Fabricio Muller

Séries
You
19 de maio de 2019 at 18:19 0
You - fonte: internerdz

Joe Goldberg (Penn Badgley) é um funcionário de uma livraria em Nova York. É no trabalho que ele encontra Guinevere Beck (Elizabeth Lail) e se apaixona de cara. Como a moça se expõe bastante nas redes sociais, ele em pouco tempo consegue um enorme número de informações sobre ela e passa a segui-la obsessivamente. Este é o mote principal de “You”, série de 2018 da rede americana Lifetime, distribuída internacionalmente pela Netflix, cuja primeira temporada (a segunda já está confirmada) teve nove episódios de cerca de 45 minutos cada um.

Guinevere é uma universitária com sérios problemas financeiros e que não consegue concentração suficiente para se sair bem nas matérias em que está matriculada. Suas amizades – principalmente a ricaça Peach Salinger (Shay Mitchell) – são tóxicas e prejudiciais e seu namorado, Benji (Lou Taylor Pucci) é um rapaz rico, pretensioso, viciado em heroína e que não dá a menor importância para ela. A obsessão de Joe por Guinevere não tem limites: ele logo faz amizade com ela, e depois, consegue ser seu namorado. Mesmo tomando atitudes assustadoras para conseguir se aproximar dela, Joe consegue fazer uma análise bastante justa da vida de Guinevere – por exemplo, quando percebe que suas amigas, seu namorado e a sua obsessão pelas redes sociais são uma péssima influência para ela e seus estudos. A mistura de um Joe realmente preocupado com a sua amada, mas fazendo coisas horríveis para protegê-la, é o grande segredo do fascínio que “You” causa no público; não à toa, muitas espectadoras são “apaixonadas” por Joe Goldberg - o que irrita sobremaneira Penn Badgley, o ator que faz o personagem.

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Literatura
“Satíricon”, de Petrônio
12 de maio de 2019 at 18:03 0

Para um interessado nos costumes do Império Romano como eu, “Satíricon” (L&PM Pocket, 224 páginas, tradução do latim de Alessandro Zir), de Petrônio (27-66 d.C.), é ao mesmo tempo fascinante e frustrante, conforme explico a seguir.

O livro conta as a história de uma pequena trupe de vagabundos, Encólpio, seu amante Ascilto e seu servo Gitão, além do poeta Eumolpo, que se liga aos três no meio da história. Eles passam por diversas situações – quase sempre cômicas – envolvendo brigas, roubos, um banquete (onde aparece o famoso personagem Trimalquião, ex-escravo, vulgar e riquíssimo), recitações de poesia – sempre criticadas pelos demais personagens – por parte de Eumolpo, uma aventura com uma sacerdotisa do deus Príapo, e muito sexo – inclusive entre menores. A parte do fascínio de “Satíricon” está em que, sendo este um dos únicos romances em prosa da época que sobreviveram até os dias de hoje, é mais ou menos como ler um Balzac (famoso, entre outras coisas, pelo realismo de suas descrições da vida no Terceiro Império francês) do Império Romano: vemos os personagens se perdendo no escuro pois esqueceram suas tochas, participando de rituais pagãos, morando em apartamentos minúsculos, se alimentando em banquetes, se maquiando das maneiras mais esquisitas. E, o que é melhor, “Satíricon” é escrito de maneira debochada e vívida, agradabilíssimo de ler.

A parte frustrante é que a obra chegou até nós incompleta: o livro começa com a ação em andamento e os fragmentos vão ficando cada vez mais esparsos à medida que a ação transcorre. Nunca saberemos o que acabou acontecendo com os anti-heróis Encólpio, Ascilto, Gitão e Eumolpo.

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Literatura
“Diário de um velho louco”, de Junichiro Tanizaki
5 de maio de 2019 at 16:13 0

“Não tenho nenhuma intenção de me apegar tenazmente à vida, mas uma vez que continuo vivo, não posso deixar de sentir atração pelo sexo oposto.” Esta frase, obtida do romance “Diário de um velho louco” (Estação Liberdade, 208 páginas, tradução do japonês de Leiko Gotoda), de Junichiro Tanizaki (1886-1965), é tão representativa do livro que estampa, solitária, sua contracapa.

Tokusuke Utsugi é um senhor de 77 anos, que vive com a esposa, uma enfermeira, seu filho Jokichi e a mulher dele, Satsuko. Apesar de impotente e com a condição física bastante deteriorada, o desejo sexual do patriarca da família Utsugi pela nora Satsuko vai ficando cada vez mais exacerbado à media que transcorrem os dias. Ele não esconde dela seu desejo, e vai conseguindo um favorzinho dela aqui, outro ali. Não dá para contar mais para não estragar a surpresa.

“Diário de um velho louco” é, em sua maior parte, escrito na forma do diário do próprio Utsugi e é fascinante na descrição da obsessão sexual do idoso pela nora. Uma obra-prima.

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Literatura
“Desgracida”, de Dalton Trevisan
21 de abril de 2019 at 12:27 0

Muitos dos textos da segunda parte (“Mal Traçadas Linhas”) de “Desgracida”, de Dalton Trevisan (Record, 237 páginas) eu já tinha lido na compilação “Até tu, Capitu?”, da L&PM, já comentada por aqui. São textos em que o grande curitibano fala de literatura com uma franqueza pouco usual (fala mal de Guimarães Rosa e de “O general e seu labirinto”, de Gabriel García Márquez).

Já na primeira parte de “Desgracida”, chamada “Ministórias” (e que ocupa mais de 90% do livro), por outro lado, temos o Dalton Trevisan dos livros mais recentes (o livro publicado em 2010), cada vez mais conciso, contando histórias com grande dramaticidade em poucas linhas. Por exemplo, veja-se ou “O Braço Armado”, que consiste numa única frase: “O filho é o braço armado da mãe contra o monstro do pai”, ou “A Chupeta”, reproduzido a seguir:

“Ele confisca a chupeta da filha, que se consola sugando os pequeninos dedos.
Ah é? Não aprende?
E o pai queima com a brasa do cigarro todos os dedinhos.”

Mas Dalton Trevisan também sabe ser agridoce, como em “Amor de Velha”:

“O velho geme, espirra, tosse – e que tosse!
A velhinha, no fundo da cama:
‘Isso mesmo. Continue assim. Não se cuide.’
‘…’
‘Nada como um inverno bem frio.’
‘…’
‘Faça de mim na primavera a mais faceira das viúvas alegres.’”

Ou de humor ingênuo, como em “Nome Difícil”:

“A visita:
‘Bidu, como é o nome do teu pai?’
‘Raruruul…’
Isso mesmo, Raul.
‘Nossa! Que difícil.’
A pivete, dois aninhos:
‘Né, não.’
‘?’
‘Eu só chamo ele de pai.’”


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Literatura
“’Ecos de mi pluma’ – Antología em prosa y verso”, de Sor Juana Inés de la Cruz
14 de abril de 2019 at 14:52 0

Mexicana-espanhola (o México era uma colônia espanhola durante sua vida), Sor Juana Inés de la Cruz (1648-1695) teve uma biografia para lá de inusual: resolveu ser monja – da ordem de São Jerônimo – porque gostava tanto de estudar que achava que a vida religiosa lhe daria a paz necessária para seus estudos. Escreveu comédias, autos sacramentais, exercícios espirituais e uma polêmica argumentação teológica. Deixou também duas cartas, uma dirigida a seu confessor, o jesuíta Antonio Nuñez de Miranda, outra ao bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que contêm valiosíssima informação autobiográfica. Mas foi como poetisa - profana e religiosa – pertencente ao estilo barroco que conseguiu destaque na literatura já em vida, e hoje é considerada um dos maiores expoentes do chamado “Século de Ouro” espanhol.

“’Ecos de mi pluma’ – Antología em prosa y verso” é uma edição conjunta da Penguin-Random House Grupo Editorial e da Universidad Nacional Autónoma de México (408 páginas), e dá um apanhado abrangente da poesia da Sor Juana Inés de la Cruz, além de apresentar as duas cartas citadas acima.

As poesias escolhidas têm uma grande variedade de temas: a ciência (“Primero Sueño” era considerada pela própria poetisa sua obra-prima), o estudo, elogios a pessoas proeminentes, jogos de adivinhação. Um dos temas principais – o que mostra a ousadia da monja – é o amor. A leitura da antologia apresenta dificuldades para o leitor não-especializado no barroco espanhol, conforme as palavras de Martha Lilia Tenorio, a organizadora da edição:


“(...) a poesia barroca está muito distante de nós, e o leitor não habituado a ela topará com usos linguísticos e recursos estilísticos que desconhece ou não entende.”

Para minimizar a dificuldade na leitura das poesias de Sor Juana Inés de la Cruz para o leitor contemporâneo, Martha Lilia Tenorio inseriu um grande número de notas de pé-de-página na edição da antologia: de fato, estas notas esclarecem os muitos trechos obscuros das poesias, mas com perda no ritmo na leitura.

Já as duas cartas escritas pela poetisa presentes na antologia são respostas a acusações, respectivamente de Antonio Nuñez de Miranda e Manuel Fernández de Santa Cruz, de que se dedicava demais à poesia profana e ao estudo: nelas, a grande poetisa mostrava ter também clareza nas ideias e grande capacidade argumentativa.

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Séries
Tabula Rasa
7 de abril de 2019 at 16:38 0
fonte: Netflix

A situação de Annemie D'Haeze (Veerle Baetens, sensacional) está para lá de complicada: teve um acidente de carro que a fez perder toda a memória dos acontecimentos ocorridos antes dele, e é acusada do desaparecimento de um rapaz que ela nem se lembra de ter conhecido. Esse é o mote principal de “Tabula Rasa”, brilhante série belga da Netflix, produzida em 2017, com nove episódios de cerca de 50 minutos cada um.

“Tabula Rasa” é contada pelo ponto de vista de Annemie, e o espectador sofre junto com ela – como não se sabe o que aconteceu, basicamente todos os personagens são suspeitos, a incerteza é uma constante e os fatos são contados de maneira diferente à medida que a série transcorre – e há espaço até para o sobrenatural. Tanto as atuações dos atores, como o desfecho da história são brilhantes. Não tem como recomendar demais “Tabula Rasa”.

Como comentário complementar, tenho notado como as séries não americanas da Netflix têm atuações, em média, melhores que as suas correspondentes americanas. Posso destacar nesse sentido as séries “Dark” (Alemanha), “Fauda” (Israel), “Nobel” (Noruega), “The End of the F***ing World” (Reino Unido). A razão disto deve ser, simplesmente, a quantidade: como os Estados Unidos produzem a grande maioria das séries da Netflix, é inevitável que a qualidade média da atuação acabe diminuindo um pouco, enquanto que os outros países podem caprichar mais nesse sentido.

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Séries
Novas temporadas de Atypical, The Good Place e Suits
24 de março de 2019 at 21:53 0
Katherine Heigl em Suits - fonte: US Weekly

Este texto comenta as novas temporadas de séries sobre as quais já eu já tinha comentado aqui.

"Atypical” trata de um menino autista, Sam Gardner (Kier Gilchrist), seus pais e sua irmã. Em sua segunda temporada, a série da Netflix consegue desenvolver com competência as histórias da mãe do garoto, Elsa (Jennifer Jason Leigh), do seu pai, Doug (Michael Rapaport) e de sua irmã, a linda Casey (Brigette Lundy-Paine): os três continuam adoráveis e irritantes ao mesmo tempo, ao contrário de Sam e do seu melhor amigo, Zahid (Nik Dodani), que são sempre adoráveis.

Parecia que o início da terceira temporada de “The Good Place” iria desandar tudo: nossos amigos Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), Chidi Anagonye (William Jackson Harper), Jameela Jamil (Tahani Al-Jamil) e Manny Jacinto (Jason Mendoza) voltam da “outra vida” (o “bom lugar” é para onde eles foram depois de mortos) para fazer um curso de ética na Austrália - e  parecia que a série da Netflix estava começando a se levar a sério demais. Por sorte, isso logo ficou para trás e “The Good Place” logo voltou ao seu ritmo alucinado e divertidíssimo de sempre. Como se não bastasse, a temporada faz pensar enquanto faz rir: é possível ser realmente bom numa sociedade tão industrializada, tecnológica e globalizada como a nossa?  

O assunto mais recorrente da série “Suits” – série da USA Today transmitida por aqui pela Netflix - em suas sete temporadas iniciais era a tensão devida ao fato de que Michael Ross (Patrick J. Adams) poderia ser desmascarado por fraude, já que trabalhava como advogado sem sê-lo – ele sabia advocacia com profundidade e tinha memória fotográfica (decorava tudo o que lia). Na oitava temporada (só a primeira parte dela foi transmitida para cá - a segunda parte começou a passar nos Estados Unidos em janeiro de 2019), tanto Michael Ross quanto Rachel Zane (vivida pela atual princesa Meghan Markle) não são mais personagens da série que, surpreendentemente, parece mais interessante sem eles: os advogados Alex Williams (Dulé Hill) e, principalmente, Samantha Wheeler (a ótima Katherine Heigl), conseguiram substituir com brilhantismo aqueles que saíram.

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Literatura
“La vida es sueño”, de Calderón de la Barca
17 de março de 2019 at 18:29 0
Calderón de la Barca - fonte: Wikipedia

Tendo em vista as condições astrológicas, Segismundo nasceu no pior momento possível: pela previsão dos astros ele teria mau caráter, seria assassino, violento e traiçoeiro. Sabendo disso, seu pai, o rei polonês Basilio, colocou-o no cárcere praticamente desde que nasceu, sem contato com outros seres humanos fora Clotaldo, criado e professor do menino. Um tanto inseguro quanto às previsões astrológicas, Basilio bola um plano: manda dar drogas para seu filho e o faz pensar que é rei por um dia, ordenando inclusive a todos os cortesãos que o obedecessem. Se ele fosse mau durante esse dia significaria que as previsões estavam corretas e Basilio o devolveria para o cárcere – e Segismundo concluiria que o seu “dia de rei” não tinha passado de um sonho.

Esse é o mote principal de “La vida es sueño” (Penguin Clásicos, 231 páginas), obra-prima do “autor teatral barroco por excelência” (segundo a contracapa do livro), o espanhol Calderón de La Barca (1600-1681).

A peça merece sua grande fama: não só é emocionante, cheia de reviravoltas - fora a história principal, ainda tem uma secundária, “a restauração da honra” da personagem Rosaura -, como tem trechos inesquecíveis, sendo o mais famoso aquele falado por Segismundo:

“¿Qué es la vida? Un frenesí. / ¿Qué es la vida? Una ilusión, / una sombra, una ficción, / y el mayor bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son”.

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