Morrissey

Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
Literatura, Música
Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
21 de junho de 2026 at 04:41 0
Leitor da Revista Bizz, eu já tinha ouvido falar daquele que é considerado o maior crítico da história do rock, mas muito por cima. Conhecia o nome dele, sabia da fama, mas não muito mais que isso. Minha curiosidade sobre ele só surgiu mesmo com a excelente faixa “Lester Bangs”, do mais recente álbum de Morrissey, Make Up Is a Lie. É uma letra extraordinária, em que Morrissey mostra como era a caótica vida de Lester Bangs (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque elas pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias”), ao mesmo tempo que mostra como suas críticas tinham uma qualidade fora do comum: “Mas quando você levanta a caneta / Para escrever sobre [as bandas] Roxy Music e os [New York] Dolls / A [revista] Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”. Morrissey quer saber, enfim: “Como é ser você, Lester Bangs?”. Também fiquei curioso sobre este crítico lendário – vivido pelo grande Philip Seymour Hoffman num papel coadjuvante no filme Quase Famosos, de Cameron Crowe, de 2000. Li recentemente Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic, de Jim DeRogatis (Crown Publishing Group NY, 352 páginas, lançado originalmente em 2000, pegando carona no mesmo ano de lançamento do filme). A tradução do título é algo como “Deixe Sair: a vida e a época de Lester Bangs, o maior crítico de rock da América”, e Let It Blurt é a principal composição do crítico, que também era músico. Nascido em 1948 em Escondido, Califórnia, e falecido em 1982, em Nova York, Lester Bangs cresceu em um lar disfuncional. Seu pai, Conway Leslie Bangs, era um motorista de caminhão com um histórico de vida bastante conturbado e passagens pela prisão. Quando Lester ainda era muito pequeno, os seus pais se separaram e, quando o menino tinha cerca de nove anos, Conway faleceu tragicamente num incêndio. A mãe de Lester, Norma Belle, era uma Testemunha de Jeová bastante rigorosa, e tanto a morte do pai quanto a religiosidade da mãe marcaram profundamente toda a vida do crítico. Conhecido, entre outras coisas, pelo estilo passional e exuberante de suas críticas, e por ter criado e/ou popularizado os termos “punk” e “heavy metal”, Lester Bangs era alcoólatra, usuário pesado de drogas e, ironicamente, estava praticamente longe dos vícios quando morreu por overdose acidental de Darvon, um opioide. Ele era promíscuo sexualmente, mas sempre pareceu a todas as garotas com quem se relacionou como alguém profundamente romântico, e que nunca conseguiu se estabilizar emocionalmente. Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic não entra com grandes detalhes nos motivos que fazem com que sua obra ainda seja reconhecida como a melhor entre os críticos de rock, mas mostra como foram os acontecimentos e os hábitos de Lester Bangs. Assim, ficamos sabendo os detalhes do que Morrissey resumiu tão bem em sua letra: “A três mil milhas de distância, / este nerd se agarra à sua palavra. / Eu me apoio em você, e você é o apoio que depositam em mi. / Quando toda a minha vida estava tão errada, / drogas e livros de Allen Ginsberg, / todo dia é igual. / Lester, envolto em uma bandeira americana, / assiste ao jogo de futebol americano / Depois, Lester, solto no tapete, / tomado pela dor das 4 da manhã.”
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As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
Música
As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
22 de março de 2026 at 08:56 0

Eu achei que seria fácil fazer uma lista das dez melhores músicas de Selena Gomez, mas que ideia a minha. Só de pensar na lista das coisas que ficaram de fora — como Lose You To Love Me, Sunset Blvd, Bad Liar e Scared of Loving You — já sinto uma certa melancolia. Mas eu gosto de listas; é quase impossível não sentir essa ambivalência entre o que entra e o que sobra em cada seleção feita.

Por sorte (ou por escolha inconsciente), todas as faixas escolhidas possuem videoclipes. Na lista a seguir, os links para os vídeos estão nos títulos:
  1. In the Dark: A artista cantando sozinha na penumbra cria um clima sofisticado e sombrio ao mesmo tempo. “Você é tão lindo no escuro”, diz a letra para alguém que ela conhece mais do que a própria pessoa conhece a si mesma.
  2. Come & Get It: Um dos grandes sucessos de Selena, no qual ela canta: “A luz para a minha escuridão, me ajude a enxergar”. A escuridão, de novo. O clipe, com danças indianas, alterna entre noite e dia em um bom contraste visual.
  3. I Want You To Know (com Zedd): Ela e um duplo (?) sangram a mesma luz e correm a mesma corrida. No clipe, enquanto Selena se entrega à dança na pista, o criador desta EDM inesquecível, Zedd, aparenta uma seriedade protetora para com ela.
  4. Wolves (com Marshmello): Uma EDM mais pop com uma melodia marcante. Traz uma das mais belas letras já interpretadas por ela (“Nos seus olhos, há uma tristeza profunda / Um para amar e outro para perder / Doce divindade, uma verdade pesada / Água ou vinho, não me faça escolher”).
  5. Back to You: Um videoclipe primoroso, esteticamente influenciado pela Nouvelle Vague francesa, para uma música de fôlego.
  6. Love On: Uma homenagem vibrante à França em um clipe divertidíssimo.
  7. Call Me When You Break Up (com benny blanco e Gracie Abrams): Ao contrário das superproduções habituais de Selena, os clipes de Gracie Abrams costumam ser íntimos – neles, ela frequentemente está em casa e de pijama; aqui, as duas conversam na cama como amigas adolescentes falando dos namorados. A música é solar e de alto astral.
  8. 999 (com Camilo): Gravado em 2021, durante a pandemia, tanto a música – suave e deliciosa – quanto o clipe – com lindas cores berrantes e artificiais – foram feitos com os cantores separados. Na letra ela diz: “Já procurei na internet pra ver se isso é normal / Se sentir tão bem e, às vezes, tão mal / Querer te beijar sem poder te beijar / Te tocar sem poder te tocar”.
  9. The Heart Wants What It Wants: Um clipe lancinante sobre a humilhação do amor não correspondido. Na abertura, ela desabafa sobre como a confiança em si mesma pode ser destruída por apenas uma coisa.
  10. Dance Again: Selena Gomez dança sozinha no clipe desta música, lançada logo no início da pandemia.

Recentemente fiz um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey, não custa fazer mais um. O cantor inglês lançou agora, em março de 2026, o álbum Make-up is a Lie. Seguem minhas faixas preferidas:
  1. The Monsters of Pig Alley: Tão bela quanto as grandes baladas solo de Morrissey, como Lost ou Life is a Pigsty (que, curiosamente, também faz referência a porcos no título — “alameda dos porcos” vs. “chiqueiro”).
  2. Boulevard: Uma letra sombria (”Andando como se tivesse as duas pernas quebradas”) envolta em uma melodia lenta, bem ao estilo dos seus trabalhos mais recentes.
  3. You’re Right, It’s Time: Uma faixa de abertura impactante, que gruda na memória.
  4. Headache: Morrissey canta quase em sussurros nesta canção onde a “dor de cabeça” é tratada como um cônjuge indesejado: “Do you take this headache to be your amour?”.
  5. Lester Bangs: Uma belíssima homenagem àquele que é considerado maior crítico do rock (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque eles pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias / Mas ah, quando você levanta a caneta / Para escrever sobre Roxy Music e os Dolls / O Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”).
  Para terminar o texto, mais um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey: se o clipe de Love On é uma ode à França, à sua cultura e à sua liberdade sexual, ao menos três faixas de Make-up is a Lie citam o país. A faixa-título (”Eu me encontrei em Paris”), Notre-Dame (sobre o incêndio na catedral) e The Monsters of Pig Alley. “Pig Alley” era o apelido dado por soldados à região de Pigalle, em Paris, famosa pela vida noturna e pelo Moulin Rouge.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O Paradoxo da Maquiagem: Entre a Lírica de Morrissey e a Verdade de Selena Gomez
Música
O Paradoxo da Maquiagem: Entre a Lírica de Morrissey e a Verdade de Selena Gomez
18 de janeiro de 2026 at 11:16 0
O novo disco de Morrissey, Make-up is a Lie, com lançamento confirmado para 5 de março de 2026, já teve seu primeiro single homônimo revelado. Ao rever o documentário Selena Gomez: My Mind & Me (2022, Alek Keshishian), notei uma conexão inevitável com a nova composição do cantor inglês. Em diversas cenas, enquanto era maquiada, Selena parecia personificar o verso de Morrissey, como se pensasse: “a maquiagem é uma mentira; minha carreira é uma mentira; minha vida é uma mentira”. É fascinante notar essa convergência temática entre dois artistas que tanto admiro. O projeto original de My Mind & Me previa um filme de estrada tradicional sobre a Revival Tour (2016), focado no brilho dos palcos e no auge comercial da cantora. Contudo, o diretor Alek Keshishian logo percebeu que Selena enfrentava uma crise profunda. O cancelamento da turnê após 55 shows, devido a questões de saúde mental e às complicações do lúpus, interrompeu as filmagens por anos. Quando retomado, o foco migrou do "sucesso pop" para a "sobrevivência humana", documentando a vida de Selena após o diagnóstico de transtorno bipolar e sua busca por propósito. O resultado não foi um produto de marketing, mas um retrato cru da desconstrução da imagem pública e da colisão entre as exigências da fama e a saúde da mente. É difícil não se emocionar com as batalhas físicas e psicológicas expostas no longa. Predominam cenas em que ela parece sucumbir à pressão da performance ou sofrer terrivelmente com as dores do lúpus. O filme registra o choque e o subsequente alívio ao receber o diagnóstico de transtorno bipolar, algo que, segundo ela, deu sentido a muitos de seus comportamentos passados. Para o espectador, o contraste é chocante: o glamour das roupas e a beleza de Selena confrontados com sua dor. A imagem de divulgação da Apple resume esse paradoxo: uma mulher belíssima, impecavelmente vestida, mas profundamente angustiada. Atualmente, Selena vive um momento de notável estabilidade. Casada com o produtor Benny Blanco, ela atingiu o status de bilionária com sua marca Rare Beauty. O que torna isso interessante é que, ao contrário da "maquiagem mentirosa" citada por Morrissey, Selena ressignificou o setor: sua empresa foca na aceitação das imperfeições e destina parte dos lucros ao Rare Impact Fund para o apoio à saúde mental. Além disso, consolidou-se como uma atriz de prestígio, dividindo o prêmio de Melhor Atriz em Cannes em 2024 e brilhando como Mabel Mora em Only Murders in the Building. Como fã declarado de Selena e de Ariana Grande — uma das minhas conhecidas "esquisitices" —, sinto-me gratificado ao observar essa trajetória de superação e autenticidade.
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Flamenco!
Shows e Espetáculos
Flamenco!
10 de agosto de 2025 at 14:25 0
Já achei que o melhor show a que assisti na vida foi o de Morrissey, em 2000. Depois mudei de ideia e passei a achar que o de Ariana Grande tinha superado o do cantor inglês. Finalmente, tinha chegado à conclusão de que o melhor show da minha vida foi o do Amenra, pouco antes do lockdown da pandemia em 2020. Mas, pensando bem, a maior experiência musical que já tive foi em uma noite de flamenco em Madri, em 1982. Tínhamos ido, só eu e minha mãe, para um mês de excursão de ônibus pela Europa com outros brasileiros e um guia português, e passamos por quase uma dezena de países. Em Madri, minha mãe resolveu que não éramos turistas como os outros e, para provar isso, deixamos de assistir ao show de flamenco que o restante da excursão iria. Ela perguntou a um motorista de táxi que tínhamos tomado durante a tarde qual era um lugar com shows de flamenco "de verdad" — ou alguma outra expressão em portunhol que ela inventou na hora. O taxista escreveu num papelzinho: "Café Chinitas". Era lá que assistiríamos, à noite, a um verdadeiro show de flamenco, e não àquela bobagem diluída a que os demais participantes da excursão iriam! Sei lá como foi o show dos outros turistas. O nosso foi, literalmente, inesquecível. Eram vários homens e mulheres com roupas mais ou menos típicas de ciganos, todos sentados em semicírculo. De vez em quando, alguns deles vinham ao centro para dançar, às vezes em casal, às vezes uma mulher sozinha. O flamenco é uma música tensa, a dança com sapateado é forte e hipnotizante. As palmas são uma espécie de instrumento percussivo, e o violão é tocado de maneira extremamente virtuosa (eu tinha aulas de violão na época, o que deixou tudo ainda mais intenso), elementos que tornam tudo mais intenso — e lindo. O estilo tem pilares fundamentais: o cante, executado pelo cantaor; o toque, executado pelo tocaor; o baile, sob responsabilidade do bailaor; e o compás, o ritmo, que pode ser muito complexo. No Café Chinitas, não era servido nada que não fosse a sangría, um coquetel com uma base de vinho. Nunca fui fã de bebidas alcoólicas, e com quatorze anos eu mal devia saber o gosto daquilo! Mas a tal da sangría era realmente deliciosa. Se o álcool me fez gostar ainda mais do espetáculo, é uma questão em aberto — mas, como sou fã do estilo até hoje e sou abstêmio, imagino que a influência deva ter sido pequena. Voltei da Europa tentando achar alguma coisa de flamenco para ouvir e só consegui duas faixas de um LP com várias músicas espanholas, a maioria de touradas. Mais tarde, descobri que o maior cantaor da história — em uma rara unanimidade no campo artístico — se chamava Camarón de La Isla, e o cara era espetacular mesmo, tendo inclusive gravado vários discos com o grande violonista Paco de Lucía. Apesar de ele ser relativamente pouco conhecido por aqui, a nossa grande Cássia Eller cantava algumas músicas dele. Acho que só o blues rural, como música antiga e "de raiz", me emociona tanto quanto o flamenco. E hoje amo ver alguns vídeos, como este com a cantaora Antonia "La Negra" e com Camarón de La Isla ao toque (!), que me lembram perfeitamente a maior experiência musical da minha vida. E, claro, tudo isso me faz recordar, com saudade, da minha mãe. *** Quem estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no site Fandom.
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Os melhores discos de todos os tempos – Um texto com título pomposo e irreal para qualquer pessoa que não seja eu mesmo
Música
Os melhores discos de todos os tempos – Um texto com título pomposo e irreal para qualquer pessoa que não seja eu mesmo
18 de maio de 2025 at 14:04 0
Gosto muito de listas, e acabei fazendo mais uma. O título é pomposo e completamente irreal para qualquer pessoa que não seja eu mesmo: “Os dez melhores discos de todos os tempos”. Como escolher só dez entre todas as coisas que eu gosto seria uma tarefa difícil demais até para mim – que costumo não ligar muito para as coisas que ficam fora de listas – meio que me obriguei a estabelecer certas regras para diminuir a quantidade de candidatos. Não poderiam entrar coletâneas, fossem oficiais ou do Spotify – o que já diminui bastante o universo pesquisado, pois coisas que eu amo, como Nirvana, Ashley All Day, Mgła, The Brian Jonestown Massacre, Elliott Smith, Elvis Presley ou XXXTentacion, que quase que só conheço por coletâneas do Spotify, cairiam fora de cara. Não poderia ser música clássica, estilo que eu quase só escuto em álbuns, e que merece uma lista à parte. Teriam de ser discos que estou sempre revisitando e que me fazem pensar, antes de escutar: "hoje é dia de ouvir AQUELE álbum". Não são tantos álbuns assim, acabou sendo mais ou menos fácil fazer a lista. Ela segue, por ordem de lembrança. Os links são de textos que já escrevi sobre os artistas e/ou discos em questão.
  1. "Dopethrone", de Electric Wizard (2000): só quem já ouviu como cresce a segunda faixa do álbum, “Funeralopolis”, nos primeiros minutos, consegue ter ideia do que estou falando. Esta banda de stoner/doom britânica é uma espécie de Black Sabbath da fase Ozzy Osbourne mais pesada, mais lenta, e – desculpem – melhor.
  2. "Useless"Bones (2016): quando de seu lançamento, terminei meu texto sobre esta obra-prima do rapper americano com a seguinte frase bombástica: "O melhor disco de todos os tempos? Provavelmente." Fico me perguntando se exagerei naquele texto de 2016. Acho que não.
  3. "Low in High School", de Morrissey (2017): são tantas as obras-primas deste disco que fico até meio sem graça de falar a respeito: “My Love, I'd Do Anything for You”“Home Is a Question Mark”“Spent the Day in Bed”“In Your Lap”“When You Open Your Legs”.
  4. "Advaitic Songs", de Om (2012): quando a moça começa a cantar uma espécie de mantra na faixa inicial do disco desta banda americana de stoner rock, “Addis”, eu e a Valéria sabemos que a coisa vai ser séria.
  5. "100th Window", de Massive Attack (2003): eu me sinto viajando quando escuto esta obra-prima da banda de trip hop de Bristol, no Reino Unido. Não me conformo que a crítica da época – pelo menos a que eu tive acesso - achou que "100th Window" era muito pior que o anterior, "Mezzanine" (tá bom, este é uma obra-prima também).
  6. "Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant", de Belle and Sebastian (2000): parece que vou para outra dimensão quando escuto o disco inteiro, especialmente “Waiting for the Moon to Rise”, em que Sarah Martin canta que parece um anjo. Também foi meio mal-recebido na época por aqui.
  7. "Welcome to the Sky Valley", de Kyuss (2000): até hoje não me conformo de nunca ter escrito uma linha sobre este grupo americano de stoner rock que estou sempre ouvindo, e que originou outras fantásticas bandas, como Queens of the Stone Age, Hermano e Fu Manchu. Quando estou meio chateado, é só colocar “Supa Scoopa and Mighty Scoop” e o incômodo desaparece na hora.
  8. "The Velvet Underground & Nico" (1967): eita: “Sunday Morning”“I'm Waiting For The Man”“Venus in Furs”“Run Run Run”“Heroin”“I'll Be Your Mirror”“European Son”: tem vanguarda, tem doçura, tem melodia, tem coisa estranha, e tem um talento infinito.
  9. "In Washington D.C. 1956 Volume Four", de Lester Young (1956): único disco de jazz da lista, sobre o qual já falei aqui. Já nos primeiros acordes sou transportado para meu quarto de solteiro, na casa dos meus pais – uma rara recaída de saudosismo. Mas o disco sobrevive – e bem – sem isso.
  10. "Starboy", de The Weeknd (2016): quando começa aquela batida louca criada pelo Daft Punk em "Starboy", eu, a Valeria e a Teresa sabemos que a coisa vai ser séria. E tem Reminder. Precisa mais? Nem precisaria, mas tem: “Party Monster”“Six Feet Under”“Nothing Without You”“Ordinary Life”“I Feel It Coming” (também com Daft Punk).
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Charles Dickens, Henry James e um álbum de fotos no Facebook
Literatura
Charles Dickens, Henry James e um álbum de fotos no Facebook
12 de janeiro de 2025 at 18:54 0
Foi num livro (“Drible”, de Sérgio Rodrigues) - que minha mãe insistiu por anos para que eu lesse, que só estou lendo agora (e amando) e que será tema de minha série “Livros que minha mãe amava” -, que li o seguinte trecho:
“- Ah, então esse é o nosso Dickens – riu um homem de suspensórios sentado de frente para ele. Meu rosto queimava.”
Eu percebi na hora, pelo contexto, que aquele homem de suspensórios era o jornalista e escritor Nelson Rodrigues - afinal, li a biografia dele escrita pelo Ruy Castro muitos anos atras, também recomendada pela minha mãe. Mas o que mais me tocou na memória foi a menção ao escritor britânico Charles Dickens (1812-1870). Não sei de onde que tirei meu preconceito contra Dickens na infância. Minhas fontes impressas principais de cultura eram a Enciclopédia Abril e a Revista Veja. Foi de uma dessas? Sei eu, eu sei que eu tinha a ideia de que Dickens era um romancista meio brega e muito meloso. Bem, isso mudou quando Morrissey recomendou o escritor como sugestão de leitura numa entrevista, ali num momento entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Todos os fãs do ex-vocalista da banda inglesa Smiths sabem que ele é obcecado por Oscar Wilde, e alguns sabem que ele declamou um texto de Marcel Proust num show. Quanto a Dickens, só soube que ele citou este escritor naquela entrevista, e mais nada (por uma coincidência engraçada, uma outra das raras sugestões literárias de Morrissey foi “O livro do desassossego”, de Fernando Pessoa, que minha mãe amava imensamente e que será também tema da série “Livros que minha mãe amava”). Enfim, dica do Morrissey é dica do Morrissey e entrei numa “fase Dickens”, muitos anos atras. Eu me apaixonei. Não tenho bem certeza quais livros dele eu li, mas certamente nesta lista estão incluídos os romances “Grandes esperanças” (que foi o que mais gostei), “As aventuras do sr. Pickwick”, “Um conto de duas cidades”, “David Copperfield”, “Oliver Twist” (e, quem sabe, “A pequena Dorrit”). Ainda nos anos 1990 estava na moda o tal “cânone literário ocidental” do crítico britânico Harold Bloom, sobre o qual o famoso jornalista brasileiro Paulo Francis falava bastante, e que foi compilado numa obra chamada “O cânone ocidental”, na qual o crítico citava e descrevia os – segundo ele - grandes escritores ocidentais. Um dia, numa livraria, dei uma folheada no livro de Bloom, e lá estava escrito algo como “que era consenso entre a crítica especializada que o grande livro de Dickens era 'A casa soturna'”, sobre a qual eu pouco tinha ouvido falar. Minha “fase Dickens” tinha passado alguns anos antes, mas me vi na obrigação de ler o romance considerado “por grande parte da crítica” o melhor do grande escritor britânico. Foi meio difícil encontrar o longo (824 páginas) romance, que tenho numa edição (Nova Fronteira, tradução de Oscar Mendes) obtida provavelmente na Livraria do Chain, a preferida de Dalton Trevisan. A leitura inicial me revelou um romance excelente, primorosamente escrito, em tom muito sério, muito diferente do que eu estava acostumado com Dickens. Mas tinha personagens demais! Quando eu começava a me sentir familiar com um personagem ou uma história, já entrava outra coisa. E isso aconteceu tantas vezes que eu - que estava numa fase de poucas leituras - com muita dor no coração resolvi abandonar o romance escolhido “por grande parte da crítica” o melhor de Charles Dickens. Entro agora no tema que originou este texto: minhas pequenas maluquices. Gosto de pensar que todas as pessoas têm uma pequena mania que a maioria dos outros pode achar estranha. Assim fica mais fácil conviver com as minhas birutices. Eu, por exemplo, só tenho um TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que reconheço como tal: nunca comprar pães em número ímpar. Se, em termos de TOC, provavelmente não saio disso, eu tenho uma pequena mania, um negócio que eu levo muito a sério, mas que sei que não tem a menor importância. Este “negócio” são meus álbuns de fotos “cinema”, “literatura”, “músicas”, “esportes” e “tv” no Facebook. Cada um destes álbuns tem retratos daquelas pessoas que eu considero as mais importantes em seus campos. Sobre o álbum “músicas”, por exemplo, escrevi aqui o seguinte:
“Eu não sei como explicar direito, mas acho que isso deve acontecer meio com todo o mundo: umas músicas batem diferente das outras. Sei lá, é como se elas tocassem um nervo que as outras não tocam. Normalmente os músicos, ou compositores, ou cantores, ou bandas, que têm músicas que ‘batem’ aqui comigo estão no meu álbum 'músicas' do Facebook. Sempre que vou colocar uma foto lá fico me perguntando se aquele músico compôs (ou interpretou) coisas que realmente tocaram aquele ‘nervo’ metafórico”.
Às vezes fico meses (quando penso no assunto, é claro) tentando me decidir se um artista, escritor ou esportista deve ou não entrar em algum álbum de fotos no Facebook. Às vezes - como no caso das bandas Mgła ou do The Brian Jonestown Massacre, citadas recentemente por aqui - a identificação é imediata e logo coloco as fotos correspondentes no álbum (“músicas”, nos dois casos). Enfim, pus um negócio na cabeça: como eu tinha lido Dickens muito antes de o Facebook existir, o escritor britânico só “mereceria” entrar no álbum de fotos “literatura” quando eu acabasse de ler “A casa soturna”. Olha o tamanho da birutice do sujeito (no caso, eu). Como não acabei de ler o romance de Dickens “mais estimado pela crítica”, ele não está no álbum correspondente até hoje. E Henry James (1843-1916), que tem um livro na foto que acompanha o texto, o que tem a ver com essa maluquice? Bem, também li romances deste grande escritor americano décadas atrás, e também resolvi não colocar sua foto no meu álbum do Facebook enquanto não acabasse de ler um romance seu – no caso, “As asas da pomba” (Ediouro, 555 páginas, tradução de Marcos Santarrita): meu texto seria um paralelo entre estes dois gigantes. Só que, quando fui ver o meu álbum “literatura” ontem, o retrato de Henry James estava lá! Sei lá quando o coloquei, e por quê. Mas com certeza é coisa mais ou menos recente. De todo o modo, se eu fosse dar um palpite do porquê colocar um retrato de Henry James ali, acho que é porque um belo dia resolvi achar que essa loucura de álbuns do Facebook é apenas isso, uma mania inocente, e que o Henry James não tinha culpa da minha birutice. (Agradeço à minha querida sobrinha Paula Scheffer da Silveira pela linda foto que acompanha este texto).  
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O mais emocionante
Música
O mais emocionante
21 de janeiro de 2023 at 19:38 0
Eu não sei como explicar direito, mas acho que isso deve acontecer meio com todo o mundo: umas músicas batem diferente das outras. Sei lá, é como se elas tocassem um nervo que as outras não tocam. Normalmente os músicos, ou compositores, ou cantores, ou bandas, que têm músicas que “batem” aqui comigo estão no meu álbum “músicas” do Facebook. Sempre que vou colocar uma foto lá fico me perguntando se aquele músico compôs (ou interpretou) coisas que realmente tocaram aquele “nervo” metafórico. É engraçado isso: gosto de muita coisa dos Beatles, mas só umas quatro canções da banda realmente me tocam (e por causa delas a banda está no meu álbum). Oasis é outro grupo que gosto muito, mas acho que só “bate” mesmo – e olhe lá - a versão deles de “I Am The Walrus”, dos Beatles (e por isso a banda não está no álbum). E isso vale para todos os estilos que escuto: no meu álbum “músicas” têm compositores barrocos pouco conhecidos como Girolamo Frescobaldi (1583-1683) e Monsieur de Sainte-Colombe (1640-1700), mas nenhum russo (Tchaikovski, Mussorgski, Rachmaninoff, Prokofiev, credo). E tem gente lá por causa de umas três músicas, como o rapper americano Chamillionaire, e tem outros que eu tenho até tatuagens de tanto que curto (Arctic Monkeys, Stone Roses). E tem aqueles que sempre acho que poderiam constar do álbum “músicas”, como Eminem e Caetano Veloso, mas sempre acabo adiando a sua entrada. Enfim, quem dos músicos no meu álbum mais toca naquele “nervo” metafórico? Quem, dentro do espectro da música, mais – desculpem a expressão – me emociona? Pergunta difícil. Tenho umas dez camisetas do Nirvana. Tenho tatuagens em homenagem a The Weeknd e Ariana Grande. Morrissey e Bones ocuparam, em diferentes épocas da minha vida, durante uns dez anos no total, uns 90% do tempo em que eu ouvia música. O melhor show a que já assisti foi o da banda de metal belga Amenra. Fui um dos 0,2% top ouvintes do Radiohead no YouTube Music em 2022. Skip James e Mississippi Fred McDowell são dois bluesmen que fizeram músicas lindas demais. Mas acabei me surpreendendo com a minha conclusão: o cara que mais me emociona – desculpem de novo a breguice - na música é um cantor e compositor americano que se matou com duas facadas no coração em 2003, o Elliott Smith. Fã do supracitado Beatles, ainda por cima, e cujas músicas se parecem com as do Fab Four de vez em quando. Mas, quando escuto o que ele compôs e gravou, “bate” quase sempre. Mas eu nem devia me surpreender tanto com minha conclusão: afinal, alguns anos atrás eu escrevi sobre Elliott Smith um dos piores textos que já fiz na vida, para o Mondo Bacana: desculpem, eu estava emocionado demais.
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The highlights, The Weeknd
Música
The highlights, The Weeknd
22 de maio de 2022 at 16:44 0
Eu gosto de comprar CDs. Acho bacana como uma lembrança, ou coisa assim, dos artistas que admiro.  Para mim, que tenho seis gatos em casa, os CDs têm uma vantagem sobre os LPs: não são uma tentação para os felinos brincarem com um prato girando com uma agulha em cima. Além disso, os antigos discos de vinil também ocupam muito espaço: me desfiz de todos os que eu tinha há mais de quinze anos e nunca me arrependi. E ainda há mais uma vantagem dos CDs sobre os LPs, sob meu ponto de vista: é possível conseguir lançamentos de disquinhos prateados por um preço razoável, ao contrário do que acontece com os vinis. Sim, gosto de CDs mas não de gastar muito dinheiro com isso: como não costumo comprar discos usados, acabo conseguindo por preços módicos lançamentos nacionais de artistas populares como Elvis Presley, The Weeknd, Ariana Grande e Selena Gomez, mas não de outros artistas que também gosto, como Amenra, Wiegedood, Radiohead ou Massive Attack. Isso sem contar Bones e $uicideboy$, né, que não lançam CDs. Morrissey é um caso especial: comprei “Low in high school”, o penúltimo que ele lançou, mas não o mais recente “Dog in a chain”, que não teve versão nacional. E foi numa dessas que acabei comprando “The highlights”, do Weeknd. Coisa de maníaco mesmo: as melhores músicas de um artista que não só eu conheço bem, como tenho em CDs toda a sua obra recente. Mas ficou legal no Instagram, e é a foto que acompanha este texto. Até que comecei a ouvir, e acabei ficando mais e mais surpreso: todos os clássicos dele juntos me deram a impressão de estar ouvindo algo raro, um verdadeiro álbum atemporal. A voz, as melodias, os arranjos… é um equivalente musical de um volume de obras essenciais de algum grande escritor na coleção Penguin-Companhia. E olha que o CD nem tem minha música preferida do Weeknd, “Reminder”, sobre a qual já falei aqui.
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