Do Monstro de Tully ao Deserto de Moradi – uma imersão na narrativa sensorial de Thomas Halliday e nos ecossistemas perdidos do nosso planeta.
Ciência
Do Monstro de Tully ao Deserto de Moradi – uma imersão na narrativa sensorial de Thomas Halliday e nos ecossistemas perdidos do nosso planeta.
22 de fevereiro de 2026 0
Uma série de acontecimentos pouco usuais na minha relação com livros ocorreu com aquele que é objeto do presente texto. Explico. Recentemente, inaugurou-se uma nova livraria no shopping que mais frequento aqui em Curitiba e me senti na obrigação de comprar uma obra para prestigiar o novo empreendimento. O livro escolhido foi “Outros Mundos – Uma Jornada pelos Mundos Extintos da Terra”, de Thomas Halliday (Editora Objetiva, 400 páginas, tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo, lançado originalmente em 2022). A sequência de fatos incomuns prossegue: o livro é de Paleontologia (assunto sobre o qual eu nunca havia lido uma obra inteira, por mais que faça pesquisas sobre o período Permiano); eu nunca tinha ouvido falar dele (é raro eu comprar um livro sem nenhuma informação prévia); eu sabia que iria gostar muito (como poderia prever?); e, ao lê-lo, tive a certeza de que a crítica o amara — o que se confirmou, pois a obra é tão excepcional que não restam dúvidas a respeito. A ideia por trás de “Outros Mundos” é genial: a partir do presente, o paleobiólogo Thomas Halliday utiliza uma narrativa imersiva para transportar o leitor por dezesseis ecossistemas do passado da Terra, retrocedendo do Pleistoceno (há 20 mil anos) até o Ediacarano (há mais de 500 milhões de anos). Para cada ecossistema, o autor escolheu um sítio paleontológico específico. Por exemplo, para o famoso Período Jurássico (155 milhões de anos atrás), Halliday descreve o sítio da Suábia, na Alemanha, no capítulo 8, intitulado “Fundação”. O livro é tão maravilhosamente escrito que, como eu desconhecia a trajetória de Halliday, cheguei a pensar que ele fosse um romancista ou poeta que decidira escrever sobre ciência — mas não, ele é um paleobiólogo de formação. De todo modo, ele consegue descrever locais há muito perdidos no tempo com tantos detalhes expressivos que temos a nítida impressão de estarmos lá. Para se ter uma ideia, o trecho a seguir abre o Capítulo 5, “Ciclos”, no qual o autor descreve o sítio de Ilha Seymour, na Antártida, no Eoceno, há 41 milhões de anos: “’Eppur si muove’ / ‘No entanto, se move’ — Galileu Galilei ‘Tornaram-se espectrais no crepúsculo sob a noite solitária’ — Virgílio, Eneida A praia se enche de guinchos das aves marinhas, as mais velhas chamando insistentemente seus companheiros, os jovens pretendentes procurando possíveis locais de nidificação. Repleto de chifres de unicórnio dos caracóis marinhos turritella, de gastrópodes Polynices espiralados e das placas lisas dos capuzes das amêijoas Cucullaea, o cascalho foi transformado em um terreno fértil excepcionalmente movimentado. Pintando as rochas de branco com guano, o excremento infunde em tudo um cheiro acre e amoniacal, os fosfatos se infiltrando na areia e alterando a própria química da rocha que tudo isso se tornará. Ninhos de pedregulhos foram construídos em cada brecha, os pássaros menores preferindo nidificar nas fendas ou abrigados pela vegetação, os pássaros maiores ao ar livre, por necessidade. Uma grande enseada abrigada a sotavento de uma península tênue e alongada, perto de onde um riacho rasga um precipício na margem arenosa até ao estuário do rio, é um local ideal para a criação de filhotes. Ao redor da praia, as encostas são íngremes e densamente arborizadas; um bosque suspenso de Nothofagus, faias do sul com cascas escamosas, escorre pela encosta, entrecortadas por um denso aglomerado de coníferas — araucárias, ciprestes, pináceas, todas retidas de epífitas, plantas que só crescem na superfície de outras. Vinhas e lianas, samambaias e musgos pilosos espraiados pelas inflorescências complexas e exibicionistas das proteas formam uma paleta verde-tua. A umidade dos ventos marítimos do oeste se transformou em chuva ao atingir a estreita faixa de terra que se projeta no oceano Antártico.” Não à toa, “Outros Mundos” foi aclamado pela crítica como um triunfo da divulgação científica. O The Sunday Times classificou-o como uma obra de “riquezas inimagináveis” e o The Wall Street Journal definiu Halliday como um “poeta entre os paleontólogos”. O rigor da obra foi validado pela revista Nature, que a descreveu como uma jornada fascinante que nos força a reavaliar nossa existência diante do “tempo profundo”. Essa combinação de autoridade técnica e narrativa sensorial — comparada pelo The Telegraph a uma experiência “quase alucinatória” — elevou o texto além dos limites de um livro científico comum. Para veículos como o The Guardian, o livro se destacou por sua estrutura inovadora que retrocede no tempo, tornando a ciência complexa acessível e emocionalmente impactante. Ao focar na reconstrução de ecossistemas inteiros, em vez de apenas fósseis isolados, Halliday criou um best-seller que ressoa como um alerta contemporâneo sobre a fragilidade da vida e as mudanças climáticas. A única sugestão que deixo para o futuro leitor é: leia esta obra-prima com o Google Images por perto. Assim, é possível visualizar os locais, animais e plantas descritos. Foi em uma dessas buscas que descobri o Monstro de Tully, uma das criaturas mais esquisitas que já passaram por este planeta. Deixo vocês com parte da descrição deste estranho animal, extraída do capítulo 11, “Combustível – Mazon Creek, Illinois, EUA – Carbonífero – 309 milhões de anos atrás”: “Mas às vezes, como acontece com um animal específico que vive no estuário salobro do Mazon Creek, as extravagâncias da seleção natural e a ausência de criaturas semelhantes no registro fossilífero criam uma compleição anatômica tão incomum que torna quase impossível qualquer tipo de conexão. […] Diante de algo totalmente novo, nosso primeiro instinto é buscar uma metáfora no sobrenatural, no não natural. Sob as ondas que cobrem a cunha de água salgada […] nada uma criatura indescritível que chamamos de Monstro de Tully. Ao contrário dos monstros lendários da criptozoologia moderna […] o Monstro de Tully é real, mas não sabemos muito mais sobre ele. […] Eles têm o corpo na forma de um torpedo segmentado, duas barbatanas onduladas na cauda, meio parecidas com as asas de uma lula. O focinho é comprido e fino, como a mangueira de um aspirador de pó, e móvel, com uma garra minúscula cheia de dentes na ponta. Para aumentar ainda mais a confusão, há uma barra sólida passando de um lado
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Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
Literatura
Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
15 de fevereiro de 2026 0
Estava assistindo a uma série que se passa numa universidade americana fictícia no estado de Vermont e lembrei que um dos meus livros preferidos, “A História Secreta”, de Donna Tartt, também se passa numa universidade — também fictícia — no mesmo estado. É claro que deu vontade de reler esse livro que amo tanto. Aí, pensando na minha mania de listas, resolvi fazer mais uma de livros preferidos. É claro que nela estariam os três únicos romances que sempre tenho vontade de reler, citados aqui: “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, e o já citado “A História Secreta”. Para ser uma lista diferente das minhas outras, pensei que a Bíblia deveria ser encarada não como um livro único, mas pelo que ela é de verdade: um volume ou conjunto de volumes que contém os textos sagrados do Antigo e Novo Testamento. Assim, eu poderia incluir “O Livro de Jó”, que sem dúvida está na minha lista de favoritos, e deixar de lado livros que um cristão assumidamente tem um pouco mais de dificuldade de digerir — como o “Levítico”. Sobre este assunto, também decidi que os Evangelhos seriam tratados como um único livro, assim como as Cartas de Paulo, por serem, na minha cabeça, quase uma obra só. Pensei seriamente em colocar na lista as minhas suratas preferidas do Alcorão, como a de número 1, “Al-Fatiha”, e a 19, “Maryam”, mas o Alcorão, embora revelado em etapas em Meca e Medina, foi consolidado como um livro só, então não faz muito sentido separá-lo aqui. Fiquei na dúvida se deixaria a lista em ordem de preferência ou não — uma questão “importante” para maníacos por listas. Acabei decidindo pela ordem de preferência. Segue a lista, com pequenos comentários pessoais e links para o que já escrevi sobre o livro e/ou autor: Os quatro Evangelhos: Eu provavelmente sei se um trecho foi ou não incluído em Mateus, Marcos, Lucas ou João, embora não seja daqueles que citam capítulos e versículos de cor. O Livro de Jó: Por que Deus resolveu punir Jó, mesmo ele não tendo feito nada de errado, é uma questão que sempre me pergunto. As Cartas de Paulo: Sete das cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, Filemom) têm autoria aceita pelo consenso histórico-crítico, e as outras são motivo de muita discussão. Mas só o fato de sabermos que, quando Paulo fala de si mesmo nessas cartas, até os estudiosos mais céticos concordam que o texto é dele, já é emocionante. “As Irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki : Eu gostei muito dos livros do escritor japonês que tinha lido até então, mas este parece milagroso: um painel espetacular da vida no Japão no século XX, com seus hábitos, alimentação e tradições; uma história profundamente humana. O Livro de Jeremias: A minha novela “Conversão” tem como epígrafe o trecho: “Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e para plantar”. “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez: O livro começa com “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”, e aí se inicia uma história de dilúvios, mortes e borboletas que parece um sonho esquisito e maravilhoso. O Livro de Jonas: “E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença. / Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis”. Jonas não era fácil. Deus pede para ir para um lado, ele vai para o outro. Alcorão: A leitura do livro sagrado do Islã é fascinante para crentes e infiéis, ateus e teístas. Gênesis: O livro começa bem, com a cosmogonia judaica da Criação, e continua no mesmo nível com as histórias de Abraão, Jacó e José. Maravilhoso também para crentes e infiéis. Samuel 1 e 2: Nas Bíblias Hebraicas, estes livros são considerados apenas um (a divisão em dois veio depois, na tradução grega). A história de Davi tem traição, paixão, guerra, amor, fé, perdão e maldição. Acho que este livro deveria ser ainda mais conhecido do que é, de tão extraordinário. “2666”, de Roberto Bolaño: Composto por cinco livros mais ou menos independentes, 2666 me fascinou tanto que eu passava semanas para começar o volume seguinte após terminar o anterior — simplesmente para estender o prazer da leitura. “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust: Fiquei completamente maluco por esta obra gigante, a ponto de minha mãe — minha maior incentivadora literária — achar que eu já tinha passado dos limites. “Verão”, de J.M. Coetzee: O protagonista “John Coetzee” já está morto, e um jornalista entrevista cinco pessoas que o conheceram para uma biografia. O texto menciona como os entrevistados têm opiniões pouco lisonjeiras sobre o autor (chamando-o de “mosca-morta” e “esquisito”). E tudo numa literatura sóbria e aparentemente sem humor. “A História Secreta”, de Donna Tartt: O livro que causou este texto. “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal: Meu nome foi inspirado no Príncipe Fabrizio di Salina, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa. Mas minha mãe atirou no que viu e acertou no que não viu: Fabrizio del Dongo, deste clássico de Stendhal, é provavelmente o meu personagem preferido de toda a literatura. “Poemas”, de Georg Trakl (Porto: O Oiro do Dia, 1968) : “Assim no escuro treme o forasteiro / Ao erguer manso as pálpebras sobre algo de humano / Que está longe; a voz de prata do vento no vestíbulo.” “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto: O maior escritor brasileiro, sem nenhuma dúvida. “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Editora Record, 2023): Se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar? “Narrativas do Espólio”, de Franz Kafka: A perfeição em pequenas histórias, magnificamente traduzidas por Modesto Carone. “Minha Luta”, de Karl Ove Knausgård: Coleção em seis volumes de
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Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
Música
Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
8 de fevereiro de 2026 0
Lá em casa só se ouvia MPB. Minha mãe, confessa e praticamente sem ouvido para música, era ligada apenas às letras; por isso, creio eu, quase tudo o que ouvia era em português. De esquerda, ela também não nutria grande apreço pelos Estados Unidos. Foi, portanto, uma surpresa quando, por volta de 1980, senti vontade de comprar o primeiro fascículo de uma série de LPs que a televisão não parava de anunciar. A coleção se chamava “Gigantes do Jazz”, da Editora Abril, e o exemplar de estreia era sobre o grande cantor e trompetista Louis Armstrong. Minha mãe não se opôs à compra; pelo contrário, chancelou a escolha dizendo que “jazz era clássico”. Com o exemplar em mãos, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o visual: o fascículo era colorido, beirando o brega — um contraste enorme com as coleções de MPB e música erudita da Abril, que eram bem mais sóbrias. A segunda surpresa foi notar que todos os textos eram assinados por críticos franceses. Como eu estudava francês na época, achava a língua bem mais chique que o inglês. O que eu não sabia era que os críticos franceses foram os grandes responsáveis por elevar o jazz ao status de música erudita. Os textos eram ácidos: lembro-me de ler que, após o show cujas gravações estavam naquele LP, a carreira de Armstrong teria entrado em uma “decadência inexorável”. Embora tenha gostado das músicas, o jazz nunca se tornou meu estilo musical preferido. No entanto, guardei para sempre uma frase daquele fascículo: dizia-se que “Rockin’ Chair”, em que Louis Armstrong canta com Jack Teagarden, era “o dueto mais delicioso da história do jazz”. De fato, tornou-se minha faixa favorita do álbum. Há alguns anos, escrevi um texto sobre os meus cinco duetos preferidos entre cantores e cantoras. Agora, decidi fazer o mesmo com os melhores duetos exclusivamente entre cantores, homenageando algumas composições memoráveis, aquele lindo dueto citado e, claro, minha querida mãe. Segue a lista, por ordem de preferência (links para o YouTube no texto): “Rockin’ Chair” (Louis Armstrong & Jack Teagarden): Se ouvir a canção é delicioso, ver a performance dos dois músicos juntos é simplesmente maravilhoso. Um detalhe importante: Jack Teagarden, que tocava trombone e cantava, era branco — algo que eu não tinha ideia em 1980! Há duas versões fantásticas: uma mais antiga, em preto e branco, impagável pelas expressões faciais da dupla, e outra mais recente e colorida, que provavelmente é a que eu conhecia do LP da Abril. “Birth of Blues” (Louis Armstrong & Frank Sinatra): Descobri este vídeo totalmente por acaso. Assim como no dueto anterior, os dois gigantes se divertem sem limites cantando este clássico do cancioneiro americano, que é uma belíssima homenagem à alma do jazz e do blues. “Money in the Grave” (Drake & Rick Ross): Enquanto a canção anterior trata da origem humilde do jazz, aqui os dois rappers celebram a opulência, pedindo que sua fortuna seja enterrada com eles. A batida sombria é fantástica e os versos são espetaculares. O clipe, em preto e branco, é altamente impactante. Drake lançou a faixa para celebrar o primeiro título do Toronto Raptors na NBA, em 2019. “Sneakin’” (Drake & 21 Savage): Se Armstrong aparece duas vezes nesta lista, Drake também merece o bis. Nesta faixa hipnótica, ele ostenta seu sucesso e responde aos rivais, enquanto 21 Savage utiliza um estilo ostensivamente repetitivo. O clipe apresenta uma filmagem de baixa qualidade (Lo-Fi) que evoca a estética de fitas VHS — uma possível influência do rapper Bones, o próximo da lista. “鈍ら墓地” (Cemetery Blunts) (Bones & Xavier Wulf): Comecei a ouvir Bones por volta de 2014. Vindo do metal, mergulhei no universo do rapper por anos; meu Last.fm confirma que, ainda em 2025, ele foi meu artista mais ouvido. O clipe é o ápice da estética Vaporwave/Sad Boys que dominava o Tumblr e o underground em 2013: gravado em VHS, com interferências visuais (glitches) e estátuas clássicas ao fundo. É tudo maravilhoso até hoje.   (Imagem obtida no Gemini)
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Blind Willie McTell: o algoritmo perfeito do Country Blues
Música
Blind Willie McTell: o algoritmo perfeito do Country Blues
25 de janeiro de 2026 0
Nos últimos tempos, tenho ouvido alguns artistas de forma intensiva por períodos de poucos meses, para logo depois deixá-los de lado — antes que o interesse se esgote definitivamente, como aconteceu com o Madredeus (nunca é demais repetir). Nesse esquema, tive fases com a banda indie californiana The Brian Jonestown Massacre, o rapper XXXTentacion, a cantora pop Gracie Abrams, a banda de black metal polonesa Mgła, o punk do NOFX, a genialidade de Mozart e o metal denso do Neurosis. Sobre alguns deles já escrevi por aqui, e os links seguem nos nomes citados. A “bola da vez” agora é o cantor de country blues Blind Willie McTell (1898-1959), que nasceu e faleceu no estado americano da Geórgia. Já escrevi outros textos sobre o country blues — o blues rural e acústico que floresceu entre os anos 20 e 60 — que podem ser lidos aqui. É um estilo de que gosto muito; volta e meia a Valéria comentava sobre “aqueles negros antigos” que eu tanto amava ouvir. Entre os muitos bluesmen do início do século XX, confesso que, inicialmente, tive certa dificuldade em me conectar com McTell. Eu o conheci através de Jack White, dos White Stripes, banda que admiro até hoje. White tem uma devoção profunda pelo bluesman da Geórgia: com os Stripes, gravou covers de “Lord, Send Me An Angel” e “Your Southern Can Is Mine”, além de ter dedicado a obra-prima De Stijl (2000) inteiramente a McTell e ao designer Gerrit Rietveld. Essa admiração seguiu em sua carreira solo, onde ele continuou a evocar o mestre, seja em performances ao vivo de “The Dying Crapshooter’s Blues” ou no lançamento de coleções raras de McTell através de seu selo, a Third Man Records. Outro que admira profundamente o cantor é Bob Dylan, que lançou a música “Blind Willie McTell” em 1983, considerando-o um “evangelista do blues” — alguém capaz de transformar a dor em algo transcendente e tecnicamente perfeito. Apesar dessas referências, no início dos anos 2000, as gravações de McTell me soavam estranhas: achei que havia ragtime demais e blues de menos. Eu estava errado, claro. Blind Willie McTell é mais suave que contemporâneos como Charley Patton, Blind Willie Johnson ou Blind Lemon Jefferson, e suas melodias no violão de doze cordas são lindas e viciantes. Cego de nascimento e de família pobre, ele teve uma educação formal rara: era alfabetizado em Braille, o que lhe permitiu desenvolver uma compreensão intelectual e estruturada da música — sofisticação que transparece em suas composições. Segundo a Wikipédia: “Ele nunca produziu um disco de grande sucesso, mas teve uma prolífica carreira em diferentes gravadoras e sob diversos nomes nas décadas de 1920 e 1930. Em 1940, foi registrado pelo folclorista John A. Lomax para a Biblioteca do Congresso. Permaneceu ativo nas décadas de 1940 e 1950, tocando nas ruas de Atlanta, muitas vezes com seu parceiro Curley Weaver. Suas últimas gravações surgiram em uma sessão improvisada em 1956. McTell faleceu três anos depois, devido a complicações do diabetes e do alcoolismo, sem viver para ver o renascimento da música folk em que muitos de seus pares foram ‘redescobertos’.” Agora que escuto Blind Willie McTell boa parte do dia, pego-me pensando no que já comentei aqui: como seria incrível ter uma máquina do tempo para conhecê-lo e vê-lo tocar ao vivo, junto a outros gigantes daquela época. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto: Blind Willie Mctell em Novembro de 1940 durante uma sessão de gravações num quarto de hotel em Atlanta, Geórgia, para John e Alan Lomax, obtida na Wikipédia
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O Paradoxo da Maquiagem: Entre a Lírica de Morrissey e a Verdade de Selena Gomez
Música
O Paradoxo da Maquiagem: Entre a Lírica de Morrissey e a Verdade de Selena Gomez
18 de janeiro de 2026 0
O novo disco de Morrissey, Make-up is a Lie, com lançamento confirmado para 5 de março de 2026, já teve seu primeiro single homônimo revelado. Ao rever o documentário Selena Gomez: My Mind & Me (2022, Alek Keshishian), notei uma conexão inevitável com a nova composição do cantor inglês. Em diversas cenas, enquanto era maquiada, Selena parecia personificar o verso de Morrissey, como se pensasse: “a maquiagem é uma mentira; minha carreira é uma mentira; minha vida é uma mentira”. É fascinante notar essa convergência temática entre dois artistas que tanto admiro. O projeto original de My Mind & Me previa um filme de estrada tradicional sobre a Revival Tour (2016), focado no brilho dos palcos e no auge comercial da cantora. Contudo, o diretor Alek Keshishian logo percebeu que Selena enfrentava uma crise profunda. O cancelamento da turnê após 55 shows, devido a questões de saúde mental e às complicações do lúpus, interrompeu as filmagens por anos. Quando retomado, o foco migrou do “sucesso pop” para a “sobrevivência humana”, documentando a vida de Selena após o diagnóstico de transtorno bipolar e sua busca por propósito. O resultado não foi um produto de marketing, mas um retrato cru da desconstrução da imagem pública e da colisão entre as exigências da fama e a saúde da mente. É difícil não se emocionar com as batalhas físicas e psicológicas expostas no longa. Predominam cenas em que ela parece sucumbir à pressão da performance ou sofrer terrivelmente com as dores do lúpus. O filme registra o choque e o subsequente alívio ao receber o diagnóstico de transtorno bipolar, algo que, segundo ela, deu sentido a muitos de seus comportamentos passados. Para o espectador, o contraste é chocante: o glamour das roupas e a beleza de Selena confrontados com sua dor. A imagem de divulgação da Apple resume esse paradoxo: uma mulher belíssima, impecavelmente vestida, mas profundamente angustiada. Atualmente, Selena vive um momento de notável estabilidade. Casada com o produtor Benny Blanco, ela atingiu o status de bilionária com sua marca Rare Beauty. O que torna isso interessante é que, ao contrário da “maquiagem mentirosa” citada por Morrissey, Selena ressignificou o setor: sua empresa foca na aceitação das imperfeições e destina parte dos lucros ao Rare Impact Fund para o apoio à saúde mental. Além disso, consolidou-se como uma atriz de prestígio, dividindo o prêmio de Melhor Atriz em Cannes em 2024 e brilhando como Mabel Mora em Only Murders in the Building. Como fã declarado de Selena e de Ariana Grande — uma das minhas conhecidas “esquisitices” —, sinto-me gratificado ao observar essa trajetória de superação e autenticidade. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
Música
Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
10 de janeiro de 2026 0
Os astros de rock dos anos 1980 — pelo menos os que eu ouvia — eram sempre impecáveis. As roupas eram bonitas e os cabelos armados com esmero. As cores podiam ser vibrantes ou em xadrez preto e branco, mas tudo era harmonioso. A maioria dos cantores abotoava as camisas até o pescoço, e muita gente imitava o visual do Velvet Underground. A batida era quase sempre seca, a ponto de ser fácil reconhecer o “toque dos anos 80” ao ouvir, hoje, alguma banda daquela época. Até que, em 1989, surgiu uma banda completamente diferente da paisagem da época: o Faith No More. O cantor, Mike Patton, usava bermuda (uma heresia), cabelos compridos (outra heresia) e, o pior de tudo, camisetas que mais pareciam roupas coloridas de criança. A voz não chegava a ser igual à do Pato Donald, mas lembrava um pouco o personagem da Disney. E, como se não bastasse, a banda tinha um instrumentista que usava barba! Quase ninguém no rock usava barba naquela época. Mesmo assim, a crítica — refiro-me à Bizz, a revista que eu lia e decorava — falava bem. Creio que até a Veja entrevistou Mike Patton, mas não tenho certeza. Segundo as descrições, o som era pesado, uma mistura de metal com rap que tinha tudo para me agradar — eu, que cheguei a enviar uma carta para a revista defendendo o primeiro disco dos Beastie Boys (que unia rock e hip hop, mas fora detestado pelos críticos da Bizz). De fato, como esperado, apesar do visual “problemático”, amei o disco The Real Thing. Só anos mais tarde descobri que era o terceiro da banda, mas o primeiro com Mike Patton. A faixa-título sempre foi a minha preferida: com variações de ritmo, ora pesado, ora suave, e nuances vocais que alternavam entre o canto e o rap, seus mais de oito minutos me conquistaram de cara. O disco todo, nessa pegada de peso e suavidade, era praticamente perfeito. Inclusive, The Real Thing foi fundamental para o que viria a ser o “Nu Metal” ou “Alternative Metal”, estilos que eu gosto muito até hoje. Já do álbum seguinte, Angel Dust (1992), não gostei nem um pouco; achei-o pretensioso e esquisito demais. Mais tarde, tive amigos que amavam a ampla discografia de Patton e suas inúmeras colaborações, mas não gostei de quase nada, exceto por uma coisa ou outra do Fantômas, o supergrupo que ele criou com Buzz Osborne, Trevor Dunn e Dave Lombardo. De tempos em tempos, volto a ouvir muito o The Real Thing, e ultimamente tenho estado em uma dessas fases. Por isso, achei uma boa ideia ressuscitar a série “Quem é vivo sempre aparece”, sobre sons retomados após muito tempo e músicos que eu nunca havia citado no blog. Se escrever este texto me fará dar uma chance ao restante da carreira de Mike Patton? Quem sabe. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida na Amazon.  
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 0
Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin. Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967. O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária. O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
Séries
Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
26 de dezembro de 2025 0
Criei um “Gem” no Gemini para organizar fichas técnicas de séries, com informações detalhadas sobre direção, lançamento e formato. Nas sugestões abaixo, as fichas foram geradas pela IA, enquanto os comentários e as notas refletem a minha opinião pessoal. A ideia é compartilhar algumas dicas do que tenho assistido. Morrendo por Sexo (2025) Título original: Dying for Sex Direção: Leslye Headland, Chris Teague, Shannon Murphy Elenco: Michelle Williams, Jenny Slate, Rob Delaney País: EUA Formato: Minissérie (1 temporada) | 8 episódios (média de 31 min.) | Disney+ Resumo e recepção: Esta minissérie de comédia dramática é livremente baseada nas experiências reais de Molly Kochan. A trama foca em Molly (Michelle Williams), diagnosticada com câncer de mama metastático em estágio terminal. Frustrada com seu casamento e percebendo que nunca teve um orgasmo, ela decide deixar o marido. Com o incentivo de sua melhor amiga, Nikki (Jenny Slate), Molly embarca em uma jornada de autodescoberta e liberdade sexual enquanto encara a finitude da vida. A crítica elogiou a mistura de humor negro e sensibilidade, destacando a atuação de Michelle Williams. Comentário: Tensa, erótica e divertida — tudo ao mesmo tempo. Nota: 9 Diário de uma Garota que Coleciona Foras (2025) Título original: Halva Malmö består av killar som dumpat mig Direção: Emma Bucht e Susanne Thorson Elenco: Carla Sehn, Moah Madsen e Ingela Olsson País: Suécia Formato: 1 temporada | 7 episódios (30 min.) | Netflix Resumo e recepção: Baseada no livro de Amanda Romare, a série acompanha Amanda, uma mulher de 31 anos em Malmö que, após um incidente embaraçoso, decide mudar sua sorte no amor e enfrentar uma maratona de encontros desastrosos. A produção foi recebida como uma comédia ácida e autêntica sobre a vida adulta moderna, sendo elogiada pela atuação carismática de Carla Sehn e pela forma como subverte os clichês das comédias românticas tradicionais. A crítica destacou positivamente o “humor escandinavo” seco e a dinâmica de amizade feminina, embora alguns tenham apontado certa previsibilidade no formato de “encontro da semana”. Comentário: Bem leve e divertida. Nota: 8 Sexify (2021) Título original: Sexify Direção: Kalina Alabrudzińska e Piotr Domalewski Elenco: Aleksandra Skraba, Maria Sobocińska, Sandra Drzymalska País: Polônia Formato: 2 temporadas | 8 episódios por temporada (45-50 min.) | Netflix Resumo e recepção: Natalia, uma estudante de tecnologia brilhante, mas sem experiência sexual, decide criar um aplicativo para otimizar o orgasmo feminino. Ao lado de suas amigas Paulina e Monika, ela mergulha no mundo das startups e do empoderamento. Frequentemente comparada a Sex Education, a série foi elogiada pelo frescor e pela química do trio principal. Comentário: Gostei muito; o trio de protagonistas é espetacular. A história tem algumas reviravoltas um tanto sem sentido, mas, no geral, é uma ótima série. O uso de cores vibrantes na maioria das cenas me agradou bastante. Nota: 8 A Imperatriz (2022) Título original: Die Kaiserin Direção: Florian Cossen e Katrin Gebbe Elenco: Devrim Lingnau, Philip Froissant, Melika Foroutan País: Alemanha Formato: 2 temporadas | 6 episódios por temporada (55-60 min.) | Netflix Resumo e recepção: Focada nos anos iniciais de Elisabeth “Sissi” da Baviera e seu casamento com o Imperador Francisco José I, a série explora as intrigas da corte de Viena no século XIX. Vencedora do Emmy Internacional de Melhor Série Dramática, a produção se destaca pelo figurino luxuoso e pela estética visceral. Comentário: Série excelente, com ótimas atuações. Nota: 9 Sissi (2021) Título original: Sisi Direção: Sven Bohse e Andy Fetscher Elenco: Dominique Devenport, Jannik Schümann, Désirée Nosbusch País: Alemanha/Áustria Formato: 4 temporadas | 6 episódios por temporada (50-60 min.) | A Globoplay tem a segunda temporada, e o canal português RTP tem as três primeiras, mas é preciso ter um VPN. O canal australiano SBS tem as quatro temporadas com legendas em inglês, também precisa de VPN, mas a conexão está muito ruim – por isso não assisti ainda.  Resumo e recepção: Uma abordagem moderna e provocante sobre a monarca austríaca, focada em seu despertar sexual e político. Enquanto a crítica se dividiu pelas liberdades históricas, o público a transformou em um sucesso. A quarta temporada (2024) encerra a saga com Sissi retornando à Baviera para confrontar segredos do passado. Comentário: Tão boa quanto A Imperatriz e um pouco mais erótica (embora a primeira também não tenha nada de pudica). Ainda não assisti à quarta temporada, por dificuldade de acesso. É interessante notar como os fatos históricos diferem em detalhes entre as duas produções; talvez valha a pena ler uma biografia para distinguir realidade de ficção. Nota: 9 Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.  
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