Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem
História

Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem

26 de junho de 2021 0

O historiador marxista inglês Eric Hobsbawn contou a história dos últimos séculos em quatro livros que ficaram famosos: Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991) – eu mesmo só li os dois primeiros. Em discussão recente no jornal Folha de São Paulo, o sociólogo brasileiro Demétrio Magnoli reconhece que o seu Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem (1915-1945) Vol. 1, (Editora Record, escrito em colaboração com Elaine Senise Barbosa), é uma contraposição ao quarto volume da obra de Hobsbawn. Enquanto o inglês é um marxista empedernido (que acredita, portanto, na igualdade entre os homens), Magnoli visa a provar que não há possibilidade de conviverem, lado a lado, liberdade e igualdade. Segundo o brasileiro, todas as tentativas de promover a igualdade entre os homens acabam descambando, inevitavelmente, para um totalitarismo atroz. Esta tese não é nova, e um dos mais brilhantes defensores dela é Friedrich Hayek, em seu O Caminho da Servidão. O que Magnoli quer é contar a história do mundo entre o final da Primeira Guerra Mundial e o final da Segunda sob um prisma liberal – e não o prisma marxista de Hobsbawn.

Fora esta, existe uma diferença importante entre as obras. Nos livros da série de Hobsbawn – e não custa reforçar que só li os dois primeiros – o historiador inglês se preocupa enormemente em dar um “sentido” aos acontecimentos. Em A Era das Revoluções, as ligações entre a Revolução Francesa (de cunho político) e a Revolução Industrial (de cunho econômico) são mostradas a todo momento. O leitor sente que está vendo a “história acontecer” e grandes movimentos históricos são descortinados diante de nossos olhos. Tudo parece ter um sentido profundo. Apesar de não ser nem de longe um defensor de ideias marxistas ou socialistas, gostei muito da maneira como Hobsbawn descreve a História.

Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa por outro lado, tentam ser mais sutis em mostrar sua visão de mundo. Sim, eles acham mesmo que, se um governo prioriza a igualdade, a liberdade sairá prejudicada. Esta maneira de ver as coisas realmente aparece aqui e ali no livro. Mas a obra, frequentemente, parece uma descrição de fatos históricos e ideias sem muita ligação uns com os outros. Não temos, ao ler Liberdade Versus Igualdade, a sensação de estarmos “compreendendo o que está por trás” dos acontecimentos históricos.

Seria este então o desejo de Magnoli e Senise Barbosa? Como bons liberais, será que eles acham que o leitor deve ter a liberdade (opa!) de concluir o que bem lhe der na veneta?

Pode ser. De todo modo, apesar de menos “emocionante” que os livros de Hobsbawn, a leitura deste primeiro volume Liberdade Versus Igualdade me parece indispensável para quem quer ter uma ideia do que aconteceu naquele período tão conturbado da história humana – e sob um prisma, no meu modo de entender, mais correto que o prisma marxista de Hobsbawn.

(texto publicado em 2011 no Mondo Bacana)

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