Obra Literária

Literatura, Obra Literária
Prefácio de “O verão de 54 (novelas)”
9 de junho de 2019 at 17:41 0

Segue abaixo o prefácio do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado brevemente, escrito pelo escritor, tradutor, editor, professor e conferencista Robertson Frizero.

Há um conceito musical que se aplica perfeitamente ao livro que tens em mãos, caro leitor. Na música, chamamos rapsódia a um tipo de composição que reúne, em um só movimento, diferentes temas musicais que, sem seguir uma estrutura pré-definida, encantam por sua variedade de temas, tons e intensidade. Nesse sentido, O Verão de 54 pode ser visto como uma grande e multifacetada rapsódia literária que nos apresenta Fabrício Muller.

Composto por quatro novelas, a obra mostra a imensa capacidade narrativa de Muller, nada espantosa para os que conheceram o escritor em seu seu romance de estreia, Um amor como nenhum outro, um romance de formação que merece ser descoberto pelos leitores brasileiros. Seguindo a ideia de uma rapsódia narrativa, cada uma das novelas tem seu universo particular e – como traço inegável de domínio da escrita – uma estrutura narrativa própria e absolutamente distinta dos demais. Se o cenário une essas quatros novelas – o livro é universalmente curitibano –, cada uma das histórias encantará o leitor por diferentes razões.

A novela-título, Verão de 54, é uma das mais bem sucedidas experiências metalinguísticas que já li em forma de narrativa longa; a história de inocência e ousadia desse jogo farsesco proposto por Muller é entremeada pela voz desse autor onisciente intruso, que tudo sabe e sobre tudo opina – e que nos convida a acompanhar o próprio ato de criação, tornando-se quase uma aula sobre o ofício de escritor.

Morrissey é uma ousada novela em modo dramático, contada do início ao fim em um diálogo do qual o leitor dificilmente conseguirá se desprender; os fãs do cantor irão se deliciar com cada canção aqui recordada, e será impossível para quem não as conhece fugir da tentação de buscá-las de imediato. Não creio exagerar ao dizer que o próprio homenageado se divertiria muito ao ler essa narrativa policial que traz o vocalista do The Smiths até Curitiba na tentativa de solucionar uma série surpreendente de crimes.

Conversão é, em termos de estrutura, a mais tradicional das quatro partes desta rapsódia; a forma como o autor escolheu para abordar a questão central dessa novela – a fé –, no entanto, é inusitada e tão verossímil que certamente encontrará eco na experiência de vida de muitos leitores. Seu final é um bom exemplo de uma das principais características da literatura de Muller, um autor que oferece caminhos ao leitor, mas nunca respostas prontas; que confia na capacidade intrínseca do homem em buscar razões e preencher lacunas; que sabe usar a escrita para suscitar reflexões que vão muito além das obviedades cotidianas.

Sorry, o quarto movimento desta obra, é uma história deliciosa. Traz a voz narrativa de uma aluna da nona série, com todos os seus maneirismos e gírias, mas sem que isso ganhe tintas de exagero. É uma divertida história de amor adolescente temperada por pequenos tabus e estranhamentos, um refrigério que, ao final da rapsódia, deixa o ouvinte desejoso de conhecer mais e mais histórias cantadas por Muller.

Preciso apropriar-me desse autor intruso que surge em vários momentos deste livro para dizer que não há erros aqui – falo de ouvinte e histórias cantadas porque a música está intrinsecamente ligada a este Verão de 54. Fabrício Muller tem um texto musical, para ser lido em voz alta, e um sentido de composição e harmonia que remete aos grandes mestres daquela outra grandiosa forma de arte. Permita-se ouvir suas histórias como se as personagens estivessem vivendo cada episódio diante de seus olhos, leitor. Atesto que será um sarau particular – ou um concerto de rock – dos mais agradáveis.

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Trecho inicial de Sorry
26 de maio de 2019 at 19:58 0

Abaixo segue o trecho inicial de "Sorry", a quarta e última novela de "O verão de 54 (novelas)", a ser lançado proximamente, com prefácio do escritor, tradutor, editor, professor e conferencista Robertson Frizero.

Nona série


Segunda-feira, 4 de maio


Eu me chamo Renata e sou aluna da nona série. Aqui no Colégio a gente se senta por ordem alfabética, o que faz com que eu me sente atrás do Rafael. É o primeiro ano em que ele estuda aqui em Curitiba. Ele veio de Videira, lá onde o diabo perdeu as botas, e tem sotaque de catarinense, mas não muito. Explico: como ele morou também em Goiás o sotaque dele é meio misturado. Ele ri da minha cara cada vez que eu falo “leite”. Cariocas falam “leitch”, catarinenses não, mas, segundo o Rafael, só os curitibanos pronunciam de maneira tão ridícula o “te”. “Leite quente dá dor de dente”, é a frase que ele usa quando quer zoar o sotaque dos curitibanos. Estou tentando pensar num jeito de dar uma ideia para você, que me lê, de entender como o nosso sotaque é diferente (ridículo, segundo o Rafael), mas não tenho ideia de como fazer. Então, para você que não sabe como é o sotaque daqui, imagine uma coisa “peculiar”, que é uma expressão que meu pai usa de vez em quando. Às vezes ele vem com uma palavra muito nada a ver e eu e a minha mãe olhamos para ele como se ele fosse maluco e ele fica meio espantado, meio debochado, e acaba perguntando: “não tinha ideia de que vocês não sabiam o que (aí você coloca a palavra esquisita que meu pai falou) é”.


Tenho que ser justa com o Rafael. Ele não ri só do nosso sotaque. Ele é muito mais palhaço quando imita o sotaque do pessoal de Videira. Faz até umas caras diferentes, todo o mundo dá risada. Quando o Rafael chegou no Colégio ele, coitadinho, ainda estava meio deslocado, às vezes ficava sozinho no recreio e me partia o coração. Ainda bem que esta fase não durou muito, ele logo entrou para equipe de basquete do Colégio e agora todo o mundo gosta dele por aqui. Então. Eu preciso me concentrar, se não vem uma ideia, vem outra e daí você, que me lê, vai sair por aí falando que a “Renata se perde no meio da história”. Calma lá!

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Trecho inicial da minha novela “Morrissey”
10 de março de 2019 at 12:18 0
Morrissey - fonte: Billboard

- De jeito nenhum, delegado.

- Mas como assim, como é que você pode ter certeza?

- Tenho. Ele é um poeta, um homem estudado...

- Poetas e homens estudados não podem acreditar?

- Eu acho que não.

- Mas você sabe que a coisa não é bem assim, né?

- Eu acho que nenhum homem estudado, com talento, pode acreditar em Deus.

- Tá, vá lá, então o Morrissey não acredita em Deus e escreveu uma música chamada I have forgiven Jesus porque na verdade queria falar do seu desejo de matar alguém.

- Qualquer um pode ver isso, delegado... ah lá: Why did you give me so much desire? / When there is nowhere I can go / To offload this desire? Tá aí. Tá com desejo de matar.

- Ele disse que está com desejo de amor, é só ler a continuação da letra: And why did you give me so much love / In a loveless world / When there is no one I can turn to / To unlock all this love? Então você está dizendo que o amor que ele fala aqui é “metafórico”?

- Claro.

- Baseado exatamente no quê?

- Se fosse desejo de sexo, e aí até eu poderia aceitar, ele ia falar sexo, não amor. Ou você acha que um cara que tem tanto desejo assim de amor ia reclamar de falta de amor? Ninguém tem desejo assim de amor!

("Morrissey" é a segunda novela do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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Trecho do meu livro “Rua Paraíba”
Impressões, Obra Literária
Trecho do meu livro “Rua Paraíba”
16 de setembro de 2018 at 22:18 0
Discutimos anos e anos – desde recém-casados – quais seriam os nomes de nossos filhos. Nunca chegamos a nenhuma conclusão. Quando finalmente minha mulher engravidou, ela veio para mim e me disse que tinha certeza de que a criança seria um menino, e que o nome seria Augusto. “Ok”, respondi, “se for menina vai ser Teresa”. (...) Na ecografia em que descobrimos o sexo da Teresa o médico perguntou o nome da criança, e não tivemos nenhuma dúvida na resposta. O desenho do perfil do rosto da Teresa era bem arredondado, como o meu. É uma coisa que ainda me impressiona, esta tecnologia que nos permite ter uma ideia de como será o rosto da criança quando ela ainda está na barriga da mãe. (mais…)
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“Conversão”, meu segundo livro
Literatura, Obra Literária, Religião
“Conversão”, meu segundo livro
26 de junho de 2018 at 18:38 0
Comecei a escrever “Conversão” em 2006. Mostrei para alguns amigos, uns gostaram, e bastou um criticar para eu desistir da empreitada no meio. Depois que escrevi o meu primeiro romance, “Um amor como nenhum outro”, que está fora de catálogo já que a Editora Schoba, aparentemente, faliu, resolvi retomar o “Conversão” pouco mais de dez anos depois. Relendo o que eu tinha escrito, até que não achei tão ruim: eu queria escrever um livro que tivesse um estilo parecido com o de “Sábado”, de Ian McEwan, e que falasse de religião, e a coisa estava mais ou menos bem encaminhada.
Só que – aí é que a porca torce o rabo – eu nunca tinha tido a menor ideia de como continuar a história do médico Jorge, sua esposa Joana, e seus filhos Cecília e Paulo. E nem fazia ideia ainda de como a religião iria entrar na história. Retomando a história, enfim, fui arranjando soluções – só que o que era escrito de maneira detalhada e esmiuçada no começo de “Conversão” passou para um estilo mais parecido com o “Um amor como nenhum outro”, direto e sem firulas. E a religião, sim, entrou na história – mas de maneira totalmente diferente da que eu tinha previsto em 2006. Agora que estou fora da Intertechne e estou com mais tempo livre, resolvi retomar a publicação dos meus (muitos, eu diria) livros. Conforme comentei na entrevista para “Um amor como nenhum outro” no youtube, mandei meu primeiro romance para umas dez editoras, e não obtive nenhum sim, e praticamente nenhum não: ninguém nem quis saber de um romance escrito por um engenheiro. Teve gente que gostou, depois de publicado. Então, acabei me rendendo à autopublicação pela Amazon: meu romance curto (uma novela, na verdade) pode ser baixado, por R$ 1,99, para ler no Kindle no seguinte endereço: https://www.amazon.com.br/dp/B07F1J8DVZ… Quem não tiver o aparelho Kindle, para leitura de ebooks, pode baixar o aplicativo e ler no celular, tablet ou computador. Dá para pedir para a Amazon imprimir e mandar para cá: só que demora em torno de um mês e custa quase 17 dólares, já que deve ser mandado dos Estados Unidos para cá. O endereço de compra, neste caso, é o seguinte: https://www.amazon.com/dp/1983275298/ref=sr_1_2… Quem ler e gostar, recomenda para os amigos; os outros, para os inimigos.
 
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Crítica de Um amor como nenhum outro na Devorando Livros
Literatura, Obra Literária
Crítica de Um amor como nenhum outro na Devorando Livros
21 de agosto de 2017 at 01:26 0
"Em tempos de tanta pirotecnia literária, a simplicidade de um bom texto a contar uma boa história é cativante. Mais ainda quando se trata do romance inaugural de um escritor cujas pretensões literárias parecem modestas, mas deveriam ser bem maiores. Um amor como nenhum outro é o romance de estreia de Fabrício Muller, que sucintamente se apresenta na orelha do livro como engenheiro de formação, mestre em Engenharia Hidráulica, que se lança na literatura de ficção com esta pequena preciosidade. Falo com entusiasmo, pois há tempos não lia um romance de formação que me prendesse a ponto de mergulhar em suas cento e vinte e cinco páginas e vencê-las em um só fôlego."
(mais…)
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“Um amor como nenhum outro”, crítica n’A Escotilha
Literatura, Obra Literária
“Um amor como nenhum outro”, crítica n’A Escotilha
11 de agosto de 2017 at 11:36 0
"Quem foi adolescente na década perdida, ou nos anos seguintes, pode cair na tentação de se identificar e, com certeza, vai se encontrar como peça no jogo criado por Fabricio Muller, um ardiloso experimento sobre os pequenos fracassos que nos fazem mais fortes."
Você pode ler a crítica de Jonatan Silva sobre meu livro de estreia clicando abaixo: http://www.aescotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/um-amor-como-nenhum-outro-fabricio-muller/
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