Morrissey em Curitiba
Música, Obra Literária

Morrissey em Curitiba

14 de agosto de 2015 3

Morrissey
Forum (Curitiba) – 01.04.2000

Cheguei bem cedo e fiquei quase uma hora na fila antes da casa ser aberta. A noite estava um pouco fria e logo os fãs mais fervorosos foram chegando. Ainda lá fora pude reconhecer algumas meninas que acompanham o Morrissey pelo mundo – como Julia Riley e as moças do site MorrisseyTour. Quando a porta foi aberta o pessoal do gargarejo foi correndo para a primeira fila – enquanto eu subi para o primeiro balcão, onde fiquei sentado o show inteiro, em um ótimo lugar.
O som do local reproduzia peças para solo de violoncelo com a grande Jacqueline du Pré – o que acabava acalmando quem estava nervoso (eu estava). Então começou (bem alto agora) a estranha seqüência de canções punk, músicas no estilo Broadway e algumas coisas de pop de vanguarda que eram executados antes da turnê de Morrissey de 2000. E era um pop de vanguarda a penúltima antes do show, a que deixou o pessoal realmente excitado pela proximidade do real início do espetáculo: a belíssima “Innocent and and Vain”, com Nico. Depois, “Smile”, com Timi Yuro. E o show estava quase começando.

Então entrou Morrissey, com uma camisa aberta no meio do peito, jeans apertados, topete e cabelo penteados para trás e com muito gel. Parecia um verdadeiro latin lover. Suas primeiras palavras: “It’s a dream to be here” (“eu que o diga”, pensei comigo). A primeira do set list foi “Haidresser on Fire”, e, lá de cima, pude perceber que quase todos na Forum conheciam quase todas as músicas, apesar dos grandes sucessos não terem sido executados. Se por um lado o preço do ingresso dificultara que a casa tivesse a lotação esgotada, por outro o público todo conhecia – e gostava muito – do que estava ouvindo.

Mas o que não esperávamos é que Morrissey estivesse tão feliz. Eu já o havia visto em alguns shows e apresentações no vídeo, mas nada se comparava ao verdadeiro prazer que ele parecia estar sentindo. Seus movimentos já conhecidos (andar de um lado para o outro, brincar com o fio do microfone como se fosse um chicote, socar o ar), estavam lentos, tranqüilos, como se quisesse aproveitar cada segundo em Curitiba. E assim continuou o show até o final. Trocou de camisa algumas vezes, mostrando o corpo em ótima forma (para delírio de algumas garotas), apertou muitas mãos, fez brincadeiras (chegou a dizer “Obrigado” ao final de uma canção, sem sotaque), tocou a maioria das músicas de maneira extremamente pesada (“Lost”, lentíssima em disco, pareciaheavy metal ao vivo). Foi um showman completo. Mas a sua alegria é o que realmente impressionou.

Quanto a mim, estava meio chateado no meio do set, por saber que logo ele iria terminar. Mas como ele disse algumas vezes durante um intervalo entre duas músicas: “Tenha coragem. Nós não terminamos ainda”. E quando o show realmente acabou, fiquei muito tempo olhando os rostos das pessoas na Fórum. Poucas vezes vi na vida tanta gente junta feliz e rindo à toa.

(texto escrito em abril de 2000 – publicado no Mondo Bacana)

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