Marcel Proust

Exercícios Literários, Literatura
Proust/Machado
4 de novembro de 2019 at 12:05 0
Machado e Proust: Wikiquote/Britannica

Fiquei meio espantado com a frase de Machado de Assis, em Brás Cubas: “não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar” (já tinha lido a obra, mas não me lembrava em absoluto desta citação). Explico: ela lembra, de maneira notável, uma frase de Proust: “é melhor cair das nuvens do que cair dos planos”.

Logo fiquei pensando nos paralelos incríveis entre duas frases tão semelhantes: será que Proust sabia da obra de Machado, escrita em 1881, quando o francês tinha dez anos? Provavelmente não: se a literatura brasileira tem pouca penetração no exterior hoje em dia, imagine-se no século XIX. Então, só me restava comparar as duas sentenças, na maneira incrível como “planos”, na frase de Proust, se transformava em “terceiro andar”, na machadiana: nos dois casos a realidade atinge de maneira definitiva e inexorável o “sonhador”, aquele que “não mantém os pés na terra”, que “vive nas nuvens”.

Que notável! Dois gênios, separados por um oceano e algumas décadas de distância, praticamente criando uma transmissão de pensamentos!

Mas é melhor desconfiar, né? Antes de evoluir nos meus próprios pensamentos, resolvi dar uma olhadinha na internet: a frase do Proust realmente é citada, mas em sites de autenticidade duvidosa. Mais do que isso, nas minhas pesquisas em francês não surgiu nada parecido com a sentença supracitada. A frase, com quase 100% de certeza, não é de Proust, e quase caí no conto (eu a tinha lido como se fosse dele há muitos anos já).

Enfim, esse assunto tem tudo para cair em outra reflexão: quem inventou essa coisa? Provavelmente algum brasileiro, que conhecia a frase de original de Machado de Assis e resolveu dar um lustro afrancesado na coisa.

Pensando nisso, não posso deixar de me divertir ao pensar nesse suposto brasileiro piadista.

(Crônica baseada no seguinte desafio literário proposto por Robertson Frizero: No capítulo CXIX do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o narrador-protagonista lista uma série de irônicos aforismos de sua autoria. O desafio de hoje é escolher um desses aforismos e escrever um conto, crônica ou poesia de até 500 palavras a partir de sua interpretação da frase. Estes são os aforismos machadianos: (...) Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)

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Meus livros preferidos
Literatura
Meus livros preferidos
22 de julho de 2018 at 19:11 0
Faz tempinho que eu não faço uma listinha de livros preferidos, né? Então lá vai mais uma, com links de comentários meus sobre os livros e/ou os autores:

1. “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust: todo um universo em sete livros. (mais…)

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“La Bibliothèque de Marcel Proust”, de Anka Muhlstein
Literatura
“La Bibliothèque de Marcel Proust”, de Anka Muhlstein
17 de janeiro de 2017 at 00:08 0
É bacana saber que um dos seus defeitos era compartilhado por um gênio. Em “La Bibliothèque de Marcel Proust” (“A Biblioteca de Marcel Proust”), de Anka Muhlstein (Odile Jacob, 180 páginas), a autora conta que o grande escritor francês era tão bagunçado com seus livros que raramente conseguia encontrá-los quando queria. Às vezes emprestava um para um amigo e pedia que ele o guardasse, já que seria mais fácil reencontrá-lo na casa dele do que na sua própria. Bem, eu também tenho dificuldade em encontrar meus livros... (mais…)
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Marie de Bernadaky
Literatura
Marie de Bernadaky
8 de junho de 2015 at 15:18 0
Por mais que eu tente, não conseguiria exagerar a importância de Marcel Proust na minha história, como direi, "literária". (mais…)
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Duas atrizes
Cinema
Duas atrizes
9 de março de 2015 at 12:21 0
I - A Berma Era enorme a expectativa do Narrador ao assistir a Berma pela primeira vez. Como tinha saúde frágil, seu médico tinha proibido a sua ida ao teatro - esta proibição acabou quando o influente embaixador M. de Norpois recomendou que ele fosse assistir a Berma interpretando Fedra, a peça clássica de Racine. O Narrador, esclareçamos agora, é quem conta a história em primeira pessoa no romance “Em Busca do Tempo Perdido”: ele é comumente chamado assim porque  praticamente não se nomeia durante o livro, uma das obras-primas da literatura universal. O Narrador, importante ressaltar, é grandemente baseado no próprio autor da obra, de forte conotação autobiográfica, Marcel Proust. (mais…)
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