junho 2021

“Vernônia”, de William Kennedy
Literatura
“Vernônia”, de William Kennedy
13 de junho de 2021 at 13:12 0
Eu lembro, nos anos 1980, o quanto eu tinha gostado de “Vernônia”, do escritor americano William Kennedy (Francisco Alves, 239 páginas, tradução de Sonia Botelho), e resolvi recentemente reler o romance, do qual lembrava muito pouco. Além de sucesso de crítica na época - ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 1984 -, o livro teve sua versão cinematográfica lançada em 1987, chamada por aqui pelo título original “Ironweed”, dirigida por Hector Babenco, com Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais. “Vernônia”, cuja primeira edição é de 1983, conta a história de dois mendigos nos anos 1930, Francis Phelan, e sua namorada – ou coisa parecida – Helen. Os dois poderiam ter tido outro destino: ele tinha sido jogador de beisebol profissional, ela tinha sido cantora, tendo inclusive estudado em conservatórios - mas tanto o alcoolismo quanto a Crise de 29 acabou levando os dois para a mendicância. Além disso, Francis teve problemas particulares muito sérios, que voltam frequentemente à sua memória. Na releitura, “Vernônia” me pareceu um livro mais meloso do que poético, decepcionante enfim. Será que não sou só eu que tenho essa opinião e é por isso que quando fui procurar sobre o romance e seu autor em arquivos online de jornais e na internet eu não achei quase nada?
Leia mais +
“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
Literatura
“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
13 de junho de 2021 at 12:52 0
Crimes à Moda Antiga (Publifolha), o mais recente livro do paulista radicado em Curitiba Valêncio Xavier, é composto por oito contos que descrevem crimes que aconteceram no Brasil do início do século 20. O livro é um mergulho nos becos mais obscuros da alma humana. Em muitos dos contos, os assassinos matam por motivos mais ou menos insignificantes, mostrando o pouco apreço que têm pela vida alheia. Assim são os crimes causados pela cobiça dos ladrões em “Os Estranguladores da Fé em Deus” e “Gângsteres Num País Tropical”; pelo ciúme em “O Outro Crime da Mala”; pela honra ultrajada e orgulho ferido em “A Noiva Não Manchada de Sangue”; pela certeza de impunidade dada pela riqueza em “O Crime de Cravinhos”. Além disso, duas histórias de Crimes à Moda Antiga se destacam pela violência extrema. Em “O Crime do Tenente Galinha”, tanto os assassinos quanto o assassinado (o tal Tenente Galinha) chegam a níveis absurdos de maldade e agressividade. “Aí Vem o Febrônio” é uma impressionante descrição da mente de um psicopata com delírios religiosos. Cada conto tem, em média, vinte páginas e é dividido em vários pequenos capítulos de mais ou menos uma página cada um. A narrativa é ágil e rápida – e exige bastante atenção por parte do leitor, dada a grande quantidade de detalhes apresentados em cada história. Já o aspecto visual de Crimes à Moda Antiga é importante mas não fundamental. As interessantíssimas ilustrações – feitas por Sérgio Niculitcheff e pelo próprio Valêncio Xavier, ao modo daquelas do início do século passado – servem mais como complemento do que como parte indispensável à compreensão das histórias - ao contrário do que ocorria em obras anteriores do autor, como O Mêz da Grippe, Maciste no Inferno e O Minotauro (in: O Mêz da Grippe e Outros Livros, Companhia das Letras, 1998). O estilo de Valêncio é impessoal, próximo da literatura e do jornalismo policiais –utilizando também, com maestria, diferentes técnicas descritivas. “Os Estranguladores da Fé em Deus”, por exemplo, apresenta, de maneira extensiva, os depoimentos judiciais (sempre entre aspas) dos criminosos para a descrição de seus próprios crimes. Um trecho de “A Noiva Não Manchada de Sangue” é composto apenas pelas falas da criminosa (entre aspas) e pelas reflexões do delegado (em negrito). Em alguns contos, as frases mostrando os pensamentos ou falas dos personagens surgem sem apresentação – e de maneira intermitente – no meio da descrição fria dos crimes. Assim aparecem em itálico raciocínios do suspeito em “A Mala Sinistra” e os delírios do assassino em “Aí Vem o Febrônio”, além das declarações em negrito do assassino José Pistone em “O Outro Crime da Mala”. A mistura de histórias escabrosas, narrador impessoal – que raramente julga seus personagens – e diferentes técnicas narrativas dá uma sensação de estranheza no leitor. É como se Valêncio Xavier nos transportasse para um angustiante universo paralelo, onde crimes estúpidos fossem a coisa mais normal do mundo. Bate-papo com Valêncio Xavier As histórias de Crimes à Moda Antiga são reais? São sim. Para me informar a respeito fui diversas vezes a São Paulo, para visitar tanto o Arquivo Oficial do Estado quanto a Biblioteca Pública de lá. Eu não podia inventar nada, pois sempre há o risco de ser processado. Para pesquisar sobre o crime ocorrido em Curitiba (do conto “Gângsteres Num País Tropical”) fui na Biblioteca Pública daqui. Algumas histórias são realmente escabrosas... Sim, a Sinhazinha Junqueira de “O Crime de Cravinhos ou da Rainha do Café”, por exemplo, era uma mulher muito rica, fazendeira de imensas posses. Ela comprava quem queria. Espantosa também foi a história de “Aí Vem o Febrônio”... Para mim, a história deste assassino psicopata com delírios religiosos é a mais impressionante de todas. Realmente, esta é assustadora. Fiz até um livro sobre este caso. Pode-se encontrar este livro nas livrarias? Não, está fora de catálogo há muito tempo já. Um fato que sempre é salientado é a preocupação com a parte gráfica de seus livros. Com certeza. Tudo o que você vê em Crimes à Moda Antiga – como desenhos, ilustrações e formatos de letras (negrito, itálico, etc) – já sai pronto daqui para a editora. Eles não mudam nada. São muito interessantes as ilustrações do livro. Eu fiz algumas ilustrações, conforme mostra o encarte. Mas a maioria foi feita pelo meu sobrinho, Sérgio Niculitcheff. E a técnica que ele mais usou foi desenho a partir de fotos de jornal. A maioria dessas ilustrações é baseada na realidade? Sim, a maioria é. O desenho da cama que aparece na primeira ilustração do conto “A Morte do Tenente Galinha”, por exemplo, é baseado totalmente na cama em que ele realmente morreu. E os símiles de jornais que aparecem em “O Outro Crime da Mala”? São reais, então? Sim. Tudo obtido em minhas viagens a São Paulo.  (publicado anteriormente no Mondo Bacana)
Leia mais +
Xadrez e Covid-19
Esporte, História
Xadrez e Covid-19
6 de junho de 2021 at 03:19 0
Ainda um pouco antes do boom mundial de xadrez, causado pela popular série da Netflix Gambito da Rainha, houve um aumento expressivo no número de jogadores do jogo devido à pandemia, já que as pessoas de uma hora para outra passaram a ficar em casa com mais tempo livre. Eu mesmo, que tinha jogado e estudado um pouco de xadrez na adolescência - ensinado basicamente pelo meu grande amigo Edson Luciani de Oliveira -, retomei o gosto pelo jogo aí pelo meio do ano passado, principalmente por causa dos canais do YouTube Xadrez Brasil, de Rafael Leite, e GothamChess, de Levy Rozman. Ainda gostaria de falar mais sobre o assunto, mas o objetivo deste texto é bem mais específico, e para isto basta dizer que pratico principalmente xadrez online na plataforma Chess.com, e que lá cada jogador tem seu rating - um número que, segundo a Wikipédia, calcula a força relativa e cada jogador. O melhor jogador o mundo na atualidade, o norueguês Magnus Carlsen, tem um rating de cerca de 2847; super grandes mestres (ou Super GMs) – como o russo Ian Nepomniachtchi, que vai desafiar o campeão mundial em novembro, ou o ítalo-americano Fabiano Caruana - têm ratings acima ou próximos de 2800; com mais de 2000 o jogador normalmente já pode ser considerado profissional, ou semiprofissional; eu, com 1096 de rating no Chess.com no dia em que escrevo este texto (6 de junho de 2021), posso apenas ser considerado um amador que tem uma noção mínima do jogo. O rating de 1100 parece ser o meu limite se eu não estudar com afinco – coisa que não pretendo fazer, na verdade. Respondendo a perguntas de seus seguidores, por coincidência ontem ainda o Grande Mestre Rafael Leitão comentou que, para passar deste rating, é necessário estudar; e eu prefiro só assistir a vídeos de xadrez no YouTube e jogar partidas online no Chess.com contra adversários com capacidade técnica semelhante à minha. O gráfico abaixo, que apresenta meu rating desde que entrei na plataforma até o início de março de 2021, mostra que vai ser bem complicado de eu passar de 1100 se eu não me esforçar: Falando agora do principal objetivo deste texto: no dia 16 de março de 2021 fui diagnosticado com Covid-19. Além de dar graças a Deus por nem eu nem minha família termos tido casos graves da doença, tive como principal sintoma um cansaço profundo e duradouro. Olhando meu gráfico de rating de xadrez a partir desta data, notei um persistente declínio, conforme mostra a figura que acompanha este texto, que apresenta o meu desempenho no Chess.com nos últimos 90 dias. O gráfico é, de certa forma, impressionante: se no dia do meu diagnóstico eu estava com um rating de 1042, pouco mais de um mês depois, em 27 de abril, eu tinha caído para 902. Só fui passar de 1000 no dia 22 de maio, mais de dois meses depois do meu diagnóstico, e desde então não baixei mais deste limiar, chegando no valor de 1096 no dia de hoje. É claro, repito, que só tenho de agradecer a Deus por ter sido só isso, mas achei interessante compartilhar esta minha experiência específica com esta doença terrível.
Leia mais +
Seinfeld e a filosofia
Filosofia, Séries
Seinfeld e a filosofia
3 de junho de 2021 at 10:56 0
Seinfeld e a Filosofia – Um Livro Sobre Tudo e Nada (coletânea de William Irwin, 205 páginas) é o novo lançamento da coleção sobre filosofia e cultura pop da Editora Madras – o Bacana analisou outros dois outros livros desta coleção. Para fãs do seriado ou de filosofia o livro – uma coletânea de artigos filosóficos, escritos por diversos autores – é um achado. A primeira parte de Seinfeld e a Filosofia [chamada de “Ato I, Os Personagens”] é uma das mais saborosas: cada um de seus artigos trata de um dos quatro personagens do seriado. “Jerry e Sócrates: A Vida Examinada”, de William Irwin, compara o método de perguntas e respostas de Sócrates com as perguntas que Jerry Seinfeld costuma fazer a seus amigos. A conclusão do artigo é que, se aquele tinha intenções sérias com seu método, este só quer analisar fatos banais do dia-a-dia. “A Busca Frustrada de George pela Felicidade: Uma Análise Aristotélica”, de Daniel Barwick, estuda o comportamento de George Constanza conforme o método de análise ética de Aristóteles. O resultado, como se pode prever, é desastroso para o personagem do seriado. Interessantíssima é a análise que Sarah E. Worn, em “Elaine Benes: Ícone Feminista ou Apenas Um dos Rapazes?” faz da personagem Elaine Benes. Ela é feminista sim, mas só até certo ponto. E “Kramer e Kierkegaard: Estágios no Caminho da Vida”, também de Irwin, é um dos pontos altos do livro. É impressionante como a categoria de vida “estética” do filósofo dinamarquês Kierkegaard casa-se bem com a vida do personagem Kramer. A segunda parte [chamada “Ato II, Seinfeld e Os Filósofos”] analisa questões filosóficas levantadas pelo seriado. Como os fãs devem saber, o slogan do programa é “uma série sobre nada”. Como este “nada” seinfeldiano se relaciona com a milenar filosofia oriental do Tao? O seriado Seinfeld, com suas idas e vindas, tem alguma coisa a ver com a teoria da eterna recorrência de Nietzsche? Estas perguntas são respondidas, respectivamente, por Eric Bronson e Mark T. Conrad. Interessantíssimos são os artigos “Seinfeld, Subjetividade e Sartre” [onde Jennifer McMahon compara a amizade dos quatro personagens principais do seriado com as teorias de subjetividade e co-responsabilidade de Jean-Paul Sartre] e “Wittgenstein, Seinfeld e o Lugar-Comum” [provavelmente o melhor artigo do livro, no qual Kelly Dean Jolley, para o espanto do leitor, conclui que a os atos banais do cotidiano – o cerne do seriado – são o que há de mais fundamental na filosofia de Wittgenstein]. A terceira parte [“Ato III, Meditações Prematuras Ao Lado do Bebedouro”] é a mais fraca de todas. Os artigos – que tratam respectivamente de um episódio onde Constanza faz o contrário do que faria normalmente para as coisas darem certo, da subjetividade, e da significância do insignificante em Seinfeld – não trazem maior interesse para o leitor: eles parecem deslocados da realidade do seriado. Os três artigos da última parte do livro [“Ato IV, O Que Há de Errado Nisto?”], escritos respectivamente por Robert A. Epperson, Aeon J. Skoble e Theodore Schick Jr., analisam Jerry, Elaine, George e Kramer sob o ponto de vista da moral e da ética. A conclusão dos filósofos não é pela condenação total daqueles, nem pela absolvição sem ressalvas. Os argumentos pró e contra os personagens são instigantes, surpreendentes. Uma chave de ouro para fechar um livro na sua maior parte excepcional. (texto publicado anteriormente no Mondo Bacana - imagem da foto obtida no Uol)
Leia mais +