Música

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João Gilberto (1931-2019)
7 de julho de 2019 at 16:47 0
João Gilberto: Revista Época

O meu professor de violão amava João Gilberto de uma maneira que eu achava meio incompreensível: ele me mostrava, vibrando, aqueles acordes dissonantes que só mesmo o baiano genial conseguia criar. Aquilo fazia pouco sentido para mim, mas eu tentava: comprei alguns discos, e até gravei em cassete um show de João Gilberto que passou na TV. Mas não conseguia entender o que ele tinha de tão genial.

Tudo mudou quando fiz um estágio onde tocava a Rádio Ouro Verde o dia inteiro. Foi só então que percebi que as mesmas músicas interpretadas por outros cantores e pelo João Gilberto eram completamente diferentes: o baiano conseguia fazer algo perfeito, direto, sem um resquício de brega. Sim, a explicação de por que o João Gilberto é melhor que os outros é complicada para quem, como eu, não entende de técnica musical. Já li alguns críticos elogiando a maneira como ele fazia as frases, essas coisas; Zuza Homem de Mello, por exemplo, escreveu ontem (obrigado, Fábio Bianchini) que

“Ouvir João Gilberto requer aprendizado. Requer concentração apuradíssima para se usufruir de tudo ao mesmo tempo: precisão micrométrica do violão, a identificação das notas formando acordes, as sutis alterações harmônicas, o balanço rítmico irresistível, a destreza de seus dedos acertando as cordas do braço do violão, a posição da mão direita no jogo de vai e vem, a justeza equilibrada entre o volume do instrumento e da voz, a dicção impecável, a emissão na medida certa, a minúcia das quase imperceptíveis mudanças na divisão, as defasagens rítmicas e alterações melódicas, a argúcia dos silêncios, a supressão do supérfluo, a valorização dos esses, dos erres, das consoantes e vogais; do sentido das palavras, das profundas notas graves, a capacidade de fazer vir à tona a intenção do verso, a delicadeza em mostrar a música como nunca se ouviu antes.”

O trecho reproduzido acima faz pouco sentido para mim, sou obrigado a reconhecer. Só sei que João Gilberto cantava muito melhor que os outros, embora não saiba explicar bem por quê. Não importa.

Eu fui um viciado intermitente por sua música: lembro, por exemplo, quando a Valéria se queixou de que não aguentava mais ouvir aquele CD de MP3 só com músicas de João Gilberto no carro; ou quando eu comprava a revista Veja antes de ir para a faculdade, lia quase inteira no carro mesmo, ouvindo a fita de “João”, o disco de 1991; consegui até ir num show dele, muito tenso, e que descrevi aqui.

Agora ele morreu, ficamos um pouco órfãos, mas com esperança de que alguém libere alguma gravação de show, ou de telefone mesmo.

Descanse em paz, gênio da raça.

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Minha retrospectiva musical – 2018
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Minha retrospectiva musical – 2018
12 de dezembro de 2018 at 08:36 0
2018 foi o ano em que eu conheci Bhad Bhabie e Juice WRLD, uma cantora e um cantor de rap que logo se transformaram em favoritos da casa. (mais…)
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As onze melhores de Bones
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As onze melhores de Bones
15 de julho de 2018 at 18:43 0
Estava ouvindo Bones com a Valéria no carro quando tocou “Spirulina”, um rap hipnotizante e poderoso, acompanhado por um clipe sombrio. Falei para ela que esta música entraria numa lista de dez melhores músicas do Bones... mas não tinha pensado nas outras. Ainda. (mais…)
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HIPÓLITO NECROMVNTE
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HIPÓLITO NECROMVNTE
11 de julho de 2018 at 22:13 0
HIPÓLITO NECROMVNTE é um rapper de 21 anos residente em Belo Horizonte. Ele está lançando seu primeiro álbum pelo Soundcloud, “SINESTESIA” (https://soundcloud.com/santacadaver/sets/sinestesia), um negócio impressionante, pesado, hipnótico. Não faz feio na ótima cena do rap alternativo atual ($uicideboy$, Bones, ZillaKami x SosMula, Ashley All Day). (mais…)
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“hammer”, nothing,nowhere.
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“hammer”, nothing,nowhere.
20 de junho de 2018 at 23:54 0
Dia desses Joe Mullerin, o único integrante do nothing,nowhere., em sua conta oficial do twitter, retuitou uma mensagem da usuária “queen of the cave”, que dizia mais ou menos o seguinte:

"Eu fico confusa com o público dos shows do nothing,nowhere. São emos, garotas bonitinhas no estilo rap, garotos com camisas de bolinhas, meninas com coroas de flores e um cara fantasiado de urso... onde será que estou?"

Ao retuitar a mensagem, Joe Mullerin comentou algo como “faz sentido”. (mais…)
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Basalt
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Basalt
16 de maio de 2018 at 21:40 0
Não sei quantos anos durou a minha fase metaleira: aí pelo início dos anos 2000 eu descobri que o rock indie já não me trazia nada de interessante, e achei que mudar um pouco de perspectiva me faria bem. Eu diminuí sensivelmente a quantidade de metal ouvido quando comecei a ouvir Bones, o prolífico rapper, aí pelo ano de 2013, e hoje escuto mais rap do que qualquer outro estilo. Mas nunca parei de ouvir metal, e nunca passei a desgostar do estilo: digamos que eu tenha apenas “dado um tempo”. Tudo isso para dizer que, apesar de eu não estar muito em dia com os lançamentos de metal, me considero, ainda, um razoável conhecedor do estilo. E, nesse sentido, fiquei extremamente impressionado o primeiro disco da banda paulistana Basalt, “O Coração Negro da Terra”, lançado no final de 2016 (e disponível no Spotify). As músicas são cantadas em português, e o som, impressionante, me lembrou a banda de black metal ucraniana Drudkh, pelo peso unido com a melancolia. Mas ainda tem mais, conforme conto abaixo na entrevista com Pedro Alves, um dos guitarristas da banda.  
“Cantar em português é muito mais natural” – entrevista com Pedro Alves, guitarrista do Basalt  A ideia da criação do Basalt surgiu em 2015, quando Pedro e o Luiz Mazetto – jornalista, autor do livro “Nós somos a tempestade”, sobre a cena de metal alternativo americana – resolveram juntar esforços para criação de uma banda. Pedro tinha uma banda de doom/stoner/psicodélico, o Magzilla, enquanto que o Luiz tocava na banda de grindcore Meant do Suffer, de Araras – e foi quando ele saiu da sua banda que o processo de criação do Basalt se acelerou.   (mais…)
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