junho 2021

Zé do Caixão e Henri Rousseau
Cinema
Zé do Caixão e Henri Rousseau
27 de junho de 2021 at 03:02 0
Assisti dia desses “À meia-noite levarei sua alma”, que é a estreia do Zé do Caixão no cinema e o terceiro longa-metragem de José Mojica Marins, lançado em 1964. Se antes seus filmes eram mais mal do que bem recebidos pela crítica especializada, hoje o nome do diretor parece estar consolidado entre os especialistas, tanto que assisti ao filme na Globoplay, na seleção de cinquenta filmes em setenta anos de cinema brasileiro, apresentada pela Fernanda Montenegro e tudo. “À meia-noite levarei sua alma” conta a história do coveiro Zé do Caixão, vivido pelo próprio José Mojica Marins, que aterroriza com ameaças e violência a pequena cidade onde mora, e que debocha da religião e da crendice das pessoas do lugar. É um filme de terror de baixíssimo orçamento, com atores amadores, mas que impressiona pela qualidade artística: o clima de tensão que José Mojica Marins mantém durante todo o tempo é impressionante; não se assiste ao filme porque ele é “pitoresco” ou qualquer outro termo nesse sentido, mas porque ele é excelente. Fã e apoiador incondicional de José Mojica Marins, o jornalista André Barcinski deve ser um dos maiores responsáveis pelo respeito da crítica que o diretor, falecido em 2020, alcançou nos dias de hoje. Ele levou inclusive o diretor e seus filmes para festivais dos Estados Unidos, onde Zé do Caixão é conhecido como Coffin Joe. Foi principalmente num programa de entrevistas com José Mojica Marins e dirigido por André Barcinski que passava na Rede Brasil, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, que tive maior contato com o diretor. Ele era uma pessoa sem estudo, que falava português errado, e quem acompanha os podcasts B3 e ABFP, em que Barcinski participa, já teve contato com histórias saborosas cujo principal tema era a falta de cultura geral do Zé do Caixão. Assistir ao filme “À meia-noite levarei sua alma” me lembrou o grande pintor francês Henri Rousseau (1844-1910), também conhecido como Douanier (alfandegário, profissão que ele exerceu) Rousseau. A maior parte do que sei sobre artes plásticas em geral é fruto de coleções da Editora Abril que minha mãe comprava para ela, mas, principalmente, para mim: “Mestres da Pintura”, “Gênios da Pintura” e, por último mas não menos importante, a “Enciclopédia Abril” - já citada aqui num texto sobre o grande diretor Erich von Stroheim. Henri Rousseau, conforme os textos obtidos nas fontes da Abril e reproduzidas aqui, era um gênio da pintura que não tinha tido educação formal. De mentalidade burguesa, ele queria mesmo era ser reconhecido pela Academia, por mais que pudesse expor suas obras no muito mais importante – posteriormente - Salão dos Independentes, juntamente com gênios como Degas e Cézanne. Ingênuo e pouco interessado na revolução que os impressionistas, cubistas e surrealistas estavam fazendo nas artes plásticas, Rousseau chegou a ter um jantar meio debochado em sua homenagem promovido por Pablo Picasso, mas não percebeu a ironia na intenção do grande espanhol. O interessante é que aqueles grandes pintores se divertiam com a falta de horizontes intelectuais do Douanier ao mesmo tempo que sabiam da genialidade dele. E é uma coincidência engraçada que, assim como o já citado Erich von Stroheim, por quem também sou obcecado, Henri Rousseau também inventava glórias passadas de sua própria vida que simplesmente não aconteceram. As pinturas de Henri Rousseau, é só dar uma fuçada no Google Images para sacar, são impressionantes: gênio no uso da cor, ele criou imagens fortíssimas que – mesmo com um erro de proporção aqui e ali – não saem da cabeça depois de serem vistas com algum cuidado. O quadro “O sonho”, que acompanha este texto, não me deixa mentir. O fato de fazer uma arte de extraordinária qualidade mesmo sem estudo formal fez o grande dramaturgo Alfred Jarry chamar Rousseau de “primitivo”. O tipo de arte que ele fazia hoje em dia é chamada de “naïf” (ingênua, em francês), epíteto que também pode ser sem problemas utilizado para o nosso Zé do Caixão. Fui ver na internet se alguém tinha percebido o paralelo entre os dois, e rapidamente achei a dissertação de Daniela Pinto Senador[1], em que é transcrito um depoimento do cineasta e crítico Gustavo Dahl: “quando apareceu o Mojica Marins ele era uma espécie de Henri Rousseau e Douanier Rousseau do cinema; repetiu a mesma relação que os surrealistas tiveram com Rousseau”. [1] Senador, Daniela Pinto. Das primeiras experiências ao fenômeno Zé do Caixão: um estudo sobre o modo de produção e a recepção dos filmes de José Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-05072009-230157/ >. Acesso em: 26 jun. 2021.
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Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem
História
Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem
26 de junho de 2021 at 14:46 0
O historiador marxista inglês Eric Hobsbawn contou a história dos últimos séculos em quatro livros que ficaram famosos: Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991) – eu mesmo só li os dois primeiros. Em discussão recente no jornal Folha de São Paulo, o sociólogo brasileiro Demétrio Magnoli reconhece que o seu Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem (1915-1945) Vol. 1, (Editora Record, escrito em colaboração com Elaine Senise Barbosa), é uma contraposição ao quarto volume da obra de Hobsbawn. Enquanto o inglês é um marxista empedernido (que acredita, portanto, na igualdade entre os homens), Magnoli visa a provar que não há possibilidade de conviverem, lado a lado, liberdade e igualdade. Segundo o brasileiro, todas as tentativas de promover a igualdade entre os homens acabam descambando, inevitavelmente, para um totalitarismo atroz. Esta tese não é nova, e um dos mais brilhantes defensores dela é Friedrich Hayek, em seu O Caminho da Servidão. O que Magnoli quer é contar a história do mundo entre o final da Primeira Guerra Mundial e o final da Segunda sob um prisma liberal – e não o prisma marxista de Hobsbawn. Fora esta, existe uma diferença importante entre as obras. Nos livros da série de Hobsbawn – e não custa reforçar que só li os dois primeiros – o historiador inglês se preocupa enormemente em dar um "sentido" aos acontecimentos. Em A Era das Revoluções, as ligações entre a Revolução Francesa (de cunho político) e a Revolução Industrial (de cunho econômico) são mostradas a todo momento. O leitor sente que está vendo a "história acontecer" e grandes movimentos históricos são descortinados diante de nossos olhos. Tudo parece ter um sentido profundo. Apesar de não ser nem de longe um defensor de ideias marxistas ou socialistas, gostei muito da maneira como Hobsbawn descreve a História. Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa por outro lado, tentam ser mais sutis em mostrar sua visão de mundo. Sim, eles acham mesmo que, se um governo prioriza a igualdade, a liberdade sairá prejudicada. Esta maneira de ver as coisas realmente aparece aqui e ali no livro. Mas a obra, frequentemente, parece uma descrição de fatos históricos e ideias sem muita ligação uns com os outros. Não temos, ao ler Liberdade Versus Igualdade, a sensação de estarmos "compreendendo o que está por trás" dos acontecimentos históricos. Seria este então o desejo de Magnoli e Senise Barbosa? Como bons liberais, será que eles acham que o leitor deve ter a liberdade (opa!) de concluir o que bem lhe der na veneta? Pode ser. De todo modo, apesar de menos "emocionante" que os livros de Hobsbawn, a leitura deste primeiro volume Liberdade Versus Igualdade me parece indispensável para quem quer ter uma ideia do que aconteceu naquele período tão conturbado da história humana - e sob um prisma, no meu modo de entender, mais correto que o prisma marxista de Hobsbawn. (texto publicado em 2011 no Mondo Bacana)
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Qual a quantidade real de mortos devido à COVID-19?
História
Qual a quantidade real de mortos devido à COVID-19?
20 de junho de 2021 at 22:36 0
Qual o tamanho da tragédia mundial do COVID-19? Desde o início da pandemia, ficava me perguntando qual a quantidade de mortos a mais do que o previsto desde março de 2020. Cheguei a pesquisar alguma coisa nos dados estatísticos de sites como o do Banco Mundial, mas não fui adiante – até que saiu a notícia na imprensa de que o mundo pode ter o dobro de mortes do que dizem os números oficiais. Fui então pesquisar alguns artigos sobre o assunto, e o presente texto apresenta o resumo do artigo “Estimation of total mortality due to COVID-19”, do IMHE (Institute for Health Metrics and Evaluation), cujo link pode ser obtido aqui. Pretendo voltar nesse assunto por aqui ainda. Segundo o artigo, o parâmetro que calcula “a quantidade de mortos a mais do que o previsto” se chama “excesso de mortes”, “definido como a diferença entre o número observado de mortes em períodos de tempo específicos e o número esperado de mortes nos mesmos períodos de tempo”. Para avaliar a mortalidade total por COVID-19, foi necessário verificar se a quantidade de mortos foi subnotificada, e possíveis razões para esta subnotificação incluem:
  • A capacidade de teste varia acentuadamente entre os países e dentro dos países ao longo do tempo;
  • Em muitos países de alta renda, as mortes por COVID-19 em indivíduos mais velhos, especialmente em instituições de longa permanência, não foram registradas nos primeiros meses da pandemia;
  • Em outros países, como Equador, Peru e Federação Russa, a discrepância entre as mortes relatadas e o “excesso de mortes” sugere que a taxa de mortalidade total do COVID-19 é muitíssimo maior do que os relatórios oficiais.
O “excesso de mortes” para o caso da COVID-19 é influenciado por seis fatores de mortalidade que se relacionam com a pandemia e o distanciamento social que veio com ela. Esses seis fatores são: a) a taxa total de mortalidade por COVID-19, ou seja, todas as mortes diretamente relacionadas à infecção por COVID-19; b) o aumento da mortalidade devido ao adiamento dos cuidados de saúde necessários durante a pandemia; c) o crescimento da mortalidade devido ao aumento dos transtornos mentais, incluindo depressão, abuso de álcool e de opioides; d) a redução na mortalidade devido a diminuições nas lesões devidas a reduções gerais na mobilidade (diminuição de acidentes de carro, por exemplo); e) diminuição no número de mortos devido à menor transmissão de outros vírus, principalmente influenza, vírus sincicial respiratório e sarampo; e f) redução na mortalidade devido a algumas condições crônicas, como doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas, que ocorrem quando indivíduos frágeis que teriam morrido por essas condições morreram mais cedo de COVID-19. O artigo do IMHE calcula as reduções de mortes em torno de 615.000 mortes ou mais, decorrentes de mudanças comportamentais em nível global. Os principais aumentos potenciais no excesso de mortalidade devido ao tratamento adiado e aumentos na overdose de drogas e depressão são difíceis de quantificar, ou de magnitude muito menor. Dado que não há evidências suficientes para estimar essas contribuições para a mortalidade excessiva, assumiu-se que o total de mortes por COVID-19 é igual ao “excesso de mortes” mas, devido a razões apresentadas no artigo do IMHE, concluiu-se que isto provavelmente foi subestimado. À medida que as evidências se fortalecem nos próximos meses e anos, é provável que sejam revisadas as estimativas de mortes por COVID-19 para cima em próximos trabalhos. A principal conclusão do artigo “Estimation of total mortality due to COVID-19” é apresentada num gráfico, que é a imagem que acompanha este texto, em que a linha mais clara superior é a quantidade diária real de mortos, enquanto a de baixo, mais escura, é o número oficial. Em termos de números totais, do início da pandemia até 31 e maio de 2021, segundo o artigo da IMHE a quantidade real de mortos chegou a 7,1 milhão de mortos, enquanto o número oficial correspondente foi de 3,33 milhões. O artigo do IMHE também apresenta a subnotificação estimada para países e estados no mundo inteiro, calculada pela divisão entre o número de mortos real e o oficial, apresentada abaixo. Na figura, quanto mais próximo do azul escuro, maior a subnotificação e, quanto mais próximo do laranja vivo, menor este valor. Em termos de Brasil, do início da pandemia até 31 de maio de 2021 foram reportados 423.307 mortos, enquanto o número real calculado no artigo chegou a 616.914, numa subnotificação de 1,46.
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“Vernônia”, de William Kennedy
Literatura
“Vernônia”, de William Kennedy
13 de junho de 2021 at 13:12 0
Eu lembro, nos anos 1980, o quanto eu tinha gostado de “Vernônia”, do escritor americano William Kennedy (Francisco Alves, 239 páginas, tradução de Sonia Botelho), e resolvi recentemente reler o romance, do qual lembrava muito pouco. Além de sucesso de crítica na época - ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 1984 -, o livro teve sua versão cinematográfica lançada em 1987, chamada por aqui pelo título original “Ironweed”, dirigida por Hector Babenco, com Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais. “Vernônia”, cuja primeira edição é de 1983, conta a história de dois mendigos nos anos 1930, Francis Phelan, e sua namorada – ou coisa parecida – Helen. Os dois poderiam ter tido outro destino: ele tinha sido jogador de beisebol profissional, ela tinha sido cantora, tendo inclusive estudado em conservatórios - mas tanto o alcoolismo quanto a Crise de 29 acabou levando os dois para a mendicância. Além disso, Francis teve problemas particulares muito sérios, que voltam frequentemente à sua memória. Na releitura, “Vernônia” me pareceu um livro mais meloso do que poético, decepcionante enfim. Será que não sou só eu que tenho essa opinião e é por isso que quando fui procurar sobre o romance e seu autor em arquivos online de jornais e na internet eu não achei quase nada?
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“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
Literatura
“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
13 de junho de 2021 at 12:52 0
Crimes à Moda Antiga (Publifolha), o mais recente livro do paulista radicado em Curitiba Valêncio Xavier, é composto por oito contos que descrevem crimes que aconteceram no Brasil do início do século 20. O livro é um mergulho nos becos mais obscuros da alma humana. Em muitos dos contos, os assassinos matam por motivos mais ou menos insignificantes, mostrando o pouco apreço que têm pela vida alheia. Assim são os crimes causados pela cobiça dos ladrões em “Os Estranguladores da Fé em Deus” e “Gângsteres Num País Tropical”; pelo ciúme em “O Outro Crime da Mala”; pela honra ultrajada e orgulho ferido em “A Noiva Não Manchada de Sangue”; pela certeza de impunidade dada pela riqueza em “O Crime de Cravinhos”. Além disso, duas histórias de Crimes à Moda Antiga se destacam pela violência extrema. Em “O Crime do Tenente Galinha”, tanto os assassinos quanto o assassinado (o tal Tenente Galinha) chegam a níveis absurdos de maldade e agressividade. “Aí Vem o Febrônio” é uma impressionante descrição da mente de um psicopata com delírios religiosos. Cada conto tem, em média, vinte páginas e é dividido em vários pequenos capítulos de mais ou menos uma página cada um. A narrativa é ágil e rápida – e exige bastante atenção por parte do leitor, dada a grande quantidade de detalhes apresentados em cada história. Já o aspecto visual de Crimes à Moda Antiga é importante mas não fundamental. As interessantíssimas ilustrações – feitas por Sérgio Niculitcheff e pelo próprio Valêncio Xavier, ao modo daquelas do início do século passado – servem mais como complemento do que como parte indispensável à compreensão das histórias - ao contrário do que ocorria em obras anteriores do autor, como O Mêz da Grippe, Maciste no Inferno e O Minotauro (in: O Mêz da Grippe e Outros Livros, Companhia das Letras, 1998). O estilo de Valêncio é impessoal, próximo da literatura e do jornalismo policiais –utilizando também, com maestria, diferentes técnicas descritivas. “Os Estranguladores da Fé em Deus”, por exemplo, apresenta, de maneira extensiva, os depoimentos judiciais (sempre entre aspas) dos criminosos para a descrição de seus próprios crimes. Um trecho de “A Noiva Não Manchada de Sangue” é composto apenas pelas falas da criminosa (entre aspas) e pelas reflexões do delegado (em negrito). Em alguns contos, as frases mostrando os pensamentos ou falas dos personagens surgem sem apresentação – e de maneira intermitente – no meio da descrição fria dos crimes. Assim aparecem em itálico raciocínios do suspeito em “A Mala Sinistra” e os delírios do assassino em “Aí Vem o Febrônio”, além das declarações em negrito do assassino José Pistone em “O Outro Crime da Mala”. A mistura de histórias escabrosas, narrador impessoal – que raramente julga seus personagens – e diferentes técnicas narrativas dá uma sensação de estranheza no leitor. É como se Valêncio Xavier nos transportasse para um angustiante universo paralelo, onde crimes estúpidos fossem a coisa mais normal do mundo. Bate-papo com Valêncio Xavier As histórias de Crimes à Moda Antiga são reais? São sim. Para me informar a respeito fui diversas vezes a São Paulo, para visitar tanto o Arquivo Oficial do Estado quanto a Biblioteca Pública de lá. Eu não podia inventar nada, pois sempre há o risco de ser processado. Para pesquisar sobre o crime ocorrido em Curitiba (do conto “Gângsteres Num País Tropical”) fui na Biblioteca Pública daqui. Algumas histórias são realmente escabrosas... Sim, a Sinhazinha Junqueira de “O Crime de Cravinhos ou da Rainha do Café”, por exemplo, era uma mulher muito rica, fazendeira de imensas posses. Ela comprava quem queria. Espantosa também foi a história de “Aí Vem o Febrônio”... Para mim, a história deste assassino psicopata com delírios religiosos é a mais impressionante de todas. Realmente, esta é assustadora. Fiz até um livro sobre este caso. Pode-se encontrar este livro nas livrarias? Não, está fora de catálogo há muito tempo já. Um fato que sempre é salientado é a preocupação com a parte gráfica de seus livros. Com certeza. Tudo o que você vê em Crimes à Moda Antiga – como desenhos, ilustrações e formatos de letras (negrito, itálico, etc) – já sai pronto daqui para a editora. Eles não mudam nada. São muito interessantes as ilustrações do livro. Eu fiz algumas ilustrações, conforme mostra o encarte. Mas a maioria foi feita pelo meu sobrinho, Sérgio Niculitcheff. E a técnica que ele mais usou foi desenho a partir de fotos de jornal. A maioria dessas ilustrações é baseada na realidade? Sim, a maioria é. O desenho da cama que aparece na primeira ilustração do conto “A Morte do Tenente Galinha”, por exemplo, é baseado totalmente na cama em que ele realmente morreu. E os símiles de jornais que aparecem em “O Outro Crime da Mala”? São reais, então? Sim. Tudo obtido em minhas viagens a São Paulo.  (publicado anteriormente no Mondo Bacana)
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Xadrez e Covid-19
Esporte, História
Xadrez e Covid-19
6 de junho de 2021 at 03:19 0
Ainda um pouco antes do boom mundial de xadrez, causado pela popular série da Netflix Gambito da Rainha, houve um aumento expressivo no número de jogadores do jogo devido à pandemia, já que as pessoas de uma hora para outra passaram a ficar em casa com mais tempo livre. Eu mesmo, que tinha jogado e estudado um pouco de xadrez na adolescência - ensinado basicamente pelo meu grande amigo Edson Luciani de Oliveira -, retomei o gosto pelo jogo aí pelo meio do ano passado, principalmente por causa dos canais do YouTube Xadrez Brasil, de Rafael Leite, e GothamChess, de Levy Rozman. Ainda gostaria de falar mais sobre o assunto, mas o objetivo deste texto é bem mais específico, e para isto basta dizer que pratico principalmente xadrez online na plataforma Chess.com, e que lá cada jogador tem seu rating - um número que, segundo a Wikipédia, calcula a força relativa e cada jogador. O melhor jogador o mundo na atualidade, o norueguês Magnus Carlsen, tem um rating de cerca de 2847; super grandes mestres (ou Super GMs) – como o russo Ian Nepomniachtchi, que vai desafiar o campeão mundial em novembro, ou o ítalo-americano Fabiano Caruana - têm ratings acima ou próximos de 2800; com mais de 2000 o jogador normalmente já pode ser considerado profissional, ou semiprofissional; eu, com 1096 de rating no Chess.com no dia em que escrevo este texto (6 de junho de 2021), posso apenas ser considerado um amador que tem uma noção mínima do jogo. O rating de 1100 parece ser o meu limite se eu não estudar com afinco – coisa que não pretendo fazer, na verdade. Respondendo a perguntas de seus seguidores, por coincidência ontem ainda o Grande Mestre Rafael Leitão comentou que, para passar deste rating, é necessário estudar; e eu prefiro só assistir a vídeos de xadrez no YouTube e jogar partidas online no Chess.com contra adversários com capacidade técnica semelhante à minha. O gráfico abaixo, que apresenta meu rating desde que entrei na plataforma até o início de março de 2021, mostra que vai ser bem complicado de eu passar de 1100 se eu não me esforçar: Falando agora do principal objetivo deste texto: no dia 16 de março de 2021 fui diagnosticado com Covid-19. Além de dar graças a Deus por nem eu nem minha família termos tido casos graves da doença, tive como principal sintoma um cansaço profundo e duradouro. Olhando meu gráfico de rating de xadrez a partir desta data, notei um persistente declínio, conforme mostra a figura que acompanha este texto, que apresenta o meu desempenho no Chess.com nos últimos 90 dias. O gráfico é, de certa forma, impressionante: se no dia do meu diagnóstico eu estava com um rating de 1042, pouco mais de um mês depois, em 27 de abril, eu tinha caído para 902. Só fui passar de 1000 no dia 22 de maio, mais de dois meses depois do meu diagnóstico, e desde então não baixei mais deste limiar, chegando no valor de 1096 no dia de hoje. É claro, repito, que só tenho de agradecer a Deus por ter sido só isso, mas achei interessante compartilhar esta minha experiência específica com esta doença terrível.
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Seinfeld e a filosofia
Filosofia, Séries
Seinfeld e a filosofia
3 de junho de 2021 at 10:56 0
Seinfeld e a Filosofia – Um Livro Sobre Tudo e Nada (coletânea de William Irwin, 205 páginas) é o novo lançamento da coleção sobre filosofia e cultura pop da Editora Madras – o Bacana analisou outros dois outros livros desta coleção. Para fãs do seriado ou de filosofia o livro – uma coletânea de artigos filosóficos, escritos por diversos autores – é um achado. A primeira parte de Seinfeld e a Filosofia [chamada de “Ato I, Os Personagens”] é uma das mais saborosas: cada um de seus artigos trata de um dos quatro personagens do seriado. “Jerry e Sócrates: A Vida Examinada”, de William Irwin, compara o método de perguntas e respostas de Sócrates com as perguntas que Jerry Seinfeld costuma fazer a seus amigos. A conclusão do artigo é que, se aquele tinha intenções sérias com seu método, este só quer analisar fatos banais do dia-a-dia. “A Busca Frustrada de George pela Felicidade: Uma Análise Aristotélica”, de Daniel Barwick, estuda o comportamento de George Constanza conforme o método de análise ética de Aristóteles. O resultado, como se pode prever, é desastroso para o personagem do seriado. Interessantíssima é a análise que Sarah E. Worn, em “Elaine Benes: Ícone Feminista ou Apenas Um dos Rapazes?” faz da personagem Elaine Benes. Ela é feminista sim, mas só até certo ponto. E “Kramer e Kierkegaard: Estágios no Caminho da Vida”, também de Irwin, é um dos pontos altos do livro. É impressionante como a categoria de vida “estética” do filósofo dinamarquês Kierkegaard casa-se bem com a vida do personagem Kramer. A segunda parte [chamada “Ato II, Seinfeld e Os Filósofos”] analisa questões filosóficas levantadas pelo seriado. Como os fãs devem saber, o slogan do programa é “uma série sobre nada”. Como este “nada” seinfeldiano se relaciona com a milenar filosofia oriental do Tao? O seriado Seinfeld, com suas idas e vindas, tem alguma coisa a ver com a teoria da eterna recorrência de Nietzsche? Estas perguntas são respondidas, respectivamente, por Eric Bronson e Mark T. Conrad. Interessantíssimos são os artigos “Seinfeld, Subjetividade e Sartre” [onde Jennifer McMahon compara a amizade dos quatro personagens principais do seriado com as teorias de subjetividade e co-responsabilidade de Jean-Paul Sartre] e “Wittgenstein, Seinfeld e o Lugar-Comum” [provavelmente o melhor artigo do livro, no qual Kelly Dean Jolley, para o espanto do leitor, conclui que a os atos banais do cotidiano – o cerne do seriado – são o que há de mais fundamental na filosofia de Wittgenstein]. A terceira parte [“Ato III, Meditações Prematuras Ao Lado do Bebedouro”] é a mais fraca de todas. Os artigos – que tratam respectivamente de um episódio onde Constanza faz o contrário do que faria normalmente para as coisas darem certo, da subjetividade, e da significância do insignificante em Seinfeld – não trazem maior interesse para o leitor: eles parecem deslocados da realidade do seriado. Os três artigos da última parte do livro [“Ato IV, O Que Há de Errado Nisto?”], escritos respectivamente por Robert A. Epperson, Aeon J. Skoble e Theodore Schick Jr., analisam Jerry, Elaine, George e Kramer sob o ponto de vista da moral e da ética. A conclusão dos filósofos não é pela condenação total daqueles, nem pela absolvição sem ressalvas. Os argumentos pró e contra os personagens são instigantes, surpreendentes. Uma chave de ouro para fechar um livro na sua maior parte excepcional. (texto publicado anteriormente no Mondo Bacana - imagem da foto obtida no Uol)
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