Alice Munro

A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
Literatura
A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
13 de junho de 2026 at 23:20 0
Em seus muitos contos, a canadense Alice Munro (1931-2024), Prêmio Nobel de Literatura de 2013, saudada como “mestre do conto contemporâneo”, escreveu sobre casais em crise, relacionamentos extraconjugais, histórias mal contadas e segredos de família. É uma autora que frequentemente focou suas narrativas em núcleos familiares ou de pessoas próximas, sempre num tom intimista. Embora alguns acontecimentos históricos — como a Segunda Guerra ou a liberação sexual dos anos 1960 — tenham sua importância em certos contos, normalmente eles são apenas pano de fundo para o que está sendo narrado. As histórias de Alice Munro normalmente se passam no Canadá, mas poderiam se passar em São Paulo. Li recentemente “Vida querida” (Companhia das Letras, 320 páginas, traduzido por Caetano W. Galindo, ano de publicação original: 2012), que é o último livro que ela escreveu. Gostei muito de contos como o angustiante “Amundsen”, o trágico “Cascalho”, e de narrativas quase contemplativas e que cobrem longos períodos temporais, como “Orgulho” e “Trem”. Mas o meu preferido mesmo foi “Corrie”, que fala sobre uma mulher rica e independente que mantém um caso secreto de anos com um homem casado: o arranjo parece perfeito, até que uma revelação mostra que o relacionamento era baseado em uma mentira muito profunda. Os últimos quatro contos do livro — “O Olho”, “Noite”, “Vozes” e “Vida Querida” — trazem, segundo a própria autora, histórias biográficas contadas pela primeira vez. Apesar do interesse natural que os fãs — entre os quais me incluo — tenham em saber mais sobre a vida de Alice Munro, não tem como não achar que, literariamente, essas histórias são um pouco inferiores ao normal da autora, que recebeu o único Prêmio Nobel, até hoje, dado a alguém especialista em contos. A verdade é que as histórias de Alice Munro são quase sempre literariamente espetaculares e perfeitamente acabadas, enquanto os últimos contos de “Vida querida” parecem apenas um ajuste de contas da escritora com sua mãe.
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Um Nobel para Chamar de Meu
Literatura
Um Nobel para Chamar de Meu
9 de outubro de 2025 at 14:09 0
O Prêmio Nobel de Literatura de 2025, concedido a László Krasznahorkai, foi anunciado há pouco. Como de costume, assisti ao anúncio ao vivo pelo site do Prêmio Nobel. O processo é bem simples: há uma porta fechada com algumas pessoas sentadas em frente a ela. Pouco depois, uma pessoa bem-vestida sai e, com frases rápidas em sueco e inglês, anuncia o nome do vencedor, além de dar uma breve justificativa para a escolha. Comecei a acompanhar o Nobel de Literatura com mais atenção em 2008, quando J.M.G. Le Clézio foi o vencedor. Eu tinha comprado um livro dele, Mondo et autres histoires, quase por acaso e tinha ficado embasbacado. Fiquei tão feliz quando vi a vitória de Le Clézio na página principal do UOL que liguei para a Valéria para contar. O Prêmio Nobel de Literatura tem me ajudado a descobrir excelentes autores ao longo dos anos, como Han Kang (2024), Patrick Modiano (2014), Svetlana Alexievich (2015), Kazuo Ishiguro (2017), Alice Munro (2013), Mo Yan (2012), J.M. Coetzee (2003), Naguib Mahfouz (1988) e Olga Tokarczuk (2018). Gosto de outros escritores que já conhecia antes de receberem o Nobel, como Gabriel García Márquez (1982), Vidiadhar Naipaul (2001) e Mario Vargas Llosa (2010). De outros, cheguei a ler algo, mas não gostei muito, como Imre Kertész (2002) e Peter Handke (2019). De Jon Fosse (2023), já comprei o livro “Trilogia”, mas ainda não comecei a ler. Não tenho muita facilidade com poesia, então acabei lendo pouquíssima coisa de Louise Glück (2020), Tomas Tranströmer (2011) e Wisława Szymborska (1996). O caso de Herta Müller (2009) é um pouco diferente: li alguns de seus livros, gostei de uns e menos de outros, mas suas histórias tendem a grudar na memória, sejam elas boas ou ruins. Alguns autores simplesmente não me atraem, e não pretendo lê-los, como é o caso de Abdulrazak Gurnah (2021) e Annie Ernaux (2022). Porém, isso não aconteceu com o laureado de hoje, László Krasznahorkai, que recebeu o prêmio, segundo a Academia Sueca, “pela sua obra convincente e visionária que, em meio de um terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. “Distopia” e “terror” são termos frequentemente citados quando se fala em sua obra, dois assuntos que me interessam bastante: meu novo romance, “3040”, é uma espécie de distopia, e meu texto mais recente aqui foi sobre filmes de terror. Em breve, comprarei “Sátántangó”, romance “apocalíptico” publicado originalmente em 1985 e já lançado no Brasil pela Companhia das Letras. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
Ciência, História, Literatura
Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
16 de janeiro de 2022 at 19:52 0
  1. “Vulgo Grace”, de Margaret Atwood: a história de um assassinato real ocorrido no século XIX foi o ponto de partida para um livro fascinante, transformado numa série tão fascinante quanto.
  2. “O fim”, de Karl Ove Knausgård: o final da monumental série “Minha luta” mistura ensaios, principalmente sobre o nazismo, e problemas pessoais ligados ao sucesso de seus livros anteriores e ao casamento do autor.
  3. “Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo”, de Michio Kaku: a estranha física moderna e valores humanos num livro afetivo e delicioso.
  4. “Os andarilhos do bem”, de Carlo Ginzburg: tudo é estranho neste livro de não-ficção que conta batalhas espirituais contra bruxas na Itália do século XVI.
  5. “O segundo tempo”, de Michel Laub: o narrador desta novela excelente não sabe se vai dar ou não uma notícia ruim a seu irmão mais novo durante um Grenal no estádio Beira Rio, em Porto Alegre.
  6. “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez: só Gabriel García Márquez para conseguir fazer o leitor sentir empatia por um caudilho sanguinário.
  7. “Rei, valete, dama”, de Vladimir Nabokov: já Nabokov não consegue fazer com que o leitor sinta empatia pelos personagens deste romance, mas ele escreve tão bem que isso pouco importa.
  8. “A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson: autora de HQs, criadora da super-heroína Kamala Khan da Marvel, G. Willow Wilson emociona na descrição de sua conversão ao Islã.
  9. “Amiga de juventude”, de Alice Munro: as histórias da canadense, Nobel de 2012, são pérolas da literatura.
  10. “A gafieira de dois tostões”, de Georges Simenon: conforme o comentário do leitor Heitor Vieira de Resende no site da Amazon, “o pior livro de Simenon é ainda muito bom”. E este certamente não é o pior livro de Simenon.
(foto: Karl Ove Knausgard, obtida no Rascunho)
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Livros lidos recentemente
Literatura
Livros lidos recentemente
10 de janeiro de 2021 at 18:39 0
  • “O olho”, de Vladimir Nabokov (Alfaguara, 86 páginas, tradução de José Rubens Siqueira, publicado originalmente em 1965): quarto romance de Nabokov, ainda em sua fase russa, o livro discorre sobre Smurov, jovem russo pobre vivendo no exílio em Berlim e que se suicida logo no início da história. Se no início temos o Nabokov brilhante de sempre, o final do romance deixa um pouco a desejar.
  • “Madame Oráculo”, de Margaret Atwood (Círculo do Livro, 325 páginas, tradução de Domingos Demasi, publicado originalmente em 1976): uma escritora de romances açucarados só pode receber uma herança se emagrecer. O terceiro romance da autora de “O conto da aia” começa brilhantemente, mas, assim como o livro citado acima, se perde um pouco no final.
  • “Amiga de juventude”, de Alice Munro (Biblioteca Azul, 259 páginas, tradução de Elton Mesquita, publicado originalmente em 1990): comentei recentemente o seguinte sobre “A fugitiva”, outro livro de contos da escritora Prêmio Nobel de 2013: “já dá para perceber que a canadense, única pessoa a receber o Nobel de Literatura tendo escrito somente contos na carreira, tem um estilo todo próprio: o negócio então, para mim, é continuar lendo suas ótimas histórias, mesmo que o maravilhamento tenha diminuído muito da leitura de ‘Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento’ para cá”. Pois é, o mesmo vale para este “Amiga de juventude”.
  • “Philosophy, Pussycats, & Porn”, de Stoya (Not a Cult, 148 páginas, publicado originalmente em 2018): nesta coletânea de textos já publicados anteriormente em diversas mídias, a famosa atriz pornô Stoya fala sobre relacionamentos sexuais, apresentações ao vivo, questões relacionadas a trabalhadores do sexo, viagens de trabalho e, como diz o título, filosofia e gatos. Ela escreve muito bem, e o livro é de leitura extremamente agradável.
  • “O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras, 112 páginas, publicado originalmente em 2006): o narrador desta novela não sabe se vai dar ou não uma notícia ruim a seu irmão mais novo durante um Grenal no estádio Beira Rio, em Porto Alegre. O livro é tão bom quanto “A maçã envenenada”, do mesmo autor, sobre o qual eu tinha comentado aqui.
  • “A gafieira de dois tostões”, de Georges Simenon (Companhia das Letras, 150 páginas, tradução de Eduardo Brandão, publicado originalmente em 1931): antes de ser executado, o condenado Jean Lenoir confessa ao comissário Maigret que foi testemunha de um crime seis anos antes. Conforme o comentário do leitor Heitor Vieira de Resende no site da Amazon, “o pior livro de Simenon é ainda muito bom”. E este certamente não é o pior livro de Simenon!
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Os livros que mais gostei de ter lido em 2020
História, Literatura
Os livros que mais gostei de ter lido em 2020
31 de dezembro de 2020 at 15:16 0
  1. “Gengis Khan e a formação do mundo moderno”, de Jack Weatherford: provavelmente você não sabia que o grande imperador mongol (1158 – 1227) tinha uma mentalidade tão à frente do seu tempo.
  2. “Não me abandone jamais”, de Kazuo Ishiguro: poucos livros me perturbaram tanto.
  3. “O império de Hitler”, de Mark Mazower: sempre tive curiosidade de saber como os nazistas se comportavam como colonizadores, coisa que este livro monumental explica.
  4. “A destruição dos judeus europeus”, de Raul Hilberg: outro livro monumental, sobre o Holocausto neste caso.
  5. “O mapa e o território”, de Michel Houellebecq: fico mais feliz lendo uns autores do que outros, e Michel Houellebecq é um dos que me dão mais alegria na leitura.
  6. “Os testamentos”, de Margaret Atwood: continuação de “O conto da Aia”, não preciso explicar mais.
  7. “As luas de Júpiter”, de Alice Munro: tem gente que reclama do Prêmio Nobel de Literatura por causa disso e daquilo, mas eu provavelmente não conheceria autoras como esta canadense se não fosse a Academia Sueca.
  8. “A época da inocência”, de Edith Wharton: um amor mal resolvido e os preconceitos e costumes dos ricos americanos do final do século XIX e início do século XX numa obra-prima.
  9. “O dom”, de Vladimir Nabokov: Nabokov é Nabokov, e pronto.
  10. Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha: uma história em quadrinhos que comprova que God is a woman, como diz a Ariana Grande, uma favorita aqui da casa.
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“As luas de Júpiter”, de Alice Munro
Literatura
“As luas de Júpiter”, de Alice Munro
27 de dezembro de 2020 at 22:19 0
“As luas de Júpiter” (Biblioteca Azul, 295 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite, publicado originalmente em 1982), da escritora canadense Alice Munro, Nobel de Literatura de 2013, é composto por onze contos, basicamente sempre contados sob o ponto de vista feminino. As histórias são sempre narradas de modo sutil, seja um possível caso de dois trabalhadores homossexuais numa granja (“A temporada de Peru”), um relacionamentos extraconjugal entre um professor e uma professora (“Acidente”), uma paixão mal resolvida (“Bardon”), uma visita entre irmãos que não se viam há décadas (“Visitas”), uma mulher de meia idade que vai visitar seu pai doente no hospital (“As luas de Júpiter”), duas senhoras que se conhecem desde o jardim de infância e que agora estão juntas numa casa de repouso (“A Sra. Cross e a Sra. Kidd”), uma mulher que tem primas muito diferentes em termos de educação e comportamento de um lado e de outro da família (“Chaddeley e Flaming”), um jantar entre casais de amigos (“Jantar no Labor Day”), ou um caso amoroso cheio de nuanças (“Prue”). Fiquei muito entusiasmado com o primeiro livro que li de Alice Munro, “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”, conforme comentei aqui, entusiasmo que não diminuiu em nada depois de ler “A fugitiva” (ver aqui). Já “As luas de Júpiter” me surpreendeu bem menos, por mais que eu tenha amado a leitura do livro. Já dá para perceber que a canadense, única pessoa a receber o Nobel de Literatura tendo escrito somente contos na carreira, tem um estilo todo próprio: o negócio então, para mim, é continuar lendo suas ótimas histórias, mesmo que o maravilhamento tenha diminuído muito da leitura de “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” para cá. Fonte da foto: Alice_Munro.jpg (996×1348) (macleans.ca)
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Três livros de contos
Literatura
Três livros de contos
9 de dezembro de 2018 at 12:50 0
Três excelentes livros de contos, muito diferentes uns dos outros. “Noturnos”, do britânico Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de 2017 (Companhia das Letras, 214 páginas) conta sete histórias de músicos: um grande cantor do passado que tenta fazer uma serenata para a mulher em Veneza (“Crooner”), uma história mal resolvida do tempo da juventude que volta à tona (“Chova ou faça sol”), um guitarrista jovem que encontra um casal de músicos de meia idade (“Malvern Hills”), e o melhor conto do livro, o hilário “Noturno”, que conta uma noite maluca num hotel de luxo. O livro, traduzido por Fernanda Abreu, é ótimo – apenas a última história, a implausível “Celistas”, é esquecível. “Feliz ano novo” é um clássico do grande Rubem Fonseca (Companhia das Letras, 184 páginas) e merece sua fama - pela qualidade de suas histórias violentas e inesperadas. Só que, confesso, às vezes eu ficava meio enfastiado em meio a tanto sangue derramado. O melhor fica para o fim: “Fugitiva”, de Alice Munro, Prêmio Nobel de 2013 (Editora Globo, 350 páginas), é tão bom quanto o outro dela que eu tinha lido, “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” – sobre o qual comentei aqui que “me trouxe um prazer que eu mesmo não estou acostumado a sentir em minhas leituras”. Não precisa dizer mais nada. (crédito da foto: Wikipédia)
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