Lima Barreto

Literatura
Revisitando Isaías Caminha
25 de fevereiro de 2020 at 15:27 0

Já comentei aqui e aqui, respectivamente, a primeira e a segunda leituras de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”. Na primeira leitura, escrevi:

Confesso que tenho um problema com Lima Barreto. Já tinha sido um sofrimento ler “Triste fim de Policarpo Quaresma”, e com este “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” a coisa não foi diferente. Ele tem algo no estilo – lamentoso demais – que acaba dificultando a leitura.

Já na segunda, parece que um véu me saiu dos olhos:

Realmente, “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é um livro amargo, mas isto, que tinha me chamado atenção na primeira leitura, é apenas parte da história: o fato é que as descrições de pessoas e situações apresentadas por Lima Barreto são vívidas, tão bem executadas que conseguem descortinar para o leitor toda uma época, quase como se visitássemos o Rio de Janeiro dos primeiros anos da República. O livro cintila.

Depois disso, postei no Instagram uma foto – que acompanha este texto – na qual comento que “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é o “melhor livro da literatura brasileira, e não admito opiniões contrárias”.

Depois da postagem fiquei me perguntando se eu não estava sendo injusto com o restante da literatura brasileira, e resolvi ler de novo este livro. O que aconteceu é que nesta terceira leitura voltou a me chamar a atenção aquilo que eu tinha citado no meu primeiro texto sobre o romance:

(...) o painel preciso que ele pinta das mazelas brasileiras – o racismo, a falta de palavra dos políticos, o sensacionalismo da imprensa, a falta de responsabilidade generalizada – é impressionante.

Várias leituras, uma diferente da outra. Grandes romances não são aqueles que permitem isso? 

Conclusão: “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é o melhor livro da literatura brasileira, e não admito opiniões contrárias.

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Filosofia, Literatura
Turmas
12 de janeiro de 2020 at 15:41 0
Luiz Felipe Pondé - Wikipédia

Em vídeos e crônicas, o famoso filósofo Luiz Felipe Pondé – que eu admiro muito, aliás – parece citar sempre os mesmos escritores: Fiódor Dostoiévski, William Shakespeare, Liev Tolstói, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges Bernanos e mais alguns poucos (não custa lembrar que ele está lançando um curso online sobre literatura, cujo link está aqui). Dostoiévski, então, é uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da série “Democracia na Teia”, por exemplo, há uma edição gigantesca do grande autor russo atrás de entrevistador e entrevistado – mais do que isso, ele parece sempre pronto a citá-lo a qualquer momento, com ou sem necessidade.

Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do Pondé. Do Dostoiévski, li “Crime e Castigo” quando adolescente, e “Os irmãos Karamazov”, bem mais tarde. Gostei muito, mas não me marcaram. De Tolstói li mais e gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis é um gênio, claro, mas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler “Recordações do escrivão Isaías Caminha” pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare conheço muito pouco, embora tenha lido “Júlio César” ano passado e tenha amado. Sobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu “Verão de 54”: “para ser grande literatura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues”. Bernanos eu conheci recomendado pelo próprio Pondé, gostei muito, mas achei meio confuso.

Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, também. Lembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois críticos de literatura só porque falaram mal de “2666”, de Roberto Bolaño: um deles ainda teve o desplante de escrever que outra obra do chileno, “Os detetives selvagens” – que eu achei ruim – era “mais bem acabado” (ou alguma outra expressão sem sentido) que “2666”.

De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que já citei – Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bolaño – tem ainda Patrick Modiano, Gabriel García Márquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honoré de Balzac, Junichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Clézio e mais alguns. Tem um outro autor que está na minha turma e na do Pondé, mas ele não foi citado – ainda.

Existe uma autora que acabou entrando na minha turma há uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. Em “O ano do macaco” ela conta de sua paixão avassaladora por “2666”, de Roberto Bolaño. Em “Devoção” ela fala de maneira extremamente carinhosa – como só ela consegue fazer – de Patrick Modiano e Simone Weil. Modiano e Bolaño admirados como devem ser! (A Simone Weil, cujas obras nunca li, deve ser muito boa também, haha.) Será que a turma de Patti Smith é parecida com a minha? Espero que sim.

De todo modo, por que a turma de Pondé é diferente da minha e, quem sabe, da da Patti Smith também? Porque, acredito eu, como filósofo, ele quer retirar algum ensinamento, quer “enxergar” algo por trás de uma obra literária. Dostoiévski e o problema da existência. Machado de Assis e o ciúme. Shakespeare e os sentimentos humanos. Nelson Rodrigues e a hipocrisia da classe média. Georges Bernanos e a fé. Tolstói e... sei lá o que ele quer ver em Tolstói.

Já eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra literária. Não há o que enxergar por trás de “2666”, não há nenhum ensinamento por trás desta maravilha. O livro é apenas isso – uma maravilha. [1]

Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que faz parte da minha turma e da do Pondé: o nome dele é Franz Kafka. Ele deve admirar o grande autor tcheco pela crítica à burocracia, ou pelo retrato simbólico do absurdo da existência, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka pela imaginação e pela maravilhosa técnica de contar histórias malucas como se estivesse fazendo um relatório de empresa de seguros.


[1] Algum engraçadinho pode vir me questionar dizendo que o que está por trás das obras de Balzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente o dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? Sei lá, hehe.

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Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
Literatura
Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
16 de dezembro de 2018 at 15:12 0
  1. “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki: um painel da vida no Japão em meados do século XX, a história de quatro irmãs, um dos melhores livros que já li.
  2. “Ilíada”, de Homero: o início da literatura ocidental.
  3. “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto: a história do nacionalista patético que queria que o tupi fosse a língua oficial do Brasil é apenas parte deste livro fascinante.
  4. “O Gigante Enterrado”, de Kazuo Ishiguro: um livro de fantasia e grande literatura.
  5. “Confissões”, de Santo Agostinho: não há como superestimar a influência deste livro na literatura, na teologia e na filosofia ocidentais.
  6. “A Descoberta da Escrita”, de Karl Ove Knausgard: o quinto dos seis livros da série “Minha Luta”, do grande escritor norueguês. Quando a Companhia das Letras vai lançar o sexto?
  7. “Un cirque passe”, de Patrick Modiano: uma jovem misteriosa, perdida - e apaixonante.
  8. “A gorda do Tiki Bar”, de Dalton Trevisan: o título já diz tudo. O curitibano em sua melhor forma.
  9. “Hors d’atteinte?”, de Emmanuel Carrère: o vício em jogo, no meio de um casal intelectualizado e vazio, numa história contada com carinho e um pouco de cinismo.
  10. “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca: acho que nunca vou esquecer o impacto dos primeiros contos deste livro.
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Meus livros preferidos
Literatura
Meus livros preferidos
22 de julho de 2018 at 19:11 0
Faz tempinho que eu não faço uma listinha de livros preferidos, né? Então lá vai mais uma, com links de comentários meus sobre os livros e/ou os autores:

1. “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust: todo um universo em sete livros. (mais…)

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“Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto
Literatura
“Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto
18 de março de 2018 at 20:35 0
Policarpo Quaresma era um brasileiro patriota. Muito patriota. Para ele, nossas terras eram as mais férteis. A nossa cultura, a melhor. Nada do que fosse estrangeiro merecia o seu respeito. A força de sua brasilidade era tão grande que ele propôs que a língua pátria deixasse de ser o português, que veio de outras terras, e passasse a ser o tupi, nativo daqui. Era funcionário público e sua proposta foi pessimamente recebida, o que acabou lhe causando uma crise de nervos -  foi aposentado por motivos de saúde e logo se recuperou. (mais…)
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“Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto
Literatura
“Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto
2 de outubro de 2017 at 22:18 0
Não sei bem o que eu tinha na cabeça quando não gostei da leitura de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto (1881-1922), uns seis anos atrás. De modo geral, achei que o livro era tão depressivo e amargo que estes defeitos sobrepujavam em muito as suas qualidades: o retrato preciso de mazelas brasileiras como o racismo, a falta de palavra dos políticos, o sensacionalismo da imprensa. De lá para cá, li recentemente a ótima biografia “Lima Barreto – Triste visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz, que comentei por aqui, e fiquei com vontade de tirar a cisma deste clássico da literatura brasileira. Isaías Caminha, o personagem principal e narrador da história, nasce no interior do estado do Rio de Janeiro e, com a carta de recomendação dirigida a certo deputado em mãos, vai à então capital da República tentar iniciar os estudos superiores. Em uma passagem clássica, Isaías Caminha se choca ao se sentir vítima de racismo numa estação de trem, quando é tratado rispidamente pelo atendente, que é gentil com o passageiro branco a seu lado. Nada dá certo para o personagem no Rio de Janeiro: o tal deputado não move uma palha por ele, que chega a passar fome, vagando sem destino e sem dinheiro pelas ruas da cidade. Isaías Caminha acaba conseguindo um emprego como contínuo num jornal e, por circunstâncias inusitadas, acaba subindo na carreira alguns anos depois. (mais…)
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