Cinema

Quando 90 Minutos São Pouco: O Caso de “Antártida”
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Quando 90 Minutos São Pouco: O Caso de “Antártida”
27 de setembro de 2026 at 02:18 0
O recém-lançado “Antártida”, de Bruno Safadi (93 minutos, Paris Filmes/Globoplay), conta a história de um grupo de pesquisadores e oficiais da Marinha na Base Comandante Ferraz, na Antártida. No dia em que o último navio deixa o continente gelado e todos se preparam para os rigores da estação, a recém-chegada Inês (Marina Ruy Barbosa) sofre uma violência sexual após uma festa, mas não lembra quem a agrediu. A temporada fria não começa bem: além da agressão, a previsão indica um inverno muito mais severo que o normal. Para piorar, o gerador de energia apresenta falhas — obrigando todos a racionarem combustível e passarem frio —, e o comandante Barros (Antonio Calloni) revela um câncer no cérebro, ficando incapacitado de liderar a equipe. Com tudo isso, a subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) assume não só a chefia da estação, como também a investigação do crime. Todos os oito homens da equipe tornam-se suspeitos, sustentando a tensão constante do filme, marcada por acusações e agressividade. Pouco tempo atrás escrevi aqui que, se pudesse dar uma sugestão aos realizadores, diria para não fazerem filmes com mais de noventa minutos. Neste caso, tive que engolir minhas palavras. O pouco mais de uma hora e meia de “Antártida” infelizmente não consegue desenvolver a contento as tensões criadas. Como o projeto foi pensado inicialmente como série, dá para entender essa falta de aprofundamento. Apesar de tudo, “Antártida” é um filme muito bom, com uma boa história, personagens críveis e visualmente impecável. Mas o grande destaque é a atuação soberba de Andréa Beltrão como Elisabeth: ela transita entre vulnerabilidade e força quase ao mesmo tempo, num desempenho inesquecível. Não à toa, as resenhas apontam o trabalho dela como o ponto alto da produção. *** Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
Cinema
O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
13 de setembro de 2026 at 02:00 0
Um jogo de futebol tem noventa minutos. A grande maioria dos filmes noir dos anos 1940 e 1950 – meu estilo preferido ao lado do terror – tem noventa minutos. Quase todos os filmes de Woody Allen têm noventa minutos. Alguns longas a que assisti recentemente me fizeram pensar bastante nessa duração quase mágica. Em A Cura, de Gore Verbinski (Estados Unidos, 2016), um jovem e ambicioso executivo é enviado aos Alpes Suíços para resgatar o CEO de sua empresa em um misterioso centro de bem-estar, mas logo descobre segredos perturbadores por trás dos tratamentos milagrosos do local. É um ótimo filme de terror, mas gostaria que alguém me explicasse por que ele precisa de 146 minutos. A Última Casa (Estados Unidos, 2026), suspense apocalíptico com Wagner Moura, parte da premissa de um fenômeno desconhecido que impede qualquer pessoa de sair de casa. O filme foi amplamente detonado pela crítica, mas acredito que, se tivesse meia hora a menos em relação aos seus 112 minutos, o público – eu incluído – se irritaria bem menos. Já Continente, de Davi Pretto (Brasil, 2024), é um terror nacional em que uma espécie de vampirismo zumbi assola uma pequena comunidade rural no interior do Rio Grande do Sul — o que me fez lembrar, em vários momentos, a obra-prima Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. O filme cria uma atmosfera opressiva e misteriosa excelente, mas até eu cortaria meia hora do meio, meio na machadada; certamente a narrativa ganharia muito mais força do que nos seus 115 minutos originais. Por fim, o melhor exemplar recente: Insaciável, de Natalie Erika James (Estados Unidos, 2026), no qual uma estudante de medicina recorre a um método extremo de emagrecimento e passa a ser assombrada por manifestações sobrenaturais. O filme é tão bom que quase justifica seus 112 minutos, mas, francamente, no segundo ato a trama se torna desnecessariamente repetitiva. Essa questão do tempo assombrou um dos meus diretores preferidos, Erich von Stroheim: na era do cinema mudo, ele simplesmente não conseguia filmar em noventa minutos nem cumprir prazos e orçamentos. Sua carreira brilhante foi interrompida precocemente porque ninguém mais se dispunha a financiar suas aventuras geniais. No fim das contas, é difícil não dar razão aos produtores que retalharam, para desespero do cineasta, joias como A Marcha Nupcial ou Ouro e Maldição. Não me entendam mal: existem obras monumentais com bem mais de duas horas, como Kill Bill e Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino; Stalker e Solaris, de Andrei Tarkovsky; os citados Bacurau e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman; e Os Bons Companheiros e O Irlandês, de Martin Scorsese. Mas essas são as raras exceções. Se eu pudesse dar um conselho a qualquer realizador contemporâneo, seria: se você não é um Kleber Mendonça Filho ou um Quentin Tarantino, mantenha os pés no chão e faça filmes de noventa minutos.
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O fascínio pelo mal sem motivo
Cinema
O fascínio pelo mal sem motivo
6 de setembro de 2026 at 00:56 0
Eu e a Valéria sempre assistimos a novelas e a séries juntos, mas filmes, raramente. Uma destas raras ocasiões deve ter sido uns quinze anos atrás: resolvemos ver um filme aleatório na TV a cabo e – coisa realmente rara, não custa reforçar – assistimos com atenção máxima do início até o fim. Era sobre um casal que está numa casa de campo quando são atacados por três mascarados. Eu não lembrava como o filme terminou, nem o seu nome, nem mais nada. Só sabia que uma atriz famosa, filha de um cantor de rock famoso, era a atriz principal. E só. E nunca mais esqueci do filme e – perguntando agora para a Valéria – acabei descobrindo que ela também nunca mais esqueceu: uma das coisas mais assustadoras a que já assistimos. Desde que o vi, acabei descobrindo o nome do filme, “Os Estranhos” (dirigido por Bryan Bertino, Estados Unidos, 85 min), mas tive que saber primeiro o nome da atriz (Liv Tyler), filha do famoso cantor do Aerosmith, Steven Tyler. Descobri também que o filme teve um impacto tão grande que acabou tendo desdobramentos, com uma sequência chamada “Os Estranhos: Caçada Noturna”, de 2018, e uma trilogia lançada entre 2024 e 2026 (“The Strangers: Chapter 1”, “The Strangers: Chapter 2” e “The Strangers: Chapter 3”). Como dá para imaginar, o projeto de rever aquele filme eu tenho desde aquela longínqua noite com minha esposa e, finalmente, o assisti de novo recentemente. “Os Estranhos” consegue ser muito melhor do que eu lembrava: os mascarados que invadem a casa são um homem e duas mulheres, e praticamente não falam nada durante o filme inteiro. O terror que eles perpetram contra o pobre casal é lento, esquisito, e vai crescendo desde que eles aparecem até o final. Não há nenhuma justificativa para suas ações, nada, o que deixa o filme mais impactante e, na minha opinião, muito melhor – aqui comento como é este terror injustificado o grande atrativo de filmes espetaculares, como “Canibais (The Farm)” e “Bacurau”. Por que será que o mal gratuito me atrai tanto no cinema? Provavelmente porque o mal, em si, não tem nada que o justifique; não adianta tentar me convencer do contrário. *** Imagem gerada pelo Claude. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
Cinema, Viagem
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
2 de agosto de 2026 at 03:06 0
Tive dois ataques de pânico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confiança nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que já era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de “cair sozinho”: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, não tenho medo nenhum. Amo andar de avião, inclusive. O primeiro ataque de pânico foi num show do Morrissey em 2012 no Espaço das Américas, atual Espaço Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos até chegar na minha poltrona, no primeiro balcão. Para chegar até meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baixíssimo, numa altura gigante – sei lá, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o pânico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espetáculo estava perfeito). O segundo ataque de pânico foi em Machu Picchu. A sequência do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ruínas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de ônibus que parece pertencer à série “Estradas Mortais”, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu já estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que é terrível para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ruínas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta - tudo me fez ter o segundo ataque de pânico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, não tinha como voltar no meio da pequena multidão, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame histórico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror não me dão medo nenhum, muito pelo contrário. O grande crítico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que “Obsessão” é um filme que, “de fato, dá medo”. Já eu, que também amei o filme, comentei aqui que ele “é um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles”. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. Até que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado “A queda”, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lançado originalmente em 2022, 107 min). O filme já começa assustador: um casal e uma amiga escalando um paredão praticamente vertical: eles estão todos se divertindo até que o cara cai lá de cima. A mulher entra em profunda depressão e, um ano depois, a amiga que estava junto no paredão, para animá-la, sugere que as duas vão escalar uma torre de rádio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem até o topo do negócio e lá começa o sofrimento, sobre o qual não vou comentar aqui para não estragar a surpresa. Só o que eu posso dizer é que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro até o topo e eu já estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa só piorou. Não sei para que tanto sofrimento, minha gente.
Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. Se você estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
Cinema
“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
24 de junho de 2026 at 10:22 0
Hoje em dia eu praticamente só assisto a filmes noir (americanos e franceses) e de terror, já devo ter comentado aqui. Os noir eu vou assistindo os que vêm nos ótimos DVDs da Versátil, e os de terror simplesmente escolho alguma coisa que me chama a atenção nos streamings (não sei por que o Prime Video e a Netflix me indicam filmes de terror assim que eu entro nas plataformas!). Depois de praticamente uma vida inteira assistindo só a filmes “recomendados”, normalmente pela crítica, gosto muito da sensação de cair num filme sem nem saber do que se trata. Com Obsessão (2026), dirigido por Curry Baker, a coisa mudou um pouco. Vi na página inicial do UOL comentários superlativos sobre o filme, gostei das fotos de divulgação (como a imagem que acompanha este texto) e acabei ficando obcecado de vontade de assistir — péssima piada, eu sei. Assisti no cinema, e realmente ele merece o sucesso que faz. Com orçamento baixíssimo, já é um dos filmes de terror de maior sucesso de todos os tempos, segundo dados do site AdoroCinema. A cena inicial é excelente: Bear (Michael Johnston), um rapaz tímido, treina a declaração que quer fazer para a amiga Nikki (Inde Navarrette), por quem é apaixonado há muito tempo. Esta paixão é o combustível para o início do filme — e, até aqui, parece que estamos assistindo a uma Sessão da Tarde. Mas ele acaba conseguindo que a garota se apaixone por ele, e a relação logo se transforma em um pesadelo violento e sobrenatural conforme o amor dela se torna uma obsessão assustadora e destrutiva. São muitas as qualidades da produção: a maneira como a história se desenrola, os sustos e a tensão permanente. Mas acho que o filme não teria o impacto que teve se não fosse o casal de protagonistas, vivido por Michael Johnston e, principalmente, pela extraordinária Inde Navarrette, assustadora de verdade como Nikki. É um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles.
Imagem: Divulgação. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
Cinema
O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
31 de maio de 2026 at 10:31 0
É engraçado como eu lembro de frases e comentários das revistas Bizz e Veja, e da Enciclopédia Abril, que eu lia na adolescência. Sobre o filme “Tron, uma odisseia eletrônica” - filme americano lançado em 1982, dirigido por Steven Lisberger e com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner nos papéis principais (96 min) -, os comentários eram mais ou menos os seguintes: visualmente deslumbrante, mas com roteiro fraquíssimo. Bem, imaginei que era uma coisa parecida com a imagem que acompanha o texto, em que seres humanos tinham umas roupas eletrônicas colantes cheias de fios e luzes, não me interessei tanto e acabei não assistindo ao filme. Mas, por algum motivo, “Tron: uma odisseia eletrônica” nunca me saiu da cabeça, até que resolvi assistir em um dia desses. Visto hoje, época em que a discussão sobre Inteligência Artificial é tão urgente, o filme, ao contrário do que a Revista Veja comentou na época, não tem um roteiro ruim – mais do que isso, mostrou-se bem adiantado no tempo. Ele conta a história de Kevin Flynn, um programador de computadores que é transportado para dentro do mundo digital de um computador de grande porte (mainframe), onde precisa lutar por sua vida em jogos de gladiadores eletrônicos para derrotar o tirânico Master Control Program, uma IA maligna que domina o ambiente, conhecido como “Grade”. Os ecos de HAL, o computador inteligente de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (filme de 1968 dirigido por Stanley Kubrick), me pareceram bem presentes. As atuações, por outro lado, achei fraquíssimas. Mas não é isso que me impressionou tanto em “Tron: uma odisseia eletrônica”: o filme é, visualmente, deslumbrante. As perseguições de motos virtuais, os ambientes com “lixo computacional”, os voos de espaçonaves eletrônicas têm um visual magnífico, com cores vívidas, e movimentos de imagens de computador que deixam a gente pensando o tempo todo: como eles lançaram esse negócio em 1982? Incrível! O início se passa todo fora do computador, mas quando Kevin Flynn entra no mainframe o que se vê são rostos humanos, distorcidos por filtros normalmente azulados, em roupas e ambientes computacionais belíssimos. E a história, não custa reforçar, não só é atual como é muito bem contada. Uma verdadeira obra-prima! Eu não esperava por essa, certamente.
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Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
Cinema
Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
15 de março de 2026 at 17:47 0
Não sei direito quantas vezes assisti a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, lançado em 1964 (120 minutos). A cada vez que vejo este filme, uma nova camada da história vai se descortinando e mais fico impressionado com sua genialidade. Segundo a Wikipédia, no filme:
O sertanejo Manoel e sua mulher, Rosa, levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era o do patrão. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa. Ele e sua esposa resolvem ir embora, deixando tudo para trás.
Assim que mata o coronel, Manoel (vivido por Geraldo Del Rey) e sua mulher (vivida por Yoná Magalhães) começam uma fuga que vai durar o filme todo. Primeiro, encontram o Beato Sebastião (Lídio Silva), um religioso messiânico na linha de Antônio Conselheiro, o líder de Canudos; depois, o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), que está praticamente sozinho após a morte de Lampião. Em todo esse percurso, tanto o beato quanto o cangaceiro são perseguidos pelo matador Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um dos personagens mais impressionantes do cinema brasileiro, que ainda estrelaria um filme posterior de Glauber Rocha: “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de 1969 (chamado simplesmente de “Antonio das Mortes” no exterior). Considerado universalmente um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” tem inúmeras qualidades: os personagens não são esquemáticos (todos têm defeitos e virtudes); a filmagem é delirante e meio assustadora; a música é maravilhosa — de Sérgio Ricardo, com letra do próprio Glauber Rocha — e “narra” o filme; as atuações são impressionantes. Até o título é impactante e irônico: “Deus” é o Beato Sebastião, que não tem nada de santo, e o “Diabo” é Corisco, que possui um caráter tão ambíguo quanto o do líder messiânico — ou tão ambíguo quanto o do próprio vaqueiro Manoel. Ao contrário de outros filmes de que gosto muito — como “Persona” e “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman; “Stalker”, de Andrei Tarkovski; “Limite”, de Mário Peixoto; ou “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho —, eu nunca havia conseguido escrever sobre “Deus e o Diabo na Terra do Sol” até chegar a este texto. Talvez eu achasse que qualquer coisa que escrevesse não faria justiça a essa obra-prima. Assisti ao filme esta semana e, novamente, não sabia o que dizer. Até que este texto saiu. Espero não ter feito tão feio assim.   (Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 at 11:13 0

Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin.

Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967.

O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária.

O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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