Cinema

O fascínio pelo mal sem motivo
Cinema
O fascínio pelo mal sem motivo
6 de setembro de 2026 at 00:56 0
Eu e a Valéria sempre assistimos a novelas e a séries juntos, mas filmes, raramente. Uma destas raras ocasiões deve ter sido uns quinze anos atrás: resolvemos ver um filme aleatório na TV a cabo e – coisa realmente rara, não custa reforçar – assistimos com atenção máxima do início até o fim. Era sobre um casal que está numa casa de campo quando são atacados por três mascarados. Eu não lembrava como o filme terminou, nem o seu nome, nem mais nada. Só sabia que uma atriz famosa, filha de um cantor de rock famoso, era a atriz principal. E só. E nunca mais esqueci do filme e – perguntando agora para a Valéria – acabei descobrindo que ela também nunca mais esqueceu: uma das coisas mais assustadoras a que já assistimos. Desde que o vi, acabei descobrindo o nome do filme, “Os Estranhos” (dirigido por Bryan Bertino, Estados Unidos, 85 min), mas tive que saber primeiro o nome da atriz (Liv Tyler), filha do famoso cantor do Aerosmith, Steven Tyler. Descobri também que o filme teve um impacto tão grande que acabou tendo desdobramentos, com uma sequência chamada “Os Estranhos: Caçada Noturna”, de 2018, e uma trilogia lançada entre 2024 e 2026 (“The Strangers: Chapter 1”, “The Strangers: Chapter 2” e “The Strangers: Chapter 3”). Como dá para imaginar, o projeto de rever aquele filme eu tenho desde aquela longínqua noite com minha esposa e, finalmente, o assisti de novo recentemente. “Os Estranhos” consegue ser muito melhor do que eu lembrava: os mascarados que invadem a casa são um homem e duas mulheres, e praticamente não falam nada durante o filme inteiro. O terror que eles perpetram contra o pobre casal é lento, esquisito, e vai crescendo desde que eles aparecem até o final. Não há nenhuma justificativa para suas ações, nada, o que deixa o filme mais impactante e, na minha opinião, muito melhor – aqui comento como é este terror injustificado o grande atrativo de filmes espetaculares, como “Canibais (The Farm)” e “Bacurau”. Por que será que o mal gratuito me atrai tanto no cinema? Provavelmente porque o mal, em si, não tem nada que o justifique; não adianta tentar me convencer do contrário. *** Imagem gerada pelo Claude. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
Cinema, Viagem
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
2 de agosto de 2026 at 03:06 0
Tive dois ataques de pânico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confiança nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que já era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de “cair sozinho”: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, não tenho medo nenhum. Amo andar de avião, inclusive. O primeiro ataque de pânico foi num show do Morrissey em 2012 no Espaço das Américas, atual Espaço Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos até chegar na minha poltrona, no primeiro balcão. Para chegar até meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baixíssimo, numa altura gigante – sei lá, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o pânico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espetáculo estava perfeito). O segundo ataque de pânico foi em Machu Picchu. A sequência do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ruínas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de ônibus que parece pertencer à série “Estradas Mortais”, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu já estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que é terrível para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ruínas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta - tudo me fez ter o segundo ataque de pânico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, não tinha como voltar no meio da pequena multidão, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame histórico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror não me dão medo nenhum, muito pelo contrário. O grande crítico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que “Obsessão” é um filme que, “de fato, dá medo”. Já eu, que também amei o filme, comentei aqui que ele “é um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles”. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. Até que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado “A queda”, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lançado originalmente em 2022, 107 min). O filme já começa assustador: um casal e uma amiga escalando um paredão praticamente vertical: eles estão todos se divertindo até que o cara cai lá de cima. A mulher entra em profunda depressão e, um ano depois, a amiga que estava junto no paredão, para animá-la, sugere que as duas vão escalar uma torre de rádio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem até o topo do negócio e lá começa o sofrimento, sobre o qual não vou comentar aqui para não estragar a surpresa. Só o que eu posso dizer é que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro até o topo e eu já estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa só piorou. Não sei para que tanto sofrimento, minha gente.
Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. Se você estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
Cinema
“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
24 de junho de 2026 at 10:22 0
Hoje em dia eu praticamente só assisto a filmes noir (americanos e franceses) e de terror, já devo ter comentado aqui. Os noir eu vou assistindo os que vêm nos ótimos DVDs da Versátil, e os de terror simplesmente escolho alguma coisa que me chama a atenção nos streamings (não sei por que o Prime Video e a Netflix me indicam filmes de terror assim que eu entro nas plataformas!). Depois de praticamente uma vida inteira assistindo só a filmes “recomendados”, normalmente pela crítica, gosto muito da sensação de cair num filme sem nem saber do que se trata. Com Obsessão (2026), dirigido por Curry Baker, a coisa mudou um pouco. Vi na página inicial do UOL comentários superlativos sobre o filme, gostei das fotos de divulgação (como a imagem que acompanha este texto) e acabei ficando obcecado de vontade de assistir — péssima piada, eu sei. Assisti no cinema, e realmente ele merece o sucesso que faz. Com orçamento baixíssimo, já é um dos filmes de terror de maior sucesso de todos os tempos, segundo dados do site AdoroCinema. A cena inicial é excelente: Bear (Michael Johnston), um rapaz tímido, treina a declaração que quer fazer para a amiga Nikki (Inde Navarrette), por quem é apaixonado há muito tempo. Esta paixão é o combustível para o início do filme — e, até aqui, parece que estamos assistindo a uma Sessão da Tarde. Mas ele acaba conseguindo que a garota se apaixone por ele, e a relação logo se transforma em um pesadelo violento e sobrenatural conforme o amor dela se torna uma obsessão assustadora e destrutiva. São muitas as qualidades da produção: a maneira como a história se desenrola, os sustos e a tensão permanente. Mas acho que o filme não teria o impacto que teve se não fosse o casal de protagonistas, vivido por Michael Johnston e, principalmente, pela extraordinária Inde Navarrette, assustadora de verdade como Nikki. É um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles.
Imagem: Divulgação. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
Cinema
O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
31 de maio de 2026 at 10:31 0
É engraçado como eu lembro de frases e comentários das revistas Bizz e Veja, e da Enciclopédia Abril, que eu lia na adolescência. Sobre o filme “Tron, uma odisseia eletrônica” - filme americano lançado em 1982, dirigido por Steven Lisberger e com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner nos papéis principais (96 min) -, os comentários eram mais ou menos os seguintes: visualmente deslumbrante, mas com roteiro fraquíssimo. Bem, imaginei que era uma coisa parecida com a imagem que acompanha o texto, em que seres humanos tinham umas roupas eletrônicas colantes cheias de fios e luzes, não me interessei tanto e acabei não assistindo ao filme. Mas, por algum motivo, “Tron: uma odisseia eletrônica” nunca me saiu da cabeça, até que resolvi assistir em um dia desses. Visto hoje, época em que a discussão sobre Inteligência Artificial é tão urgente, o filme, ao contrário do que a Revista Veja comentou na época, não tem um roteiro ruim – mais do que isso, mostrou-se bem adiantado no tempo. Ele conta a história de Kevin Flynn, um programador de computadores que é transportado para dentro do mundo digital de um computador de grande porte (mainframe), onde precisa lutar por sua vida em jogos de gladiadores eletrônicos para derrotar o tirânico Master Control Program, uma IA maligna que domina o ambiente, conhecido como “Grade”. Os ecos de HAL, o computador inteligente de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (filme de 1968 dirigido por Stanley Kubrick), me pareceram bem presentes. As atuações, por outro lado, achei fraquíssimas. Mas não é isso que me impressionou tanto em “Tron: uma odisseia eletrônica”: o filme é, visualmente, deslumbrante. As perseguições de motos virtuais, os ambientes com “lixo computacional”, os voos de espaçonaves eletrônicas têm um visual magnífico, com cores vívidas, e movimentos de imagens de computador que deixam a gente pensando o tempo todo: como eles lançaram esse negócio em 1982? Incrível! O início se passa todo fora do computador, mas quando Kevin Flynn entra no mainframe o que se vê são rostos humanos, distorcidos por filtros normalmente azulados, em roupas e ambientes computacionais belíssimos. E a história, não custa reforçar, não só é atual como é muito bem contada. Uma verdadeira obra-prima! Eu não esperava por essa, certamente.
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Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
Cinema
Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
15 de março de 2026 at 17:47 0
Não sei direito quantas vezes assisti a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, lançado em 1964 (120 minutos). A cada vez que vejo este filme, uma nova camada da história vai se descortinando e mais fico impressionado com sua genialidade. Segundo a Wikipédia, no filme:
O sertanejo Manoel e sua mulher, Rosa, levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era o do patrão. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa. Ele e sua esposa resolvem ir embora, deixando tudo para trás.
Assim que mata o coronel, Manoel (vivido por Geraldo Del Rey) e sua mulher (vivida por Yoná Magalhães) começam uma fuga que vai durar o filme todo. Primeiro, encontram o Beato Sebastião (Lídio Silva), um religioso messiânico na linha de Antônio Conselheiro, o líder de Canudos; depois, o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), que está praticamente sozinho após a morte de Lampião. Em todo esse percurso, tanto o beato quanto o cangaceiro são perseguidos pelo matador Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um dos personagens mais impressionantes do cinema brasileiro, que ainda estrelaria um filme posterior de Glauber Rocha: “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de 1969 (chamado simplesmente de “Antonio das Mortes” no exterior). Considerado universalmente um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” tem inúmeras qualidades: os personagens não são esquemáticos (todos têm defeitos e virtudes); a filmagem é delirante e meio assustadora; a música é maravilhosa — de Sérgio Ricardo, com letra do próprio Glauber Rocha — e “narra” o filme; as atuações são impressionantes. Até o título é impactante e irônico: “Deus” é o Beato Sebastião, que não tem nada de santo, e o “Diabo” é Corisco, que possui um caráter tão ambíguo quanto o do líder messiânico — ou tão ambíguo quanto o do próprio vaqueiro Manoel. Ao contrário de outros filmes de que gosto muito — como “Persona” e “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman; “Stalker”, de Andrei Tarkovski; “Limite”, de Mário Peixoto; ou “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho —, eu nunca havia conseguido escrever sobre “Deus e o Diabo na Terra do Sol” até chegar a este texto. Talvez eu achasse que qualquer coisa que escrevesse não faria justiça a essa obra-prima. Assisti ao filme esta semana e, novamente, não sabia o que dizer. Até que este texto saiu. Espero não ter feito tão feio assim.   (Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 at 11:13 0

Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin.

Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967.

O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária.

O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
Cinema
Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
21 de dezembro de 2025 at 12:17 0
Em 2025, li muito menos que o meu normal, mas compensei isso assistindo a muitos filmes. Seguem os vinte de que mais gostei, em ordem de preferência — alguns contêm links que se referem a textos meus escritos anteriormente.
  1. A Outra Terra (Another Earth) Este filme americano de 2011, dirigido por Mike Cahill, tem 92 minutos de duração. A trama de ficção científica acompanha Rhoda Williams, uma jovem estudante de astrofísica que busca redenção após causar um acidente fatal, ao mesmo tempo em que o surgimento de um planeta duplicado ("Terra 2") oferece a perspectiva de uma segunda chance. Um filme maravilhoso e pouco conhecido, que parece um sonho.
  2. Bacurau Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, este filme brasileiro/francês foi lançado em 2019 e tem 131 minutos. A história narra a luta violenta pela sobrevivência da pequena comunidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, após seus moradores descobrirem que o vilarejo desapareceu dos mapas e está sob ataque de mercenários estrangeiros. Claramente inspirado em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, esta obra prova que uma obra-prima pode influenciar outra.
  3. Os Canibais (The Farm) Com 80 minutos de duração, este filme de survival horror americano de 2018 foi dirigido por Hans Stjernswärd. A trama segue um jovem casal sequestrado e mantido em cativeiro em uma fazenda isolada, onde são tratados como animais de criação. É, provavelmente, o filme mais assustador a que já assisti.
  4. Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone) Dirigido por Robert Allan Ackerman, este filme americano de 2003 tem 99 minutos. Baseado em um romance de Tennessee Williams, conta a história de uma atriz americana de meia-idade que, após a morte do marido, se envolve com um jovem gigolô italiano em Roma, mas a trama não se desenvolve como se espera, o que faz a força do filme.
  5. V/H/S/85 Esta antologia de terror found footage é uma coprodução entre EUA e México, lançada em 2023, com 110 minutos de duração. A narrativa se desenrola através de um documentário fictício que revela cinco contos arrepiantes com a estética da década de 1980. Os segmentos interligados "No Wake" e "Ambrosia", dirigidos por Mike P. Nelson, são tão espetaculares que deveriam ser expandidos para longas-metragens — e não sou só eu quem pensa assim.
  6. X - A Marca da Morte (X) Este slasher de terror de 2022, dirigido por Ti West, tem 105 minutos. A trama acompanha um grupo de cineastas amadores que tenta gravar um filme adulto em uma fazenda isolada no Texas, mas se torna alvo de anfitriões idosos e assassinos. Reúne gore, erotismo, intensidade e a excelente Mia Goth.
  7. Kill Bill: Volume 1 e 2 (Kill Bill: Vol. 1 & 2) Filmes de Quentin Tarantino lançados em 2003 e 2004, com cerca de 248 minutos de duração total. Com Uma Thurman e grande elenco, a obra segue a assassina Beatrix Kiddo em uma jornada que mistura artes marciais e faroeste. Celebrada como o épico de vingança definitivo de Tarantino, só agora assisti a esta obra-prima. "Antes tarde do que mais tarde", como diz minha filha Teresa.
  8. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar) Lançado em 2019 e dirigido por Ari Aster, tem 147 minutos de duração. O filme acompanha um casal em um festival sueco de solstício de verão que ocorre a cada 90 anos, mas a celebração se torna um pesadelo de rituais pagãos. Pareciam hippies, mas não eram: a luminosidade extrema desta obra-prima deixa tudo mais bonito e muito mais perturbador.
  9. Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape) Este drama de 1989, dirigido por Steven Soderbergh, tem 100 minutos. A trama explora a vida de quatro pessoas cujos segredos e insatisfações sexuais afloram após a chegada de um homem que grava entrevistas sobre fantasias íntimas. Um filme profundo e carinhoso com os seus personagens.
  10. Swingers: Os Limites do Amor (Hranice Lásky) Dirigido por Tomasz Winski, este filme tcheco de 2022 tem 95 minutos. Acompanha um casal que decide explorar a não-monogamia e o swinging, testando os limites do amor e do ciúme. Parece libertário, mas não é.
  11. Barbie Esta sátira de 2023, dirigida por Greta Gerwig, tem 114 minutos. Barbie e Ken deixam a Barbielândia para visitar o Mundo Real, onde descobrem realidades sobre gênero e patriarcado. Um filme delicioso e divertido que levanta questões profundas, embora pudesse ter meia hora a menos.
  12. Um Lugar Secreto (John and the Hole) Filme de Pascual Sisto (2021) com 103 minutos. Conta a história de John, um garoto de 13 anos que prende a sua família num bunker inacabado no quintal de casa. Além de parecer um sonho sinistro, possui uma história paralela sobre uma menina abandonada que torna tudo ainda mais perturbador.
  13. Os Imorais (The Grifters) Dirigido por Stephen Frears, este noir de 1990 tem 119 minutos. Três vigaristas profissionais mergulham no submundo do crime e da traição em Los Angeles. Ainda pretendo comentar aqui sobre este e outros filmes neo-noir da década de 1990 e as suas cores maravilhosas.
  14. Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2 Esta obra de Lars von Trier (2013) tem 241 minutos no total. Desenrola-se a partir dos relatos de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca, sobre as suas experiências. Alta cultura e vício em uma obra-prima perturbadora.
  15. O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex) Drama histórico de 2008 dirigido por Uli Edel, com 149 minutos. Narra a ascensão e queda da Fração do Exército Vermelho (RAF) na Alemanha Ocidental. É fiel ao livro de Stefan Aust; a semelhança da atriz que interpreta Gudrun Ensslin com a verdadeira terrorista é impressionante.
  16. A Maldição da Ponte (The Bridge Curse) Terror taiwanês de 2020 dirigido por Lester Hsi. Estudantes decidem testar o mito de uma ponte assombrada em uma transmissão ao vivo. Meus sonhos e pesadelos parecem-se com este filme.
  17. O Agente Secreto Thriller político de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, com 158 minutos. Ambientado no Recife de 1977, foca na vigilância e repressão da ditadura militar. Quase tão bom quanto Bacurau.
  18. Anora Comédia dramática de Sean Baker (2024) com 138 minutos. Uma stripper do Brooklyn casa-se impulsivamente com o filho de um oligarca russo. Embora eu sempre torça pelo Brasil, reconheço que Anora é superior a Ainda Estou Aqui.
  19. Ligadas pelo Desejo (Bound) Thriller neo-noir de 1996 dirigido pelas irmãs Wachowski. Foca no romance entre uma ex-presidiária e a namorada de um mafioso, que planejam um roubo milionário. Outra obra-prima que pretendo detalhar em breve.
  20. O Babadook (The Babadook) Filme de Jennifer Kent (2014) com 94 minutos. Uma viúva enfrenta o medo do filho de um monstro infantil, que serve como metáfora para o luto. Um filme assustador de verdade.
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
14 de dezembro de 2025 at 13:55 0
“O Grupo Baader-Meinhof” (Alemanha/França/República Tcheca, 2008, 150 min) é um filme dirigido por Uli Edel e estrelado por Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu e Johanna Wokalek. A obra narra a história da “primeira geração” do grupo terrorista alemão, composta por Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Ulrike Meinhof. O filme é baseado em “Der Baader-Meinhof Komplex”, de Stefan Aust, publicado em 1985 e considerado um dos melhores livros sobre o tema. É interessante como algumas cenas do livro são fielmente reproduzidas no filme. Posso citar a tensão — cultural e disciplinar — entre terroristas palestinos e os ativistas alemães, que ficavam nus — homens e mulheres juntos — em público durante um treinamento militar na Jordânia. Outra cena marcante é a de Andreas Baader dando de presente seu casaco de couro para um terrorista recém-chegado, só porque o novato havia gostado da peça. O filme é excelente, mantendo a tensão o tempo todo e com atuações extraordinárias. A semelhança entre Johanna Wokalek, a atriz que interpreta Gudrun Ensslin, e a própria terrorista é tão grande que chega a ser assustadora. Ensslin era namorada de Andreas Baader e era mais importante dentro do grupo do que Ulrike Meinhof, apesar de o nome desta última compor o título popular do grupo, que era oficialmente chamado de Rote Armee Fraktion (RAF).

Nestas pesquisas sobre a Alemanha dos anos 1970, acabei tendo a sorte de encontrar, como propaganda principal da Prime Video, o filme de 2024/2025, “Setembro 5”, dirigido por Timur Bekmambetov (Alemanha/EUA - 94 min). O filme se concentra na transmissão esportiva da rede americana ABC durante o Massacre de Munique em 1972, o ataque terrorista a atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos. “Setembro 5” é filmado como se fosse uma película dos anos 1970, e o cuidado com a reprodução da tecnologia daquela época é espetacular. Os técnicos da rede americana ABC tinham que lutar pelo único satélite disponível para os Estados Unidos; muitas informações eram obtidas por uma rádio local – e apenas uma tradutora (vivida pela atriz Lena Urzendowsky) conseguia traduzir para os americanos o que se dizia. Havia também uma dificuldade gigantesca em transportar as enormes câmeras para os locais onde o atentado estava ocorrendo, e assim por diante. Fascinante. Existia sim uma relação entre os terroristas palestinos, do grupo Setembro Negro, que assassinaram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972, e os terroristas alemães. Essencialmente, o Baader-Meinhof atuava como uma célula de apoio local para o Setembro Negro em solo alemão, baseada na convicção de que todos estavam lutando contra o mesmo sistema ocidental. Conforme discutido anteriormente, inclusive, os ativistas alemães fizeram treinamento militar com os palestinos na Jordânia. Para corroborar este fato, uma das principais reivindicações do Setembro Negro era a libertação de centenas de prisioneiros palestinos detidos em Israel. Crucialmente, eles também exigiram a libertação de líderes da RAF, como Andreas Baader e Ulrike Meinhof, que estavam presos em cadeias alemãs.

Também foi uma sorte ter encontrado na Prime Video o anúncio de “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” (1981, Alemanha Ocidental - 131 min), baseado no livro de mesmo nome. A história da garota de classe média que se vicia em heroína na Berlim Ocidental dos anos 1970 e acaba se prostituindo para sustentar o vício resultou num dos livros mais importantes que li na vida: eu era adolescente e fiquei tão assustado com o relato – e as fotos – da obra que tenho certeza que esta leitura me tirou toda e qualquer vontade de usar drogas ilícitas, até hoje. Mas nunca tinha visto o filme, ao qual só assisti agora. Como todos os citados neste texto, ele é extraordinário, com ótimas atuações e tensão do início ao fim. Pode-se argumentar que o que conecta as histórias de Christiane F. e do Baader-Meinhof é o desespero de uma juventude que se sentia isolada e sem futuro, seja encontrando sentido na revolução ou no vício. Tenho minhas ressalvas em relação a esta teoria, dados os problemas que muitas pessoas enfrentam com o uso abusivo de drogas, seja na Berlim dos anos 1970 ou em muitos outros lugares e épocas. Mas há sim algumas relações inequívocas entre as duas obras: no filme de 1981, a cena da primeira relação entre Christiane F. e seu namorado Detlev ocorre num quarto onde, com grande destaque, aparece o famoso pôster de “Procura-se” da polícia alemã com a foto do rosto de Ulrike Meinhof. Mais do que isso, o alemão Uli Edel é o diretor dos dois filmes! Não tem como não dizer que as histórias trágicas do grupo Baader-Meinhof e de Christiane F. não estão relacionadas.
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