Han Kang

Relato de um engenheiro que buscou o infinito em Borges, mas encontrou a vida no “Livro Branco” de Han Kang
Literatura
Relato de um engenheiro que buscou o infinito em Borges, mas encontrou a vida no “Livro Branco” de Han Kang
1 de março de 2026 at 12:45 0
Eu era um menino pretensioso. Bastava o pessoal mais velho falar bem de algum escritor que lá ia eu tentar ler também. Com Borges e Cortázar, a experiência era ainda mais instigante: em um conto de Cortázar, as pessoas vomitam coelhinhos; em outro, uma casa é tomada aos poucos, e ninguém sabe por quem. Borges era bem mais difícil de ler, mas havia uma história em que alguém sonhava um homem num labirinto, e outra em que todo o universo estava contido em um único ponto — histórias fascinantes para aquela criança pretensiosa que eu era. Desde a infância, li bastante a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). O que mais me vem à memória são alguns ensaios excelentes sobre temas como suas leituras de Dante e Kafka, sua cegueira, a biblioteca e o tempo. Suas obras mais conhecidas, Ficções e O Aleph, são coletâneas de contos que reli algumas vezes, mas que nunca me impressionaram tanto quanto seus ensaios. Dia desses, na mesma livraria que citei em um texto recente, encontrei uma edição maravilhosa em espanhol de Borges esencial, publicada pela Real Academia Española — uma bela coletânea de 800 páginas. Após alguma hesitação, resolvi comprá-la (a foto acompanha este texto). A edição conta com vários textos críticos, ensaios e poemas selecionados; em termos de contos, traz as coletâneas Ficções e O Aleph na íntegra. Resolvi reler o primeiro deles. Não sei se por eu mesmo ser um engenheiro — e no meu trabalho utilizo o pensamento lógico — ou por já ter lido o livro repetidas vezes, a leitura me decepcionou. Vamos lá: “A Biblioteca de Babel” me pareceu simplesmente uma análise combinatória recheada; “Pierre Menard, autor do Quixote”, em que um autor recria capítulos de Cervantes, nunca fez sentido para mim, e continua não fazendo; “Três versões de Judas” soou como uma discussão teológica datada, típica do início do cristianismo. Já “O milagre secreto”, em que o tempo estaca, pareceu-me uma releitura da Surata 18, “A Caverna”, do Alcorão — e a influência é tão direta que Borges utiliza a obra sagrada como epígrafe. “As ruínas circulares”, sobre um homem que sonha outro, lembrou-me demais os relatos oníricos de Os Andarilhos do Bem, de Carlo Ginzburg; já “Um Exame da Obra de Herbert Quain” pareceu-me, em muitos momentos, pura análise matemática. Alguns contos, como “A morte e a bússola”, “A Aproximação a Almotásim” e “A loteria em Babilônia”, impressionaram-me bem mais, e consigo notar a influência deles em obras policiais e de terror posteriores. Por outro lado, O Livro Branco, da sul-coreana Han Kang (vencedora do Nobel de 2024), agradou-me muito mais. O livro, composto de textos curtos e elusivos quase sempre relacionados à cor branca (segundo a autora: cueiro, neve, sal, gelo, pássaro, cão), é uma espécie de elegia à irmã mais velha que faleceu duas horas após o nascimento. Segundo Han Kang, se aquela menina tivesse sobrevivido, a própria escritora provavelmente não teria vindo à luz. Os textos são sensíveis, estranhos e lancinantes. Como este trecho:
A vida não é particularmente gentil com ninguém. O granizo cai enquanto ela caminha sabendo desse fato. Granizo que molha a testa, as sobrancelhas e as bochechas. Tudo passa. Ao andar, ela se lembra de que, no fim, tudo que você agarra usando todas as forças vai desaparecer.
Han Kang imagina a vida dessa irmã, pensa no que ela poderia estar fazendo e retorna à sua própria realidade. Li O Livro Branco com um travo agridoce, impressionado com tamanha melancolia e beleza. É até um tanto desconfortável terminar este texto assim, mas a diferença de impacto entre as duas obras foi tão gigantesca — Han Kang me pareceu grande literatura, enquanto o outro me pareceu um exercício de outra ordem — que prefiro parar por aqui, antes que me arrependa de confessar meu estranhamento com o famoso escritor argentino. (Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Um Nobel para Chamar de Meu
Literatura
Um Nobel para Chamar de Meu
9 de outubro de 2025 at 14:09 0
O Prêmio Nobel de Literatura de 2025, concedido a László Krasznahorkai, foi anunciado há pouco. Como de costume, assisti ao anúncio ao vivo pelo site do Prêmio Nobel. O processo é bem simples: há uma porta fechada com algumas pessoas sentadas em frente a ela. Pouco depois, uma pessoa bem-vestida sai e, com frases rápidas em sueco e inglês, anuncia o nome do vencedor, além de dar uma breve justificativa para a escolha. Comecei a acompanhar o Nobel de Literatura com mais atenção em 2008, quando J.M.G. Le Clézio foi o vencedor. Eu tinha comprado um livro dele, Mondo et autres histoires, quase por acaso e tinha ficado embasbacado. Fiquei tão feliz quando vi a vitória de Le Clézio na página principal do UOL que liguei para a Valéria para contar. O Prêmio Nobel de Literatura tem me ajudado a descobrir excelentes autores ao longo dos anos, como Han Kang (2024), Patrick Modiano (2014), Svetlana Alexievich (2015), Kazuo Ishiguro (2017), Alice Munro (2013), Mo Yan (2012), J.M. Coetzee (2003), Naguib Mahfouz (1988) e Olga Tokarczuk (2018). Gosto de outros escritores que já conhecia antes de receberem o Nobel, como Gabriel García Márquez (1982), Vidiadhar Naipaul (2001) e Mario Vargas Llosa (2010). De outros, cheguei a ler algo, mas não gostei muito, como Imre Kertész (2002) e Peter Handke (2019). De Jon Fosse (2023), já comprei o livro “Trilogia”, mas ainda não comecei a ler. Não tenho muita facilidade com poesia, então acabei lendo pouquíssima coisa de Louise Glück (2020), Tomas Tranströmer (2011) e Wisława Szymborska (1996). O caso de Herta Müller (2009) é um pouco diferente: li alguns de seus livros, gostei de uns e menos de outros, mas suas histórias tendem a grudar na memória, sejam elas boas ou ruins. Alguns autores simplesmente não me atraem, e não pretendo lê-los, como é o caso de Abdulrazak Gurnah (2021) e Annie Ernaux (2022). Porém, isso não aconteceu com o laureado de hoje, László Krasznahorkai, que recebeu o prêmio, segundo a Academia Sueca, “pela sua obra convincente e visionária que, em meio de um terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. “Distopia” e “terror” são termos frequentemente citados quando se fala em sua obra, dois assuntos que me interessam bastante: meu novo romance, “3040”, é uma espécie de distopia, e meu texto mais recente aqui foi sobre filmes de terror. Em breve, comprarei “Sátántangó”, romance “apocalíptico” publicado originalmente em 1985 e já lançado no Brasil pela Companhia das Letras. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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“A vegetariana”, de Han Kang
Literatura
“A vegetariana”, de Han Kang
9 de fevereiro de 2025 at 17:28 0
Quando fiquei sabendo, em algum noticiário, que o livro mais conhecido da escritora coreana Han Kang (1970- ), vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2024, chamado “A vegetariana” (Todavia, 171 páginas, tradução de Jae Hyung Woo, lançado originalmente em 2007), falava sobre uma mulher que, um belo dia, resolveu parar de comer carne, causando revolta na família, logo pensei que era alguma espécie de libelo pró-vegetarianismo. Ledo engano. O grande escritor inglês Ian McEwan chamou “A vegetariana” de “um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece seu grande sucesso”. É interessante perceber que, como o livro é dividido em três partes, a primeira e terceira tratam de “loucura”, e a segunda, de “sexualidade”. A mulher que resolve parar de comer carne, por causa de “sonhos”, é Yeonghye, uma discreta e calada dona-de-casa coreana, vivendo em Seul, mulher de um alto executivo. Conforme comentado acima, a família entra em polvorosa com a sua decisão, mas não é porque ela simplesmente virou vegetariana – o que até seria aceitável -, mas é porque estava perdendo peso numa escala e numa velocidade preocupantes. Isso é contado principalmente na primeira parte do livro, escrito em primeira pessoa pelo marido de Yeonghye. A segunda parte, narrada em terceira pessoa, é contada sob o ponto de vista do cunhado da personagem principal do romance, um artista visual casado com a irmã da “vegetariana”. Já a terceira, também narrada em terceira pessoa, mostra os acontecimentos sob o olhar da irmã de Yeonghye. Por mais que eu pense a respeito, não consigo contar mais do livro para não dar spoiler, tantos são os acontecimentos surpreendentes no romance. Mas o que dá para contar é que “A vegetariana” é realmente uma obra-prima, uma história extremamente perturbadora narrada com uma prosa límpida. (Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e inscreva seu e-mail.)
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