Rápidos comentários sobre livros lidos – 2
Literatura

Rápidos comentários sobre livros lidos – 2

3 de maio de 2015 0

Austerlitz, de W.G.Sebald (Companhia das Letras): Austerlitz é um sujeito de grande cultura geral, que fascina o personagem que é o narrador deste espetacular romance do alemão W.G.Sebald, falecido em 2001. Os encontros do narrador com Austerlitz acontecem meio aleatoriamente, em períodos muitos espaçados  e em diferentes países da Europa. Os comentários sobre arquitetura, arte e literatura de Austerlitz são profundos e interessantes. Mas é a história da sua vida – sobre a qual eu não posso dar nenhuma dica para não estragar a surpresa – que é realmente tocante, fazendo deste um dos melhores romances dos últimos anos. (10/10)

Servidão humana (Editora Globo), de W. Somerset Maugham: Pode-se dizer que cada livro de Philip Roth versa sobre um tema. “O complexo de Portnoy” é sobre o sexo, “Indignação” é sobre o destino, “Casei com um comunista” é o retrato de uma época. Não consigo dizer qual seria o tema do semiautobiográfico “Servidão humana”, excelente livro do inglês Somerset Maugham. O romance conta a história de Philip Carey, jovem órfão inglês que é cuidado pelos tios – uma tia amorosa e um tio obtuso e mesquinho –, tenta a vida na Alemanha (onde vai estudar a língua local), na França (onde tenta ser pintor) e acaba voltando para a Inglaterra para estudar medicina – passando por grandes dificuldades financeiras e amorosas no processo, além de uma importante desilusão religiosa. Se não tem um tema central, “Servidão humana” conta a história de uma vida – de maneira brilhante. Está mais que bom, não é? (9/10)

Historias de cronopios y de famas, de Julio Cortázar (da coleção “Cuentos completos”, da Punto de Lectura): Os cronopios, famas e esperanças são seres esquisitos. Por mais que os famas, por exemplo, sejam mais racionais que os cronopios, é impossível não sentir simpatia pelo imenso coração deles. Mas “Historias de cronopios y de famas” é mais do que apenas as histórias desses seres estranhos, nascidos da fenomenal imaginação de Cortázar. Tem também as estranhas ocupações da família Humboldt. Tem também as estranhas instruções do início do livro. Sim, é um livro estranho. Mas é caloroso e se lê com um prazer imenso. (9/10)

Cleópatra, de Christian-Georges Schwentzel (da Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia): Da linha dos Ptolomeus, governantes gregos que tomaram o poder no Egito após a conquista de Alexandre, o Grande, Cleópatra é uma das figuras mais famosas e controvertidas da História. “Cleópatra”, de Christian-Georges Schwentzel, não deixa nada de fora: a sem-cerimônia com que os Ptolomeus matavam parentes próximos para assumir o poder (coisa que Cleópatra também fez), os casos amorosos da rainha, e a sua fama posterior. É pena que fiquemos com uma sensação de que nunca poderemos saber exatamente como Cleópatra realmente era, já que são poucos os documentos históricos que realmente restaram sobre sua vida. (7/10)

Fanny Hill, de John Cleland (aqui): Fanny Hill é um dos clássicos mais famosos – senão o mais famoso – da literatura erótica mundial. Conta a história de uma órfã que precisa se prostituir para sobreviver – mas que gosta disso. A leveza e o estilo com que a história é contada fazem com que o livro mereça a fama de clássico que acabou obtendo (existe até uma edição da Penguin Classics!), apesar de ter sido sinônimo de obscenidade por muito tempo. (8/10)

El mal de montano, de Enrique Vila-Matas (Anagrama): Montano é um sujeito que sofre de “mal de literatura”. Confunde sua vida com seus livros, e não consegue tomar um cafezinho sem citar Kafka, Borges ou Robert Musil. Não dá para entender. Não é possível que um livro tão bobo e irritante seja tão querido pela crítica atual. (4/10)

Corazón tan blanco, de Javier Marías (Debolsillo): O primeiro livro de sucesso do espanhol Javier Marías. O romance conta a história do tradutor Juan: sua vida profissional, seu casamento e, principalmente, as mal contadas histórias de seu pai, o especialista em arte Ranz. A estranheza e a fascinação que Juan sente em relação às mulheres em geral, e em relação à sua mulher em particular; as várias camadas com as quais a vida de Ranz vai sendo dissecada; e o estilo caloroso e fascinante de Javier Marías fazem com que este livro seja de leitura altamente recomendada. (10/10)

Juliet, naked, de Nick Hornby (Penguin): Duncan é um fã obcecado (muito obcecado mesmo) pelo cantor (fictício) Tucker Crowe. Annie é sua esposa, que sofre com a loucura de seu marido. E Tucker Crowe é um cantor que fez alguns discos considerados (por seus fãs) obra-primas, e lá pelas tantas sumiu do mapa. A partir disto, a história vai continuando, sempre com lances surpreendentes. Como sempre, Nick Hornby é delicioso de ler – mas não é um Philip Roth, não mesmo. (8/10)

Invention of solitude, de Paul Auster (Penguin): O livro de estreia do inglês Paul Auster é considerado por muitos, até hoje, a sua obra-prima. “Invention of solitude” é dividido em duas partes: a primeira é sobre seu pai, uma “não-pessoa”, um sujeito terrivelmente distante; da segunda constam vários pequenos ensaios e comentários sobre diversos assuntos – entre os quais a relação do próprio Auster com seu filho, que o escritor, claro, quer que seja bem diferente daquela que ele mesmo tinha com seu pai. A maneira com a qual Auster descreve o pai é precisa, forte e fascinante – e o modo com o qual ele mostra por que o pai era assim tão distante é enormemente comovedor. “Invention of solitude” é uma obra-prima. (9/10)

Noticia de un secuestro, de Gabriel García Márquez (Debolsillo): O livro é uma longa reportagem sobre uma série de sequestros patrocinados pelo narcoterrorista Pablo Escobar na Colômbia do início dos anos 90. Precisão jornalística e uma grande empatia pelo sofrimento humano são as marcas de mais uma obra-prima do meu escritor latino preferido. (9/10)

Operation Shylock, de Philip Roth (Vintage): Philip Roth, no início do livro, tem uma série de delírios causados por um medicamento que estava tomando depois de uma operação. Depois, acaba sabendo que em Israel existe um impostor se fazendo passar por ele. Roth vai para lá, e acaba sendo perseguido pelo Mossad. O que é realidade em “Operation Shylock”? O que é ficção? O que é delírio? O tempo todo Roth parece brincar com estas questões – e o leitor fica na dúvida até depois de acabar o livro. Parece que o autor continua contando que o que aconteceu em “Operation Shylock” é a mais pura verdade. Não vamos saber nunca o que é real ou não – mas nem importa. Roth é sempre Roth, afinal de contas. (10/10)

Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto (Penguin-Companhia das Letras): Confesso que tenho um problema com Lima Barreto. Já tinha sido um sofrimento ler “Triste fim de Policarpo Quaresma”, e com este “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” a coisa não foi diferente. Ele tem algo no estilo – lamentoso demais – que acaba dificultando a leitura. Mas o painel preciso que ele pinta das mazelas brasileiras – o racismo, a falta de palavra dos políticos, o sensacionalismo da imprensa, a falta de responsabilidade generalizada – é impressionante. Não é à toa que sua importância literária cresce a cada dia. (8/10)

In the heart of the country, de J. M. Coetzee (Penguin): Uma solteirona, vivendo na África do Sul no tempo do apartheid, resolve apelar feio quando seu pai se casa com uma negra. Este é certamente o mais chocante dos livros de Coetzee que eu já li, escrito num estilo forte, lírico e estranho – à moda de Faulkner. Frequentemente desagradável, “In the heart of the country” é um soco no estômago. (9/10)

Deus, um delírio, de Richard Dawkins (Companhia das Letras): “Deus, um delírio” é uma violenta diatribe contra todos os tipos de religião. O ateu praticante Richard Dawkins parece achar que quase todo o mal do mundo está na religião, e quase todo o bem no darwinismo. O fato de ele sequer citar ateus genocidas como Mao e Pol Pot, passar rapidamente por Stálin, simplesmente não mencionar o darwinismo social (nem que fosse para descartá-lo) – doutrina aceita e praticada por todos os nazistas -, além de não fazer um comentário sequer sobre todo o bem que a religião faz a milhões de pessoas (mesmo elogiando parte da doutrina de Jesus Cristo), mostra que Dawkins só quer é fazer muito barulho por nada. Afinal de contas, ele odeia a religião, parece odiar os religiosos, mas considera o bispo de Oxford seu amigo. (2/10)

Sabbath’s Theater, de Philip Roth (Vintage): Mickey Sabbath é um judeu que só pensa em sexo. Ele trabalhava com um teatro de bonecos quase pornográfico, mas seus dedos desenvolveram artrite e para ele só sobrou viver à custa de sua mulher, que ele odeia. A sua grande obsessão é Drenka, uma croata cinquentona que é tão obcecada por sexo quanto ele – ela trai seu marido com quem passar pela frente. E assim por diante. A grande crítica literária Michiko Kakutani  considerou “Sabbath’s Theater” “desagradável e hipócrita”. Já o grande crítico literário Harold Bloom, assim como Arthur Nestrovski, da Folha, acharam “Sabbath’s Theater” uma obra-prima. Fico com eles. (9/10)

O emblema vermelho da coragem, de Stephen Crane (Penguin-Companhia das Letras):  Um dos primeiros grandes clássicos norte-americanos. O romance é a jornada interior de um jovem combatente ianque na Guerra Civil Americana. A maneira com a qual o autor apresenta sua covardia inicial e sua passagem para a bravura posterior é crível e fascinante. (9/10)

(texto publicado no blog do Mondo Bacana em junho de 2011)

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