Literatura

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“La vida es sueño”, de Calderón de la Barca
17 de março de 2019 at 18:29 0
Calderón de la Barca - fonte: Wikipedia

Tendo em vista as condições astrológicas, Segismundo nasceu no pior momento possível: pela previsão dos astros ele teria mau caráter, seria assassino, violento e traiçoeiro. Sabendo disso, seu pai, o rei polonês Basilio, colocou-o no cárcere praticamente desde que nasceu, sem contato com outros seres humanos fora Clotaldo, criado e professor do menino. Um tanto inseguro quanto às previsões astrológicas, Basilio bola um plano: manda dar drogas para seu filho e o faz pensar que é rei por um dia, ordenando inclusive a todos os cortesãos que o obedecessem. Se ele fosse mau durante esse dia significaria que as previsões estavam corretas e Basilio o devolveria para o cárcere – e Segismundo concluiria que o seu “dia de rei” não tinha passado de um sonho.

Esse é o mote principal de “La vida es sueño” (Penguin Clásicos, 231 páginas), obra-prima do “autor teatral barroco por excelência” (segundo a contracapa do livro), o espanhol Calderón de La Barca (1600-1681).

A peça merece sua grande fama: não só é emocionante, cheia de reviravoltas - fora a história principal, ainda tem uma secundária, “a restauração da honra” da personagem Rosaura -, como tem trechos inesquecíveis, sendo o mais famoso aquele falado por Segismundo:

“¿Qué es la vida? Un frenesí. / ¿Qué es la vida? Una ilusión, / una sombra, una ficción, / y el mayor bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son”.

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Literatura
Trecho inicial da minha novela “Morrissey”
10 de março de 2019 at 12:18 0
Morrissey - fonte: Billboard

- De jeito nenhum, delegado.

- Mas como assim, como é que você pode ter certeza?

- Tenho. Ele é um poeta, um homem estudado...

- Poetas e homens estudados não podem acreditar?

- Eu acho que não.

- Mas você sabe que a coisa não é bem assim, né?

- Eu acho que nenhum homem estudado, com talento, pode acreditar em Deus.

- Tá, vá lá, então o Morrissey não acredita em Deus e escreveu uma música chamada I have forgiven Jesus porque na verdade queria falar do seu desejo de matar alguém.

- Qualquer um pode ver isso, delegado... ah lá: Why did you give me so much desire? / When there is nowhere I can go / To offload this desire? Tá aí. Tá com desejo de matar.

- Ele disse que está com desejo de amor, é só ler a continuação da letra: And why did you give me so much love / In a loveless world / When there is no one I can turn to / To unlock all this love? Então você está dizendo que o amor que ele fala aqui é “metafórico”?

- Claro.

- Baseado exatamente no quê?

- Se fosse desejo de sexo, e aí até eu poderia aceitar, ele ia falar sexo, não amor. Ou você acha que um cara que tem tanto desejo assim de amor ia reclamar de falta de amor? Ninguém tem desejo assim de amor!

("Morrissey" é a segunda novela do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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Literatura
“O cavaleiro inexistente”, de Italo Calvino
17 de fevereiro de 2019 at 15:28 0
fonte: Stanford University

Agilulfo é um cavaleiro medieval do exército de Carlos Magno que porta o tempo todo uma armadura branca – o tempo todo mesmo, já que ele não existe. Quando abre a viseira do elmo, é o vazio que os demais veem dentro da armadura sempre imaculada. Agilulfo não se alimenta, nunca dorme e é um cavaleiro extremamente compenetrado, corajoso e detalhista. Seu escudeiro teve vários nomes, conforme o lugar do mundo em que morou, e agora é chamado de Gurdulu. Ele é deficiente mental, tem uma força descomunal e um excelente caráter – todo mundo gosta dele. Rambaldo é um jovem que quer lutar nas batalhas contra os “infiéis” muçulmanos para matar o emir Isoarre e assim vingar a morte do pai, o marquês de Rossiglione. Brabante é uma mulher que luta juntamente com os homens, gosta de fazer sexo com os demais soldados e se apaixona por Agilulfo. Já Torrismundo é um jovem cavaleiro que diz ter provas de que o cavaleiro inexistente não defendeu a virgindade de uma donzela quinze anos antes – defesa esta que permitiu a Agilulfo o título de paladino de Carlos Magno.

Os personagens acima são os principais de “O cavaleiro inexistente” (Companhia das Letras, 118 páginas), romance escrito em 1959 pelo escritor italiano Italo Calvino (1923-1985). Sobre o livro, Fernando A. R. de Gusmão escreve, por exemplo, que:

“(...) Em outra vertente, Agilulfo é, também, o homem pós-moderno, fracassado em seu projeto de ser alguém, de ser um ser específico, passando toda a vida como sujeito potencial, sempre reprimido, somente Ser enquanto subordinado aos interesses do Outro - social. Nesse sentido, podemos percebê-lo, também, como um ser-vitrine da atual sociedade/espetáculo, perdido em sua exterioridade, vivendo função de uma contemporaneidade artificial, descartável, que se cumpre na celeridade e na impessoalidade do fast-food, na qual ele não passa de mais um passante/intérprete/plateia do shopping/moda.”

Tudo bem, nada contra. Só que eu, por outro lado, não percebi sentido nenhum em “O cavaleiro inexistente”, que acho que seria um livro até divertido se tivesse apenas um quinto do seu tamanho. Do jeito que foi escrito, suas mais de cem páginas demoram uma eternidade para passar.

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Literatura
Trecho inicial de “O verão de 54 (novelas)”
4 de fevereiro de 2019 at 20:25 0
Clarice Lispector - fonte: InstitutoMoreiraSalles

Tudo começou quando a Valéria me contou que havia sonhado com a Clarice Lispector lhe dizendo que eu teria que escrever um livro chamado “O verão de 54”. Além deste, a escritora acrescentava que eu deveria, ainda, compor outra obra, sobre a Rússia. Bem, o Stálin é um personagem fascinante e a ideia de escrever uma espécie de monólogo interior sobre os dias dramáticos depois da invasão da União Soviética pela Alemanha, quando o ditador soviético aparentemente entrou em colapso nervoso, pareceu-me, de cara, uma boa ideia. É claro que eu teria que ler muitas biografias do ditador russo, fazer pesquisas, coisas que meu trabalho como engenheiro impossibilitaria – ou, no mínimo, dificultaria muito. Quem sabe um dia.

Assim como a ideia do hipotético livro sobre a Rússia, a ideia da história do “O verão de 54” me veio imediatamente à cabeça. Seria a paixão de um homem mais velho por uma mulher bem mais jovem, ele muito rico, ela de classe média baixa, aqui em Curitiba mesmo. O problema estava no título: “O verão de 54” significava que o livro deveria se passar, pelo menos em parte, muitas décadas atrás. Meus pais nasceram no início dos anos 40, poderiam me ajudar com alguma informação sobre aquela época. Minha sogra nasceu nos anos 20, também poderia contribuir com alguma coisa.

Meu protagonista seria rico e jornalista. Rico e jornalista, naquela época, até onde eu sei, só se fosse proprietário de uma grande empresa de comunicação. Ele poderia então ser filho do dono de um grande jornal – uma solução interessante, já que eu não imaginava meu protagonista com grande espírito empresarial. Claro que um empreendedor de primeira linha (o que combinaria com um fundador de um grande jornal) poderia se apaixonar por uma moça mais jovem, mas eu imaginava um protagonista mais passivo.

Tudo começou com um sonho que Paulo teve com Maria, secretária de seu pai. Pai e filho trabalhavam em salas contíguas e ela ficava na antessala dos gabinetes dos dois, juntamente com outras duas secretárias, Nicole e Amanda.

Comecei. Consegui criar um ambiente, um local – será que as coisas eram assim mesmo na sede de um jornal décadas atrás?

(trecho inicial do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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História, Literatura
A relação entre a História (e a Sociologia) e a Literatura em três romances
27 de janeiro de 2019 at 21:01 0
o grande J.M.Coetzee - fonte: The Nation

Eu não lembro bem onde li que era possível aprender mais sobre a história do Segundo Império (1852-1870) com os romances de Honoré de Balzac (1799-1850) do que com livros de História. De fato, a relação entre a História (e a Sociologia) com a Literatura é um tema bastante rico, e é claro que aqueles voltados ao estudo das duas primeiras ciências humanas tendem a destacar, em algum romance, mais os seus aspectos históricos e sociológicos, enquanto que outros – entre os quais me incluo – estão mais interessados na sua relevância propriamente literária.

Lembrei bastante desses aspectos em três romances que li recentemente: “Nix” (2016), do americano Nathan Hill (Intrínseca, 672 páginas), “Oryx e Crake" (2003), da canadense Margaret Atwood (Rocco, 344 págs.) e “A Infância de Jesus” (2013), do sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 304 págs. – eu li na versão em espanhol, da Literatura Random House).

“Nix” conta a história de Samuel Anderson, um professor de literatura inglesa de cerca de 30 anos de idade que dá aulas numa universidade na região de Chicago, nos Estados Unidos, e que está viciado em um jogo on-line de computador chamado “World of Elfscape”. Sua mãe, Faye, que o tinha abandonado quando este era criança, aparece nos noticiários depois de jogar pedras num candidato ultraconservador, com riscos de cegá-lo. É quando – por motivos um tanto escusos – o filho vai procurar a mãe, depois de anos sem saber notícias dela. Este é o mote principal do longo romance de Nathan Hill, que tem um grande número de outros personagens e que passa por diversas fases da história americana – concentrando-se de maneira especial nas manifestações contra a Guerra do Vietnã em Chicago, em 1968, e no movimento “Occupy Wall Street”, de 2011. A vontade de marcar tanto a obra em termos históricos (com o objetivo de fazer “O Grande Romance Americano”?) e as idas e vindas da narrativa no tempo e no espaço irritam um pouco, mas os personagens criados por Hill são bem construídos e o livro prende a atenção em todas as suas muitas páginas.

Os personagens criados na distopia “Oryx e Crake” são ainda melhores que os de “Nix”: o livro de Margaret Atwood conta a história de um futuro em que ocorre uma grande catástrofe depois que cientistas começam a fazer modificações genéticas em grande escala nos animais e nos seres humanos, e o único sobrevivente do homem conforme conhecemos (há também alguns seres humanoides, criados por manipulação genética) em uma grande região litorânea é um homem que agora tem o apelido de “Homem das Neves”. A ligação com a Sociologia e a História no caso de “Oryx e Crake” é, conforme comentou Bernardo Carvalho na Folha de São Paulo em 3 de abril de 2004, está em que “o discurso de Atwood representa uma preocupação que está no ar hoje (entre ecologistas e ambientalistas sobretudo). É um discurso com mensagens um tanto óbvias, embora não menos pertinentes, que fala de um desdobramento possível: as experiências dos homens com a natureza podem sair do controle e acabar destruindo os próprios homens e o mundo em que vivem.” Conforme complementa Bernardo Carvalho, este é “o ponto mais fraco” do livro, “como se o texto não passasse de um meio para a transmissão das ideias da autora”. A literatura é muito mais que simples transmissão de ideias e, por sorte, “Oryx e Crake” é tão criativo, delirante e bem escrito que o romance é, sim, grande literatura – independentemente das ideias que defende.

Finalmente, “A Infância de Jesus” também uma espécie de distopia, na qual os personagens vão morar numa ilha onde perdem as lembranças de tudo o que ocorreu em sua vida antes da chegada por lá. No local todos vivem em paz e harmonia o tempo todo, ninguém quer ganhar mais do que o mínimo necessário para uma sobrevivência digna, e o sexo tem importância secundária. O recém-chegado Simón é um dos únicos que acham esta “vida nova” muito chata - e tem grandes dificuldades para se adaptar a ela. Ele também leva um garoto, chamado David, para tentar encontrar a sua mãe: Simón não lembra quem ela é, mas acha que vai encontrá-la – e a encontra (ou acha que encontra) em Inés, uma mulher solteira e rica, que, depois de uma estranheza inicial, acaba adotando o garoto. David, que tinha um bom comportamento enquanto vivia com Simón, passa a ter todos os sintomas de alguém muito mimado: mesmo sem saber ler nem fazer contas, não quer aprender porque acha que “já sabe”. Não se adapta na escola, tem dificuldades de concentração, e Inés apoia o garoto em tudo.

E, bem, não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história, que continua em “A vida escolar de Jesus”, que ainda não li. David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes? (E por que, algum engraçadinho poderia perguntar, este livro está sendo comentado aqui?)

“A infância de Jesus” – muito bem escrito, como sempre em se tratando de J.M. Coetzee – é um dos livros mais estranhos que já li.

Vejamos se na sua continuação a coisa passa a fazer algum sentido.

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“Antologia Poética”, de Anna Akhmátova
Literatura
“Antologia Poética”, de Anna Akhmátova
13 de janeiro de 2019 at 14:18 0
A poetisa russa Anna Akhmátova nasceu num subúrbio de Odessa, em 1889, e faleceu em 1966, em Moscou. Morou a vida toda na Rússia, e era considerada uma das melhores e mais populares poetisas do país. (mais…)
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Dois romances
Literatura
Dois romances
23 de dezembro de 2018 at 16:27 0
Dois romances muito bons, duas boas dicas de leitura. Desde muito cedo ouço falar que os romances de Machado de Assis anteriores a “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881) não são lá essas coisas. Qual não foi a minha surpresa quando li “A mão e a luva”, um tempo atrás, e percebi que o livro era tudo, menos ruim. Esta impressão foi reforçada com a leitura recente de “Helena” (Penguin-Companhia das Letras, 280 páginas), outro romance da fase “romântica” do autor. (mais…)
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Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
Literatura
Os livros que eu mais gostei de ter lido em 2018
16 de dezembro de 2018 at 15:12 0
  1. “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki: um painel da vida no Japão em meados do século XX, a história de quatro irmãs, um dos melhores livros que já li.
  2. “Ilíada”, de Homero: o início da literatura ocidental.
  3. “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto: a história do nacionalista patético que queria que o tupi fosse a língua oficial do Brasil é apenas parte deste livro fascinante.
  4. “O Gigante Enterrado”, de Kazuo Ishiguro: um livro de fantasia e grande literatura.
  5. “Confissões”, de Santo Agostinho: não há como superestimar a influência deste livro na literatura, na teologia e na filosofia ocidentais.
  6. “A Descoberta da Escrita”, de Karl Ove Knausgard: o quinto dos seis livros da série “Minha Luta”, do grande escritor norueguês. Quando a Companhia das Letras vai lançar o sexto?
  7. “Un cirque passe”, de Patrick Modiano: uma jovem misteriosa, perdida - e apaixonante.
  8. “A gorda do Tiki Bar”, de Dalton Trevisan: o título já diz tudo. O curitibano em sua melhor forma.
  9. “Hors d’atteinte?”, de Emmanuel Carrère: o vício em jogo, no meio de um casal intelectualizado e vazio, numa história contada com carinho e um pouco de cinismo.
  10. “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca: acho que nunca vou esquecer o impacto dos primeiros contos deste livro.
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