Fabricio Muller

O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 at 11:13 0

Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin.

Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967.

O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária.

O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema.
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Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
Séries
Dicas de Séries: Fichas Técnicas e Impressões Pessoais
26 de dezembro de 2025 at 14:19 0
Criei um "Gem" no Gemini para organizar fichas técnicas de séries, com informações detalhadas sobre direção, lançamento e formato. Nas sugestões abaixo, as fichas foram geradas pela IA, enquanto os comentários e as notas refletem a minha opinião pessoal. A ideia é compartilhar algumas dicas do que tenho assistido.
Morrendo por Sexo (2025)
  • Título original: Dying for Sex
  • Direção: Leslye Headland, Chris Teague, Shannon Murphy
  • Elenco: Michelle Williams, Jenny Slate, Rob Delaney
  • País: EUA
  • Formato: Minissérie (1 temporada) | 8 episódios (média de 31 min.) | Disney+
Resumo e recepção: Esta minissérie de comédia dramática é livremente baseada nas experiências reais de Molly Kochan. A trama foca em Molly (Michelle Williams), diagnosticada com câncer de mama metastático em estágio terminal. Frustrada com seu casamento e percebendo que nunca teve um orgasmo, ela decide deixar o marido. Com o incentivo de sua melhor amiga, Nikki (Jenny Slate), Molly embarca em uma jornada de autodescoberta e liberdade sexual enquanto encara a finitude da vida. A crítica elogiou a mistura de humor negro e sensibilidade, destacando a atuação de Michelle Williams.
  • Comentário: Tensa, erótica e divertida — tudo ao mesmo tempo.
  • Nota: 9

Diário de uma Garota que Coleciona Foras (2025)
  • Título original: Halva Malmö består av killar som dumpat mig
  • Direção: Emma Bucht e Susanne Thorson
  • Elenco: Carla Sehn, Moah Madsen e Ingela Olsson
  • País: Suécia
  • Formato: 1 temporada | 7 episódios (30 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Baseada no livro de Amanda Romare, a série acompanha Amanda, uma mulher de 31 anos em Malmö que, após um incidente embaraçoso, decide mudar sua sorte no amor e enfrentar uma maratona de encontros desastrosos. A produção foi recebida como uma comédia ácida e autêntica sobre a vida adulta moderna, sendo elogiada pela atuação carismática de Carla Sehn e pela forma como subverte os clichês das comédias românticas tradicionais. A crítica destacou positivamente o "humor escandinavo" seco e a dinâmica de amizade feminina, embora alguns tenham apontado certa previsibilidade no formato de "encontro da semana".
  • Comentário: Bem leve e divertida.
  • Nota: 8

Sexify (2021)
  • Título original: Sexify
  • Direção: Kalina Alabrudzińska e Piotr Domalewski
  • Elenco: Aleksandra Skraba, Maria Sobocińska, Sandra Drzymalska
  • País: Polônia
  • Formato: 2 temporadas | 8 episódios por temporada (45-50 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Natalia, uma estudante de tecnologia brilhante, mas sem experiência sexual, decide criar um aplicativo para otimizar o orgasmo feminino. Ao lado de suas amigas Paulina e Monika, ela mergulha no mundo das startups e do empoderamento. Frequentemente comparada a Sex Education, a série foi elogiada pelo frescor e pela química do trio principal.
  • Comentário: Gostei muito; o trio de protagonistas é espetacular. A história tem algumas reviravoltas um tanto sem sentido, mas, no geral, é uma ótima série. O uso de cores vibrantes na maioria das cenas me agradou bastante.
  • Nota: 8

A Imperatriz (2022)
  • Título original: Die Kaiserin
  • Direção: Florian Cossen e Katrin Gebbe
  • Elenco: Devrim Lingnau, Philip Froissant, Melika Foroutan
  • País: Alemanha
  • Formato: 2 temporadas | 6 episódios por temporada (55-60 min.) | Netflix
Resumo e recepção: Focada nos anos iniciais de Elisabeth "Sissi" da Baviera e seu casamento com o Imperador Francisco José I, a série explora as intrigas da corte de Viena no século XIX. Vencedora do Emmy Internacional de Melhor Série Dramática, a produção se destaca pelo figurino luxuoso e pela estética visceral.
  • Comentário: Série excelente, com ótimas atuações.
  • Nota: 9

Sissi (2021)
  • Título original: Sisi
  • Direção: Sven Bohse e Andy Fetscher
  • Elenco: Dominique Devenport, Jannik Schümann, Désirée Nosbusch
  • País: Alemanha/Áustria
  • Formato: 4 temporadas | 6 episódios por temporada (50-60 min.) | A Globoplay tem a segunda temporada, e o canal português RTP tem as três primeiras, mas é preciso ter um VPN. O canal australiano SBS tem as quatro temporadas com legendas em inglês, também precisa de VPN, mas a conexão está muito ruim - por isso não assisti ainda. 
Resumo e recepção: Uma abordagem moderna e provocante sobre a monarca austríaca, focada em seu despertar sexual e político. Enquanto a crítica se dividiu pelas liberdades históricas, o público a transformou em um sucesso. A quarta temporada (2024) encerra a saga com Sissi retornando à Baviera para confrontar segredos do passado.
  • Comentário: Tão boa quanto A Imperatriz e um pouco mais erótica (embora a primeira também não tenha nada de pudica). Ainda não assisti à quarta temporada, por dificuldade de acesso. É interessante notar como os fatos históricos diferem em detalhes entre as duas produções; talvez valha a pena ler uma biografia para distinguir realidade de ficção.
  • Nota: 9

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Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
Cinema
Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
21 de dezembro de 2025 at 12:17 0
Em 2025, li muito menos que o meu normal, mas compensei isso assistindo a muitos filmes. Seguem os vinte de que mais gostei, em ordem de preferência — alguns contêm links que se referem a textos meus escritos anteriormente.
  1. A Outra Terra (Another Earth) Este filme americano de 2011, dirigido por Mike Cahill, tem 92 minutos de duração. A trama de ficção científica acompanha Rhoda Williams, uma jovem estudante de astrofísica que busca redenção após causar um acidente fatal, ao mesmo tempo em que o surgimento de um planeta duplicado ("Terra 2") oferece a perspectiva de uma segunda chance. Um filme maravilhoso e pouco conhecido, que parece um sonho.
  2. Bacurau Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, este filme brasileiro/francês foi lançado em 2019 e tem 131 minutos. A história narra a luta violenta pela sobrevivência da pequena comunidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, após seus moradores descobrirem que o vilarejo desapareceu dos mapas e está sob ataque de mercenários estrangeiros. Claramente inspirado em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, esta obra prova que uma obra-prima pode influenciar outra.
  3. Os Canibais (The Farm) Com 80 minutos de duração, este filme de survival horror americano de 2018 foi dirigido por Hans Stjernswärd. A trama segue um jovem casal sequestrado e mantido em cativeiro em uma fazenda isolada, onde são tratados como animais de criação. É, provavelmente, o filme mais assustador a que já assisti.
  4. Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone) Dirigido por Robert Allan Ackerman, este filme americano de 2003 tem 99 minutos. Baseado em um romance de Tennessee Williams, conta a história de uma atriz americana de meia-idade que, após a morte do marido, se envolve com um jovem gigolô italiano em Roma, mas a trama não se desenvolve como se espera, o que faz a força do filme.
  5. V/H/S/85 Esta antologia de terror found footage é uma coprodução entre EUA e México, lançada em 2023, com 110 minutos de duração. A narrativa se desenrola através de um documentário fictício que revela cinco contos arrepiantes com a estética da década de 1980. Os segmentos interligados "No Wake" e "Ambrosia", dirigidos por Mike P. Nelson, são tão espetaculares que deveriam ser expandidos para longas-metragens — e não sou só eu quem pensa assim.
  6. X - A Marca da Morte (X) Este slasher de terror de 2022, dirigido por Ti West, tem 105 minutos. A trama acompanha um grupo de cineastas amadores que tenta gravar um filme adulto em uma fazenda isolada no Texas, mas se torna alvo de anfitriões idosos e assassinos. Reúne gore, erotismo, intensidade e a excelente Mia Goth.
  7. Kill Bill: Volume 1 e 2 (Kill Bill: Vol. 1 & 2) Filmes de Quentin Tarantino lançados em 2003 e 2004, com cerca de 248 minutos de duração total. Com Uma Thurman e grande elenco, a obra segue a assassina Beatrix Kiddo em uma jornada que mistura artes marciais e faroeste. Celebrada como o épico de vingança definitivo de Tarantino, só agora assisti a esta obra-prima. "Antes tarde do que mais tarde", como diz minha filha Teresa.
  8. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar) Lançado em 2019 e dirigido por Ari Aster, tem 147 minutos de duração. O filme acompanha um casal em um festival sueco de solstício de verão que ocorre a cada 90 anos, mas a celebração se torna um pesadelo de rituais pagãos. Pareciam hippies, mas não eram: a luminosidade extrema desta obra-prima deixa tudo mais bonito e muito mais perturbador.
  9. Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape) Este drama de 1989, dirigido por Steven Soderbergh, tem 100 minutos. A trama explora a vida de quatro pessoas cujos segredos e insatisfações sexuais afloram após a chegada de um homem que grava entrevistas sobre fantasias íntimas. Um filme profundo e carinhoso com os seus personagens.
  10. Swingers: Os Limites do Amor (Hranice Lásky) Dirigido por Tomasz Winski, este filme tcheco de 2022 tem 95 minutos. Acompanha um casal que decide explorar a não-monogamia e o swinging, testando os limites do amor e do ciúme. Parece libertário, mas não é.
  11. Barbie Esta sátira de 2023, dirigida por Greta Gerwig, tem 114 minutos. Barbie e Ken deixam a Barbielândia para visitar o Mundo Real, onde descobrem realidades sobre gênero e patriarcado. Um filme delicioso e divertido que levanta questões profundas, embora pudesse ter meia hora a menos.
  12. Um Lugar Secreto (John and the Hole) Filme de Pascual Sisto (2021) com 103 minutos. Conta a história de John, um garoto de 13 anos que prende a sua família num bunker inacabado no quintal de casa. Além de parecer um sonho sinistro, possui uma história paralela sobre uma menina abandonada que torna tudo ainda mais perturbador.
  13. Os Imorais (The Grifters) Dirigido por Stephen Frears, este noir de 1990 tem 119 minutos. Três vigaristas profissionais mergulham no submundo do crime e da traição em Los Angeles. Ainda pretendo comentar aqui sobre este e outros filmes neo-noir da década de 1990 e as suas cores maravilhosas.
  14. Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2 Esta obra de Lars von Trier (2013) tem 241 minutos no total. Desenrola-se a partir dos relatos de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca, sobre as suas experiências. Alta cultura e vício em uma obra-prima perturbadora.
  15. O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex) Drama histórico de 2008 dirigido por Uli Edel, com 149 minutos. Narra a ascensão e queda da Fração do Exército Vermelho (RAF) na Alemanha Ocidental. É fiel ao livro de Stefan Aust; a semelhança da atriz que interpreta Gudrun Ensslin com a verdadeira terrorista é impressionante.
  16. A Maldição da Ponte (The Bridge Curse) Terror taiwanês de 2020 dirigido por Lester Hsi. Estudantes decidem testar o mito de uma ponte assombrada em uma transmissão ao vivo. Meus sonhos e pesadelos parecem-se com este filme.
  17. O Agente Secreto Thriller político de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, com 158 minutos. Ambientado no Recife de 1977, foca na vigilância e repressão da ditadura militar. Quase tão bom quanto Bacurau.
  18. Anora Comédia dramática de Sean Baker (2024) com 138 minutos. Uma stripper do Brooklyn casa-se impulsivamente com o filho de um oligarca russo. Embora eu sempre torça pelo Brasil, reconheço que Anora é superior a Ainda Estou Aqui.
  19. Ligadas pelo Desejo (Bound) Thriller neo-noir de 1996 dirigido pelas irmãs Wachowski. Foca no romance entre uma ex-presidiária e a namorada de um mafioso, que planejam um roubo milionário. Outra obra-prima que pretendo detalhar em breve.
  20. O Babadook (The Babadook) Filme de Jennifer Kent (2014) com 94 minutos. Uma viúva enfrenta o medo do filho de um monstro infantil, que serve como metáfora para o luto. Um filme assustador de verdade.
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
14 de dezembro de 2025 at 13:55 0
“O Grupo Baader-Meinhof” (Alemanha/França/República Tcheca, 2008, 150 min) é um filme dirigido por Uli Edel e estrelado por Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu e Johanna Wokalek. A obra narra a história da “primeira geração” do grupo terrorista alemão, composta por Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Ulrike Meinhof. O filme é baseado em “Der Baader-Meinhof Komplex”, de Stefan Aust, publicado em 1985 e considerado um dos melhores livros sobre o tema. É interessante como algumas cenas do livro são fielmente reproduzidas no filme. Posso citar a tensão — cultural e disciplinar — entre terroristas palestinos e os ativistas alemães, que ficavam nus — homens e mulheres juntos — em público durante um treinamento militar na Jordânia. Outra cena marcante é a de Andreas Baader dando de presente seu casaco de couro para um terrorista recém-chegado, só porque o novato havia gostado da peça. O filme é excelente, mantendo a tensão o tempo todo e com atuações extraordinárias. A semelhança entre Johanna Wokalek, a atriz que interpreta Gudrun Ensslin, e a própria terrorista é tão grande que chega a ser assustadora. Ensslin era namorada de Andreas Baader e era mais importante dentro do grupo do que Ulrike Meinhof, apesar de o nome desta última compor o título popular do grupo, que era oficialmente chamado de Rote Armee Fraktion (RAF).

Nestas pesquisas sobre a Alemanha dos anos 1970, acabei tendo a sorte de encontrar, como propaganda principal da Prime Video, o filme de 2024/2025, “Setembro 5”, dirigido por Timur Bekmambetov (Alemanha/EUA - 94 min). O filme se concentra na transmissão esportiva da rede americana ABC durante o Massacre de Munique em 1972, o ataque terrorista a atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos. “Setembro 5” é filmado como se fosse uma película dos anos 1970, e o cuidado com a reprodução da tecnologia daquela época é espetacular. Os técnicos da rede americana ABC tinham que lutar pelo único satélite disponível para os Estados Unidos; muitas informações eram obtidas por uma rádio local – e apenas uma tradutora (vivida pela atriz Lena Urzendowsky) conseguia traduzir para os americanos o que se dizia. Havia também uma dificuldade gigantesca em transportar as enormes câmeras para os locais onde o atentado estava ocorrendo, e assim por diante. Fascinante. Existia sim uma relação entre os terroristas palestinos, do grupo Setembro Negro, que assassinaram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972, e os terroristas alemães. Essencialmente, o Baader-Meinhof atuava como uma célula de apoio local para o Setembro Negro em solo alemão, baseada na convicção de que todos estavam lutando contra o mesmo sistema ocidental. Conforme discutido anteriormente, inclusive, os ativistas alemães fizeram treinamento militar com os palestinos na Jordânia. Para corroborar este fato, uma das principais reivindicações do Setembro Negro era a libertação de centenas de prisioneiros palestinos detidos em Israel. Crucialmente, eles também exigiram a libertação de líderes da RAF, como Andreas Baader e Ulrike Meinhof, que estavam presos em cadeias alemãs.

Também foi uma sorte ter encontrado na Prime Video o anúncio de “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” (1981, Alemanha Ocidental - 131 min), baseado no livro de mesmo nome. A história da garota de classe média que se vicia em heroína na Berlim Ocidental dos anos 1970 e acaba se prostituindo para sustentar o vício resultou num dos livros mais importantes que li na vida: eu era adolescente e fiquei tão assustado com o relato – e as fotos – da obra que tenho certeza que esta leitura me tirou toda e qualquer vontade de usar drogas ilícitas, até hoje. Mas nunca tinha visto o filme, ao qual só assisti agora. Como todos os citados neste texto, ele é extraordinário, com ótimas atuações e tensão do início ao fim. Pode-se argumentar que o que conecta as histórias de Christiane F. e do Baader-Meinhof é o desespero de uma juventude que se sentia isolada e sem futuro, seja encontrando sentido na revolução ou no vício. Tenho minhas ressalvas em relação a esta teoria, dados os problemas que muitas pessoas enfrentam com o uso abusivo de drogas, seja na Berlim dos anos 1970 ou em muitos outros lugares e épocas. Mas há sim algumas relações inequívocas entre as duas obras: no filme de 1981, a cena da primeira relação entre Christiane F. e seu namorado Detlev ocorre num quarto onde, com grande destaque, aparece o famoso pôster de “Procura-se” da polícia alemã com a foto do rosto de Ulrike Meinhof. Mais do que isso, o alemão Uli Edel é o diretor dos dois filmes! Não tem como não dizer que as histórias trágicas do grupo Baader-Meinhof e de Christiane F. não estão relacionadas.
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A Mulher de César – Uma jornada por contos, poesias e a liberdade criativa
Obra Literária
A Mulher de César – Uma jornada por contos, poesias e a liberdade criativa
6 de dezembro de 2025 at 13:50 0
Meu livro de contos e poesias, “A mulher de César”, já está disponível para compra neste link: https://www.amazon.com.br/dp/B0FWKR346J.  Como é impresso nos Estados Unidos, o preço do impresso está bem salgado, mas se você entrar em contato comigo por aqui ou pelo e-mail fabriciomuller60@gmail.com eu consigo mandar uma cópia para você pelo preço de custo, 70 reais. Quem quiser ler na versão Kindle pode comprar por R$ 24,99 neste link. O prefácio do livro, abaixo, entrega bastante sobre o conteúdo, e já postei alguns textos dele aqui. Não digam que não foram avisados. *** Chamem de mania (ou TOC), mas por um longo tempo minha obra literária – fora o que escrevo no site fabriciomuller.com.br, composto de comentários sobre literatura, música, cinema e outros assuntos – tinha textos de aproximadamente cinquenta páginas no formato A4. Assim foram compostos minha obra de estreia, “Um amor como nenhum outro”, de 2017 (Schoba); as quatro histórias de “O verão de 54 (novelas)”, de 2019 (Artêra); e os três livros que compõem “Rua Paraíba” (Café do Escritor), de 2020. Uma mania (ou TOC) também presente era o objetivo de escrever histórias com estilos muito diferentes entre si: “Verão de 54 (novelas)” tem uma história em metalinguagem (“O Verão de 54”), um policial em formato de diálogo (“Morrissey”), uma história convencional (“Conversão”) e uma história para adolescentes (“Sorry”). Enquanto eu escrevia as histórias de “O verão de 54 (novelas)”, e no mesmo formato de cinquenta páginas em A4, também terminei as versões iniciais de um livro de poesias (“Sempre”), uma história de delírio metafísico-literário (“deus um delírio” – para fins de precisão, é importante dizer que foi o único em que não consegui chegar nem perto das cinquenta páginas) e uma novela erótica (“Marina”). Minha ideia inicial era publicar os três livros – cujas versões finais estão nesta coletânea – separadamente, já que, para mim, não combinavam com “O verão de 54 (novelas)”. A mania (ou TOC) acabou quando vi uma entrevista com João Ubaldo Ribeiro, que disse – cito de memória – que tinha escrito “Viva o Povo Brasileiro” para provar a todos que conseguia fazer um romance enorme, como os alemães. Resolvi imitá-lo, e assim surgiu “3040”, com cerca de 450 páginas, já publicado, livro que teve a mentoria da grande Juliana Frank. À medida que a longa escrita de “3040” transcorria, e como a mania (ou TOC) das cinquenta páginas A4 já tinha terminado, pensei em escrever um livro de contos. Eu já tinha um conto, “A mulher de César”, publicado numa coletânea (“Ser: Antologia Emcontos”, da EntreCapas, lançada em 2019), coordenada pelo grande Robertson Frizero, para quem eu tinha escrito alguns microcontos num grupo de literatura no WhatsApp – que são a maioria dos contos muito curtos desta coletânea. Tinha também o já citado “Marina” (ainda não pensava em incluir “Sempre” e “deus um delírio”, que não são contos). Enfim, conversei com a Juliana Frank, que me ajudou muito nos demais contos presentes aqui, principalmente me incentivando a incluir elementos fantásticos em histórias onde eles não ocorriam. Ela me ajudou também a diminuir de maneira significativa o número de páginas de “Marina”. A coletânea ficou pronta alguns anos atrás. Há poucos dias, resolvi finalmente incluir “Sempre” e “deus um delírio”, já que a coletânea já é estranha o bastante – duas outras histórias estranhas não fariam assim tanta diferença. Pela temática “herege”, pelo erotismo e pela esquisitice generalizada, muitas histórias aqui poderão assustar quem me conhece. Afinal de contas, sou um tranquilo engenheiro civil – profissão da qual retiro meu sustento – abstêmio, católico praticante, casado com a mesma mulher há quase 35 anos e pai de uma psicóloga de sucesso. A única “esquisitice visível” na minha vida é escrever textos mais ou menos convencionais sobre literatura, música, cinema, história e outros assuntos no meu site. Mas gosto de pensar que minha literatura não tem nenhuma amarra, seja moral, religiosa ou política. Se não for assim, não tem graça. Pelo menos, não para mim. *** Se você quiser receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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Resenha de 2006 dos romances de Diogo Mainardi e a ironia de seu retorno às narrativas mais íntimas
Literatura
Resenha de 2006 dos romances de Diogo Mainardi e a ironia de seu retorno às narrativas mais íntimas
30 de novembro de 2025 at 14:06 0
Em 2006, ao longo de quase um ano inteiro, escrevi resenhas para o suplemento dominical do jornal O Estado do Paraná. Um dos textos que mais me marcaram foi sobre a obra ficcional do famoso jornalista Diogo Mainardi. Já na época – cito de memória – ele havia declarado que não escreveria mais ficção. Lembro-me de algumas declarações dele de que não tinha nenhum talento metafísico, que não conseguia imaginar o mundo fora do estritamente material – e sua ficção, "sem nenhuma profundidade psicológica", era uma prova disso. Lembro que gostei demais dos seus romances, e esta “falta de profundidade” acabou criando histórias absurdas, esquisitas e divertidas. De lá para cá, ele realmente não escreveu mais ficção, e acabei não lendo nenhum dos seus livros posteriores. No entanto, tenho interesse em ler os mais recentes, baseados em sua vida pessoal, "A Queda: As Memórias de um Pai em 424 Passos” e “Meus Mortos: Um Autorretrato”. O abandono da sátira anárquica para narrativas de memórias profundas sugere que ele encontrou, na própria vida e na tragédia familiar, o material não-metafísico que precisava para criar obras de grande impacto (como o sucesso de A Queda demonstrou). Segue, abaixo, o texto revisado que escrevi sobre os quatro livros de ficção de Diogo Mainardi para o Suplemento Dominical do jornal O Estado do Paraná em 2006. *** Diogo Mainardi é, provavelmente, o mais polêmico jornalista brasileiro da atualidade. Dono de uma coluna semanal na revista Veja e participante fixo do programa de debates Manhattan Connection, da emissora de TV a cabo GNT, ele não costuma poupar políticos, colegas de profissão e brasileiros em geral de seus ácidos comentários. Além de jornalista, Mainardi também é (ou foi, já que ele declarou que sua experiência nesta área terminou) romancista, tendo publicado quatro livros do gênero, que foram recentemente reeditados pela Record. Malthus (1989) O primeiro romance de Mainardi, Malthus (95 páginas), recebeu o Prêmio Jabuti de 1990. Segundo o prefácio de Ivan Lessa, a obra é inspirada na tese do economista Thomas Robert Malthus, que sustentava que "a população aumenta mais rapidamente do que o suprimento de alimentos e se limita apenas pela guerra, pobreza e vício." Este aumento "em progressão geométrica" da população mundial serviu de inspiração para que Mainardi criasse uma história absurda e engraçadíssima. Segundo o personagem principal do romance, um sujeito chamado Loyola y Loyola, "todas as pessoas perturbavam e eram perturbadas. A culpa pelos infortúnios era de quem eventualmente estivesse por perto, e sempre haveria alguém por perto." Logo no primeiro parágrafo de Malthus se pode ter uma ideia da loucura que virá a seguir: conta-se que Loyola y Loyola foi morar em uma casa que não é a sua, mas sim na de uma tal Sra. Robalinho. Diversos outros personagens, como "magistrados" e "oficiais do exército", também se alojam no local. As aventuras de Loyola y Loyola não param por aí. Ele e a multidão vão morar num navio, onde a filha do comandante se casa com o "herói" do livro. Posteriormente, esta é engolida pela Sra. Robalinho, que já tinha comido diversos objetos. Assim, de absurdo em absurdo, Malthus vai se desenvolvendo de maneira sempre surpreendente, para o prazer do leitor. Arquipélago (1992) No segundo romance de Mainardi, Arquipélago (127 páginas), o personagem principal conta a história em primeira pessoa e é vítima de uma enchente monstruosa – quase um dilúvio – causada pelo rompimento da barragem de Ilha Solteira. A cidade de Pedranápolis fica quase totalmente submersa. O personagem, junto a alguns desabrigados, sobrevive na abóbada de uma igreja local. A situação no local é estranhíssima: o narrador passa horas e horas filosofando sobre todo e qualquer assunto. Os outros desabrigados, que no início estranham esse costume, logo passam a admirá-lo. Em pouco tempo, eles elegem o narrador líder do grupo e se sentem satisfeitos em não serem mais do que "instrumentos de reflexão filosófica" para ele. Com diversas passagens e diálogos memoráveis, Arquipélago, apesar de ser também uma narrativa satírica e eivada de absurdos, tem um estilo menos anárquico e mais elaborado do que o romance anterior. Polígono das Secas (1995) O pior dos quatro romances de Diogo Mainardi é o terceiro, Polígono das Secas (127 páginas). O livro conta a história do "Untor", sujeito tenebroso que sai espalhando um unguento venenoso, que transmite a peste, pelo sertão nordestino e que, com isso, acaba matando centenas de pessoas. O livro, ranzinza e sem humor, apesar da forte atmosfera assustadora, peca pela falta de sutileza, resumindo-se a um "romance de tese". A tese aqui é para lá de questionável: para Mainardi, a tradição cultural do sertão nordestino não vale nada, é apenas um pastiche de tradições medievais misturadas a muita ignorância, preconceito e moralismo. Contra o Brasil (1998) O último romance escrito por Mainardi chama-se Contra o Brasil (236 páginas) e conta a história de Pimenta Bueno, um sujeito que não trabalha e cuja única atividade é ficar lendo — de preferência textos falando mal do Brasil. O personagem principal não tem nenhum caráter. No início do livro, ele herda um cinema abandonado no centro de São Paulo habitado por mendigos, vai até lá e põe fogo no local com seus moradores dentro. Depois, tenta transformar os já aculturados índios Nambiquara em "autênticos índios", nem que para isso estes tenham que passar fome. Em grande parte das páginas do romance existem citações (declamadas sempre por Pimenta Bueno) literárias ou históricas falando mal do Brasil, incluindo frases de personalidades do porte de Camus, Darwin e Evelyn Waugh. De certa forma, assim como Polígono das Secas, este também é um "romance de tese", e a tese aqui é a de que o Brasil não presta para nada. Só que, ao contrário daquele, em Contra o Brasil Diogo Mainardi não parece levar sua teoria muito a sério. Afinal de contas, neste romance extremamente divertido, o personagem principal é um sujeito tão sem qualidades que suas críticas acabam perdendo bastante do seu peso. *** Imagem que acompanha o texto: Divulgação - obtida no site da Folha de São Paulo Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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“Go By”, de Elliott Smith
Música
“Go By”, de Elliott Smith
24 de novembro de 2025 at 03:48 0
Sim, eu ouvi tanto Smiths e Madredeus (minha filha se chama Teresa por causa da vocalista desta banda) que cansei, temo, para sempre. Então, quando realmente GOSTO MUITO de alguma coisa, dou uma parada de alguns anos, como comentei recentemente sobre o Neurosis. Mas, contudo, todavia, não consigo ficar muito tempo sem ouvir Elliott Smith – o que acabo fazendo é colocar a playlist oficial do YouTube Music ou do Spotify em outra playlist maior, para ouvir no carro (em playlists que variam com o tempo, mas que são quase sempre chamadas, com grande originalidade, de “carro”). Acontece que nas playlists oficiais de Elliott Smith não consta uma música chamada “Go By”, que acabei ouvindo novamente hoje, por ter colocado mais coisas do cantor na minha playlist “carro” atual. Enfim, o pior texto que escrevi na vida foi um que cometi sobre o Elliott Smith, não lembro onde, e nem vou procurar – e o texto era ruim porque eu não consegui ser minimamente racional para falar do meu amor gigantesco pelas músicas do cantor americano falecido em 2003. E “Go By” era provavelmente a canção que eu mais me desequilibrei para comentar naquele texto horrível. Mas a música, Senhor meu, não tem nada a ver com minha falta de modos para falar dela. A cada vez que a ouço, fico me perguntando como alguém conseguiu compor uma coisa tão linda. E vou parar antes de fazer vergonha de novo.
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 2. “Baader-Meinhof Blues”, da banda Legião Urbana
História, Música
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 2. “Baader-Meinhof Blues”, da banda Legião Urbana
22 de novembro de 2025 at 21:07 0

Renato Russo, o vocalista da banda Legião Urbana, provavelmente gostava muito de “Baader-Meinhof Blues”. A música foi lançada em seu álbum homônimo de estreia (1985), no disco ao vivo “Música p/Acampamentos” (1992) e no “Acústico MTV” (gravado em 1992, lançado em 1999). Julliany Mucury, autora do livro “Renato, o Russo”, considera “Baader-Meinhof Blues” a sua música preferida da banda. Além disso, o Charlie Brown Jr. gravou uma versão da música no seu álbum “Bocas Ordinárias”, de 2002.

A canção tem algumas frases de efeito que, compreensivelmente, são marcantes para os fãs: “A violência é tão fascinante / E nossas vidas são tão normais”, “Não estatize meus sentimentos / Pra seu governo, o meu estado / É independente” e “Já estou cheio de me sentir vazio / Meu corpo é quente e estou sentindo frio / Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber / Afinal, amar ao próximo é tão démodé”. Não há nenhuma menção direta ao grupo terrorista alemão na letra, mas frases como “a violência é tão fascinante” e “amar ao próximo é tão démodé” são claramente relacionadas ao Baader-Meinhof.

Segundo Julliany Mucury, a banda teve que se explicar bastante em relação ao título da música: “vocês imaginam, numa pós-ditadura, você lançar uma canção com esse título?”. Contudo, parece claro que a canção não era uma apologia ao terror.

O próprio Renato Russo explica o significado de “Baader-Meinhof Blues” num áudio encontrado no YouTube, no qual ele declara que a canção “diz exatamente a mesma coisa que ‘Geração Coca-Cola’”. O nome foi escolhido porque se alguém do Grupo Baader-Meinhof passasse por uma situação parecida com a descrita naquela canção, sentiria o mesmo tipo de blues (melancolia/vazio): “a violência é tão fascinante, as nossas vidas são tão normais”. No mesmo áudio, ele explicou que o final da música, que usa o termo de estado e governo, foi uma escolha intencional para ser um final inteligente e que “pegasse” com o público, mesmo que o significado fosse, na verdade, muito mais abstrato e pessoal. Em outras palavras, em “Baader-Meinhof Blues”, Renato Russo projetou nos terroristas alemães de uma década antes do lançamento da música as mesmas sensações de tédio, vazio e falta de sentido de boa parte da juventude brasileira no final do período da Ditadura Militar, bem descritas em suas canções, como as duas citadas acima e seu grande sucesso “Será”. Mas, se me permitem uma opinião, Andreas Baader e Gudrun Ensslin, os líderes do Baader-Meinhof, com sua coragem e radicalismo, não tinham absolutamente nada a ver com as preocupações de Renato Russo. ***

Imagem acima obtida no Google Gemini.

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