Literatura

“A maçã envenenada”, de Michel Laub
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“A maçã envenenada”, de Michel Laub
20 de novembro de 2020 at 14:46 0
Roberto Bolaño, em seu monumental “2666”, escreveu algo (cito de memória) no sentido de que um conto pode ser perfeito, mas um grande romance deve ter, por definição, imperfeições e exageros – já que a vida não é perfeita mesmo. É interessante pensar nisso: algumas raras vezes eu termino de ler uma história de ficção e penso comigo: “isso aqui foi perfeito”. Um ou outro conto de Cortázar e Alice Munro, quase todo Kafka e mesmo um romance – “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki – me passaram essa sensação de perfeição. E, como Bolaño mesmo dá a entender, achar que uma obra é perfeita não quer dizer necessariamente que ela seja melhor que outras, “imperfeitas” e impactantes. Pensando nisso tudo, comecei a brincar comigo procurando defeitos nos meus livros preferidos, e foi mais ou menos simples: vá lá, “Ada ou Ardor”, de Nabokov, o já citado “2666”, de Roberto Bolaño, “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, a série “Minha luta”, de Karl Ove Knausgard ou mesmo a poesia de Georg Trakl têm lá seus trechos chatos, normalmente ausentes das obras “perfeitas”. Enfim, tudo isso para falar que “A maçã envenenada”, do gaúcho Michel Laub (Companhia das Letras, 120 páginas, publicado originalmente em 2013), que conta basicamente a história do relacionamento atormentado entre o narrador da história e sua primeira namorada, sobre o qual o show do Nirvana em São Paulo em 1993 teve papel importante, é basicamente uma rara história “perfeita” - e que li de uma sentada. Lindo demais. (foto de Michel Laub obtida no site da Companhia das Letras)
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“O mapa e o território”, de Michel Houellebecq
Literatura
“O mapa e o território”, de Michel Houellebecq
26 de outubro de 2020 at 13:17 0
Jed Martin é um artista plástico de sucesso, tendo feito uma exposição com fotos de ferramentas e outra com montagens de fotos de mapas Michelin, e é o personagem principal de “O mapa e o território”, do escritor francês Michel Houellebecq (Editora Record, tradução de André Telles, 400 páginas, publicado originalmente em 2010 e vencedor do Prêmio Goncourt). Quando vai fazer sua primeira exposição de pinturas – cujo principal tema é o trabalho, e na qual o maior destaque é um quadro chamado “Bill Gates e Steve Jobs discutem o futuro da informática” - ele resolve chamar o escritor Michel Houellebecq para fazer o texto do catálogo. Sim, Houellebecq acaba aparecendo no próprio livro como personagem e não de maneira elogiosa – solitário, amargurado, sem higiene, alcoólatra. Jed Martin é solitário, compenetrado e tem alguns relacionamentos amorosos - mas nada muito profundo. Grande parte de “O mapa e o território” é dedicado à descrição de sua arte, e é pena que o assunto “artes plásticas” não chegue a me interessar muito. Enfim, pela temática, pelo personagem principal e pela história este livro teria tudo para me desagradar, mas não foi o que aconteceu. Afinal de contas, que escritor sensacional é Michel Houellebecq! Li “O mapa e o território” com grande prazer, e não me entediei em nenhuma das suas 400 páginas. (foto: france-amérique.com )
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“Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, de Ottessa Moshfegh
Literatura
“Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, de Ottessa Moshfegh
11 de outubro de 2020 at 22:11 0
A moça que é a personagem principal e narradora de “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, de Ottessa Moshfegh (Todavia, 240 páginas, tradução de Juliana Cunha, lançado originalmente em 2018), é uma jovem adulta linda, loira, alta, rica, e se formou com louvor em Arte pela Universidade Columbia. É também órfã - tanto seu pai quanto sua mãe eram distantes e ausentes – e apaixonada por Trevor, um homem alto e atraente que nunca lhe deu muita atenção. Sua única amiga, Reva, é bulímica e – segundo a narradora do livro – chata e meio burra. Trabalhando entediada numa galeria de arte em Nova Iorque e cansada do trabalho, dos egos inflados dos artistas ao redor e da vida em geral, ela resolve passar um ano sabático – até porque a herança que recebeu dos pais não a faz ter preocupações com dinheiro. Só que não é um ano sabático comum: ela quer ficar chapada o tempo todo. Para isso, ela arranja – na lista telefônica – uma psiquiatra que lhe dá receitas para todos os remédios que quer, ao mesmo tempo que não se lembra de quase nada que sua cliente lhe fala. A quantidade de remédios controlados que ela toma é absurda, e boa parte do livro de Ottessa Moshfegh – que é filha de uma mãe croata e de um pai iraniano - descreve os efeitos de cada um deles: nomes como Notuss, Buspirona, Stilnox, Donaren, Remeron, Valium, Seroquel, Imovane, Frontal, Neuroproxin, Gardenal e Zyprexa (alguns reais, outros inventados, segundo a crítica de Clara Balbi na Folha de São Paulo de 9 de agosto de 2019) aparecem a todo momento. E é com uma substância fictícia, Infermiterol, que a coisa pega de verdade. Embora algumas pessoas tenham achado “Meu ano de descanso e relaxamento” um livro divertido, para mim foi uma leitura opressiva. Um livro original e que conta com maestria um mergulho depressivo num abismo da mente humana. (foto da autora obtida no jornal Folha de São Paulo)
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“Tudo pode ser roubado”, de Giovana Madalosso
Literatura
“Tudo pode ser roubado”, de Giovana Madalosso
27 de setembro de 2020 at 18:51 0
Como o próprio nome indica, Giovana Madalosso faz parte da família proprietária do excelente e tradicional restaurante aqui da capital paranaense. Mas ela não quis saber de panelas e polentas, conforme o texto publicado na Gazeta do Povo por Reinaldo Bessa em 6/10/2016. Formada em jornalismo pela UFPR, ela mora há muitos anos em São Paulo e já publicou três livros de ficção, sendo este “Tudo pode ser roubado” (Todavia, 192 páginas, lançado originalmente em 2018) seu primeiro romance. O livro conta, em primeira pessoa, a história de uma garçonete que atende num restaurante chique na Avenida Paulista, e que se aproveita de sua beleza física para levar pessoas para a cama (mais homens, mas também mulheres) e roubar coisas delas. Aliás, não só de quem faz sexo a garçonete (apelidada de “Rabudinha”) rouba: ela pode furtar objetos numa reunião social, por exemplo. Boa parte do que ela vai catando aqui e ali ela vende num brechó chique no bairro paulistano de Pinheiros cuja dona é uma transexual chamada Tiana. A narrativa de “Tudo pode ser roubado” é circular: a garçonete rouba alguma coisa, vende e rouba de novo. Mesmo o grande roubo no qual ela se mete – de uma obra rara do romancista José de Alencar – segue mais ou menos essa lógica - só que mais elaborada neste caso. O final da história também não apresenta grandes surpresas. De todo modo, “Tudo pode ser roubado” é extremamente bem escrito e agradável de ler. (fonte da foto: Folha de São Paulo)
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Literatura
“Zonas húmidas”, de Charlotte Roche
13 de setembro de 2020 at 16:26 0
Charlotte Roche - Wikipédia

O título do presente texto é “Zonas húmidas”, e não isto é um erro de digitação. A edição que li deste romance da alemã Charlotte Roche é de Portugal (CADERNO, 222 páginas, tradução de João Bouza da Costa), e lá “úmido” se escreve com “h” mesmo. Como o livro é permeado de gírias, é ao mesmo tempo engraçado e angustiante para um brasileiro ler vários termos um tanto difíceis de compreender. 

Publicado originalmente em 2008, o livro - muito bem escrito, aliás - conta a história de Helen, uma adolescente que está no hospital por causa de uma crise de hemorróidas. Enquanto está lá, sofrendo com dores, ela descreve e analisa seu dia-a-dia no hospital e comenta sua vida até então.

Helen é obcecada por secreções corporais e por sexo, e critica a “mania de higiene” de outras mulheres - ela mesma não se preocupa, nem um pouco, com limpeza corporal. 

Segundo o site da Amazon, “os jornais relataram desmaios de ouvintes em leituras públicas” de “Zonas húmidas” - e até dá para entender um pouco isso, já que frequentemente o livro é nojento mesmo.

Mas o maior impacto do romance nem está na escatologia, mas na história da própria Helen - e é esse aspecto, que não posso contar para não estragar a surpresa, uma das coisas que fazem de “Zonas húmidas” um ótimo romance.

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Literatura
“Sobre os ossos dos mortos” de Olga Tokarczuk
30 de agosto de 2020 at 18:59 0
Olga Tokarczuk Folha de São Paulo

Janina Dusheiko era uma engenheira especialista em projetos de pontes que, por motivo de graves dores não bem diagnosticadas, resolve largar tudo e morar num pequeno povoado na Silésia, Polônia - quase junto à fronteira com a República Tcheca. Lá ela cuida das casas das pessoas que têm casas de veraneio, das quais saem nos meses frios, e dá algumas aulas de inglês para crianças. Janina é a narradora e a personagem principal de “Sobre os ossos dos mortos” (Todavia, 256 páginas, lançado originalmente em 2009), romance da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de 2018.

No pequeno povoado Janina Dusheiko causa problemas para os caçadores e para a polícia – para quem manda enormes cartas se queixando das atividades ilegais daqueles. Vegetariana e astróloga amadora, ela odeia todos os que fazem mal para os animais e tenta achar uma razão para os acontecimentos e para as personalidades das pessoas nos astros. À medida que o romance transcorre, algumas pessoas que ela odeia – caçadores, policiais, pessoas envolvidas em atividades ilegais – morrem de forma misteriosa. A explicação dela é tão estranha quanto ela própria: a assassina é a própria Natureza se vingando dos homens maus por meio de animais se unindo e partindo para a ação. Outra característica de Janina Dusheiko é chamar todas as pessoas mentalmente por apelidos que ela mesma inventa.

Olga Tokarczuk conta magistralmente esta história ao mesmo tempo farsesca e sombria, e é brilhante nas suas descrições: a cada vez que lembro do livro me vem a imagem de neve por todos os lugares, com casas sofrendo com as intempéries – e um pouco de sangue aqui e ali.

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Literatura, Obra Literária
Novo livro – Rua Paraíba
29 de julho de 2020 at 13:11 0

Nos próximos meses vou publicar um livro chamado "Rua Paraíba", pela editora do meu amigo Sandro Bier, a Café do Escritor. Ele é composto por três livros autobiográficos escritos entre 2016 e 2019. Segue o prefácio, para dar uma ideia da 'coisa:

“Rua Paraíba” e “Energia” eu escrevi aí pelo ano de 2016, e “Memórias” é mais recente, terminei em 2019.

A ideia de “Rua Paraíba” era escrever sobre o meu período inicial no casamento: minha profissão, meu dia-a-dia, o nascimento da filha, meu trabalho como hidrólogo. “Energia” teria mais a ver com meus primeiros anos como especialista em estudos energéticos e sobre minha visão sobre política e economia – que não mudou muito de lá para cá, diga-se de passagem, por mais que meu interesse no assunto tenha diminuído de maneira significativa. Já “Memórias” seria um livro com recordações esparsas e textos que eu já tinha colocado no meu blog (fabriciomuller.com.br/wp/), cada um deles ocupando meia página, no máximo (objetivo que eu não consegui cumprir inteiramente).

Relendo os três livros, reunidos aqui, percebi que consegui mais ou menos o que queria: falar da minha vida e da minha profissão de maneira aleatória – mas não sei se isso é algo de que eu deveria me orgulhar.

De todo modo, a releitura dos três trabalhos me deixou meio assustado num ponto: em como a música pop permeia a obra como um todo. Sei lá se por uma espécie de autoengano, eu não achava que isso era tão evidente.

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Literatura
“Kim”, de Rudyard Kipling, e outras leituras
13 de junho de 2020 at 10:48 0
Kristen Roupenian - The New Yorker

“Kim”, de Rudyard Kipling (Companhia Editora Nacional, tradução de Monteiro Lobato, 299 páginas, publicado originalmente em 1901): considerada a obra-prima do inglês Kipling, Nobel de Literatura de 1907, “Kim” conta a história da personagem-título, um garoto órfão morando na Índia, filho de um soldado inglês e de uma irlandesa que morreram na miséria. De esperteza e inteligência incomuns, o garoto tem contato com um enorme número de pessoas, passando por inúmeras aventuras. O estilo de Kipling é um pouco truncado – a história passa de um acontecimento a outro de forma frequentemente brusca –, mas “Kim”, pela descrição vívida que faz da vida na Índia, merece toda a fama que tem.

“Kurt Cobain and Nirvana - Updated Edition: The Complete Illustrated History”, diversos autores (Voyageur Press, 208 páginas, publicado originalmente em 2013): ricamente e ilustrado, o livro se concentra mais na história da banda de Kurt Cobain do que no seu vocalista e guitarrista, e tem detalhes muito interessantes – como textos em separado sobre cada álbum do Nirvana e pequenos comentários sobre cada um dos cinquenta discos preferidos do compositor de “In Bloom”. Um prato cheio para fãs e um livro tão bonito que pode perfeitamente servir de enfeite na sala.  

“Essa gente”, de Chico Buarque (Companhia das Letras, 200 páginas, publicado originalmente em 2009): Manuel Duarte é um escritor que fez muito sucesso em seu livro de estreia, mas que está com a carreira estagnada e, pior que isso, numa crise criativa. Com idas e vindas, “Essa gente” tem trechos muito engraçados e outros de uma amargura sutil – principalmente quando fala da virada à direita que o país deu nos últimos anos. Por sorte, como grande escritor que é, em “Essa gente” Chico Buarque fugiu totalmente da literatura puramente política e escreveu (mais) uma pequena obra-prima.

“A vida escolar de Jesus”, de J.M.Coetzee (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 227 páginas, publicado originalmente em 2013): já escrevi aqui sobre “A Infância de Jesus”, primeira parte deste livro: “não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história (...). David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes?” Continuo sem entender o que J.M.Coetzee quer com esta história – nesta continuação, David vai para uma aula de dança ao invés de estudar como as outras crianças -, mas, pelo menos, quando comecei “A vida escolar de Jesus” eu já estava esperando ler um livro muito estranho.

“Cat person e outras histórias”, de Kristen Roupenian (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe, 251 páginas, publicado originalmente em 2019): publicado na revista New Yorker em 2017, o conto que dá nome a esta coletânea – que conta a história de uma moça que faz sexo sem vontade com um homem mais velho com quem estava flertando - fez furor no mundo inteiro (procure por “Cat person” na internet para saber do que estou falando). Os doze contos do livro são extremamente bem escritos e prendem a atenção do leitor – mas a autora frequentemente exagera nas tintas sombrias.

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