Cinema

O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 at 11:13 0

Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin.

Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967.

O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária.

O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema.
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Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
Cinema
Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
21 de dezembro de 2025 at 12:17 0
Em 2025, li muito menos que o meu normal, mas compensei isso assistindo a muitos filmes. Seguem os vinte de que mais gostei, em ordem de preferência — alguns contêm links que se referem a textos meus escritos anteriormente.
  1. A Outra Terra (Another Earth) Este filme americano de 2011, dirigido por Mike Cahill, tem 92 minutos de duração. A trama de ficção científica acompanha Rhoda Williams, uma jovem estudante de astrofísica que busca redenção após causar um acidente fatal, ao mesmo tempo em que o surgimento de um planeta duplicado ("Terra 2") oferece a perspectiva de uma segunda chance. Um filme maravilhoso e pouco conhecido, que parece um sonho.
  2. Bacurau Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, este filme brasileiro/francês foi lançado em 2019 e tem 131 minutos. A história narra a luta violenta pela sobrevivência da pequena comunidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, após seus moradores descobrirem que o vilarejo desapareceu dos mapas e está sob ataque de mercenários estrangeiros. Claramente inspirado em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, esta obra prova que uma obra-prima pode influenciar outra.
  3. Os Canibais (The Farm) Com 80 minutos de duração, este filme de survival horror americano de 2018 foi dirigido por Hans Stjernswärd. A trama segue um jovem casal sequestrado e mantido em cativeiro em uma fazenda isolada, onde são tratados como animais de criação. É, provavelmente, o filme mais assustador a que já assisti.
  4. Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone) Dirigido por Robert Allan Ackerman, este filme americano de 2003 tem 99 minutos. Baseado em um romance de Tennessee Williams, conta a história de uma atriz americana de meia-idade que, após a morte do marido, se envolve com um jovem gigolô italiano em Roma, mas a trama não se desenvolve como se espera, o que faz a força do filme.
  5. V/H/S/85 Esta antologia de terror found footage é uma coprodução entre EUA e México, lançada em 2023, com 110 minutos de duração. A narrativa se desenrola através de um documentário fictício que revela cinco contos arrepiantes com a estética da década de 1980. Os segmentos interligados "No Wake" e "Ambrosia", dirigidos por Mike P. Nelson, são tão espetaculares que deveriam ser expandidos para longas-metragens — e não sou só eu quem pensa assim.
  6. X - A Marca da Morte (X) Este slasher de terror de 2022, dirigido por Ti West, tem 105 minutos. A trama acompanha um grupo de cineastas amadores que tenta gravar um filme adulto em uma fazenda isolada no Texas, mas se torna alvo de anfitriões idosos e assassinos. Reúne gore, erotismo, intensidade e a excelente Mia Goth.
  7. Kill Bill: Volume 1 e 2 (Kill Bill: Vol. 1 & 2) Filmes de Quentin Tarantino lançados em 2003 e 2004, com cerca de 248 minutos de duração total. Com Uma Thurman e grande elenco, a obra segue a assassina Beatrix Kiddo em uma jornada que mistura artes marciais e faroeste. Celebrada como o épico de vingança definitivo de Tarantino, só agora assisti a esta obra-prima. "Antes tarde do que mais tarde", como diz minha filha Teresa.
  8. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar) Lançado em 2019 e dirigido por Ari Aster, tem 147 minutos de duração. O filme acompanha um casal em um festival sueco de solstício de verão que ocorre a cada 90 anos, mas a celebração se torna um pesadelo de rituais pagãos. Pareciam hippies, mas não eram: a luminosidade extrema desta obra-prima deixa tudo mais bonito e muito mais perturbador.
  9. Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape) Este drama de 1989, dirigido por Steven Soderbergh, tem 100 minutos. A trama explora a vida de quatro pessoas cujos segredos e insatisfações sexuais afloram após a chegada de um homem que grava entrevistas sobre fantasias íntimas. Um filme profundo e carinhoso com os seus personagens.
  10. Swingers: Os Limites do Amor (Hranice Lásky) Dirigido por Tomasz Winski, este filme tcheco de 2022 tem 95 minutos. Acompanha um casal que decide explorar a não-monogamia e o swinging, testando os limites do amor e do ciúme. Parece libertário, mas não é.
  11. Barbie Esta sátira de 2023, dirigida por Greta Gerwig, tem 114 minutos. Barbie e Ken deixam a Barbielândia para visitar o Mundo Real, onde descobrem realidades sobre gênero e patriarcado. Um filme delicioso e divertido que levanta questões profundas, embora pudesse ter meia hora a menos.
  12. Um Lugar Secreto (John and the Hole) Filme de Pascual Sisto (2021) com 103 minutos. Conta a história de John, um garoto de 13 anos que prende a sua família num bunker inacabado no quintal de casa. Além de parecer um sonho sinistro, possui uma história paralela sobre uma menina abandonada que torna tudo ainda mais perturbador.
  13. Os Imorais (The Grifters) Dirigido por Stephen Frears, este noir de 1990 tem 119 minutos. Três vigaristas profissionais mergulham no submundo do crime e da traição em Los Angeles. Ainda pretendo comentar aqui sobre este e outros filmes neo-noir da década de 1990 e as suas cores maravilhosas.
  14. Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2 Esta obra de Lars von Trier (2013) tem 241 minutos no total. Desenrola-se a partir dos relatos de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca, sobre as suas experiências. Alta cultura e vício em uma obra-prima perturbadora.
  15. O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex) Drama histórico de 2008 dirigido por Uli Edel, com 149 minutos. Narra a ascensão e queda da Fração do Exército Vermelho (RAF) na Alemanha Ocidental. É fiel ao livro de Stefan Aust; a semelhança da atriz que interpreta Gudrun Ensslin com a verdadeira terrorista é impressionante.
  16. A Maldição da Ponte (The Bridge Curse) Terror taiwanês de 2020 dirigido por Lester Hsi. Estudantes decidem testar o mito de uma ponte assombrada em uma transmissão ao vivo. Meus sonhos e pesadelos parecem-se com este filme.
  17. O Agente Secreto Thriller político de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, com 158 minutos. Ambientado no Recife de 1977, foca na vigilância e repressão da ditadura militar. Quase tão bom quanto Bacurau.
  18. Anora Comédia dramática de Sean Baker (2024) com 138 minutos. Uma stripper do Brooklyn casa-se impulsivamente com o filho de um oligarca russo. Embora eu sempre torça pelo Brasil, reconheço que Anora é superior a Ainda Estou Aqui.
  19. Ligadas pelo Desejo (Bound) Thriller neo-noir de 1996 dirigido pelas irmãs Wachowski. Foca no romance entre uma ex-presidiária e a namorada de um mafioso, que planejam um roubo milionário. Outra obra-prima que pretendo detalhar em breve.
  20. O Babadook (The Babadook) Filme de Jennifer Kent (2014) com 94 minutos. Uma viúva enfrenta o medo do filho de um monstro infantil, que serve como metáfora para o luto. Um filme assustador de verdade.
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
14 de dezembro de 2025 at 13:55 0
“O Grupo Baader-Meinhof” (Alemanha/França/República Tcheca, 2008, 150 min) é um filme dirigido por Uli Edel e estrelado por Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu e Johanna Wokalek. A obra narra a história da “primeira geração” do grupo terrorista alemão, composta por Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Ulrike Meinhof. O filme é baseado em “Der Baader-Meinhof Komplex”, de Stefan Aust, publicado em 1985 e considerado um dos melhores livros sobre o tema. É interessante como algumas cenas do livro são fielmente reproduzidas no filme. Posso citar a tensão — cultural e disciplinar — entre terroristas palestinos e os ativistas alemães, que ficavam nus — homens e mulheres juntos — em público durante um treinamento militar na Jordânia. Outra cena marcante é a de Andreas Baader dando de presente seu casaco de couro para um terrorista recém-chegado, só porque o novato havia gostado da peça. O filme é excelente, mantendo a tensão o tempo todo e com atuações extraordinárias. A semelhança entre Johanna Wokalek, a atriz que interpreta Gudrun Ensslin, e a própria terrorista é tão grande que chega a ser assustadora. Ensslin era namorada de Andreas Baader e era mais importante dentro do grupo do que Ulrike Meinhof, apesar de o nome desta última compor o título popular do grupo, que era oficialmente chamado de Rote Armee Fraktion (RAF).

Nestas pesquisas sobre a Alemanha dos anos 1970, acabei tendo a sorte de encontrar, como propaganda principal da Prime Video, o filme de 2024/2025, “Setembro 5”, dirigido por Timur Bekmambetov (Alemanha/EUA - 94 min). O filme se concentra na transmissão esportiva da rede americana ABC durante o Massacre de Munique em 1972, o ataque terrorista a atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos. “Setembro 5” é filmado como se fosse uma película dos anos 1970, e o cuidado com a reprodução da tecnologia daquela época é espetacular. Os técnicos da rede americana ABC tinham que lutar pelo único satélite disponível para os Estados Unidos; muitas informações eram obtidas por uma rádio local – e apenas uma tradutora (vivida pela atriz Lena Urzendowsky) conseguia traduzir para os americanos o que se dizia. Havia também uma dificuldade gigantesca em transportar as enormes câmeras para os locais onde o atentado estava ocorrendo, e assim por diante. Fascinante. Existia sim uma relação entre os terroristas palestinos, do grupo Setembro Negro, que assassinaram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972, e os terroristas alemães. Essencialmente, o Baader-Meinhof atuava como uma célula de apoio local para o Setembro Negro em solo alemão, baseada na convicção de que todos estavam lutando contra o mesmo sistema ocidental. Conforme discutido anteriormente, inclusive, os ativistas alemães fizeram treinamento militar com os palestinos na Jordânia. Para corroborar este fato, uma das principais reivindicações do Setembro Negro era a libertação de centenas de prisioneiros palestinos detidos em Israel. Crucialmente, eles também exigiram a libertação de líderes da RAF, como Andreas Baader e Ulrike Meinhof, que estavam presos em cadeias alemãs.

Também foi uma sorte ter encontrado na Prime Video o anúncio de “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” (1981, Alemanha Ocidental - 131 min), baseado no livro de mesmo nome. A história da garota de classe média que se vicia em heroína na Berlim Ocidental dos anos 1970 e acaba se prostituindo para sustentar o vício resultou num dos livros mais importantes que li na vida: eu era adolescente e fiquei tão assustado com o relato – e as fotos – da obra que tenho certeza que esta leitura me tirou toda e qualquer vontade de usar drogas ilícitas, até hoje. Mas nunca tinha visto o filme, ao qual só assisti agora. Como todos os citados neste texto, ele é extraordinário, com ótimas atuações e tensão do início ao fim. Pode-se argumentar que o que conecta as histórias de Christiane F. e do Baader-Meinhof é o desespero de uma juventude que se sentia isolada e sem futuro, seja encontrando sentido na revolução ou no vício. Tenho minhas ressalvas em relação a esta teoria, dados os problemas que muitas pessoas enfrentam com o uso abusivo de drogas, seja na Berlim dos anos 1970 ou em muitos outros lugares e épocas. Mas há sim algumas relações inequívocas entre as duas obras: no filme de 1981, a cena da primeira relação entre Christiane F. e seu namorado Detlev ocorre num quarto onde, com grande destaque, aparece o famoso pôster de “Procura-se” da polícia alemã com a foto do rosto de Ulrike Meinhof. Mais do que isso, o alemão Uli Edel é o diretor dos dois filmes! Não tem como não dizer que as histórias trágicas do grupo Baader-Meinhof e de Christiane F. não estão relacionadas.
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Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
Cinema
Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
5 de outubro de 2025 at 08:08 0

Tenho assistido a muitos filmes de terror. Assim como minha outra paixão cinematográfica, os filmes noir americanos e franceses, em que eu simplesmente vou assistindo a todos os filmes de DVDs da Versátil sem me preocupar em saber o enredo ou a opinião da crítica, com os filmes de terror muitas vezes começo a assistir a algum título na Netflix ou no Amazon Prime sem me preocupar muito em saber do que se trata. Outra mania minha: só assisto a filmes de terror mais ou menos recentes. Manias não se explicam.

O filme americano Corra! (dirigido por Jordan Peele, 2017, EUA) foi escolhido como o quinto melhor do século XXI, em qualquer gênero, pelo jornal New York Times. Não achei o filme ruim, mas penso que grande parte da sua importância se deve à profunda crítica social que ele traz, e não ao terror em si.

De todo modo, o tipo de terror que Corra! representa é relativamente frequente em muitos filmes recentes: a história de alguém que chega a um lugar onde um grupo mais ou menos esquisito acaba se revelando muito mais estranho do que parecia à primeira vista. Filmes desse tipo que assisti recentemente são O Monastério (dirigido por Bartosz M. Kowalski, 2022, Polônia), A Freira (dirigido por Corin Hardy, 2018, EUA), Imaculada (dirigido por Michael Mohan, 2024, EUA e Itália), Piscina Infinita (dirigido por Brandon Cronenberg, 2023, Canadá, Croácia e Hungria), Suspiria (dirigido por Luca Guadagnino, 2018, EUA e Itália) e A Cura (dirigido por Gore Verbinski, 2017, EUA, Alemanha e Luxemburgo). O que mais gostei foi Midsommar (dirigido por Ari Aster, 2019, EUA e Suécia), em que o terror surge num lugar lindo, ensolarado (!) e bucólico no interior da Suécia.

Casos interessantes, para o público ocidental, são A Morte Sussurra (dirigido por Taweewat Wantha, 2023, Tailândia), um filme tailandês em que um exorcismo acontece sob o ponto de vista budista, e o excelente Umma (dirigido por Iris K. Shim, 2022, EUA), um filme americano em que uma mãe coreana atormenta a vida da filha, que nasceu na Coreia, mas vive nos Estados Unidos. Duas sequências de filmes que ainda não assisti inteiras estão entre as coisas mais assustadoras que já vi: V/H/S (dirigido por vários, 2012, EUA), que só assisti ao primeiro e que mostra uma série de pequenas histórias filmadas em VHS, e [REC] (dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, 2007, Espanha), que já assisti aos dois primeiros, uma série espanhola sobre uma possessão monstruosa num prédio em Barcelona. Esta última também tem uma versão americana, e é bom saber que ainda tenho bastante coisa — boa, espero — para assistir nessas séries. Muito assustador também é Canibais (dirigido por J.K. Bown, 2017, Estados Unidos), um filme em que seres humanos são criados como gado para o abate, sobre o qual já comentei aqui. Embora alguns filmes citados acima realmente me perturbem, é mais comum que os filmes de terror não me assustem muito, mas me divirtam bastante. Provavelmente o terror assusta mais o espectador quando o atinge em algum canto do seu inconsciente. É por isso que o filme A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2021, Coreia do Sul) foi um dos mais assustadores que já assisti: uma história de possessão com estudantes em uma universidade, com corredores escuros e estranhos, que me deixou realmente inquieto. Sim, grande parte dos meus sonhos e pesadelos se passa em corredores escuros e estranhos. Por sorte, a continuação de A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2023, Taiwan) é tão confusa que não chegou a me dar medo. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você tiver interesse em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Bacurau e Canibais (The Farm)
Cinema
Bacurau e Canibais (The Farm)
27 de julho de 2025 at 15:00 0
“Bacurau”, lançado em 2019 e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi um enorme sucesso de público e de crítica. O filme conquistou inúmeros prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio do Júri no Festival de Cannes (2019). A história se desenrola em um futuro próximo, na pequena e fictícia vila de Bacurau, no sertão de Pernambuco. Um grupo de estrangeiros – a maioria americanos e europeus – invade a cidade com o objetivo de realizar um "safári humano", caçando e matando os moradores por esporte. Para isso, eles chegam a fazer a vila desaparecer dos mapas online e do GPS. Em resposta, os moradores se unem para lutar contra os invasores. O filme é tenso, violento e mantém a atenção o tempo todo. A filmagem é intencionalmente "amadora", com luz natural e pouco "cinematográfica", enquadramentos que fogem do "perfeito" ou "simétrico", e movimentos de câmera muitas vezes bruscos. Essa abordagem "áspera" de filmagem me remete a filmes que aprecio, como “A Outra Terra” – que comentei recentemente aqui – e “O Império dos Sonhos” (Inland Empire), de David Lynch. Já o tema, que retrata um sertão nordestino violento e impiedoso, é claramente inspirado em obras como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o clássico brasileiro de 1964, dirigido pelo grande Glauber Rocha. Ao pensar nos dois filmes, a imagem de pistoleiros correndo pelo sertão me vem à mente: sim, também temos o nosso western de extrema qualidade! Se “Bacurau” foi um grande sucesso de público e de crítica, o mesmo não pode ser dito de “Canibais (The Farm)” (menciono o filme sempre assim para evitar confusão com outra obra de mesmo nome em português, de 2013). Este filme de terror independente, dirigido e escrito por Hans Stjernswärd, foi lançado em 2018. Na internet, é comum encontrar críticas à sua violência extrema, à falta de enredo e desenvolvimento de personagens, ao "choque pelo choque" e à péssima atuação dos atores principais. No entanto, confesso que gostei muito de “Canibais (The Farm)”, talvez por ter pouco contato com esse tipo de terror gore, ou talvez porque o filme seja realmente bom – só o tempo dirá. No filme, um casal, Nora (Nora Yessayan) e Alec (Alec Gaylord) – note que os nomes dos personagens são os mesmos dos atores –, está viajando e acaba parando em um local isolado. Eles rapidamente se veem em uma situação aterrorizante: uma fazenda onde seres humanos são tratados como gado, preparados para o consumo. O desespero e a agonia das vítimas são constantes e aterradores ao longo de todo o filme. Não há nenhum momento de trégua, e o fato de os perpetradores usarem máscaras de animais "inocentes" – porcos, vacas, ovelhas – torna tudo ainda mais assustador. Apesar da enorme diferença em termos de sucesso de público e de crítica, “Bacurau” e “Canibais (The Farm)” têm muitos pontos em comum, além de terem sido lançados com pouco tempo de diferença. A violência, seja a perpetrada pelos estrangeiros no primeiro ou pelos fazendeiros no segundo, é totalmente absurda, sem sentido e gratuita, fazendo com que ambos, em muitos momentos, pareçam um pesadelo sem sentido. Mais do que isso, ambos os filmes podem ser lidos sob uma ótica de crítica política e social. “Bacurau” é frequentemente visto como uma forte alegoria sobre o Brasil e suas complexidades, abordando a violência contra as populações mais vulneráveis, a exploração estrangeira e a importância da resistência e da união comunitária. Já “Canibais (The Farm)” é frequentemente interpretado como uma defesa dos animais e do veganismo, pois, ao inverter os papéis e mostrar seres humanos tratados como gado, expõe a crueldade do tratamento de animais de corte, buscando despertar empatia pelas vítimas. Pessoalmente, não me aprofundo muito nessas interpretações. Para mim, ambos os filmes são excelentes, entre outros motivos, por assustar justamente pela violência absurda que exibem na tela. *** Assisti a 'Bacurau' no Globoplay e a 'Canibais (The Farm)' no Prime Video. A foto que acompanha o texto foi obtida no site do Prime Video. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Quatro filmes de temática sexual
Cinema
Quatro filmes de temática sexual
26 de julho de 2025 at 21:29 0
Dirigido por Stanley Kubrick, o filme "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut), lançado em 1999, acompanha o médico Bill Harford (Tom Cruise), cuja vida aparentemente perfeita com sua esposa Alice (Nicole Kidman) é abalada após a confissão de uma fantasia sexual. Chocado, Bill embarca em uma jornada noturna e surreal pela elite secreta de Nova York, onde se depara com rituais misteriosos e uma orgia mascarada. A obra é baseada na novela de 1926, "Breve Romance de Sonho", do austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), um autor conhecido por explorar temas sexuais, fortemente influenciado por Sigmund Freud. No entanto, para o espectador atual, o simples fato de uma mulher casada sentir desejo por outro homem pode não justificar a crise profunda que se instala no casamento de Bill e Alice. Os acontecimentos na elite secreta, nos quais o marido se envolve quase por acaso, também parecem um tanto fantasiosos. Embora o filme seja muito bem dirigido e Tom Cruise e, principalmente, Nicole Kidman entreguem atuações excelentes, tenho a impressão de que "De Olhos Bem Fechados" já nasceu datado — e, possivelmente por isso, teve uma recepção morna em seu lançamento. *** Também com Nicole Kidman, "Babygirl" é um suspense erótico de 2024 dirigido por Halina Reijn e produzido pela A24, que explora a dinâmica de poder e o desejo em um ambiente profissional. A aclamada atriz interpreta Romy, uma CEO de sucesso que, apesar de ter uma vida familiar aparentemente perfeita, sente-se insatisfeita. Sua vida toma um rumo inesperado quando ela se envolve em um caso proibido com Samuel (Harris Dickinson), seu jovem e carismático estagiário. Se em "De Olhos Bem Fechados" o desejo de uma mulher casada por outro homem é tratado como um evento gravíssimo, em "Babygirl" a esposa – vivida, por coincidência, pela mesma atriz – sabe exatamente o que quer em termos sexuais e luta por isso. Uma abordagem que parece muito mais contemporânea. *** "Sexo, Mentiras e Videotape" (Sex, Lies, and Videotape) é um filme americano de drama de 1989, escrito e dirigido por Steven Soderbergh. Foi o filme de estreia de Soderbergh e se tornou um marco para o cinema independente, ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1989 e o Prêmio do Público no Festival de Sundance. No filme, o retorno de Graham Dalton, interpretado por James Spader (que ganhou o prêmio de Melhor Ator em Cannes por este papel), um homem misterioso e sexualmente impotente que filma mulheres falando sobre suas fantasias, abala a vida do casal Ann e John Mullany. Enquanto Ann, vivida por Andie MacDowell, é sexualmente reprimida e lida com sua própria infelicidade, John, interpretado por Peter Gallagher, está tendo um caso com a irmã de Ann, Cynthia, papel de Laura San Giacomo, uma mulher de espírito livre. As filmagens de Graham funcionam como um catalisador, forçando os personagens a confrontarem suas verdades ocultas, suas mentiras e a natureza complexa de suas relações, expondo a hipocrisia e a falta de comunicação que permeiam suas vidas. O motivo pelo qual o personagem faz essas filmagens de mulheres falando sobre suas fantasias sexuais não é explicitado no filme, mas a profundidade da questão é inegável. "Sexo, Mentiras e Videotape" é, sem dúvida, uma obra-prima. *** "Ninfomaníaca" (Nymphomaniac), dirigido por Lars von Trier, é um drama artístico de 2013 dividido em dois volumes que explora a vida sexual de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher autodiagnosticada como ninfomaníaca. A narrativa se desenrola quando Joe é encontrada espancada em um beco por Seligman (Stellan Skarsgård), que a leva para casa e ouve sua história. Através de flashbacks detalhados e explícitos, Joe narra sua vida desde a juventude, passando por suas inúmeras experiências sexuais e suas tentativas de entender e controlar sua compulsão. A conversa entre os dois personagens é fascinante, abordando aspectos tanto sexuais quanto culturais – Seligman, com suas referências a música, história e filosofia, é um assombro. O final, completamente imprevisto, ajuda a consagrar "Ninfomaníaca" como a obra-prima que é.
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A Outra Terra – Uma pequena obra-prima de ficção científica
Cinema
A Outra Terra – Uma pequena obra-prima de ficção científica
13 de julho de 2025 at 18:46 0
Tudo começou quando a colunista da Folha, Lygia Maria, publicou em sua conta no X (@lygia_maria) que "A Outra Terra", filme de Mike Cahill de 2011, era sua resposta para a pergunta da conta @TheCinesthetic: "cite um filme que te surpreendeu, mas sobre o qual ninguém fala". Junto com a resposta, vinha a bela fotomontagem que acompanha este texto. Ao ver a imagem, que mostra uma "outra Terra" vista do nosso planeta, tive a intuição de que gostaria do filme – e comentei isso com a colunista –, mas não imaginava o quanto. "A Outra Terra" inicia com Rhoda Williams (Brit Marling), a protagonista, celebrando com amigos sua entrada no famoso MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Pouco depois, em uma cena no carro, ela ouve no rádio a notícia da descoberta de um novo planeta, semelhante à Terra, e visível no céu. Enquanto dirige, ela se inclina para fora da janela para observar este novo astro, chamado no filme de Terra 2, e acaba causando um acidente gravíssimo. Declarada culpada, Rhoda passa quatro anos na prisão. Ao sair, abandona os estudos, começa a trabalhar como servente de limpeza e tenta lidar com a culpa, buscando conversar com o motorista do carro que atingiu. Conforme o filme avança, a "Terra 2" vai se tornando cada vez maior no céu, e notícias sobre seu estranho comportamento são constantemente veiculadas em diversas cenas. "A Outra Terra" é filmado de maneira aparentemente amadora, frequentemente com cores dessaturadas e câmera na mão. Sua ausência de polimento faz com que não pareça um filme "cinematográfico" convencional. O clima, ao mesmo tempo lento e meio esquisito, me fez lembrar um dos meus filmes preferidos, "Império dos Sonhos" (Inland Empire), de David Lynch, de 2006 – embora este, é preciso dizer, seja bem mais estranho que "A Outra Terra". Além disso, a atuação de Brit Marling me remeteu bastante à grande atriz Liv Ullmann em filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), como "Gritos e Sussurros", "Persona" e "Cenas de um Casamento". Não só as duas são fisicamente parecidas, como possuem um estilo de atuação contido e minimalista, com uma notável capacidade de comunicar muito através dos olhos, transmitindo profundidade, sofrimento ou uma complexidade silenciosa. É importante ressaltar que, apesar de ser um filme de ficção científica, "A Outra Terra" mergulha em uma angústia existencial – a culpa – como se fosse uma obra do mestre sueco. No entanto, a solução para os conflitos suscitados ao longo do filme não me agradou tanto, provavelmente porque me lembrou que esta pequena obra-prima, por mais esquisita e existencial que seja, é, no fim das contas, uma história de ficção científica. *** Quem se interessar em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Anora e Vitória
Cinema
Anora e Vitória
6 de abril de 2025 at 16:57 0
Assim como a famosa personagem Berma, de Marcel Proust, Fernanda Montenegro, em “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998) me impressionou por simplesmente não parecer uma atriz famosa no filme. Conforme eu tinha comentado aqui,
“(...) não havia nada de tão extraordinário naquela mulher pobre, aproveitadora, porém não de todo má. Neste ponto, em torno do meio do filme, é que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse a própria Dora. Não havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar, em seus modos. Até a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As características que muitas vezes são relacionadas a uma grande interpretação, como grandiloquência e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua interpretação minimalista e enormemente autêntica.”
A única cena que realmente me emocionou no recente (2024) e badalado “Ainda estou aqui”, também de Walter Salles, foi a cena final, em que Fernanda Montenegro interpreta a principal personagem do filme, Eunice Paiva, já senil. Só quem já conviveu com alguém naquela condição tem ideia do que a nossa maior atriz fez naqueles poucos minutos. Em “Vitória”, de Andrucha Waddington (110 minutos), baseado num fato real, Fernanda Montenegro faz o papel de Joana Zeferino da Paz, uma senhora solitária e idosa que filmava os crimes do tráfico que ocorriam diante de sua janela em Copacabana, na Ladeira dos Tabajaras. Suas filmagens renderam prisão de aproximadamente 30 pessoas, incluindo traficantes e policiais militares envolvidos em corrupção. No filme Fernanda Montenegro demorou para me impressionar, assim como em “Central do Brasil”. No começo de “Vitória”, ela me pareceu a atriz de sempre, conhecida da televisão, meio grandiloquente e teatral. À medida que o filme transcorria, fui percebendo que ninguém mais poderia ter a grandeza de contar esta história impressionante: a nossa maior atriz consegue nos transportar para a vida da sra. Joana como se ela fosse a própria Joana. Espetacular. *** “Anora”, o grande vencedor do Oscar de 2025, dirigido por Sean Baker (139 minutos), conta a história de uma stripper de origem russa, Ani, que vive em Nova Iorque e se apaixona pelo filho de um milionário também russo, Ivan "Vanya" Zakharov (vivido por Mark Eydelshteyn). Depois de alguns dias de muito sexo, diversão com os amigos, bebida e drogas, ele pede a stripper em casamento. Os pais dele são contra a união, o que causa uma confusão que se pode imaginar: perseguições, guarda-costas, choro e violência. De todo modo, como bem lembrou André Barcinski em seu vídeo sobre o filme, todos os personagens de “Anora” são interessantes, e nenhum é puramente bom nem puramente mau. Além disso, o filme tem comédia, drama e ação numa proporção bem equilibrada, o que torna o filme merecedor de todos os prêmios que conquistou. O título de “Anora” é incrivelmente semelhante ao de “Vitória”, mas não dá para contar aqui para não estragar as duas surpresas. Além disso, os dois filmes têm como grande destaque a atuação das suas atrizes principais – Fernanda Montenegro, citada acima, e Mikey Madison, que faz a stripper Ani de maneira intensa e verdadeira. Apesar de eu mesmo ter torcido para Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro, para vencer o Oscar de 2025 por sua atuação de “Ainda estou aqui”, sou obrigado a reconhecer que Mikey Madison mereceu plenamente seu prêmio de melhor atriz na cerimônia. (Foto que acompanha o texto obtida no site Planeta Nerd. Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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