Georg Trakl

Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
Literatura
Uma lista de cabeceira entre o sagrado e o profano
15 de fevereiro de 2026 at 12:01 0
Estava assistindo a uma série que se passa numa universidade americana fictícia no estado de Vermont e lembrei que um dos meus livros preferidos, “A História Secreta”, de Donna Tartt, também se passa numa universidade — também fictícia — no mesmo estado. É claro que deu vontade de reler esse livro que amo tanto. Aí, pensando na minha mania de listas, resolvi fazer mais uma de livros preferidos. É claro que nela estariam os três únicos romances que sempre tenho vontade de reler, citados aqui: “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, e o já citado “A História Secreta”. Para ser uma lista diferente das minhas outras, pensei que a Bíblia deveria ser encarada não como um livro único, mas pelo que ela é de verdade: um volume ou conjunto de volumes que contém os textos sagrados do Antigo e Novo Testamento. Assim, eu poderia incluir “O Livro de Jó”, que sem dúvida está na minha lista de favoritos, e deixar de lado livros que um cristão assumidamente tem um pouco mais de dificuldade de digerir — como o “Levítico”. Sobre este assunto, também decidi que os Evangelhos seriam tratados como um único livro, assim como as Cartas de Paulo, por serem, na minha cabeça, quase uma obra só. Pensei seriamente em colocar na lista as minhas suratas preferidas do Alcorão, como a de número 1, “Al-Fatiha”, e a 19, “Maryam”, mas o Alcorão, embora revelado em etapas em Meca e Medina, foi consolidado como um livro só, então não faz muito sentido separá-lo aqui. Fiquei na dúvida se deixaria a lista em ordem de preferência ou não — uma questão “importante” para maníacos por listas. Acabei decidindo pela ordem de preferência. Segue a lista, com pequenos comentários pessoais e links para o que já escrevi sobre o livro e/ou autor:
  • Os quatro Evangelhos: Eu provavelmente sei se um trecho foi ou não incluído em Mateus, Marcos, Lucas ou João, embora não seja daqueles que citam capítulos e versículos de cor.
  • O Livro de Jó: Por que Deus resolveu punir Jó, mesmo ele não tendo feito nada de errado, é uma questão que sempre me pergunto.
  • As Cartas de Paulo: Sete das cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses, Filemom) têm autoria aceita pelo consenso histórico-crítico, e as outras são motivo de muita discussão. Mas só o fato de sabermos que, quando Paulo fala de si mesmo nessas cartas, até os estudiosos mais céticos concordam que o texto é dele, já é emocionante.
  • “As Irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki : Eu gostei muito dos livros do escritor japonês que tinha lido até então, mas este parece milagroso: um painel espetacular da vida no Japão no século XX, com seus hábitos, alimentação e tradições; uma história profundamente humana.
  • O Livro de Jeremias: A minha novela “Conversão” tem como epígrafe o trecho: “Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e para plantar”.
  • “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez: O livro começa com “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”, e aí se inicia uma história de dilúvios, mortes e borboletas que parece um sonho esquisito e maravilhoso.
  • O Livro de Jonas: “E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença. / Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis”. Jonas não era fácil. Deus pede para ir para um lado, ele vai para o outro.
  • Alcorão: A leitura do livro sagrado do Islã é fascinante para crentes e infiéis, ateus e teístas.
  • Gênesis: O livro começa bem, com a cosmogonia judaica da Criação, e continua no mesmo nível com as histórias de Abraão, Jacó e José. Maravilhoso também para crentes e infiéis.
  • Samuel 1 e 2: Nas Bíblias Hebraicas, estes livros são considerados apenas um (a divisão em dois veio depois, na tradução grega). A história de Davi tem traição, paixão, guerra, amor, fé, perdão e maldição. Acho que este livro deveria ser ainda mais conhecido do que é, de tão extraordinário.
  • 2666”, de Roberto Bolaño: Composto por cinco livros mais ou menos independentes, 2666 me fascinou tanto que eu passava semanas para começar o volume seguinte após terminar o anterior — simplesmente para estender o prazer da leitura.
  • “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust: Fiquei completamente maluco por esta obra gigante, a ponto de minha mãe — minha maior incentivadora literária — achar que eu já tinha passado dos limites.
  • “Verão”, de J.M. Coetzee: O protagonista “John Coetzee” já está morto, e um jornalista entrevista cinco pessoas que o conheceram para uma biografia. O texto menciona como os entrevistados têm opiniões pouco lisonjeiras sobre o autor (chamando-o de “mosca-morta” e “esquisito”). E tudo numa literatura sóbria e aparentemente sem humor.
  • “A História Secreta”, de Donna Tartt: O livro que causou este texto.
  • “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal: Meu nome foi inspirado no Príncipe Fabrizio di Salina, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa. Mas minha mãe atirou no que viu e acertou no que não viu: Fabrizio del Dongo, deste clássico de Stendhal, é provavelmente o meu personagem preferido de toda a literatura.
  • Poemas”, de Georg Trakl (Porto: O Oiro do Dia, 1968) : “Assim no escuro treme o forasteiro / Ao erguer manso as pálpebras sobre algo de humano / Que está longe; a voz de prata do vento no vestíbulo.”
  • Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto: O maior escritor brasileiro, sem nenhuma dúvida.
  • “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Editora Record, 2023): Se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?
  • “Narrativas do Espólio”, de Franz Kafka: A perfeição em pequenas histórias, magnificamente traduzidas por Modesto Carone.
  • Minha Luta”, de Karl Ove Knausgård: Coleção em seis volumes de autoficção; quase tão boa quanto Proust.
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Georg Trakl, poeta austríaco
Literatura
Georg Trakl, poeta austríaco
23 de junho de 2015 at 05:57 0
Existem escritores que marcam uma época de nossa vida e depois são meio que esquecidos. Outros marcam de maneira um pouco mais profunda: por mais que os deixemos de lado por uma época, acabamos retornando a eles mais cedo ou mais tarde. Já com o poeta austríaco Georg Trakl, comigo, a coisa vai um pouco mais longe: sou meio obcecado pela sua poesia desde que li um verbete sobre ele na antiga Enciclopédia Abril, aí pelo início dos anos 80. Mais de trinta anos depois, continuo lendo e relendo seus poemas, procurando tudo o que consigo encontrar de e sobre Trakl em sebos, na internet, onde for possível. Criei até uma página na internet (http://georgtrakl.diaryland.com - que abandonei há alguns anos e que infelizmente está com sérios problemas de formatação) só para guardar as coisas que encontro sobre o poeta por aí. Minha última aventura com Trakl é ler uma edição de suas poesias completas em espanhol, duas páginas por dia e com dicionário - ainda estou no começo da "aventura". (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 3
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 3
30 de maio de 2015 at 14:57 0
É pena que eu não tenha mais o exemplar da Enciclopédia Abril cujo verbete sobre Georg Trakl me fez ficar apaixonado por este poeta austríaco, já há uns trinta anos. Ele falava de anjos azuis, ouro, podridão e morte. Era de uma beleza tão extrema que eu não sabia direito como lidar com o assunto - Heidegger dizia que adorava a poesia de Trakl, mas não a entendia. Lembro que na época procurei algum livro de Trakl nas livrarias e simplesmente não se achava nada - e isto não mudou tanto assim, se tratando de Trakl em português. De todo modo, algum tempo mais tarde achei numa livraria - na Mal. Deodoro, ainda lembro bem disso - um livro português que, não sei bem por que, não comprei na hora. Voltei na livraria mais tarde e o livro já tinha ido embora. Agora, graças à Estante Virtual, comprei "Poemas - Antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela", um livro português publicado em 1980 pela "O oiro do dia/Porto". (mais…)
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Uma fonte canta. As nuvens estão, / Suaves e brancas, na claridade do azul. / Pensativos, silenciosos, homens e mulheres / Atravessam, através da noite, o velho parque. // O mármore dos avôs ficou grisalho. / Um voo de migradores foge para os lugares longínquos. /  Um fauno observa, através de seus olhos mortos / As sombras deslizando pelas trevas. // As folhas tombam, vermelhas da velha árvore, / Entram rodopiando pela janela aberta. / O reflexo de uma chama estoura na peça, / Pintada de pesadelos perturbadores. // Um estrangeiro branco entra na residência. / Um cachorro salta pelos corredores antigos. / A serva assopra uma lâmpada, / O ouvido escuta a noite dos acordes de sonata.

(Música para Mirabell, de Georg Trakl – traduzido da versão francesa de Jacques Legrand)

Música para Mirabell, de Georg Trakl
A bela cidade e Rondó, de Georg Trakl
Traduções
A bela cidade e Rondó, de Georg Trakl
24 de abril de 2015 at 02:39 0
A bela cidade  Velhos lugares no sol e no silêncio. Profundamente entrelaçados de ouro e de azul, Sonhadoras se apressam doces freiras Sob as faias pesadas de silêncio. (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 1
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 1
23 de abril de 2015 at 13:31 0

Não há dúvida de que Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), seja um romance bem executado, como quer Sérgio Rodrigues aqui. A primeira e a terceira partes deste extenso romance (624 páginas) são os diários do personagem García Madero, que tratam, entre outros temas, de dois poetas, Ulises Lima e Arturo Belano, e sobre a procura deles pela poetisa Cesárea Tinajero. Na segunda – e maior – parte um enorme número de pessoas conta suas histórias e dá depoimentos sobre os mesmos Ulises Lima e Arturo Belano. (mais…)

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Entre as mulheres tu avanças,

Teu sorriso frequentemente se angustia:

Eles vieram, os dias de medo.

Branca sobre a sebe a papoula morre.

 

Como teu corpo com um inchar tão bonito

A vinha de ouro amadurece sobre a colina.

Cintila ao longe o espelho da lagoa

E bate a foice nos campos.

 

Nas sarças correm os orvalhos

Vermelhas as folhas escoam até a terra.

Para saudar sua mulher querida

Um Mouro, moreno e rude se aproxima.

 

(Maternidade bendita, de Georg Trakl – traduzido da versão francesa de Jacques Legrand)

Maternidade bendita, de Georg Trakl