J. M. Coetzee

Literatura
“Verão”, de J.M.Coetzee
1 de dezembro de 2019 at 21:29 0
Foto: Vortex Cultural

J.M.Coetzee é um escritor é sul-africano de origem afrincânder, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. A pronúncia correta é algo parecido com côtzêe

“Verão” (Companhia das Letras, 276 páginas), um dos melhores livros que já li, é a terceira obra de sua trilogia autobiográfica e tem uma estrutura pra lá de original: nela, o escritor “John Coetzee” já está morto, e um jornalista entrevista algumas pessoas próximas a ele – quatro mulheres e um homem – para conseguir material para uma biografia do escritor. “Verão” é composto basicamente por essas entrevistas.

Os entrevistados têm opiniões nada lisonjeiras sobre Coetzee: ele é chamado por termos como “mosca morta”, “distante”, “esquisito”, com “ideias estranhas”. A tentação de me comparar com ele é meio grande, já que alguns desses qualificativos pouco agradáveis podem se aplicar perfeitamente a mim – quem me conhece, ou me conhece pouco, sabe disso. Mais do que isso, Coetzee é um escritor com formação em exatas – ele é formado em matemática, enquanto eu sou engenheiro – e, também como eu, entende de programação de computadores.

De todo modo, este jeito distante de "John Coetzee" esconde um grande observador da alma humana. Uma das personagens de “Verão”, a brasileira Adriana, ficou com um ódio profundo de Coetzee por ele ter se apaixonado por ela sem que ela quisesse nada com ele. Mesmo assim ela serve de modelo - e modelo altamente positivo ainda por cima! - de uma personagem num livro que ele escreveria mais tarde. Para Coetzee, a observação aguda e imparcial foi muito mais importante do que a raiva que a brasileira Adriana sentia por ele.

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História, Literatura
A relação entre a História (e a Sociologia) e a Literatura em três romances
27 de janeiro de 2019 at 21:01 0
o grande J.M.Coetzee - fonte: The Nation

Eu não lembro bem onde li que era possível aprender mais sobre a história do Segundo Império (1852-1870) com os romances de Honoré de Balzac (1799-1850) do que com livros de História. De fato, a relação entre a História (e a Sociologia) com a Literatura é um tema bastante rico, e é claro que aqueles voltados ao estudo das duas primeiras ciências humanas tendem a destacar, em algum romance, mais os seus aspectos históricos e sociológicos, enquanto que outros – entre os quais me incluo – estão mais interessados na sua relevância propriamente literária.

Lembrei bastante desses aspectos em três romances que li recentemente: “Nix” (2016), do americano Nathan Hill (Intrínseca, 672 páginas), “Oryx e Crake" (2003), da canadense Margaret Atwood (Rocco, 344 págs.) e “A Infância de Jesus” (2013), do sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 304 págs. – eu li na versão em espanhol, da Literatura Random House).

“Nix” conta a história de Samuel Anderson, um professor de literatura inglesa de cerca de 30 anos de idade que dá aulas numa universidade na região de Chicago, nos Estados Unidos, e que está viciado em um jogo on-line de computador chamado “World of Elfscape”. Sua mãe, Faye, que o tinha abandonado quando este era criança, aparece nos noticiários depois de jogar pedras num candidato ultraconservador, com riscos de cegá-lo. É quando – por motivos um tanto escusos – o filho vai procurar a mãe, depois de anos sem saber notícias dela. Este é o mote principal do longo romance de Nathan Hill, que tem um grande número de outros personagens e que passa por diversas fases da história americana – concentrando-se de maneira especial nas manifestações contra a Guerra do Vietnã em Chicago, em 1968, e no movimento “Occupy Wall Street”, de 2011. A vontade de marcar tanto a obra em termos históricos (com o objetivo de fazer “O Grande Romance Americano”?) e as idas e vindas da narrativa no tempo e no espaço irritam um pouco, mas os personagens criados por Hill são bem construídos e o livro prende a atenção em todas as suas muitas páginas.

Os personagens criados na distopia “Oryx e Crake” são ainda melhores que os de “Nix”: o livro de Margaret Atwood conta a história de um futuro em que ocorre uma grande catástrofe depois que cientistas começam a fazer modificações genéticas em grande escala nos animais e nos seres humanos, e o único sobrevivente do homem conforme conhecemos (há também alguns seres humanoides, criados por manipulação genética) em uma grande região litorânea é um homem que agora tem o apelido de “Homem das Neves”. A ligação com a Sociologia e a História no caso de “Oryx e Crake” é, conforme comentou Bernardo Carvalho na Folha de São Paulo em 3 de abril de 2004, está em que “o discurso de Atwood representa uma preocupação que está no ar hoje (entre ecologistas e ambientalistas sobretudo). É um discurso com mensagens um tanto óbvias, embora não menos pertinentes, que fala de um desdobramento possível: as experiências dos homens com a natureza podem sair do controle e acabar destruindo os próprios homens e o mundo em que vivem.” Conforme complementa Bernardo Carvalho, este é “o ponto mais fraco” do livro, “como se o texto não passasse de um meio para a transmissão das ideias da autora”. A literatura é muito mais que simples transmissão de ideias e, por sorte, “Oryx e Crake” é tão criativo, delirante e bem escrito que o romance é, sim, grande literatura – independentemente das ideias que defende.

Finalmente, “A Infância de Jesus” também uma espécie de distopia, na qual os personagens vão morar numa ilha onde perdem as lembranças de tudo o que ocorreu em sua vida antes da chegada por lá. No local todos vivem em paz e harmonia o tempo todo, ninguém quer ganhar mais do que o mínimo necessário para uma sobrevivência digna, e o sexo tem importância secundária. O recém-chegado Simón é um dos únicos que acham esta “vida nova” muito chata - e tem grandes dificuldades para se adaptar a ela. Ele também leva um garoto, chamado David, para tentar encontrar a sua mãe: Simón não lembra quem ela é, mas acha que vai encontrá-la – e a encontra (ou acha que encontra) em Inés, uma mulher solteira e rica, que, depois de uma estranheza inicial, acaba adotando o garoto. David, que tinha um bom comportamento enquanto vivia com Simón, passa a ter todos os sintomas de alguém muito mimado: mesmo sem saber ler nem fazer contas, não quer aprender porque acha que “já sabe”. Não se adapta na escola, tem dificuldades de concentração, e Inés apoia o garoto em tudo.

E, bem, não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história, que continua em “A vida escolar de Jesus”, que ainda não li. David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes? (E por que, algum engraçadinho poderia perguntar, este livro está sendo comentado aqui?)

“A infância de Jesus” – muito bem escrito, como sempre em se tratando de J.M. Coetzee – é um dos livros mais estranhos que já li.

Vejamos se na sua continuação a coisa passa a fazer algum sentido.

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“Juventude”, de J.M.Coetzee; “Primeiro amor”, de Ivan Turguêniev
Literatura
“Juventude”, de J.M.Coetzee; “Primeiro amor”, de Ivan Turguêniev
25 de janeiro de 2016 at 21:30 0
Dois romances curtos que li recentemente tratam de um dos assuntos mais caros à literatura, os anos de juventude. (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
1 de novembro de 2015 at 01:22 0
Começamos pelo melhor: Summertime, do Prêmio Nobel de 2003 J.M. Coetzee (Viking - a edição brasileira se chama Verão, e foi publicada pela Companhia das Letras) é o terceiro volume das "memórias" do autor, e trata de vida de Coetzee na África do Sul, no início dos anos setenta. O livro composto por uma série de entrevistas, feitas por um jovem jornalista, com pessoas que conheceram Coetzee, inclusive uma brasileira pela qual Coetzee esteve apaixonado.  Uma das muitas coisas inusitadas em Summertime é que, no livro, Coetzee já está morto, o que na realidade não aconteceu - o grande escritor está vivinho da silva. Outro exemplo é que, no início dos aos setenta, o autor estava casado e com filhos, enquanto que em Summertime ele é celibatário e vive com o pai. A partir desta premissa falsa, torna-se claro que Coetzee, propositadamente, escreveu uma obra que é um híbrido de ficção e realidade - e o leitor fica sem saber onde começa uma e termina outra. Summertime mostra um Coetzee estranho, solitário e calado. Uma das mulheres entrevistadas diz que ele passa a sensação de ser "de madeira", de tão frio que é; em outro trecho é dito que ele é o tipo de pessoa que "não causa nenhuma impressão dos outros"; a brasilera, por quem Coetzee sofre uma paixão avassaladora e patética, se irrita profundamente com ele; e a única relação do autor que parece mal resolvida é com sua prima de primeiro grau, que parece ainda ter mais do que uma queda por ele. Em Summertime, os depoimentos não chegam a se contradizer, mas frequentemente temos a sensação de ver o autor muito de longe, como se fosse impossivel chegar no "Coetzee real". É esta sensação geral de mistério e esquisitice que faz com que Summertime possa ser considerada, sem exagero, uma obra-prima. (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 6
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 6
30 de outubro de 2015 at 01:11 0
Restif de la Bretonne (1734-1806) era um escritor francês que viveu numa época extremamente conturbada na França, e é representante do "Segundo Iluminismo" (fim do século XVIII). Sua obra, extremamente vasta, e frequentemente autobiográfica, fez com que ele fosse apelidado de "Rousseau da sarjeta". Este apelido engloba sua preocupação social e seu gosto pelo sexo e pela pornografia. (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 5
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 5
3 de setembro de 2015 at 05:45 0

Uma das coisas surpreendentes de O Homem Eterno (Editora Mundo Cristão), do escritor inglês G.K.Chesterton (1874-1936) é como ele consegue agradar ateus ou agnósticos inteligentes. Daniel Piza, de quem eu reclamei recentemente aqui, indicou o livro em sua coluna no Estadão. Marcelo Coelho falou bem do livro no jornal Folha de São Paulo. Por estes críticos admiram esta genial obra em defesa do cristianismo em geral, e do catolicismo em particular? Alcir Pécora, também na Folha, explica: “por mais que o leitor partilhe dos pressupostos ateus, evolucionistas e materialistas que ele combate, não tem como se impedir de admirar a capacidade inesgotável de Chesterton para fazer do que parece verdade certa o objeto de um saco de piadas engraçadas e inteligentes”.

Chesterton se converteu ao catolicismo já no final da vida, e O Homem Eterno foi escrito já depois de sua conversão. A obra é dividida em duas partes, resumidas com pouquíssimas palavras a seguir: em “Da criatura chamada homem” Chesterton explica que o homem é muito mais diferente dos animais do que sonha a vã filosofia ateia, e em “Do homem chamado Cristo” ele mostra que Jesus Cristo ou bem era um louco - pois dizia ser o Filho de Deus - ou era o próprio Filho de Deus. O problema é que o conjunto do que ele falou é tão sério e profundo que mesmo quem é ateu não costuma descartá-lo como um doente mental. Só resta então a segunda – e maravilhosa – hipótese.   (mais…)

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Rápidos comentários sobre livros lidos – 4
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 4
25 de agosto de 2015 at 13:08 0

Tenho uma razoável noção da Segunda Guerra Mundial, graças ao bom número de livros que li sobre o assunto: a guerra em si, o Holocausto, o Terceiro Reich. Por outro lado, o que eu sabia sobre a Primeira Guerra Mundial (a “Grande Guerra”) praticamente se resumia ao que se comenta sobre ela nos livros sobre a Segunda Guerra – principalmente, sobre as duras condições impostas aos derrotados alemães no Tratado de Versalhes, assinado em 1919, que foi um fator decisivo para a deflagração da guerra de 39/45. (mais…)

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“Desonra”, de J.M.Coetzee
Literatura
“Desonra”, de J.M.Coetzee
16 de agosto de 2015 at 21:40 0
Mais famoso romance escrito pelo Prêmio Nobel de 2003, o sul-africano J. M. Coetzee, Desonra (Companhia das Letras) conta a história de David Lurie, professor de literatura que tem um relacionamento sexual com uma aluna bem mais nova que ele, em uma universidade na Cidade do Cabo, África do Sul. A aluna, Melaine, não parece ter um grande carinho para com o professor, e em um dos relacionamentos ele chega a ter uma relação praticamente não consentida com ela. O caso é descoberto, Lurie perde o emprego e, arrogante, não se preocupa em se defender ou se desculpar. Ele acha que não tem por que se arrepender - já que sempre tinha agido do mesmo modo nos muitos casos amorosos que tinha tido anteriormente. (mais…)
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