Roberto Bolaño

Literatura
“Devoção”, de Patti Smith
19 de janeiro de 2020 at 16:20 0
foto do autor

Lançado em 2019, “Devoção” (Companhia das Letras, 140 páginas, com tradução de Caetano W. Galindo) começa como seus excelentes “Linha M” e “O ano do macaco”, com a cantora e escritora Patti Smith em seu lindo estilo carinhoso e impressionista. No caso aqui, ela discorre sobre uma viagem para Paris e comenta sobre Patrick Modiano e Simone Weil. 

Lá pelas tantas ela fala de um conto que está escrevendo, chamado “Devoção” – e, quando eu não estava esperando, o conto começa. Este conta a história de Eugenia, uma garota muito inteligente mas que não dá importância para os estudos, órfã, filha de pais estonianos e criada pela irmã, Irina, e o namorado dela, Martin. O que Eugenia realmente gostava de fazer era patinar – e foi num lago congelado onde ela passava horas praticando o esporte que ela conhece Alexander, homem rico que não só tem um caso e acaba morando com nossa heroína, como começa a pagar os treinos de Eugenia para que esta se profissionalize na patinação.

Fiquei meio dividido em relação a “Devoção”, que em muitos trechos me pareceu meio ingênuo, ou didático demais. A solução que Patti Smith dá para o conto acaba dando um jeito no que parecia um caso perdido. 

De todo modo, a última parte do livro, “Um sonho não é um sonho”, Patti Smith volta ao seu estilo de sempre, descrevendo uma visita à casa onde Albert Camus passou os últimos dias da vida, convidada pelos descendentes do escritor. E o livro termina de maneira sublime:

"Qual a tarefa? Compor uma obra que comunique em vários níveis, como numa parábola, sem a marca da inteligência vulgar.

Qual o sonho? Escrever algo bom, que fosse melhor do que eu sou, e que justificasse minhas tribulações e indiscrições. Oferecer prova, por meio de palavras reordenadas, de que Deus existe.

Por que eu escrevo? Meu dedo, como uma caneta de ponta seca, retraça a pergunta no ar em branco. Um enigma conhecido, proposto desde a juventude, quando eu me afastava das brincadeiras, dos companheiros e do vale do amor, cingida de palavras, um passo fora do grupo.

Por que escrevemos? Irrompe um coro.

Porque não podemos somente viver."

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Meus livros preferidos
Literatura
Meus livros preferidos
22 de julho de 2018 at 19:11 0
Faz tempinho que eu não faço uma listinha de livros preferidos, né? Então lá vai mais uma, com links de comentários meus sobre os livros e/ou os autores:

1. “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust: todo um universo em sete livros. (mais…)

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Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 7
1 de novembro de 2015 at 01:22 0
Começamos pelo melhor: Summertime, do Prêmio Nobel de 2003 J.M. Coetzee (Viking - a edição brasileira se chama Verão, e foi publicada pela Companhia das Letras) é o terceiro volume das "memórias" do autor, e trata de vida de Coetzee na África do Sul, no início dos anos setenta. O livro composto por uma série de entrevistas, feitas por um jovem jornalista, com pessoas que conheceram Coetzee, inclusive uma brasileira pela qual Coetzee esteve apaixonado.  Uma das muitas coisas inusitadas em Summertime é que, no livro, Coetzee já está morto, o que na realidade não aconteceu - o grande escritor está vivinho da silva. Outro exemplo é que, no início dos aos setenta, o autor estava casado e com filhos, enquanto que em Summertime ele é celibatário e vive com o pai. A partir desta premissa falsa, torna-se claro que Coetzee, propositadamente, escreveu uma obra que é um híbrido de ficção e realidade - e o leitor fica sem saber onde começa uma e termina outra. Summertime mostra um Coetzee estranho, solitário e calado. Uma das mulheres entrevistadas diz que ele passa a sensação de ser "de madeira", de tão frio que é; em outro trecho é dito que ele é o tipo de pessoa que "não causa nenhuma impressão dos outros"; a brasilera, por quem Coetzee sofre uma paixão avassaladora e patética, se irrita profundamente com ele; e a única relação do autor que parece mal resolvida é com sua prima de primeiro grau, que parece ainda ter mais do que uma queda por ele. Em Summertime, os depoimentos não chegam a se contradizer, mas frequentemente temos a sensação de ver o autor muito de longe, como se fosse impossivel chegar no "Coetzee real". É esta sensação geral de mistério e esquisitice que faz com que Summertime possa ser considerada, sem exagero, uma obra-prima. (mais…)
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“2666”, de Roberto Bolaño
Literatura
“2666”, de Roberto Bolaño
5 de agosto de 2015 at 06:14 0
Saudado pela crítica mundial como um dos melhores livros da década, 2666, do escritor chileno Roberto Bolaño (Companhia das Letras), é um assombro - um dos melhores romances que já li. (mais…)
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Rápidos comentários sobre livros lidos – 1
Literatura
Rápidos comentários sobre livros lidos – 1
23 de abril de 2015 at 13:31 0

Não há dúvida de que Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), seja um romance bem executado, como quer Sérgio Rodrigues aqui. A primeira e a terceira partes deste extenso romance (624 páginas) são os diários do personagem García Madero, que tratam, entre outros temas, de dois poetas, Ulises Lima e Arturo Belano, e sobre a procura deles pela poetisa Cesárea Tinajero. Na segunda – e maior – parte um enorme número de pessoas conta suas histórias e dá depoimentos sobre os mesmos Ulises Lima e Arturo Belano. (mais…)

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