Cinema

Bob le flambêur (Bob, o jogador), de Jean-Pierre Melville

6 de setembro de 2020 0

O gênero polar, às vezes chamado de noir francês, é um estilo que começou baseado no filme noir americano[1], e que continuou com grande sucesso até os anos 1980[2]. A Versátil Home Vídeo tem lançado caixas de DVDs de noir francês – já está no volume 5.

Já assisti a um número razoável de filmes deste estilo fascinante, e confesso que tive um motivo de estranhamento com o ator que faz o personagem principal de “Bob le flambêur” (Bob, o jogador), de Jean-Pierre Melville, lançado em 1956. Explico: muitos desses filmes têm atores que aparecem em mais de um deles – casos dos gigantes Jean Gabin e Alain Delon (que coestrelam o sensacional “Gângsteres de casaca”, de 1953, inclusive). Já Roger Duchesne é o ator principal deste “Bob le flambêur”, e é tão expressivo que está na capa do volume 2 da série da Versátil, conforme se pode verificar na foto que acompanha este texto. Depois de assistir ao filme, estranhei mais ainda ele não estrelar outros filmes do gênero, já que a atuação dele também é impressionante. “Bob le flambêur” conta a história de um gângster decadente com pouco mais de cinquenta anos que quer encerrar sua carreira no crime com um assalto espetacular – uma temática semelhante a de outros filmes da época, inclusive.

A resposta está nos extras da coleção da Versátil, num documentário chamado apropriadamente “Diário de um vilão”, de Dominique Maillet. Nele, o roteirista e escritor Thierry Crifo resume a vida de Roger Duchesne – cujo nome verdadeiro era Roger André Charles Jordens -, que faz o Bob do título do filme Jean-Pierre Melville. O ator nasceu em 1906 em Luxeuil-les-Bains em 1906 e faleceu em Mureaux no dia de Natal de 1996 – com noventa anos, portanto -, ou seja, “tanto no início quanto no fim da vida estava próximo de uma roleta”, no dizer de Thierry Crifo.

Depois da Segunda Guerra, Duchesne escreveu cinco romances policiais, mas não fez sucesso. Foi para o interior, então, trabalhar como mecânico – e é até lá que o diretor Jean-Pierre Melville vai para chamá-lo para estrelar “Bob le flambêur”. Por excesso de dívidas, os gângsteres da região do Pigalle, em Paris, não queriam deixar que Duchesne trabalhasse ali, e Melville teve que convencer os bandidos da região do contrário. O filme foi lançado em 1955, e em 1957 o ator trabalha novamente, em “Marchands de filles”, de Maurice Cloche – e é quando termina a carreira no cinema do ator, conhecido até hoje quase que exclusivamente por seu papel magnífico em “Bob le flambêur”.

Mas por que razão um ator deste nível terminou sua carreira cinematográfica cerca de quarenta anos antes de sua morte? A explicação é dada também por Thierry Crifo no documentário “Diário de um vilão”: durante a ocupação francesa, possivelmente por causa de dívidas de jogo, Duchesne foi um colaborador ativo da Carlingue, a Gestapo francesa – pode até ter torturado um membro da resistência. Entre 1933 e 1943 ele tinha participado de mais de trinta filmes, “com papéis secundários em filmes importantes, e papéis principais em filmes de menor orçamento”, ainda segundo Thierry Crifo. Depois da guerra, Duchesne ficou preso alguns meses por suas atividades de colaborador.

A maior ironia desta história trágica é que o diretor Jean-Pierre Melville, que deu o grande papel da vida de Roger Duchesne, era judeu.


[1] http://www.frenchfilms.org/best-policiers.html

[2] http://www.rueducine.com/cinema-policier-francais-de-1945-a-2015/

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