogiada por sua abordagem moderna de dramas de época, trilha sonora com covers pop e elenco diversificado. A primeira temporada foi um fenômeno global; a segunda manteve o sucesso com o romance "enemies to lovers"; e a terceira temporada consolidou a popularidade da franquia ao focar na história de Colin e Penelope.
  • Comentário: A série apresenta muitos personagens negros na alta nobreza na Inglaterra do séc. XIX, o que obviamente não corresponde à realidade. Mas não teria sido bem melhor se essa praga do racismo já tivesse acabado naquela época? Enfim, a história da família Bridgerton é linda – todas as famílias deveriam ser assim como esta, com muito amor e companheirismo. Seria bem melhor assim também, não é?
  • Nota: 9-
  A Idade Dourada (2022), The Gilded Age, Michael Engler e Salli Richardson-Whitfield (Diretores), Carrie Coon, Morgan Spector, Christine Baranski, Cynthia Nixon, EUA. 2 temporadas, 8 episódios, 60 minutos. Max (HBO).
  • Resumo e recepção: Ambientada na Nova York de 1880, a série explora o conflito social entre o "dinheiro antigo" das famílias tradicionais e o "dinheiro novo" dos magnatas das ferrovias em ascensão. A recepção crítica foi amplamente favorável, destacando o figurino impecável, a cenografia luxuosa e as atuações de peso, especialmente de Christine Baranski e Carrie Coon. A segunda temporada foi considerada ainda melhor por aprofundar as tensões políticas e sindicais da época.
  • Comentário: Enquanto assistia a esta série, ficava o tempo todo me perguntando como tudo podia ser tão perfeito: personagens, histórias, figurino, atores. Extraordinária é pouco.
  • Nota: 10- (olha aí)
  Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton (2023), Queen Charlotte: A Bridgerton Story, Tom Verica (Diretor), India Amarteifio, Corey Mylchreest, Arsema Thomas, Golda Rosheuvel, EUA. 1 temporada, 6 episódios, 60 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Esta prequela foca na ascensão da jovem Rainha Charlotte ao poder e seu casamento com o Rei George III. A recepção crítica foi extremamente positiva, com muitos considerando-a superior à série principal devido ao seu roteiro mais maduro, focado em temas como saúde mental e o peso do dever. As atuações de Amarteifio e Mylchreest foram muito elogiadas pela química e profundidade emocional.
  • Comentário: Rainha Charlotte tem muitas personagens de Bridgerton e conta histórias que, basicamente, não são citadas na série-mãe. E a qualidade é a mesma.
  • Nota: 8+
  Adolescência (2025), Adolescence, Philip Barantini (Diretor), Stephen Graham, Owen Cooper, Ashley Walters, Erin Doherty, Reino Unido. 1 temporada (minissérie), 4 episódios, 35-45 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Criada por Stephen Graham e Jack Thorne, a série narra a angústia da família Miller após Jamie, um garoto de 13 anos, ser preso pelo assassinato de uma colega de escola. A produção é considerada uma obra-prima técnica por ter sido inteiramente filmada em planos-sequência (sem cortes), o que intensifica o realismo e a tensão emocional. Foi elogiada por sua abordagem crua sobre saúde mental e violência juvenil.
  • Comentário: Já assisti há algum tempo a esta série e, na época, a achei meio exagerada. Depois do caso Orelha e do zoossadismo no Discord, já não sei mais. Tecnicamente, é um deslumbre (os episódios não têm cortes).
  • Nota: 9+
  O Testamento: O Segredo de Anita Harley (2025), O Testamento: O Segredo de Anita Harley, Pedro Bial (Diretor/Criador), Brasil. 1 temporada, 4 episódios, 45 minutos. Globoplay.
  • Resumo e recepção: A série documental investiga a complexa disputa judicial e familiar em torno da fortuna de Anita Harley, ex-controladora do grupo Pernambucanas. A produção explora as revelações sobre seu testamento biológico, a existência de um suposto filho e os bastidores de uma das maiores brigas sucessórias do Brasil. Foi elogiada pela profundidade da investigação e pela ética ao abordar temas como direitos individuais e herança.
  • Comentário: Ótima série documental, um caso importante e bizarro.
  • Nota: 8+
  A Vida Sexual das Universitárias (2021), The Sex Lives of College Girls, Mindy Kaling e Justin Noble (Criadores), Pauline Chalamet, Amrit Kaur, Reneé Rapp, Alyah Chanelle Scott, EUA. 3 temporadas, 10 episódios, 30 minutos. Max (HBO).
    • Resumo e recepção: A série acompanha quatro colegas de quarto no prestigiado Essex College, em Massachusetts, enquanto navegam pelas novas liberdades e desafios acadêmicos. A recepção crítica foi extremamente positiva, sendo elogiada por seu roteiro ágil e pela química autêntica entre as protagonistas. É considerada uma das produções mais autênticas sobre a experiência universitária feminina contemporânea.
    • Comentário: Com um clima de Sessão da Tarde picante, a série conta a amizade entre quatro universitárias sexualmente ativas. É interessante notar que um dos meus livros preferidos, A História Secreta, de Donna Tartt, também se passa em uma universidade fictícia na Nova Inglaterra (no caso do livro, em Vermont). A série brinca o tempo todo com clichês: os rapazes musculosos normalmente são bons alunos, os nerds tendem a ser antipáticos e as patricinhas são boas companheiras. Mas o que fica mesmo é a forte amizade entre elas: a vida deveria ser sempre assim, né?
  • Nota: 8+
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Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
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Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
26 de dezembro de 2025 at 14:19 0
Criei um "Gem" no Gemini para organizar fichas técnicas de séries, com informações detalhadas sobre direção, lançamento e formato. Nas sugestões abaixo, as fichas foram geradas pela IA, enquanto os comentários e as notas refletem a minha opinião pessoal. A ideia é compartilhar algumas dicas do que tenho assistido.
Morrendo por Sexo (2025)
  • Título original: Dying for Sex
  • Direção: Leslye Headland, Chris Teague, Shannon Murphy
  • Elenco: Michelle Williams, Jenny Slate, Rob Delaney
  • País: EUA
  • Formato: Minissérie (1 temporada) | 8 episódios (média de 31 min.) | Disney+
Resumo e recepção: Esta minissérie de comédia dramática é livremente baseada nas experiências reais de Molly Kochan. A trama foca em Molly (Michelle Williams), diagnosticada com câncer de mama metastático em estágio terminal. Frustrada com seu casamento e percebendo que nunca teve um orgasmo, ela decide deixar o marido. Com o incentivo de sua melhor amiga, Nikki (Jenny Slate), Molly embarca em uma jornada de autodescoberta e liberdade sexual enquanto encara a finitude da vida. A crítica elogiou a mistura de humor negro e sensibilidade, destacando a atuação de Michelle Williams.
  • Comentário: Tensa, erótica e divertida — tudo ao mesmo tempo.
  • Nota: 9

Diário de uma Garota que Coleciona Foras (2025)
  • Título original: Halva Malmö består av killar som dumpat mig
  • Direção: Emma Bucht e Susanne Thorson
  • Elenco: Carla Sehn, Moah Madsen e Ingela Olsson
  • País: Suécia
  • Formato: 1 temporada | 7 episódios (30 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Baseada no livro de Amanda Romare, a série acompanha Amanda, uma mulher de 31 anos em Malmö que, após um incidente embaraçoso, decide mudar sua sorte no amor e enfrentar uma maratona de encontros desastrosos. A produção foi recebida como uma comédia ácida e autêntica sobre a vida adulta moderna, sendo elogiada pela atuação carismática de Carla Sehn e pela forma como subverte os clichês das comédias românticas tradicionais. A crítica destacou positivamente o "humor escandinavo" seco e a dinâmica de amizade feminina, embora alguns tenham apontado certa previsibilidade no formato de "encontro da semana".
  • Comentário: Bem leve e divertida.
  • Nota: 8

Sexify (2021)
  • Título original: Sexify
  • Direção: Kalina Alabrudzińska e Piotr Domalewski
  • Elenco: Aleksandra Skraba, Maria Sobocińska, Sandra Drzymalska
  • País: Polônia
  • Formato: 2 temporadas | 8 episódios por temporada (45-50 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Natalia, uma estudante de tecnologia brilhante, mas sem experiência sexual, decide criar um aplicativo para otimizar o orgasmo feminino. Ao lado de suas amigas Paulina e Monika, ela mergulha no mundo das startups e do empoderamento. Frequentemente comparada a Sex Education, a série foi elogiada pelo frescor e pela química do trio principal.
  • Comentário: Gostei muito; o trio de protagonistas é espetacular. A história tem algumas reviravoltas um tanto sem sentido, mas, no geral, é uma ótima série. O uso de cores vibrantes na maioria das cenas me agradou bastante.
  • Nota: 8

A Imperatriz (2022)
  • Título original: Die Kaiserin
  • Direção: Florian Cossen e Katrin Gebbe
  • Elenco: Devrim Lingnau, Philip Froissant, Melika Foroutan
  • País: Alemanha
  • Formato: 2 temporadas | 6 episódios por temporada (55-60 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Focada nos anos iniciais de Elisabeth "Sissi" da Baviera e seu casamento com o Imperador Francisco José I, a série explora as intrigas da corte de Viena no século XIX. Vencedora do Emmy Internacional de Melhor Série Dramática, a produção se destaca pelo figurino luxuoso e pela estética visceral.
  • Comentário: Série excelente, com ótimas atuações.
  • Nota: 9

Sissi (2021)
  • Título original: Sisi
  • Direção: Sven Bohse e Andy Fetscher
  • Elenco: Dominique Devenport, Jannik Schümann, Désirée Nosbusch
  • País: Alemanha/Áustria
  • Formato: 4 temporadas | 6 episódios por temporada (50-60 min.) | A Globoplay tem a segunda temporada, e o canal português RTP tem as três primeiras, mas é preciso ter um VPN. O canal australiano SBS tem as quatro temporadas com legendas em inglês, também precisa de VPN, mas a conexão está muito ruim - por isso não assisti ainda. 
Resumo e recepção: Uma abordagem moderna e provocante sobre a monarca austríaca, focada em seu despertar sexual e político. Enquanto a crítica se dividiu pelas liberdades históricas, o público a transformou em um sucesso. A quarta temporada (2024) encerra a saga com Sissi retornando à Baviera para confrontar segredos do passado.
  • Comentário: Tão boa quanto A Imperatriz e um pouco mais erótica (embora a primeira também não tenha nada de pudica). Ainda não assisti à quarta temporada, por dificuldade de acesso. É interessante notar como os fatos históricos diferem em detalhes entre as duas produções; talvez valha a pena ler uma biografia para distinguir realidade de ficção.
  • Nota: 9

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Seinfeld e a filosofia
Filosofia, Séries
Seinfeld e a filosofia
3 de junho de 2021 at 10:56 0
Seinfeld e a Filosofia – Um Livro Sobre Tudo e Nada (coletânea de William Irwin, 205 páginas) é o novo lançamento da coleção sobre filosofia e cultura pop da Editora Madras – o Bacana analisou outros dois outros livros desta coleção. Para fãs do seriado ou de filosofia o livro – uma coletânea de artigos filosóficos, escritos por diversos autores – é um achado. A primeira parte de Seinfeld e a Filosofia [chamada de “Ato I, Os Personagens”] é uma das mais saborosas: cada um de seus artigos trata de um dos quatro personagens do seriado. “Jerry e Sócrates: A Vida Examinada”, de William Irwin, compara o método de perguntas e respostas de Sócrates com as perguntas que Jerry Seinfeld costuma fazer a seus amigos. A conclusão do artigo é que, se aquele tinha intenções sérias com seu método, este só quer analisar fatos banais do dia-a-dia. “A Busca Frustrada de George pela Felicidade: Uma Análise Aristotélica”, de Daniel Barwick, estuda o comportamento de George Constanza conforme o método de análise ética de Aristóteles. O resultado, como se pode prever, é desastroso para o personagem do seriado. Interessantíssima é a análise que Sarah E. Worn, em “Elaine Benes: Ícone Feminista ou Apenas Um dos Rapazes?” faz da personagem Elaine Benes. Ela é feminista sim, mas só até certo ponto. E “Kramer e Kierkegaard: Estágios no Caminho da Vida”, também de Irwin, é um dos pontos altos do livro. É impressionante como a categoria de vida “estética” do filósofo dinamarquês Kierkegaard casa-se bem com a vida do personagem Kramer. A segunda parte [chamada “Ato II, Seinfeld e Os Filósofos”] analisa questões filosóficas levantadas pelo seriado. Como os fãs devem saber, o slogan do programa é “uma série sobre nada”. Como este “nada” seinfeldiano se relaciona com a milenar filosofia oriental do Tao? O seriado Seinfeld, com suas idas e vindas, tem alguma coisa a ver com a teoria da eterna recorrência de Nietzsche? Estas perguntas são respondidas, respectivamente, por Eric Bronson e Mark T. Conrad. Interessantíssimos são os artigos “Seinfeld, Subjetividade e Sartre” [onde Jennifer McMahon compara a amizade dos quatro personagens principais do seriado com as teorias de subjetividade e co-responsabilidade de Jean-Paul Sartre] e “Wittgenstein, Seinfeld e o Lugar-Comum” [provavelmente o melhor artigo do livro, no qual Kelly Dean Jolley, para o espanto do leitor, conclui que a os atos banais do cotidiano – o cerne do seriado – são o que há de mais fundamental na filosofia de Wittgenstein]. A terceira parte [“Ato III, Meditações Prematuras Ao Lado do Bebedouro”] é a mais fraca de todas. Os artigos – que tratam respectivamente de um episódio onde Constanza faz o contrário do que faria normalmente para as coisas darem certo, da subjetividade, e da significância do insignificante em Seinfeld – não trazem maior interesse para o leitor: eles parecem deslocados da realidade do seriado. Os três artigos da última parte do livro [“Ato IV, O Que Há de Errado Nisto?”], escritos respectivamente por Robert A. Epperson, Aeon J. Skoble e Theodore Schick Jr., analisam Jerry, Elaine, George e Kramer sob o ponto de vista da moral e da ética. A conclusão dos filósofos não é pela condenação total daqueles, nem pela absolvição sem ressalvas. Os argumentos pró e contra os personagens são instigantes, surpreendentes. Uma chave de ouro para fechar um livro na sua maior parte excepcional. (texto publicado anteriormente no Mondo Bacana - imagem da foto obtida no Uol)
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“Alias Grace”, “Vulgo Grace”
Literatura, Séries
“Alias Grace”, “Vulgo Grace”
7 de fevereiro de 2021 at 19:45 0
É muito comum se ouvir que o “livro é sempre melhor que o filme”. Eu não compartilho dessa opinião, e quando a escuto normalmente cito o livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, para mim bastante inferior ao filme homônimo de Stanley Kubrick. Séries não são filmes, mas achei que seria divertido comparar a minissérie “Alias Grace” (Netflix, seis episódios de cerca de 45 minutos cada um) com o livro que lhe deu origem, traduzido no Brasil como “Vulgo Grace”, da escritora canadense Margaret Atwood (Rocco, 512 páginas, tradução de Geni Hirata). Na verdade, fiquei tão entusiasmado com a série que acabei lendo o livro logo que acabei de assisti-la. A história é baseada num fato real: Grace Marks, uma irlandesa vivendo no Canadá, é condenada à morte em 1843 junto com o cocheiro James McDermott pelo assassinato do patrão dos dois, o fazendeiro Thomas Kinnear, e de sua governanta, Nancy Montgomery. McDermott é efetivamente enforcado, mas Grace Marks tem sua pena comutada para prisão perpétua. Na história contada pelo livro e pela série um médico, Dr. Simon Jordan, é contratado pelo reverendo Verrenger (vivido pelo grande diretor David Cronenberg!), líder de um grupo que luta pela absolvição de Grace Marks, para conseguir elementos psicológicos para inocentá-la. Acho que não vale a pena contar muito mais a respeito da história para não estragar a surpresa. Vamos à comparação entre a série e o livro, então. Inicialmente, é interessante notar que a própria Margaret Atwood, assim como tinha feito na série “Handmaid’s Tale”, também baseada num romance seu, faz uma pequena ponta em “Alias Grace” – ela mesma, portanto, não parece muito incomodada em querer defender a superioridade do livro em relação à série, né? Brincadeiras à parte, tanto “Alias Grace” quanto “Vulgo Grace” são obras de extrema qualidade, e a série é muito fiel ao livro – embora este, como normalmente acontece, seja mais detalhado do que aquela. E eu me emocionei igualmente com o final da série e o do livro, por mais que, quando li “Vulgo Grace”, eu já soubesse o que me esperava. Enfim, se eu fosse escolher um dos dois, escolheria a série mesmo. Não por nada, mas Sarah Gadon, a atriz que faz Grace Marks e que está na imagem que acompanha este texto, atua de maneira tão espetacular que desempata esse jogo que teria tudo para terminar com placar igual para os dois lados!
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As séries a que mais gostei de ter assistido em 2020
Séries
As séries a que mais gostei de ter assistido em 2020
19 de dezembro de 2020 at 19:18 0
Seguem abaixo, na ordem de preferência, as séries a que eu mais gostei de ter assistido em 2020. Estão relacionados, além dos países nos quais elas foram produzidas, os serviços de streaming nos quais elas são transmitidas no Brasil - e não necessariamente as companhias produtoras originais.
  1. 8 em Istambul (Netflix, uma temporada com oito episódios, Turquia): conta com grande sensibilidade a história de alguns personagens em Istambul, certamente uma das três melhores séries a que já assisti na vida. Minha filha, a futura psicóloga Teresa da Silveira Muller, deveria assistir também.
  2. O gambito da Rainha (Netflix, uma temporada com sete episódios, Estados Unidos): maior sucesso da história da Netflix, a história da jogadora de xadrez fictícia Beth Harmon é tão boa quanto você já ouviu falar por aí.
  3. Justiça (Globoplay, uma temporada com vinte episódios, Brasil): quatro histórias paralelas em Recife, uma prova de que o Brasil pode fazer séries com a mesma qualidade das americanas ou europeias.
  4. Nada ortodoxa (Netflix, uma temporada com quatro episódios, Estados Unidos/Alemanha): uma moça recém-casada numa família ultraortodoxa de Nova Iorque resolve fugir de tudo e tentar a sorte na Alemanha. A atriz principal, a israelense Shira Haas, já tinha brilhado em Shtisel, comentado aqui.
  5. Freud (Netflix, uma temporada com oito episódios, Áustria/Alemanha): alguns fatos reais e muita especulação – de caráter às vezes paranormal - sobre o início da vida profissional do criador da psicanálise.
  6. Quarta temporada de The Crown (Netflix, dez episódios, Reino Unido): o bacana desta série sobre a família real britânica é que cada episódio conta uma história diferente e pode praticamente ser assistido de maneira independente. Se metade do que a nova temporada fala sobre o Príncipe Charles for verdade, até consigo entender por que a Rainha Elisabeth, segundo as más-línguas, não quer passar o trono para ele.
  7. Em nome de Deus (Globoplay, uma temporada com seis episódios, Brasil): série documental brilhante sobre o paranormal João de Deus - acusado por dezenas de mulheres de assédio sexual -, produzida por Pedro Bial e Camila Appel.
  8. Downton Abbey (Amazon Prime, seis temporadas com 52 episódios no total, Reino Unido): história fictícia e deliciosa de uma família nobre britânica.
  9. The man in the high castle (Amazon Prime, quatro temporadas com 40 episódios no total, Estados Unidos): baseada no romance homônimo do romancista americano Philip K. Dick, ela imagina um mundo paralelo onde os nazistas teriam vencido a Segunda Guerra.
  10. Marianne (Netflix, uma temporada com oito episódio, França): série assustadora sobre uma escritora de romances de terror. Não se impressione pelo fato de a Netflix tê-la cancelado depois da primeira temporada: Stephen King é fã, e isso diz tudo.
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Séries assistidas recentemente
10 de maio de 2020 at 13:06 0
Labirinto verde: https://www.thecinemaholic.com/black-spot-tv-show/

“Marianne” (2019) é uma série francesa de terror da Netflix com oito episódios de cerca de cinquenta minutos cada um. Ela conta a história de Emma, uma escritora de romances de terror que acaba percebendo, para seu desgosto, que os personagens de seus livros tinham correspondentes na vida real. A série é assustadora, tem belas paisagens e ótimas atuações, principalmente de Victoire Du Bois, a atriz principal. Não se impressione pelo fato de a Netflix ter cancelado a série depois da primeira temporada: Stephen King é fã, e isso diz tudo.

Belíssimas paisagens também são um destaque de “Labirinto verde” (“Zone Blanche”), série franco-belga da TV France 2, distribuída por aqui pela Netflix, com duas temporadas com oito episódios de cerca de 50 minutos cada uma – está prevista uma continuação para este ano. A série conta a história de uma pequena cidade ficcional na França, Villefrance, que tem uma quantidade de crimes muito superior à da média nacional. Para tentar resolvê-los, a capitã Laurène Weiss (Suliane Brahim, ótima) conta com poucos ajudantes. “Labirinto verde”, cuja primeira temporada foi lançada em 2017, é uma série muito bem conduzida e com alguns toques fantásticos.

“Downton Abbey” é uma série inglesa de grande sucesso lançada entre 2010 e 2015, com seis temporadas de mais ou menos oito episódios com cerca de uma hora cada um. Ela foi produzida pelo canal ITV e atualmente é transmitida aqui no Brasil pela Amazon Prime. A série conta a história dos Crawley, família nobre inglesa fictícia, entre 1912 e 1925. “Downton Abbey” aborda temas históricos – a decadência da nobreza inglesa, o naufrágio do Titanic, o início da mudança nos rígidos costumes da época, a Primeira Guerra – com brilhantismo, e  tem um grande número de personagens (tanto nobres e como seus criados) muito bem construídos e interpretados. A série mereceu todo o sucesso que fez – está previsto, aliás, um filme sobre ela.

Comentei anteriormente sobre o romance “O homem do castelo alto”, de Philip K. Dick; a série baseada nele, da Amazon Prime,  foi lançada por aqui com o nome original, “The man in the high castle”. Ela tem quatro temporadas, lançadas entre 2015 e 2019, cada uma com dez episódios de cerca de uma hora. A história conta sobre um mundo paralelo em que alemães e japoneses ganharam a Segunda Guerra Mundial e dividiram os Estados Unidos em duas partes – o leste alemão e o oeste japonês. É interessante notar, entre outras coisas, a coerência da série tendo em vista a ideologia dos vencedores: os americanos, vistos como arianos pelos alemães, não sofrem preconceito e chegam a altos postos na administração nazista, mas são considerados inferiores pelos japoneses. “The man in the high castle”, que não terá mais continuação, é uma ótima série distópica, mas menos assustadora do que “The handmaid’s tale”, por exemplo: afinal de contas, sabemos que os nazistas e japoneses já perderam a guerra, mas não temos certeza de que loucuras como as de Gilead jamais acontecerão.

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Marseille
24 de novembro de 2019 at 18:09 1
Benoît Magimel e Gérard Dépardieu - https://laparola.com.br/marseille-netflix

A primeira série francesa da Netflix, “Marseille”, teve críticas em sua maioria desfavoráveis e por isso não será renovada para uma terceira temporada. Uma queixa comum diz respeito a uma suposta falta de originalidade -  Patrícia Kogut, de “O Globo”, por exemplo, comentou a respeito de suas semelhanças incômodas com séries como “The killing”, “The affair” e “House of Cards”. Bem, eu não assisti a nenhuma das três citadas, e será que isso me ajudou a gostar de “Marseille”? Sei lá.

As duas temporadas de série têm oito episódios de cerca de 50 minutos cada uma, e tratam principalmente dos jogos de poder entre o prefeito de Marselha, Robert Taro (Gérard Dépardieu) e seu desafeto e antigo seguidor Lucas Barrès, vivido por Benoît Magimel. No meio das disputas políticas, dramas familiares, relação com traficantes, a ascensão da extrema-direita, e muito sexo.

Gostei muito das muitas tramas que “Marseille” apresenta e a interpretação de Gérard Dépardieu é um negócio de outro mundo: vi poucas atuações deste nível - se é que já vi alguma.

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