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Amenra (Fabrique Club, 1/3/2020)
15 de março de 2020 at 13:11 0

Eu comecei a me divertir pensando neste texto enquanto via o show da banda belga Amenra, em São Paulo. Explico: o meu show preferido tinha sido o do Morrissey no ano 2000, mas em 2017 escrevi aqui pedindo desculpas a ele por ter preferido o show da Ariana Grande. Depois, em 2018, foi a vez de o jogo virar eu comentar que o show do “Morrissey no Espaço das Américas em São Paulo, no dia 2 de dezembro, foi não só o melhor dos três dele que já vi, como, provavelmente, foi o melhor show a que já assisti”. E aí vem o motivo do meu divertimento durante o show do Amenra: eu teria que escrever que tinha mudado de ideia de novo, porque ele estava fazendo picadinho de tudo a que eu tinha assistido antes.

O espetáculo se iniciou com o vocalista Colin H. Van Eeckhout, de joelhos e de costas para a plateia, tocando uma espécie de percussão metálica num ritmo lento e preciso, enquanto os instrumentos faziam um clima baixinho ao fundo. Aquilo demorou uns bons minutos, a ponto de eu ficar me perguntando quando mesmo o show iria começar… até que todos os instrumentos (duas guitarras, bateria e baixo - a cargo do grande Levy Seynaeve, líder o Wiegedood, sobre quem já comentei aqui) tocam os primeiros acordes em uníssono, o vocalista grita, e todos no Fabrique Club passam a saber que estavam vivenciando uma experiência única.

Eu lamento não ter o talento do meu mestre José Augusto Lemos para o superlativo - eu lembro dos textos dele falando de shows como um da Gal Costa e outro do David Bowie: o Amenra merecia um texto melhor, mas isso agora não importa muito.

A banda de “doom/sludge metal/hardcore” (segundo o Encyclopaedia Metallum) mantém a pegada de alternância entre peso e delicadeza durante todo o show. Colin H. Van Eeckhout passa a maior parte do tempo de costas para a plateia, e se vira de vez em quando e parece que vai rasgar a camiseta; ao seu lado, o baixista Levy Seynaeve alterna entre momentos de costas e de frente para a plateia, do mesmo modo que os guitarristas Mathieu J. Vandekerckhove e Lennart Bossu, nas pontas do palco. Durante todo o show são projetadas belíssimas imagens em preto e branco com cenas rurais e partes de corpos humanos. Muito mais não tem como descrever, a não ser que eu fosse o já citado José Augusto Lemos. Por sorte a banda tem alguns shows muito bem filmados no YouTube (ver aqui, por exemplo), que dão uma boa ideia da coisa.

Enfim, quase todas as pessoas com as quais eu conversei falaram termos como “magia” para descrever esse espetáculo incomum. 

O show da minha vida. 

Desculpem, Morrissey e Ariana Grande.

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“Heavier than heaven – Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain”, de Charles R. Cross
26 de janeiro de 2020 at 20:26 0
foto: JJ Gonson

Se Bach e Nick Drake só foram reconhecidos como gênios depois de mortos, isso absolutamente não aconteceu com o vocalista e líder do Nirvana, Kurt Cobain. Quando do lançamento de “Nevermind”, em 1991, a crítica e o público logo reconheceram que o que estava acontecendo ali não era algo “normal”, por nenhum padrão: uma banda alternativa chegando no primeiro lugar das paradas, e ainda com canções reconhecidas como geniais por quase toda imprensa especializada, não era algo que acontecesse todo o dia. 

Quanto a mim, eu era meio que o personagem de “In Bloom”, faixa de “Nervermind”: “ele é aquele que gosta de todas as canções bonitas / e gosta de cantar junto / (...) / mas não sabe o que significa”. Passei o verão de 92 ouvindo “Nevermind” ininterruptamente – entrei de cabeça na onda mundial.

Só ano passado que resolvi ouvir a sério as músicas do Nirvana – tentando entender o que elas significam, inclusive – e fiquei impressionado como a banda era muito melhor do que eu pensava. Um som forte, com letras complexas e profundas – um clássico eterno.

Neste contexto a leitura da biografia de Kurt Cobain, “Mais pesado que o céu”, de Charles R. Cross (Globo, 450 páginas, tradução de Cid Knipel), lançado originalmente em 2001, é um excelente complemento para a obra dele.

Nascido em Aberdeen, estado de Washington, em 20 de fevereiro de 1967, Kurt Cobain era de uma família de classe média baixa, e aparentemente viveu feliz até a separação de seus pais, quando ele tinha nove anos. Depois disso, ele passou por vários momentos difíceis, tendo sido jogado daqui para lá por vários parentes, e morado por muitos períodos em seu carro. Sua vida teve uma rica sucessão de acontecimentos e esquisitices – morou com uma namorada em um apartamento onde criava gatos, coelhos e outros animais, por exemplo. 

O sucesso acabou chegando mesmo, e de forma avassaladora, com “Nevermind”, seu segundo álbum, depois de “Bleach”, de 1989. Kurt Cobain parecia tanto gostar de vender milhões de cópias como não gostar, sinal de sua personalidade extremamente complexa, que fez com que, por exemplo, tenha se viciado em heroína aparentemente por uma decisão racional. Mesmo seu suicídio, em 1994, parece ter sido uma decisão totalmente pensada.

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As melhores músicas de todos os tempos
8 de janeiro de 2020 at 22:22 0

É engraçado ouvir novamente uma música que você gostava muito depois de alguns meses, ou anos, sem ouvir: a experiência pode ser emocionante, ou frustrante. No caso de “New Rules”, grande sucesso de Dua Lipa que está chegando em dois bilhões de visualizações no YouTube, a surpresa foi fantástica: ela era ainda muito melhor do que eu lembrava, um verdadeiro clássico moderno.

A experiência de ouvir de novo “New Rules” me fez imaginar este texto, chamado pomposa e falsamente de “As melhores músicas de todos os tempos”, e fiquei pensando numa nova lista de músicas preferidas – sim, eu amo listas.

Durante muitos anos eu dizia para todo o mundo que a minha música preferida era o último movimento do ciclo de “A canção da terra”, de Gustav Mahler, chamado de “O Adeus” (Der Abschied). A edição que eu tinha, ainda em vinil, era com a Jessie Norman como solista deste incrível lied sinfônico – triste, lento e poderoso – com a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis. Lembro como se fosse hoje que fiquei uns quarenta minutos na loja me perguntando por que eu queria comprar este disco só pela capa – que é linda mesmo, como se pode ver pela imagem que acompanha este texto.

Já tinha tentado gostar de Nick Drake, indicado por um conhecido, mas só quando ouvi “Day is done” compartilhado pelo meu amigo Arthur Vicente Cordeiro entendi por que este cantor que não fez sucesso em vida, mas que é adorado hoje, é tão bom. Eu ouvia sem parar a faixa achando que iria parar de gostar dela – eu já tinha tentado gostar de Nick Drake, né – mas nunca rolou de eu deixar de amar "Day is done", até hoje.

Postei recentemente que “You know you’re right”, do Nirvana, era minha música preferida, então ela tem que ser citada aqui. Antes dela, minha preferida era “Boxers”, de Morrissey, também lembrada. Sou meio obrigado a colocar Ashley All Day em qualquer lista que eu faça, e “Obsessed”, com Kiiara, é a lembrada da vez.

“rockstar”, com Post Malone e 21 Savage, é outro sucesso monstruoso na linha de “New Rules” - com todo merecimento, aliás. O videoclipe da canção, cheio de sangue assumidamente falso, é outro clássico.

Lembro como se fosse hoje do choque que tive ao ouvir o início de “CtrAltDelete”, de Bones, que, sem exagero, se repete a cada nova ouvida desta maravilha – um caso raro de clássico instantâneo do Elmo que não tem videoclipe. Ainda no assunto “exagero”, confesso que lacrimejei diversas vezes ouvindo a ária “Ach, mein Sinn”, da Paixão Segundo São João de Johann Sebastian Bach.

Finalmente, “Oh yeah”, do Roxy Music, é a “nossa música”, minha e da Valéria Müller, a quem eu amo exageradamente.

Haha, ficou brega esse final. Não pelo exagero do amor, mas “nossa música” é coisa de gente brega.

Aqui está o link para a playlist no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/5Zz91ZHuYgezfzLOc8QuIQ?si=qPO0EdStTZC-xfTUiDXhDw

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Retrospectiva musical – 2019
8 de dezembro de 2019 at 17:08 0
François Couperin - foto: https://www.medici.tv/en/artists/francois-couperin/

Na minha - extremamente limitada - paisagem musical, o ano de 2019 apresentou algumas novidades, mas não muitas.

Entre as descobertas, foi bacana sacar que a Grã-Bretanha consegue fazer música pop de qualidade equivalente ao que se pratica do outro lado do Atlântico, com Ellie Goulding, Anne-Marie e Clean Bandit (Dua Lipa não vale, porque virei fã dela ano passado). 

Foi também um ano de duas redescobertas, Roxy Music e Nirvana - bandas que não ouvia direito há décadas - e de uma descoberta, Drake, de quem eu sempre tinha gostado de algumas poucas músicas. Outro que comecei a ouvir com mais cuidado em 2019 ano foi o DJ Marshmello.

Quanto à música clássica, foi um ano quase que só ouvindo teclados: cravo e piano com o compositor François Couperin, e diversos compositores com o pianista Ivo Pogorelich. 

Nada de grandes novidades na minha lista de músicas preferidas lançadas em 2019, apresentada lá embaixo neste texto. Selena Gomez anunciou que lançará seu disco novo no início do próximo ano, e as duas faixas já disponíveis são lindas: “Lose to love me” foi seu primeiro single a alcançar o topo da Billboard, e está no topo da minha lista também; “Look at her now” tem um clipe lindo. “DontLookDown” é uma das melhores faixas da vida do Bones, dá pra se ter uma ideia do que é isso? “METHHEAD LIFESTILE” é um rap coletivo alucinado que tem o grande Lil Darkie como destaque - agradeço Leonardo Gama, sempre me apresentando coisas maravilhosas. “7 rings” é provavelmente a melhor faixa da vida de Ariana Grande, e “Heartless” é um sinal de que o próximo disco de Weeknd vai ser um petardo. Morrissey lançou um disco de covers muito bom, “California Son”, mas eu gostei mais de suas músicas autorais novas, como este “Brow of my beloved”. O nothing,nowhere. lançou um EP com o baterista do Blink 182, e “destruction” é citado na minha lista. Fiquei chateado por não terem entrado na minha relação “Money In The Grave”, de Drake e Rick Ross, e "Get Like Me", de Bhad Bhabie com NLE Choppa - mas tudo bem, foram lembrados aqui.

Finalmente, minha lista de preferidas, definida anteontem, já tinha “Fast”, de Juice WRLD, que acabou falecendo hoje. Rest in peace.

A lista segue abaixo. Clicando nos títulos estão os links para os videos no YouTube, e logo abaixo o endereço da playlist correspondente no Spotify.

  1. Selena Gomez - Lose You To Love Me
  2. Ashley All Day - Shop Til U Drop
  3. BONES - DontLookDown
  4. Selena Gomez - Look At Her Now
  5. Morrissey - Brow of My Beloved
  6. LIL DARKIE - METHHEAD FREESTYLE
  7. The Weeknd - Heartless
  8. Ariana Grande - 7 rings
  9. nothing,nowhere. x Travis Barker - destruction
  10. Juice WRLD - Fast

O endereço da playlist no Spotify está aqui.

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João Gilberto (1931-2019)
7 de julho de 2019 at 16:47 0
João Gilberto: Revista Época

O meu professor de violão amava João Gilberto de uma maneira que eu achava meio incompreensível: ele me mostrava, vibrando, aqueles acordes dissonantes que só mesmo o baiano genial conseguia criar. Aquilo fazia pouco sentido para mim, mas eu tentava: comprei alguns discos, e até gravei em cassete um show de João Gilberto que passou na TV. Mas não conseguia entender o que ele tinha de tão genial.

Tudo mudou quando fiz um estágio onde tocava a Rádio Ouro Verde o dia inteiro. Foi só então que percebi que as mesmas músicas interpretadas por outros cantores e pelo João Gilberto eram completamente diferentes: o baiano conseguia fazer algo perfeito, direto, sem um resquício de brega. Sim, a explicação de por que o João Gilberto é melhor que os outros é complicada para quem, como eu, não entende de técnica musical. Já li alguns críticos elogiando a maneira como ele fazia as frases, essas coisas; Zuza Homem de Mello, por exemplo, escreveu ontem (obrigado, Fábio Bianchini) que

“Ouvir João Gilberto requer aprendizado. Requer concentração apuradíssima para se usufruir de tudo ao mesmo tempo: precisão micrométrica do violão, a identificação das notas formando acordes, as sutis alterações harmônicas, o balanço rítmico irresistível, a destreza de seus dedos acertando as cordas do braço do violão, a posição da mão direita no jogo de vai e vem, a justeza equilibrada entre o volume do instrumento e da voz, a dicção impecável, a emissão na medida certa, a minúcia das quase imperceptíveis mudanças na divisão, as defasagens rítmicas e alterações melódicas, a argúcia dos silêncios, a supressão do supérfluo, a valorização dos esses, dos erres, das consoantes e vogais; do sentido das palavras, das profundas notas graves, a capacidade de fazer vir à tona a intenção do verso, a delicadeza em mostrar a música como nunca se ouviu antes.”

O trecho reproduzido acima faz pouco sentido para mim, sou obrigado a reconhecer. Só sei que João Gilberto cantava muito melhor que os outros, embora não saiba explicar bem por quê. Não importa.

Eu fui um viciado intermitente por sua música: lembro, por exemplo, quando a Valéria se queixou de que não aguentava mais ouvir aquele CD de MP3 só com músicas de João Gilberto no carro; ou quando eu comprava a revista Veja antes de ir para a faculdade, lia quase inteira no carro mesmo, ouvindo a fita de “João”, o disco de 1991; consegui até ir num show dele, muito tenso, e que descrevi aqui.

Agora ele morreu, ficamos um pouco órfãos, mas com esperança de que alguém libere alguma gravação de show, ou de telefone mesmo.

Descanse em paz, gênio da raça.

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Minha retrospectiva musical – 2018
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Minha retrospectiva musical – 2018
12 de dezembro de 2018 at 08:36 0
2018 foi o ano em que eu conheci Bhad Bhabie e Juice WRLD, uma cantora e um cantor de rap que logo se transformaram em favoritos da casa. (mais…)
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