Karl Ove Knausgard

“O fim”, de Karl Ove Knausgård
História, Literatura
“O fim”, de Karl Ove Knausgård
18 de abril de 2021 at 13:37 0
Reconheço aqui que eu acessava o site da Companhia das Letras algumas vezes por mês para ver se finalmente tinha sido publicado em português o sexto e último volume da série de autoficção “Minha luta”, do norueguês Karl Ove Knausgård. Depois de uma longa espera, finalmente saiu “O fim” – título em português do livro tão aguardado, com tradução de Guilherme da Silva Braga –, e aí entendi por que o negócio demorou tanto (o anterior, chamado por aqui de “A descoberta da escrita”, tinha sido lançado por aqui em 2017): o sexto volume da série que catapultou Knausgård para o sucesso mundial tem 1054 páginas. Eu nem sei o tamanho da letra da edição impressa, já que eu li o livro no Kindle, mas tenho impressão, a partir de rápida folheada numa livraria, de que ela é pequena. Um romance realmente muito longo. Em “O fim” Knausgård dá muitos detalhes do medo que ele sentiu por ter apresentado fatos íntimos sobre diversas pessoas conhecidas nos romances anteriores da série, como a depressão da esposa e o processo que um tio ameaçou mover contra ele. Outro tema recorrente é a sua rotina como pai de três crianças, duas meninas e um menino, e a dificuldade da esposa em lidar com seu papel de mãe. Tudo isso com o estilo fascinante e ultradetalhado de Knausgård, que pode usar mais de cem páginas para descrever um jantar sem nunca parecer chato ou repetitivo. Mas “O fim” tem também um número enorme de páginas de teor ensaístico, de excelente qualidade aliás, nas quais se destacam dois temas: a análise de um pequeno poema do romeno, radicado na França, Emil Cioran, e a análise do livro “Minha luta” original, de Adolf Hitler, e do nazismo como um todo. Enfim, a leitura do ciclo “Minha luta” de Knausgård acabou. E eu tenho mais um livro dele aqui em casa, de nome “Winter”, mais recente e de outro ciclo chamado, na tradução em inglês, de “Seasons Quartet”. Será que eu o leio em inglês mesmo, arriscando a perder alguma coisa do sentido, ou fico entrando de novo no site da Companhia das Letras para ver se eles o publicam por aqui em português?
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Filosofia, Literatura
Turmas
12 de janeiro de 2020 at 15:41 0
Luiz Felipe Pondé - Wikipédia

Em vídeos e crônicas, o famoso filósofo Luiz Felipe Pondé – que eu admiro muito, aliás – parece citar sempre os mesmos escritores: Fiódor Dostoiévski, William Shakespeare, Liev Tolstói, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges Bernanos e mais alguns poucos (não custa lembrar que ele está lançando um curso online sobre literatura, cujo link está aqui). Dostoiévski, então, é uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da série “Democracia na Teia”, por exemplo, há uma edição gigantesca do grande autor russo atrás de entrevistador e entrevistado – mais do que isso, ele parece sempre pronto a citá-lo a qualquer momento, com ou sem necessidade.

Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do Pondé. Do Dostoiévski, li “Crime e Castigo” quando adolescente, e “Os irmãos Karamazov”, bem mais tarde. Gostei muito, mas não me marcaram. De Tolstói li mais e gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis é um gênio, claro, mas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler “Recordações do escrivão Isaías Caminha” pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare conheço muito pouco, embora tenha lido “Júlio César” ano passado e tenha amado. Sobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu “Verão de 54”: “para ser grande literatura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues”. Bernanos eu conheci recomendado pelo próprio Pondé, gostei muito, mas achei meio confuso.

Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, também. Lembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois críticos de literatura só porque falaram mal de “2666”, de Roberto Bolaño: um deles ainda teve o desplante de escrever que outra obra do chileno, “Os detetives selvagens” – que eu achei ruim – era “mais bem acabado” (ou alguma outra expressão sem sentido) que “2666”.

De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que já citei – Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bolaño – tem ainda Patrick Modiano, Gabriel García Márquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honoré de Balzac, Junichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Clézio e mais alguns. Tem um outro autor que está na minha turma e na do Pondé, mas ele não foi citado – ainda.

Existe uma autora que acabou entrando na minha turma há uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. Em “O ano do macaco” ela conta de sua paixão avassaladora por “2666”, de Roberto Bolaño. Em “Devoção” ela fala de maneira extremamente carinhosa – como só ela consegue fazer – de Patrick Modiano e Simone Weil. Modiano e Bolaño admirados como devem ser! (A Simone Weil, cujas obras nunca li, deve ser muito boa também, haha.) Será que a turma de Patti Smith é parecida com a minha? Espero que sim.

De todo modo, por que a turma de Pondé é diferente da minha e, quem sabe, da da Patti Smith também? Porque, acredito eu, como filósofo, ele quer retirar algum ensinamento, quer “enxergar” algo por trás de uma obra literária. Dostoiévski e o problema da existência. Machado de Assis e o ciúme. Shakespeare e os sentimentos humanos. Nelson Rodrigues e a hipocrisia da classe média. Georges Bernanos e a fé. Tolstói e... sei lá o que ele quer ver em Tolstói.

Já eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra literária. Não há o que enxergar por trás de “2666”, não há nenhum ensinamento por trás desta maravilha. O livro é apenas isso – uma maravilha. [1]

Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que faz parte da minha turma e da do Pondé: o nome dele é Franz Kafka. Ele deve admirar o grande autor tcheco pela crítica à burocracia, ou pelo retrato simbólico do absurdo da existência, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka pela imaginação e pela maravilhosa técnica de contar histórias malucas como se estivesse fazendo um relatório de empresa de seguros.


[1] Algum engraçadinho pode vir me questionar dizendo que o que está por trás das obras de Balzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente o dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? Sei lá, hehe.

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Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
Literatura
Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
16 de dezembro de 2018 at 15:12 0
  1. “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki: um painel da vida no Japão em meados do século XX, a história de quatro irmãs, um dos melhores livros que já li.
  2. “Ilíada”, de Homero: o início da literatura ocidental.
  3. “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto: a história do nacionalista patético que queria que o tupi fosse a língua oficial do Brasil é apenas parte deste livro fascinante.
  4. “O Gigante Enterrado”, de Kazuo Ishiguro: um livro de fantasia e grande literatura.
  5. “Confissões”, de Santo Agostinho: não há como superestimar a influência deste livro na literatura, na teologia e na filosofia ocidentais.
  6. “A Descoberta da Escrita”, de Karl Ove Knausgard: o quinto dos seis livros da série “Minha Luta”, do grande escritor norueguês. Quando a Companhia das Letras vai lançar o sexto?
  7. “Un cirque passe”, de Patrick Modiano: uma jovem misteriosa, perdida - e apaixonante.
  8. “A gorda do Tiki Bar”, de Dalton Trevisan: o título já diz tudo. O curitibano em sua melhor forma.
  9. “Hors d’atteinte?”, de Emmanuel Carrère: o vício em jogo, no meio de um casal intelectualizado e vazio, numa história contada com carinho e um pouco de cinismo.
  10. “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca: acho que nunca vou esquecer o impacto dos primeiros contos deste livro.
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Meus livros preferidos
Literatura
Meus livros preferidos
22 de julho de 2018 at 19:11 0
Faz tempinho que eu não faço uma listinha de livros preferidos, né? Então lá vai mais uma, com links de comentários meus sobre os livros e/ou os autores:

1. “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust: todo um universo em sete livros. (mais…)

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“A Descoberta da Escrita”, de Karl Ove Knausgard
Literatura
“A Descoberta da Escrita”, de Karl Ove Knausgard
14 de janeiro de 2018 at 22:59 0
Acho que Deus gosta de rir da minha cara: bastou eu ter tomado a firme decisão de não comprar mais livros - pelo menos enquanto não tivesse lido boa parte dos muitos encostados por aqui - que vi nas recomendações do Kindle que tinha acabado de ter sido publicado no Brasil  o quinto volume da série “Minha Luta”, de Karl Ove Knausgard, “A Descoberta da Escrita” (Companhia das Letras, 632 páginas). Que raiva. Se Deus sabia que eu não resistiria a comprar mais um livro do norueguês, por que me fez ver que o livro tinha sido lançado logo em seguida à minha firme resolução? Não tão firme, claro. Comprei o livro e, como sempre (pelo menos depois do segundo da série), o li rapidamente. Em “A Descoberta da Escrita” Knausgard conta sobre seu difícil início como escritor, suas (poucas) traições amorosas, bebedeiras, saídas sem rumo pela Europa, indecisões sobre seu futuro profissional. A cidade norueguesa de Bergen - por coincidência, citada na letra de “I Wish You Lonely”, do mais recente disco de Morrissey, “Low In High School” - é parte fundamental de mais uma obra-prima do grande escritor Knausgard, que consegue deixar hipnotizados milhões de leitores pelo mundo contando, com enorme quantidade de detalhes, episódios de sua própria vida. (mais…)
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“Uma Temporada no Escuro”, de Karl Ove Knausgard
Literatura
“Uma Temporada no Escuro”, de Karl Ove Knausgard
19 de março de 2017 at 23:30 0
Enfim terminei de ler o quarto livro da série “Minha Luta”, do norueguês Karl Ove Knausgard, chamado “Uma Temporada no Escuro”, o último lançado no Brasil (Companhia das Letras, 496 páginas). Agora começa a agonia para esperar a tradução dos dois próximos, “Min kamp. Femte bok” e “Min kamp. Sjette bok” (nomes pegos na Wikipedia: segundo o Google Tradutor, simplesmente "Minha Luta. Quinto livro" e "Minha Luta. Sexto livro"). (mais…)
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Rubem Fonseca, Knausgard
Literatura
Rubem Fonseca, Knausgard
28 de fevereiro de 2017 at 19:47 0
Eu já tinha ficado bastante impressionado com “A Morte do Pai”, o primeiro dos livros da série autobiográfica “Minha Luta” (epa), do norueguês Karl Ove Knausgard. O segundo, “Um Outro Amor” (Companhia das Letras, 592 páginas), é ainda melhor: o início da relação com sua mulher, Linda, a vida com seus filhos, o início da carreira de escritor, a amizade com Geir e a mudança da Noruega para a Suécia são os principais temas do romance deste escritor espetacular, que consegue descrever um jantar em cinquenta páginas e mesmo assim manter o interesse para seus inúmeros (10% da população da Noruega já leu sua enorme série autobiográfica, para que se tenha uma ideia) leitores. O livro seguinte da série, “A Ilha da Infância” (Companhia das Letras, 436 páginas), que conta suas lembranças de infância e início da adolescência, por outro lado, mesmo longe de ser ruim, está distante da qualidade dos dois primeiros. Suas longas descrições de brincadeiras e passeios nas florestas próximas de onde vivia não deixam de ter seu interesse, mas os acontecimentos apresentados nos romances anteriores prendem muito mais a atenção. Além disso, o maior drama de “A Ilha da Infância”, a relação com o pai, sádico com os dois filhos, já tinha sido mais bem descrito em “A Morte do Pai”. De todo modo, Knausgard é sempre Knausgard, e a falta de descrição da descoberta do sexo – ele simplesmente descreve fatos anteriores e posteriores a este acontecimento sempre decisivo – é uma mostra da excelência (como se ainda precisássemos de alguma) do norueguês como escritor. (mais…)
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