Fabricio Muller

O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
Séries
O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
5 de maio de 2026 at 16:29 0

Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.

Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.

A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.

Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
Literatura
O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
5 de maio de 2026 at 16:13 0
Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que não tinha a menor condição de entender – os três principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, já reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles até o final da minha vida. Não importa muito, na verdade. O engraçado nesta história é que eu tinha certeza de que tinha amado, mas não lembrava de quase nada de Passeio ao Farol, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 páginas, traduzido por Lya Luft, ano de publicação original: 1927). Eu sei lá, eu achava que era um romance melancólico e bonito sobre um relacionamento amoroso próximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra. Mas não era bem assim: o livro conta a história do casal Ramsay — um filósofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa belíssima —, que passa o verão em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Escócia. Com eles, estão seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como satélites: um estudante acadêmico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matemático, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado é um dos fios condutores da primeira parte. No mínimo, é um livro de difícil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens são descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem está pensando sobre o quê e quem. A passagem do tempo é contada de maneira genial: o livro é dividido em três partes, sendo que a primeira e a última focam em dias específicos, separadas por um intervalo de dez anos que é narrado de forma acelerada e poética na parte central. O tom geral é muito melancólico e os personagens normalmente têm frustrações enormes e reprimidas – nada a ver com a lembrança que eu tinha, de uma história romântica e de beleza natural. Mas Passeio ao Farol é uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos são os detalhes que eu gostaria de rever por outro ângulo. Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que também brincam com a linguagem e a técnica literária, mas que eu nunca havia lido antes: a edição em espanhol Boquitas pintadas, de Manuel Puig (Booket, 224 páginas, ano de publicação original: 1969) e As meninas, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 páginas, ano de publicação original: 1973). Se “Passeio ao Farol” se concentra em análises de personagens cultos e reprimidos, “Boquitas pintadas” é um melodrama rasgado, contando a história do galã da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem belíssimo, mas tuberculoso. Um bom número de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante é o de uma empregada doméstica, “La Raba”, que se apaixona por um operário da construção que se torna policial, Pancho (amigo do galã supracitado). Cada capítulo é uma “entrega”, uma espécie de baú com diferentes documentos cada um: cartas, relatórios de polícia, diálogos, fofocas. A leitura de “Boquitas Pintadas” é frequentemente difícil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem “apresentados”, e pelos muitos diálogos cujos participantes nem sempre são nomeados de imediato. Mas é uma leitura divertida e autoirônica. Finalmente, “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, narra a história de três estudantes universitárias que vivem em um pensionato em São Paulo. Lorena é rica, apaixonada por um homem casado e costuma apoiar as amigas, especialmente Lia, uma jovem de origem humilde e militante da luta armada. Já Ana Clara é uma jovem belíssima, que enfrenta crises existenciais e problemas com drogas. Recomendo a todos que pretendem ler “As Meninas” que se informem sobre essas três personagens antes de começar! O romance é construído em primeira e terceira pessoas, e as transições entre os fluxos de pensamento de cada uma nunca são explícitas — é pelo estilo e pelo tipo de ideia que descobrimos quem está com a voz. Mas não se preocupem: depois de pegar o jeito, a leitura de “As Meninas” flui maravilhosamente.   Imagem obtida no Gemini Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
Ciência, História
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
26 de abril de 2026 at 11:31 0
Reinaldo José Lopes é um dos jornalistas mais interessantes da nossa imprensa. Católico praticante, ele é especialista em religião e ciência. Seu blog se chama “Darwin e Deus”, com a explicação de que é “um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas”. Ele é um ótimo exemplo de que você não precisa ser ateu ou agnóstico para tratar de assuntos de ciência em geral e evolução das espécies em particular – ele inclusive escreveu, com o youtuber e biólogo ateu Pirulla (força, menino), o livro “Darwin sem frescura”. Reinaldo também é um dos maiores especialistas brasileiros em J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, tendo traduzido diversas obras e dedicado seu mestrado e doutorado ao estudo do escritor inglês (ao contrário das outras especialidades do autor, sobre esta eu nunca tive nenhum interesse – nada é perfeito neste mundo). Apesar de acompanhar a carreira de Reinaldo José Lopes há muitos anos, finalmente li um de seus livros, chamado “1499” (uma homenagem bem-humorada aos grandes sucessos de Laurentino Gomes: “1808”, “1822” e “1889”). Como se pode imaginar, “1499” (Harper Collins) foca no ano imediatamente anterior ao Descobrimento do Brasil e se concentra nas pesquisas mais recentes sobre os povos nativos. Maior sucesso literário da carreira do jornalista, a obra venceu o Prêmio Jabuti em 2018 na categoria Humanidades. O fato de ser tão atualizado é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do livro. “1499” descortina um mundo que a grande maioria das pessoas não conhecia, com cidades enormes na Amazônia e uma infraestrutura espetacular. Embora as edificações fossem de madeira e palha (que se perderam no tempo), o desenho dessas cidades — feito com grandes movimentações de terra, valas e estradas — sobreviveu e hoje pode ser visto até do espaço. Entre outros aspectos pouco conhecidos está o fato de que a Amazônia não é uma “floresta intocada”: na verdade, a quantidade relativa de plantas úteis para o ser humano é muito maior do que seria caso a região não tivesse sido habitada por populações nativas. No livro, Reinaldo defende (baseado no consenso atual da arqueologia e da botânica) que houve um manejo consciente das plantas. Os povos indígenas praticavam a "arboricultura": eles não apenas coletavam, mas selecionavam, plantavam e limpavam o terreno para favorecer espécies como o açaí, a castanha-do-pará e o cacau. Ainda se discute a escala disso em algumas regiões específicas, mas a "floresta cultural" ou "antropogênica" é hoje considerada uma construção ativa. Embora a maior parte do estudo se concentre na Região Amazônica, “1499” ainda apresenta temas como os caminhos dos primeiros seres humanos que chegaram ao Brasil e sua origem — tanto em termos arqueológicos quanto genéticos —, o modo de adestrar as plantas, análises linguísticas e as primeiras impressões dos europeus sobre os povos originários. Como mencionei, a “fraqueza” do livro reside no fato de que muito do que se está estudando ainda se encontra em fase inicial; portanto, muitas conclusões sobre o Brasil pré-1500 são preliminares e objeto de debate entre os pesquisadores. Mas esta é a própria “fraqueza” da ciência: existem coisas que não sabemos e talvez nunca saberemos, o que pode ser frustrante. No entanto, essa limitação não impede que nos deleitemos com todo o fascinante mundo que se descortina na leitura de “1499”.
Imagem obtida no Gemini Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
De Bridgerton a A Idade Dourada: como o sistema de sinais (+ e -) torna a crítica de séries mais humana
Séries
De Bridgerton a A Idade Dourada: como o sistema de sinais (+ e -) torna a crítica de séries mais humana
17 de abril de 2026 at 12:01 0
Criei um Gem no Gemini para organizar fichas técnicas de séries, com informações detalhadas sobre direção, lançamento e formato. Nas sugestões abaixo, as fichas foram geradas pela IA, enquanto os comentários e as notas refletem a minha opinião pessoal. A ideia é compartilhar algumas dicas das séries que tenho assistido. Já tinha feito a mesma coisa aqui. Agora só mudei um detalhe: estou usando notas no esquema 1-, 1, 1+, 2-, 2, 2+, 3- e assim por diante. Segundo o Gemini: “Muitos educadores defendem que o sistema de sinais é mais humano e pedagógico:
  • Um 10- diz ao aluno: ‘Seu trabalho foi perfeito, mas houve um erro de descuido’.
  • Um 9,7 parece apenas um cálculo matemático frio. O sinal de minus (-) em uma nota alta como o 10- serve especificamente para 'puxar a orelha' de um aluno excelente, indicando que ele atingiu a nota máxima, mas não de forma impecável.”
Não sabia anteriormente desta interpretação, mas realmente para mim 10- é bem mais legal que 9,7. Mais um detalhe: nota 10, para mim, é só para Arquivo X, sobre quem comentei no meu livro “Rua Paraíba”, e para a primeira temporada de Handmaid’s Tale (obrigado, Alvaro Augusto de Almeida, pela pergunta que você me fez um tempo atrás). Pode ser que eu venha a gostar tanto de uma série quanto uma dessas duas, mas por enquanto a minha maior nota é 10- mesmo. Vamos aos textos sobre as séries: Bridgerton (2020), Bridgerton, Chris Van Dusen (Criador/Showrunner), Nicola Coughlan, Luke Newton, Julie Andrews, Adjoa Andoh, Golda Rosheuvel, EUA. 3 temporadas (8 episódios por temporada), 60 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Baseada na série de livros de Julia Quinn, a trama acompanha o competitivo mundo da alta sociedade londrina durante o período da Regência, focando nos dramas românticos dos oito irmãos da família Bridgerton. A série é amplamente elogiada por sua abordagem moderna de dramas de época, trilha sonora com covers pop e elenco diversificado. A primeira temporada foi um fenômeno global; a segunda manteve o sucesso com o romance "enemies to lovers"; e a terceira temporada consolidou a popularidade da franquia ao focar na história de Colin e Penelope.
  • Comentário: A série apresenta muitos personagens negros na alta nobreza na Inglaterra do séc. XIX, o que obviamente não corresponde à realidade. Mas não teria sido bem melhor se essa praga do racismo já tivesse acabado naquela época? Enfim, a história da família Bridgerton é linda – todas as famílias deveriam ser assim como esta, com muito amor e companheirismo. Seria bem melhor assim também, não é?
  • Nota: 9-
  A Idade Dourada (2022), The Gilded Age, Michael Engler e Salli Richardson-Whitfield (Diretores), Carrie Coon, Morgan Spector, Christine Baranski, Cynthia Nixon, EUA. 2 temporadas, 8 episódios, 60 minutos. Max (HBO).
  • Resumo e recepção: Ambientada na Nova York de 1880, a série explora o conflito social entre o "dinheiro antigo" das famílias tradicionais e o "dinheiro novo" dos magnatas das ferrovias em ascensão. A recepção crítica foi amplamente favorável, destacando o figurino impecável, a cenografia luxuosa e as atuações de peso, especialmente de Christine Baranski e Carrie Coon. A segunda temporada foi considerada ainda melhor por aprofundar as tensões políticas e sindicais da época.
  • Comentário: Enquanto assistia a esta série, ficava o tempo todo me perguntando como tudo podia ser tão perfeito: personagens, histórias, figurino, atores. Extraordinária é pouco.
  • Nota: 10- (olha aí)
  Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton (2023), Queen Charlotte: A Bridgerton Story, Tom Verica (Diretor), India Amarteifio, Corey Mylchreest, Arsema Thomas, Golda Rosheuvel, EUA. 1 temporada, 6 episódios, 60 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Esta prequela foca na ascensão da jovem Rainha Charlotte ao poder e seu casamento com o Rei George III. A recepção crítica foi extremamente positiva, com muitos considerando-a superior à série principal devido ao seu roteiro mais maduro, focado em temas como saúde mental e o peso do dever. As atuações de Amarteifio e Mylchreest foram muito elogiadas pela química e profundidade emocional.
  • Comentário: Rainha Charlotte tem muitas personagens de Bridgerton e conta histórias que, basicamente, não são citadas na série-mãe. E a qualidade é a mesma.
  • Nota: 8+
  Adolescência (2025), Adolescence, Philip Barantini (Diretor), Stephen Graham, Owen Cooper, Ashley Walters, Erin Doherty, Reino Unido. 1 temporada (minissérie), 4 episódios, 35-45 minutos. Netflix.
  • Resumo e recepção: Criada por Stephen Graham e Jack Thorne, a série narra a angústia da família Miller após Jamie, um garoto de 13 anos, ser preso pelo assassinato de uma colega de escola. A produção é considerada uma obra-prima técnica por ter sido inteiramente filmada em planos-sequência (sem cortes), o que intensifica o realismo e a tensão emocional. Foi elogiada por sua abordagem crua sobre saúde mental e violência juvenil.
  • Comentário: Já assisti há algum tempo a esta série e, na época, a achei meio exagerada. Depois do caso Orelha e do zoossadismo no Discord, já não sei mais. Tecnicamente, é um deslumbre (os episódios não têm cortes).
  • Nota: 9+
  O Testamento: O Segredo de Anita Harley (2025), O Testamento: O Segredo de Anita Harley, Pedro Bial (Diretor/Criador), Brasil. 1 temporada, 4 episódios, 45 minutos. Globoplay.
  • Resumo e recepção: A série documental investiga a complexa disputa judicial e familiar em torno da fortuna de Anita Harley, ex-controladora do grupo Pernambucanas. A produção explora as revelações sobre seu testamento biológico, a existência de um suposto filho e os bastidores de uma das maiores brigas sucessórias do Brasil. Foi elogiada pela profundidade da investigação e pela ética ao abordar temas como direitos individuais e herança.
  • Comentário: Ótima série documental, um caso importante e bizarro.
  • Nota: 8+
  A Vida Sexual das Universitárias (2021), The Sex Lives of College Girls, Mindy Kaling e Justin Noble (Criadores), Pauline Chalamet, Amrit Kaur, Reneé Rapp, Alyah Chanelle Scott, EUA. 3 temporadas, 10 episódios, 30 minutos. Max (HBO).
    • Resumo e recepção: A série acompanha quatro colegas de quarto no prestigiado Essex College, em Massachusetts, enquanto navegam pelas novas liberdades e desafios acadêmicos. A recepção crítica foi extremamente positiva, sendo elogiada por seu roteiro ágil e pela química autêntica entre as protagonistas. É considerada uma das produções mais autênticas sobre a experiência universitária feminina contemporânea.
    • Comentário: Com um clima de Sessão da Tarde picante, a série conta a amizade entre quatro universitárias sexualmente ativas. É interessante notar que um dos meus livros preferidos, A História Secreta, de Donna Tartt, também se passa em uma universidade fictícia na Nova Inglaterra (no caso do livro, em Vermont). A série brinca o tempo todo com clichês: os rapazes musculosos normalmente são bons alunos, os nerds tendem a ser antipáticos e as patricinhas são boas companheiras. Mas o que fica mesmo é a forte amizade entre elas: a vida deveria ser sempre assim, né?
  • Nota: 8+
  Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
Amo o vídeo, não sigo o artista – Por que não preciso ser fã de Jay-Z ou Wiz Khalifa para reconhecer quando uma batida e uma câmera criam algo imbatível
Música
Amo o vídeo, não sigo o artista – Por que não preciso ser fã de Jay-Z ou Wiz Khalifa para reconhecer quando uma batida e uma câmera criam algo imbatível
12 de abril de 2026 at 12:22 0

Gosto muito de vídeos de música. Para relaxar, normalmente antes de dormir, vejo alguns videoclipes com frequência. O mais comum é eu assistir a alguma coisa de gente a quem estou sempre voltando, como Bones, Nirvana, Morrissey, Mgla, Radiohead e The Weeknd — os de sempre.

Mas tem alguns clipes que eu amo de gente de quem eu basicamente desconheço o restante da obra, seja por preguiça de conhecer, seja por não ter gostado das poucas coisas que conheci do artista. Seguem adiante seis videoclipes de que gosto muito, de músicos que eu não acompanho e/ou não conheço o restante da obra – pode ser que depois eu faça uma segunda parte deste texto, mas não sei ainda. Os títulos são reproduções dos do YouTube e, clicando neles, é possível acessar o vídeo mencionado.

Destiny’s Child - Soldier ft. T.I., Lil’ Wayne: sempre que tentei ouvir alguma coisa de Beyoncé não gostei, mas essa música em que ela canta no seu grupo de origem, o Destiny’s Child, ainda com o auxílio luxuoso de T.I. e Lil’ Wayne, é arrasadora. Uma batida hipnótica, uma dança excelente, muita gente se divertindo. Não preciso de mais nada.

JAŸ-Z - 99 Problems: o marido da Beyoncé é outro que nunca me agradou, não sei bem por quê. Mas essa música em que ele canta sobre uma base com guitarras criada pelo lendário produtor Rick Rubin (produtor de gente como os Beastie Boys e o System of a Down) é sensacional. E o clipe todo, em preto e branco, é perfeito. Bobby Shmurda - Hot N*gga (Official Music Video): este vídeo ajudou a polícia a prender o rapper, já que ele conta, na letra, as peripécias ilegais de todos os companheiros de gangue, apontando cada um deles neste clipe caótico – e, reconheço, assustador. Mas Hot Ngga* fez tanto sucesso quando do seu lançamento que até a Beyoncé (ela de novo) imitou a dança de Bobby Shmurda neste vídeo. Timbaland - Give It To Me (Official Music Video) ft. Nelly Furtado, Justin Timberlake: os três astros deste clipe nunca me impressionaram, embora eu tenha gostado do primeiro álbum de Nelly Furtado, que foi um sucesso fenomenal de crítica. Mas os três juntos em Give It To Me conseguiram fazer um combo perfeito: batida matadora, vocais e expressões debochados (a letra é toda uma provocação contra um produtor rival que fez menos sucesso que eles), a beleza e as roupas da cantora... não tem nada que não leve um 10 com louvor em Give It To Me. Wiz Khalifa - Black And Yellow [Official Music Video]: estava no carro dirigindo para a Teresa e uns amigos, coloquei esta música no aparelho de som e todos cantaram a letra de cor! Mas Black And Yellow merece todo o sucesso que fez. A batida épica, o lindo filtro do vídeo, que deixa as cores meio apagadas, as cores preta e amarela em todos os detalhes, o povo todo no vídeo – e os ouvintes e espectadores junto – se divertindo. Acho que não precisa de mais. Durutti Column “Never Known”: comprei o disco, chamado LC, em que esta maravilha saiu ainda nos anos 1980. Não gostei muito das outras canções, mas Never Known sempre me impressionou com a capacidade que tem de me levar a ambientes psicológicos de profunda tristeza e beleza (eita). Quando assisti ao videoclipe, não muitos anos atrás, percebi meio espantado como as imagens, em VHS, parecem as do Bones, rapper contemporâneo sobre quem estou cansado de comentar aqui. Aliás, o vídeo e a música de Air, o segundo de Bones que eu ouvi, lembram muito esta maravilha. E olha que o Durutti Column é uma banda de rock, e não de rap!
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google Link para o Substack
Leia mais +
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
5 de abril de 2026 at 09:55 0

O grupo guerrilheiro alemão Baader-Meinhof, formalmente conhecido como Fração do Exército Vermelho (RAF), estruturou-se em três “gerações”:

  1. A geração dos fundadores: Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin. Esta é a fase mais célebre do grupo e encerrou-se com o suicídio coletivo dos três em 1977, na prisão de Stammheim.
  2. A segunda geração: Surgiu com o intuito de libertar os líderes da primeira geração, presos em 1972. Esta fase culminou no “Outono Alemão” de 1977, com o sequestro e assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer e o desvio do voo Landshut da Lufthansa. Os principais expoentes desta fase foram Siegfried Haag, Brigitte Mohnhaupt e Christian Klar.
  3. A terceira geração: Ao contrário das anteriores, esta foi a mais enigmática. Seus membros levavam vidas aparentemente normais e executaram atentados de precisão cirúrgica, como o assassinato de Alfred Herrhausen, chefe do Deutsche Bank, em 1989. O grupo dissolveu-se formalmente em abril de 1998, enviando um comunicado à imprensa declarando que “a guerrilha urbana sob a forma da RAF agora é história”.
Li recentemente a edição em inglês do extraordinário Baader-Meinhof: The Inside Story of the R.A.F., de Stefan Aust (460 páginas, tradução de Anthea Bell, Oxford University Press). Publicado originalmente em 1985, o livro detalha a gênese do grupo e o início da segunda geração. Aust, que era colega de redação da jornalista (e futura terrorista) Ulrike Meinhof, insere passagens em primeira pessoa, como o relato de quando resgatou as filhas dela — Regine e Bettina — de um acampamento na Sicília para devolvê-las ao pai. Essa trajetória é retratada no filme O Grupo Baader-Meinhof (2008), baseado na obra de Aust.

É possível assistir no YouTube ao documentário em seis partes The Red Army Faction (2017), dirigido por Anne Éven e Christopher Gerisch. Falado em alemão com legendas em inglês, a produção é espetacular, apresentando imagens de arquivo notáveis e conferindo importância equivalente às três gerações do movimento.

A República Democrática Alemã (RDA/DDR) — a face comunista da Alemanha dividida — ofereceu suporte estratégico à RAF. O regime não apenas forneceu apoio logístico e financeiro, como também serviu de refúgio, garantindo emprego e moradia a militantes que desejavam abandonar a luta armada. Com a Reunificação Alemã em 1990, foi relativamente simples para o novo governo identificar esses ex-membros, uma vez que a lista de cidadãos da Alemanha Ocidental que haviam obtido asilo no Leste era extremamente curta. Esse panorama, explorado no documentário supracitado, despertou meu interesse por Stasilândia: Histórias por Trás do Muro de Berlim, de Anna Funder (376 páginas, tradução de George Schlesinger, Companhia das Letras). Escrito no estilo do New Journalism, o livro é narrado em primeira pessoa (descrevendo inclusive histórias do cotidiano da autora na Alemanha, como uma hilária visita a uma piscina pública) e resgata o cotidiano na antiga RDA através de entrevistas com vítimas e defensores do regime. Embora o tom das memórias seja sombrio, a leitura é fascinante e transformou a extinta DDR em um dos meus “interesses estranhos” — ao lado do Período Permiano, do Império Wari ou do Papado de Avignon. Aguardem novos textos sobre este país que não existe mais.

Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.

Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.

Leia mais +
Por que ainda precisamos do mistério
Ciência, História, Literatura
Por que ainda precisamos do mistério
29 de março de 2026 at 10:04 0

Leitura sugerida por amigos, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de Janaína Marcoantonio), é uma obra de narrativa ágil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajetória da espécie humana, desde as origens na África até a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previsões audaciosas para o futuro.

Algumas teses defendidas por Harari são notáveis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot não “existe” no mundo físico; seria uma abstração, um mito jurídico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as fábricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas físicas permaneceriam, mas a “Peugeot” desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de “ordens imaginadas” aos países, ao dinheiro e ao próprio capitalismo: seriam construções intersubjetivas aceitas coletivamente.

Outros pontos são igualmente instigantes, como a análise de como o crédito moderno viabilizou a Revolução Industrial e o progresso técnico, ou como as religiões permitiram a cooperação de grupos humanos em escalas muito superiores às comunidades primitivas.

Contudo, compartilho do incômodo de muitos críticos em relação à obra, especialmente em um ponto central. A cientista alemã Sabine Hossenfelder defende que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus não existe ou que não há vida após a morte, ele deixa de fazer ciência para praticar teologia. De forma irônica, ela comenta que aqueles que usam o método científico para “provar” a inexistência do divino deveriam ser livres para “praticar sua religião”, mas ressalta: “Quero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica possível é ‘nós não sabemos’”. Para Hossenfelder — que é agnóstica —, a ciência carece de elementos para refutar o que está além do plano empírico. É precisamente essa postura que me incomoda em Sapiens. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a dúvida; ele faz afirmações peremptórias em temas que exigem o contraditório. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com reverência sobre o “mistério” da existência e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplicável — como a improvável ascensão de religiões como o Cristianismo e o Islã — ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua visão, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista. Em contrapartida à ausência de mistérios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de Escrever é muito perigoso (Todavia, 2019), descreve a própria criação literária como um processo misterioso. Para ela, as palavras e histórias parecem surgir “do nada”, como se os livros já estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, não sei a origem exata das histórias que escrevo. A sensação de que a obra preexiste ao ato de escrever é um mistério que a frieza dos acasos de Harari não consegue alcançar.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
Música
As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
22 de março de 2026 at 08:56 0

Eu achei que seria fácil fazer uma lista das dez melhores músicas de Selena Gomez, mas que ideia a minha. Só de pensar na lista das coisas que ficaram de fora — como Lose You To Love Me, Sunset Blvd, Bad Liar e Scared of Loving You — já sinto uma certa melancolia. Mas eu gosto de listas; é quase impossível não sentir essa ambivalência entre o que entra e o que sobra em cada seleção feita.

Por sorte (ou por escolha inconsciente), todas as faixas escolhidas possuem videoclipes. Na lista a seguir, os links para os vídeos estão nos títulos:
  1. In the Dark: A artista cantando sozinha na penumbra cria um clima sofisticado e sombrio ao mesmo tempo. “Você é tão lindo no escuro”, diz a letra para alguém que ela conhece mais do que a própria pessoa conhece a si mesma.
  2. Come & Get It: Um dos grandes sucessos de Selena, no qual ela canta: “A luz para a minha escuridão, me ajude a enxergar”. A escuridão, de novo. O clipe, com danças indianas, alterna entre noite e dia em um bom contraste visual.
  3. I Want You To Know (com Zedd): Ela e um duplo (?) sangram a mesma luz e correm a mesma corrida. No clipe, enquanto Selena se entrega à dança na pista, o criador desta EDM inesquecível, Zedd, aparenta uma seriedade protetora para com ela.
  4. Wolves (com Marshmello): Uma EDM mais pop com uma melodia marcante. Traz uma das mais belas letras já interpretadas por ela (“Nos seus olhos, há uma tristeza profunda / Um para amar e outro para perder / Doce divindade, uma verdade pesada / Água ou vinho, não me faça escolher”).
  5. Back to You: Um videoclipe primoroso, esteticamente influenciado pela Nouvelle Vague francesa, para uma música de fôlego.
  6. Love On: Uma homenagem vibrante à França em um clipe divertidíssimo.
  7. Call Me When You Break Up (com benny blanco e Gracie Abrams): Ao contrário das superproduções habituais de Selena, os clipes de Gracie Abrams costumam ser íntimos – neles, ela frequentemente está em casa e de pijama; aqui, as duas conversam na cama como amigas adolescentes falando dos namorados. A música é solar e de alto astral.
  8. 999 (com Camilo): Gravado em 2021, durante a pandemia, tanto a música – suave e deliciosa – quanto o clipe – com lindas cores berrantes e artificiais – foram feitos com os cantores separados. Na letra ela diz: “Já procurei na internet pra ver se isso é normal / Se sentir tão bem e, às vezes, tão mal / Querer te beijar sem poder te beijar / Te tocar sem poder te tocar”.
  9. The Heart Wants What It Wants: Um clipe lancinante sobre a humilhação do amor não correspondido. Na abertura, ela desabafa sobre como a confiança em si mesma pode ser destruída por apenas uma coisa.
  10. Dance Again: Selena Gomez dança sozinha no clipe desta música, lançada logo no início da pandemia.

Recentemente fiz um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey, não custa fazer mais um. O cantor inglês lançou agora, em março de 2026, o álbum Make-up is a Lie. Seguem minhas faixas preferidas:
  1. The Monsters of Pig Alley: Tão bela quanto as grandes baladas solo de Morrissey, como Lost ou Life is a Pigsty (que, curiosamente, também faz referência a porcos no título — “alameda dos porcos” vs. “chiqueiro”).
  2. Boulevard: Uma letra sombria (”Andando como se tivesse as duas pernas quebradas”) envolta em uma melodia lenta, bem ao estilo dos seus trabalhos mais recentes.
  3. You’re Right, It’s Time: Uma faixa de abertura impactante, que gruda na memória.
  4. Headache: Morrissey canta quase em sussurros nesta canção onde a “dor de cabeça” é tratada como um cônjuge indesejado: “Do you take this headache to be your amour?”.
  5. Lester Bangs: Uma belíssima homenagem àquele que é considerado maior crítico do rock (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque eles pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias / Mas ah, quando você levanta a caneta / Para escrever sobre Roxy Music e os Dolls / O Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”).
  Para terminar o texto, mais um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey: se o clipe de Love On é uma ode à França, à sua cultura e à sua liberdade sexual, ao menos três faixas de Make-up is a Lie citam o país. A faixa-título (”Eu me encontrei em Paris”), Notre-Dame (sobre o incêndio na catedral) e The Monsters of Pig Alley. “Pig Alley” era o apelido dado por soldados à região de Pigalle, em Paris, famosa pela vida noturna e pelo Moulin Rouge.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +