O mar visto da janela – trecho do meu novo romance “3040”, a ser publicado ainda neste ano
Obra Literária
O mar visto da janela – trecho do meu novo romance “3040”, a ser publicado ainda neste ano
30 de março de 2025 0
Hoje à tarde a Sara tem uma competição de surfe na piscina de ondas n.1 do nosso Edifício, vou aproveitar para falar com ela sobre o estado de nervos do Benjamin, num piquenique num Andar Livre depois da competição. A piscina de ondas se situa no mesmo primeiro piso do Edifício, que também é o piso da Rodoviária, e é alucinadamente linda. Ela tem a altura de um andar de Cubículos mais um Andar Intermediário e um Andar Livre – uns dez metros, então. O que é maravilhoso na piscina é que ela é de frente para o mar: as janelas são enormes, vão praticamente do chão ao teto do andar, e a gente vê o mar na Natureza logo ali na frente. Eu gosto muito de ficar olhando para a praia pela janela, de ver as ondas indo e vindo, e gosto muito quando chove lá fora. Uma vez fui assistir a uma competição da Sara e havia uma tempestade gigantesca na frente da janela, com ressaca e tudo. O céu ficou escuro, cheio de raios, um espetáculo maravilhoso. Aliás, é muito por causa do mar que meu filme preferido se chama “Limite”, realizado em 1931, quando o cinema ainda não tinha som: nesse clássico do cinema mudo, o mar, a antiga cidade de Angra dos Reis e a Serra do Mar no antigo estado brasileiro do Rio de Janeiro (onde tem um pedaço do Condomínio hoje em dia) são filmados de maneira tão poética que parecem ser personagens da história sendo contada. Enfim, segundo a Sara, ter uma praia na Natureza bem diante da praia artificial não chega a ser uma compensação por não se surfar num mar “de verdade”, mas é tudo muito lindo. A namorada do Benjamin me conta que as piscinas de ondas começaram a ser levadas a sério em competições de surfe na segunda década do segundo milênio. No início as ondas eram sempre as mesmas para equilibrar a competição entre os participantes, mas com o tempo acabou se concluindo que isso ficava meio chato para quem assistia. Com o tempo, as ondas artificiais passaram a ser mais e mais aleatórias, para que o inesperado, sempre presente nas ondas naturais, pudesse participar das competições de surfe. É claro que existe um limite, pelo que diz a Sara: no mar da Natureza às vezes não existem ondas, o que não faz sentido acontecer numa competição de surfe oficial em piscina, né. A Sara, como já comentei, vai todos os anos para a Natureza surfar. Normalmente cada viagem é para um pico (lugar, no jargão do surfe) diferente. Ela prefere praias com ondas menores, onde ela pode dar aéreos, que é a melhor manobra dela. Em tubos, como nos antigos Havaí e Taiti, ela não se dá tão bem. *** Clicando aqui você pode cadastrar o seu e-mail para receber meus textos semanalmente.
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Sobre Trilogias e Trios
Cinema, Literatura, Música
Sobre Trilogias e Trios
23 de março de 2025 0
É impressionante como, pelo menos para mim, em termos de qualidade literária as trilogias “MaddAddão” de Margaret Atwood, e “Os caminhos da liberdade”, de Jean-Paul Sartre, são similares. Citando primeiro as obras da escritora canadense, e depois as do existencialista francês, ambas começam com uma obra-prima – “Oryx e Crake” e “A idade da razão” -, continuam com livros ruins – “O ano do dilúvio”, sobre o qual comentei aqui, e “Sursis”, simplesmente ilegível – e terminam com algo um pouco melhor, mas mesmo assim nada demais: “MaddAddão”, lido recentemente (Rocco, 448 páginas, traduzido por Márcia Frazão) e “Com a morte na alma”. Também as trilogias têm em comum o fato de eu terminado de lê-las me irritando por continuar a leitura – com um pouco de “morte na alma”, eu diria. *** Estava navegando na internet dia desses quando vi uma foto do cartaz de “MaXXXine” (que é a foto que acompanha este texto), filme de 2024 do diretor Ty West lançado em 2024 (104 min), e fiquei curioso por assistir. Acabei descobrindo que o filme era a terceira parte de uma trilogia do mesmo diretor, chamada “X”, também formada por “X – a marca da morte”, de 2022 (105 min), e “Pearl”, também lançado em 2022 (102 min), e assisti aos três recentemente, todos pela Prime Video. Mia Goth – que é uma atriz britânica filha de uma brasileira e que viveu por aqui parte de sua juventude, e é neta da importante atriz Maria Gladys – não só é atriz principal dos filmes, como atuou como corroteirista e coprodutora de em alguns deles. “X – a marca da morte” fala sobre um grupo que vai rodar um filme pornográfico numa casa numa fazenda no interior dos Estados Unidos – e é lá que coisas estranhas começam a acontecer. Mia Goth faz ao mesmo tempo a “mocinha” – por falta de uma palavra melhor – e a vilã do filme, e é como a personagem malvada que ela retorna em “Pearl”, uma prequel que conta a juventude dela. Finalmente, “MaXXXine” é a continuação de “X – a marca da morte”, retomando a história da “mocinha” do primeiro filme da trilogia. Confesso que meu conhecimento sobre terror gore é basicamente inexistente, mas gostei muito da trilogia “X”. Mia Goth é estranha, sensual e misteriosa, e é o grande destaque dos filmes – não à toa, Martin Scorcese e Stephen King confessaram admiração por seu trabalho. *** Para que terminar este texto com o disco com o álbum “Piano Trios Nos. 1 Op.8 & 2 Op. 87”, de Johannes Brahms, com o violinista Augustin Dumay, o violoncelista Juan Wang e a pianista Maria João Pires? Não sei, na verdade. Afinal de contas, são dois trios para piano, e não trilogias! Sei lá. Acho que é porque eu queria comentar que, nestas obras, Johannes Brahms não cansa o ouvinte com tanta beleza: quando você acha que um trecho não pode ser mais lindo, ele vem com outra coisa mais maravilhosa ainda. Não canso de ouvir, há anos já. E a pianista portuguesa Maria João Pires não parece deste mundo, de tão perfeito que é o seu toque. *** Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Trecho do meu romance “3040”, a ser publicado ainda neste ano
Obra Literária
Trecho do meu romance “3040”, a ser publicado ainda neste ano
16 de março de 2025 0
Aliás, uma coisa que eu não entendia, quando era criança, era por que razão cada pessoa tinha uma nacionalidade diferente. Eu mesma sou andorrana – e a Mariana, americana. Mas essas nacionalidades nunca fizeram diferença para ninguém, e um dia, ainda criança, perguntei para o meu pai por que cada pessoa pertencia a uma “nação” diferente. Ele me respondeu – lembro como se fosse hoje – que as nações eram lugares que realmente existiam no mundo, lá onde hoje é a Natureza. Quando a Humanidade resolveu vir para o litoral, muitos se queixaram da perda da nacionalidade, de suas raízes. Em seus estudos, os organizadores do GSL acabaram concluindo que a grande maioria das pessoas só se ligava no país em que nasceu em momentos de guerra ou em competições esportivas. Se por um lado as guerras eram praticamente inexistentes já há alguns séculos, por outro a grande maioria das pessoas ainda dava grande atenção para grandes eventos esportivos, como a Copa de Mundo de Futebol e as Olimpíadas. Foi quando alguém no Governo Central teve a brilhante ideia de manter as pessoas com nacionalidades, mas para competições esportivas (e para as universidades também, mas isso eu comento depois). Funciona assim até hoje: cada casal de pais decide a nacionalidade dos filhos entre as suas próprias. Por exemplo, os pais de um brasileiro com uma andorrana devem decidir qual das duas nacionalidades deve ser a do filho, que não pode mais mudar de “nação” (eu mesma sou andorrana, filha de um brasileiro com uma andorrana). Pesquisando um pouco sobre essa situação, achei estranho o fato de antes do GSL haver a possibilidade de mudar de nacionalidade – mas nem tão estranho assim, se você pensar que antigamente a nação tinha a ver com um pedaço de terra, o que não faz mais sentido hoje em dia. Deste modo, os campeonatos mundiais de diversas modalidades continuaram acontecendo como se a humanidade não tivesse se mudado para a costa atlântica da antiga América do Sul. Para dar um status de “grande acontecimento” para a coisa toda, foi construído um Edifício chamado Vila Olímpica na antiga cidade de Montevidéu, onde todas as competições esportivas mundiais – Copas do Mundo de Futebol e Rúgbi e Olimpíadas, inclusive – aconteceriam dali em diante. Aliás, o Torneio de Candidatos também acontece por lá. Meu irmão – brasileiro, ao contrário de mim – há de brilhar como nunca na história do xadrez. (Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Livros que minha mãe amava: 8. “O Drible”, de Sérgio Rodrigues
Literatura
Livros que minha mãe amava: 8. “O Drible”, de Sérgio Rodrigues
9 de março de 2025 0
Minha mãe insistia para eu ler “O Drible”, de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras, 220 páginas, lançado em 2013). Insistia e insistia. Mas eu não queria ler. E não queria por um motivo besta: o autor tinha um blog, no site da Revista Veja (acho), no qual, não bastando falar mal de meu livro preferido na época, “2666”, de Roberto Bolaño, ainda dizia que o chatíssimo “Os detetives selvagens”, do mesmo autor, era melhor – porque mais completo, ou mais bem pensado, ou alguma coisa no gênero. O grande escritor chileno fez sua obra-prima sabendo que estava com os dias contados: na ideia de Sérgio Rodrigues, isso fazia com que o livro fosse meio mal-acabado. Cito de memória, mas acho que era isso. Sérgio Rodrigues ainda falou mal de “Verão”, de J.M.Coetzee, uma obra-prima absoluta, e se divertia dizendo que a mulher dele, ou outra pessoa próxima, achava que ele não manjava nada de nada por não gostar do meu livro preferido do grande escritor sul-africano. Bem, enfim, um dia, uns meses atrás, fui procurar aqui em casa “O Drible”, na edição que minha mãe tinha literalmente me empurrado para eu ler – digo que ela insistia. Não achei a edição, e comprei outro exemplar. O romance é contado em primeira pessoa por Neto, um revisor meio fracassado cuja mãe tinha se suicidado quando ele era criança. Ele era filho de Murilo Filho, um grande cronista de futebol meio senil, que no passado tinha sido um conquistador e mulherengo inveterado, um informante da ditadura e um pai basicamente ausente na educação do filho. Eles tinham ficado anos sem se falar, e quando o livro começa Neto estava com o costume de visitar semanalmente o pai na chácara dele. Murilo Filho, nestas ocasiões, basicamente ficava falando sem parar sobre futebol – algumas passagens do livro já são antológicas para fãs do esporte. Além disso, o retrato que Sérgio Rodrigues faz do Rio de Janeiro dos anos 1950 em diante é extremamente interessante. Mas o forte mesmo desta pequena obra-prima é a relação conturbada entre pai e filho. É claro que minha mãe não iria insistir tanto para que eu lesse um livro ruim. *** Importante ressaltar que achei a versão que minha mãe tinha me dado assim que terminei de ler a minha versão do romance! A foto que acompanha o texto mostra as duas edições, a minha e a dela. Quem quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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XXXTentacion – mais uma das minhas manias musicais recentes
Música
XXXTentacion – mais uma das minhas manias musicais recentes
2 de março de 2025 0
Alguns anos atrás, eu estava numa fase de ouvir muito rap alternativo (Bones, $uicedeboy$, Ashley All Day), e achei natural procurar na época que outros artistas faziam um som parecido, e gostei de muita coisa. Bhad Bhabie, que fez sucesso na internet brigando com a mãe num programa popularesco, tinha raps poderosos como Gucci Flip Flops (pelo que eu lembro, admirada até por gente da velha guarda como Snoop Dogg) e “Get Like Me“, com o também ótimo NLE Choppa. Lil Pump tinha “Gucci Gang”, com uma linda base melancólica, e a pesada “ESSKEETIT”. Juice WRLD lançou a belíssima “Lucid Dreams”, e Lil Xan, o meu preferido da turma, alertou sobre os perigos da droga Xanax (que, aliás, batiza seu próprio nome artístico) na emocionante “Betrayed”, e fez com Diplo um rap hipnótico chamado “Color Blind”. De Lil Peep eu não gostei de muita coisa, achei tudo meio meloso, mas “Spotlight”, com Marshmello, é sensacional. Não sei se foi em 2020 ou 2021 que ouvi um podcast com André Barcinski no qual se comentou sobre o documentário “American Rapstar”, que estava sendo lançado num festival online (era tempo de pandemia, afinal). Resolvi assisti-lo, e percebi que conhecia razoavelmente a maioria dos artistas citados nele. Segundo o site da BBC, o documentário de 2020, dirigido por Justin Staple, “descreve o crescimento de rappers do SoundCloud, jovens artistas que se conectam diretamente com os fãs através da internet e das mídias sociais, estrelado por Lil Peep, XXXTentacion, Smokepurpp, Bhad Bhabie, Lil Xan e Lil Pump”. O painel que “American Rapstar” pintava era assustador. Lil Peep tinha falecido por overdose – esperada até por sua mãe, pelo que eu lembro – em 2017 e XXXTentacion tinha sido assassinado em 2018. Eu acho que o documentário também citava a emocionante “Legends”, de 2018, em que Juice WRLD se queixava de que a nova geração não tinha mais a “maldição dos 27 anos” (que existe devido a vários rockstars que faleceram nesta idade, como Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin), mas que os seus grandes nomes não passavam dos 21: Lil Peep morreu nesta idade, XXXTentacion com 20. O mais macabro em “Legends” é que o próprio autor da música, Juice WRLD, faleceu de overdose aos 21 anos. “American Rapstar” ainda mostrava um Lil Pump aparentemente drogado o tempo todo, Lil Xan lutando com as drogas, em fases sóbrias e com recaídas (ele declarou recentemente que já está sóbrio há três anos, e realmente sua expressão atual é outra), e Smokepurpp como o grande precursor do chamado, na época, “Soundcloud rap” – que hoje todo o mundo chama de trap mesmo. Bhad Bhabie era a mais inesperada personagem do documentário: falava mal de outros rappers, que perdiam o controle no uso de drogas, e reclamava dos “fãs idiotas” que queriam imitar os novos rappers, fazendo tatuagens no rosto, e que depois não conseguiam emprego por causa da aparência. De todo modo, o rapper que teve os maiores elogios por parte dos demais era XXXTentacion (o “XXX” se pronuncia como a sigla X.X.X. em inglês, e o “Tentacion” se pronuncia como “tentación” em espanhol). Nascido em 23 de janeiro de 1998 com o nome de Jahseh Dwayne Ricardo Onfroy, o rapper teve uma vida cercada de violência e polêmicas. Segundo a Wikipédia em inglês, XXXTentacion, “era geralmente considerado uma figura controversa dentro da indústria do hip-hop devido a brigas públicas com outros artistas, questões legais e escândalos gerais nas redes sociais. A Spin rotulou Onfroy como ‘o homem mais controverso do rap’ e a XXL o desscreveu como o ‘rapper iniciante mais controverso de todos os tempos’”. Ele estava no auge quando foi assassinado num assalto (três dos quatro perpetradores pegaram prisão perpétua sem direito a condicional): seu álbum recém-lançado na época, chamado simplesmente “?”, tinha atingido o número um da Billboard 200, e XXXTentacion tinha assinado um contrato com a Empire por dez milhões de dólares por um novo álbum. Mesmo não negando sua vida violenta, o documentário “American Rapstar” mostrou como seus discursos nos shows só transmitiam mensagens positivas – e emocionantes – para seu público. Uma figura controversa, no mínimo. Quanto a mim, nunca tinha gostado muito das músicas do XXXTentacion, provavelmente porque elas não pareciam com as dos rappers citados aqui. Até que comecei a ouvir, uns dois meses atrás, a coletânea do Spotify “This is XXXTentacion”, fiquei absolutamente maravilhado e não paro de ouvi-la. Sua interpretação é profunda, dolorida, emocionante, e as melodias e batidas grudam na cabeça. E, realmente, ele era um rapper diferente: também segundo a Wikipédia em inglês, “a música de XXXTentacion explorou uma grande variedade de gêneros, incluindo emo, trap, lo-fi, indie rock, punk rock, nu metal, e hip hop. (…) Ao falar de suas influências, ele disse: ‘eu realmente gosto de coisas multigênero que não são baseadas apenas no rap em si. Sou mais inspirado por artistas de outros gêneros além do rap.’” Era essa multiplicidade de estilos que me afastou, na época, da música de XXXTentacion, e é ela que me aproxima dele, provavelmente, hoje em dia. Afinal, recentemente contei aqui que tive fases viciado em Elvis Presley, que dispensa apresentações, na banda indie The Brian Jonestown Massacre, no álbum de música clássica “Johann Sebastian Bach”, com o pianista islandês Víkingur Ólafsson, e na banda de black metal polonesa Mgła. Não é que eu seja eclético: eu amo e odeio músicas em muitos estilos. (Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no site da revista The New Yorker.)
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Meus livros: passado e futuro
Literatura, Obra Literária
Meus livros: passado e futuro
23 de fevereiro de 2025 0
Eu tenho três livros inéditos, que pretendo publicar pela Amazon ainda neste ano. *** O primeiro é “3040”, um romance de mais de 400 páginas contado em primeira pessoa por uma personagem feminina, chamada Silvia. O livro foi baseado num sonho da minha filha Teresa, no qual ela fez uma viagem no tempo: saindo de uma espécie de submarino, ela viu que estava em 5040; a paisagem era estranhíssima, com prédios gigantescos e brilhantes. A partir do sonho dela, imaginei que em 5040 a humanidade resolveria se fechar, se isolando em prédios gigantescos, e que ninguém mais viveria ao ar livre. Isso porque os seres humanos resolveram sair da natureza, que estava sofrendo com nossa participação no aquecimento global. Grande parte da energia deste futuro enclausurado era obtida em painéis solares gigantescos, situados nas paredes externas de arranha-céus enormes. Estes painéis deixavam os edifícios brilhantes – conforme o sonho da minha filha. Comecei a escrever “5040” no início de 2019, antes ainda da pandemia de COVID! Lá pelas tantas entrei numa “sinuca de bico” literária, sem saber para que lado deveria levar a história. Quando, em 2020, a pandemia chegou e efetivamente tivemos que ficar enclausurados, consegui entrar em contato com a grande escritora Juliana Frank (autora, entre outros, de “Meu coração de pedra-pomes”, publicada pela Companhia das Letras, e “Cabeça de Pimpinela”, pela 7 letras) para me ajudar. Ela logo mudou “5040” para “3040”, e na história a humanidade foi para prédios gigantes não mais por causa do aquecimento global, mas devido a pandemias. Muitas pandemias. No fim, com muito esforço de parte a parte (meu e da Juliana), 3040 ficou pronto, e agora está na hora de lançá-lo! *** Junto com o “3040” escrevi um livro de contos, também com mentoria da grande Juliana Frank. Tem histórias fantásticas, histórias eróticas, histórias assustadoras, e muitas que misturam tudo isso. Ainda não tem nome, mas acho que vai se chamar “Contos” mesmo. *** Finalmente, tenho um livro de poemas, dividido em duas partes: “Sempre”, com poemas curtos, e “deus um delírio”, uma espécie de viagem ao inconsciente, escrito sem nenhuma pontuação e sem nenhuma letra maiúscula. Acho que o livro vai se chamar “Poesia” mesmo. *** Isto, para o futuro. No passado, publiquei os livros abaixo: *** “Um amor como nenhum outro”, lançado em 2017 pela Editora Schoba. Novela sobre um nadador fracassado. Segundo Jonatan Silva, meu grande amigo e também escritor, um dos donos do ótimo canal Curitibando, “quem foi adolescente na década perdida, ou nos anos seguintes, pode cair na tentação de se identificar e, com certeza, vai se encontrar como peça no jogo criado por Fabricio Muller, um ardiloso experimento sobre os pequenos fracassos que nos fazem mais fortes”. Meu livro de estreia está fora de catálogo, mas quem quiser uma cópia em pdf pode pedir no e-mail fabriciomuller60@gmail.com “O verão de 54 (novelas)”, lançado em 2019 pela Editora Appris, “é composto por quatro histórias bastante diferentes uma da outra. O Verão de 54 é uma história de amor proibido. Conversão trata de família e religião, Morrissey é um policial sobre um assassino serial com “uma missão” e Sorry é uma novela para adolescentes. O Verão de 54 é uma história em metalinguagem. Conversão utiliza um narrador onisciente, Morrissey é em formato de diálogo e Sorry é um diário. Como se vê, o leitor pode iniciar a leitura deste livro por qualquer uma das quatro novelas cujo tema lhe pareça mais interessante.”  Pode ser obtido, impresso ou para Kindle, neste link. “Rua Paraíba”, lançado em 2020 pela Café do Escritor. “Formado por três livros (“Rua Paraíba”, “Memórias” e “Energia”) escritos entre 2016 e 2019, “Rua Paraíba” conta histórias pessoais, histórias profissionais e comentários do autor a respeito de assuntos como religião, economia, política e música pop.” Pode ser obtido em versão em Kindle aqui. Tenho algumas cópias impressas comigo, se alguém se interessar. Além dos três livros acima, a versão inicial da novela “Conversão”, que está na coletânea “O verão de 54 (novelas)”, foi lançada na Amazon, e pode ser obtida em Kindle e impressa, neste link. Publiquei também um conto da coletânea “Ser: Antologia em contos”, da Editora EntreCapas, de 2019, coordenada pelo meu grande amigo e grande escritor Robertson Frizero, que pode ser obtida em versão impressa aqui. Fiz também um vídeo de divulgação do conto, que pode ser assistido neste link. Mais informações sobre minha obra literária podem sobre obtidas no meu no meu site. (Na foto que acompanha o texto, eu e a grande escritora Juliana Frank. quem tiver interesse em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail )
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“Comme ils disent”, de Charles Aznavour
Música
“Comme ils disent”, de Charles Aznavour
16 de fevereiro de 2025 0
Ele mora sozinho com a mãe, num velho apartamento na Rua Sarasate. Sua companhia é uma tartaruga, dois canários e uma gata. Para deixar sua mãe descansar, ele frequentemente faz compras e a cozinha. Ele arruma, lava e seca. Ele não tem medo do trabalho: é um pouco decorador e estilista! Mas seu trabalho verdadeiro é à noite, que ele exerce travestido de mulher, ele é artista! Ele tem um número muito especial, em que termina completamente nu, depois do strip-tease. Nestes momentos os machos não acreditam no que veem: “nossa, ele é um homem!”, como eles dizem. Aí pelas três da manhã ele vai lanchar com os amigos de todos os sexos! E em um bar qualquer, ele e sua turma se divertem de verdade, e sem complexos! Eles falam verdades ácidas sobre as pessoas do lugar, mas fazem isso com humor. Nas madrugadas alguns retardados tentam imitar seus amigos e ele, para tentar fazer sucesso em suas mesas, mas só se cobrem de ridículo. As piadas e as provocações deixam-no frio, porque “ele é um homem”, como eles dizem. Quando o dia amanhece, ele volta para seu lugar de solidão, como um pobre palhaço infeliz e esgotado. Ele se deita, mas não dorme, pensa nos seus amores insignificantes e sem alegria. Ele pensa naquele garoto belo como um deus, que sem fazer nada colocou fogo na sua memória. A sua boca jamais ousará lhe revelar seu doce segredo, seu drama delicado: afinal de contas, o objeto de todos os seus tormentos passa a maior parte do tempo em camas de mulheres. Na verdade, ninguém tem direito de julgá-lo, de culpá-lo, e ele deixa isso bem claro: porque a natureza é a única responsável se “ele é um homem”, como eles dizem! *** Se trocar a terceira pela primeira pessoa no texto acima (por exemplo: no início, ler “eu moro sozinho com a minha mãe”), tem-se quase uma tradução de “Comme ils disent” (como eles dizem), canção do grande cantor francês Charles Aznavour. ´ A música foi lançada em 1972. Depois de pronta, o chansonnier – heterossexual e que na época tinha cinco filhos de três casamentos – foi testá-la diante de amigos homossexuais. Segundo o próprio cantor, a canção foi recebida com um frio generalizado na pequena plateia. Perguntaram-lhe: “quem vai cantar esta música?”. “Eu mesmo”, respondeu Aznavour. Novo silêncio no grupo. Os assessores do cantor na época lhe aconselharam a não gravá-la, para não correr o risco de prejudicar sua imagem. Mas ele decidiu correr o risco porque essa questão era muito importante para ele, e merecia uma posição. Na época, o jornal “Le Monde” criticou a canção. A crítica Claude Sassaute comentou acidamente: “esta evocação do homossexual que substitui a mãe na cozinha, na lavanderia, na máquina de lavar, que esconde seu desespero, seu ‘doce segredo’, sua paixão ridícula por um conquistador heterossexual, e é uma pequena trabalhadora apaixonada pelo chefe, (…) é boa para os (inofensivos) Frères Jacques (quarteto vocal tradicional francês).” Mas o sucesso de “Comme ils disent” foi praticamente imediato, não só entre o público em geral como no meio homossexual – e vários números de travestis usavam esta canção de fundo. Até hoje raramente é lançada uma coletânea das melhores canções de Aznavour sem ela. Quanto a mim, desde a primeira vez que a ouvi fiquei impressionado com a belíssima melodia, a incrível expressividade do chansonnier, com a delicadeza da letra e com a maneira como ele tratava sem ironias o mundo homossexual – foi a primeira canção francesa de sucesso, aliás, a tratar a homossexualidade com seriedade. Assim que Aznavour faleceu, em 2018, o canal France Info entrevistou um senhor homossexual chamado David, com 48 anos na época, que declarou que “Comme ils disent” o ajudou, durante toda a sua vida, a aceitar-se como era – porque, afinal de contas, ser homossexual não era culpa sua. “Ninguém, até o início dos anos 1970, tinha ousado dizer uma coisa dessas”, complementou. (fonte da foto: Wikipédia em francês. Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail)
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“A vegetariana”, de Han Kang
Literatura
“A vegetariana”, de Han Kang
9 de fevereiro de 2025 0
Quando fiquei sabendo, em algum noticiário, que o livro mais conhecido da escritora coreana Han Kang (1970- ), vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2024, chamado “A vegetariana” (Todavia, 171 páginas, tradução de Jae Hyung Woo, lançado originalmente em 2007), falava sobre uma mulher que, um belo dia, resolveu parar de comer carne, causando revolta na família, logo pensei que era alguma espécie de libelo pró-vegetarianismo. Ledo engano. O grande escritor inglês Ian McEwan chamou “A vegetariana” de “um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece seu grande sucesso”. É interessante perceber que, como o livro é dividido em três partes, a primeira e terceira tratam de “loucura”, e a segunda, de “sexualidade”. A mulher que resolve parar de comer carne, por causa de “sonhos”, é Yeonghye, uma discreta e calada dona-de-casa coreana, vivendo em Seul, mulher de um alto executivo. Conforme comentado acima, a família entra em polvorosa com a sua decisão, mas não é porque ela simplesmente virou vegetariana – o que até seria aceitável -, mas é porque estava perdendo peso numa escala e numa velocidade preocupantes. Isso é contado principalmente na primeira parte do livro, escrito em primeira pessoa pelo marido de Yeonghye. A segunda parte, narrada em terceira pessoa, é contada sob o ponto de vista do cunhado da personagem principal do romance, um artista visual casado com a irmã da “vegetariana”. Já a terceira, também narrada em terceira pessoa, mostra os acontecimentos sob o olhar da irmã de Yeonghye. Por mais que eu pense a respeito, não consigo contar mais do livro para não dar spoiler, tantos são os acontecimentos surpreendentes no romance. Mas o que dá para contar é que “A vegetariana” é realmente uma obra-prima, uma história extremamente perturbadora narrada com uma prosa límpida. (Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e inscreva seu e-mail.)
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