“Hors d’atteinte?”, de Emmanuel Carrère
Literatura

“Hors d’atteinte?”, de Emmanuel Carrère

13 de junho de 2018 0

Em um artigo no jornal inglês Guardian Emmanuel Carrère foi chamado de “o mais importante escritor francês do qual você nunca ouviu falar” – embora, no mesmo artigo, o próprio autor se diga satisfeito com o seu sucesso literário, “semelhante ao de Michel Houellebecq”. Por outro lado, em entrevista para o Le Monde, o escritor se queixa de que a Academia Goncourt  não gosta dele: a única vez em que Carrère foi finalista do maior prêmio da literatura francesa – o Prix Goncourt – foi no já distante 1988, com este “Hors d’atteinte?” (Gallimard, 290 páginas), objeto do presente texto.

O livro – cujo título em português seria algo como “fora de alcance?” – conta a história de um casal separado, Frédérique, professora na rede pública, e Jean-Pierre, pesquisador na área de sociologia no CNRS (Centre national de la recherche scientifique – Centro Nacional de Pesquisa Científica). Os dois não só fazem programas juntos – como sair para jantar e ir ao cinema -, como dormem juntos às vezes e dividem a criação do único filho, Quentin. Como intelectual, Jean-Pierre vê com condescendência o casal formado por Marie-Christine, irmã de Frédérique, e Claude, um empresário de sucesso: é interessante como o também intelectual Emmanuel Carrère tem uma visão irônica a respeito de Jean-Pierre que, por mais que tenha uma postura superior e arrogante, no fundo sente inveja da riqueza do empresário.

E é num passeio em um cassino, para o qual Frédérique e Jean-Pierre são levados por Claude e Marie-Christine, que a vida da professora muda completamente: em algumas rodadas de roleta, Frédérique se descobre viciada no jogo – e o cerne de “Hors d’ateinte?” é a maneira fria e detalhada com a qual Carrère descreve como o vício toma conta de toda a vida da ex-mulher de Jean-Pierre: era nos cassinos que ela, inutilmente, tentava achar algum sentido para sua vida vazia.

As descrições frias precisas de Emmanuel Carrère grudam na memória: apesar de eu ter terminado de ler o livro há apenas dois meses, sei que ainda vou guardar comigo as desventuras de Frédérique por muito tempo ainda.

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