Literatura

Livros vencedores do Prêmio Jabuti de 2006
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Livros vencedores do Prêmio Jabuti de 2006
4 de julho de 2021 at 03:18 0
O Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro desde 1959, é o mais tradicional e importante prêmio literário do país. Os resultados do prêmio de 2006 foram anunciados recentemente, e alguns dos livros mais bem classificados em categorias importantes são comentados a seguir, e são ótimas dicas de leitura. Aclamado pela crítica com uma das melhores obras escritas no Brasil nos últimos anos, Cinzas do Norte, do amazonense Milton Hatoum (Companhia das Letras, 312 páginas), venceu o Prêmio Jabuti na categoria de melhor romance. O livro se passa na cidade e nos arredores de Manaus, a partir do final dos anos 50, e conta a história de um artista plástico fracassado, Mundo (apelido de Raimundo). O mote principal da obra é a relação de ódio entre ele e seu pai, Jano (apelido de Trajano) Mattoso, um fazendeiro riquíssimo que simplesmente não tolera a idéia de que o rapaz não herde a administração de seus negócios e que se envolva com arte. O romance é contado em primeira pessoa pelo melhor amigo de Mundo, Lavo, que é sobrinho de Ranulfo, um homem pouco afeito ao trabalho - e amante da mãe de Mundo, Alícia. Esta praticamente não suportava o marido e tentava - muitas vezes sem sucesso - defender o filho das violentas invectivas de seu pai, Jano. Para poder suportar o constante e profundo clima de ódio que existe na enorme casa - um verdadeiro palacete - Alícia se refugia no jogo, na bebida, e nas tórridas relações sexuais com Ranulfo. Um acontecimento de grande importância no desenvolvimento do romance  é o golpe militar de 64: ecos do autoritarismo vigente - por exemplo, surras dadas por militares contra os inimigos dos poderosos ou do regime - pipocam a todo momento no livro. Cinzas do Norte descreve a decadência patrimonial e familiar dos Mattoso. Ao mesmo tempo em que o ódio recíproco entre filho e pai vai aumentando e minando qualquer possibilidade de harmonia e de relacionamento (mesmo que somente respeitoso) entre eles, a juta - base da fortuna de Jano - vai perdendo valor no mercado internacional. A decadência é mostrada de maneira aguda e sem nenhuma condescendência por Milton Hatoum, que parece não ter piedade de seus personagens: à medida que a situação vai ficando mais e mais insustentável, o pai vai perdendo a saúde e o filho, a sanidade. Cinzas do Norte é poderoso, extremamente bem escrito, e conta com personagens inesquecíveis. É um livro inquietante que, além de mostrar como poucos a decadência moral de uma família, é o retrato de uma época turbulenta do país e de uma região. Também na categoria romance, ficaram empatados em segundo lugar Menino Oculto, de Godofredo de Oliveira Neto (Record, 222 páginas) e Meninos no Poder, do paranaense Domingos Pellegrini (Record, 288 páginas). Assim como em Cinzas do Norte, em Menino Oculto o personagem principal, chamado Aimoré Seixas, é um artista plástico. Só que, ao contrário do personagem Mundo do outro romance, que queria criar uma obra original, a principal atividade artística de Seixas é a falsificação de pinturas. O livro todo é uma entrevista gravada que alguém, que acabamos sem saber quem é, faz com o artista no intuito de saber onde estava um pedaço - o qual representava um menino - de uma obra que ele falsificou. Definitivamente não é nada fácil entrevistar Aimoré Seixas, e seu entrevistador se exaspera diversas vezes ao longo do romance. O artista, ao invés de dizer diretamente onde estava a tal pintura, fica se perdendo em reminiscências, que mostram uma personalidade próxima da esquizofrenia. Seixas comenta a respeito de diversos assassinatos que cometeu ao longo dos anos, obrigado por entidades espirituais que moram na baía de Babitonga, em Santa Catarina - o artista viveu em São Francisco do Sul e no Rio de Janeiro na maior parte de sua vida. Além disso, o falsificador também é obcecado em consultar Baltazar, um velho cego que vive na beira da baía e que fala em coisas como lobisomens e possessões demoníacas. Outro assunto recorrente de Seixas são suas peripécias sexuais com diversas amantes, principalmente com aquela que mais o obcecou, uma mulher chamada Ana. Mas nem só de esquisitices funciona a cabeça do falsificador: ele tem um vasto conhecimento de música popular e erudita contemporâneas, sabe diversos poemas e romances de cor e é professor de literatura. Com uma narrativa caótica e com um final próximo do thriller, Menino Oculto é um livro inquietante, que faz o leitor penetrar fundo na mente de um louco brilhante. Pode não ser para todos os gostos, mas certamente mereceu a segunda colocação no Jabuti. Se os dois livros citados anteriormente têm uma atmosfera pesada e sombria, o livro que ficou empatado com Menino Oculto em segundo lugar, Meninos no Poder, de Domingos Pellegrini, tem um clima bem mais leve. No romance, Caboré, um radialista de uma cidade brasileira que não é nomeada, recebe a visita de um tal Ari, um baixinho de personalidade inquieta e cheio de idéias originais a respeito de como deve ser gerida a administração da cidade. Para colocá-las em prática ele tenta convencer Caboré a se candidatar prefeito. O radialista reluta bastante em aceitar o convite, mas como as idéias do baixinho pareciam factíveis e, honestas e, principalmente, poderiam ajudar a vida do povo se postas em prática, ele acaba aceitando. E a campanha começa. Aos poucos Caboré vai percebendo que, por mais que pregasse princípios honestos e transparentes, Ari não agia  exatamente como um político diferente da maioria. A dúvida sobre o real caráter do baixinho perpassa a maior parte da obra - e é melhor não contar mais nada para não estragar a surpresa. Meninos no Poder é um livro ágil, bem escrito, com muitas reviravoltas e cheio de boas intenções - o que, no caso específico deste romance, é uma qualidade literária e não um defeito. Outra boa sugestão de leitura é o primeiro colocado na categoria "Biografia" do Prêmio Jabuti, Carmen, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 632 páginas). Detalhada biografia de Carmen Miranda, a mais famosa brasileira do século XX, o livro é escrito com o estilo envolvente do autor, que já escreveu, entre outras, ótimas biografias de Garrincha, Nelson Rodrigues e o já clássico Chega de Saudade, sobre a bossa nova. (texto publicado no suplemento dominical do jornal O Estado do Paraná em 2006 - fonte da foto: Revista Veja)
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“Vernônia”, de William Kennedy
Literatura
“Vernônia”, de William Kennedy
13 de junho de 2021 at 13:12 0
Eu lembro, nos anos 1980, o quanto eu tinha gostado de “Vernônia”, do escritor americano William Kennedy (Francisco Alves, 239 páginas, tradução de Sonia Botelho), e resolvi recentemente reler o romance, do qual lembrava muito pouco. Além de sucesso de crítica na época - ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 1984 -, o livro teve sua versão cinematográfica lançada em 1987, chamada por aqui pelo título original “Ironweed”, dirigida por Hector Babenco, com Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais. “Vernônia”, cuja primeira edição é de 1983, conta a história de dois mendigos nos anos 1930, Francis Phelan, e sua namorada – ou coisa parecida – Helen. Os dois poderiam ter tido outro destino: ele tinha sido jogador de beisebol profissional, ela tinha sido cantora, tendo inclusive estudado em conservatórios - mas tanto o alcoolismo quanto a Crise de 29 acabou levando os dois para a mendicância. Além disso, Francis teve problemas particulares muito sérios, que voltam frequentemente à sua memória. Na releitura, “Vernônia” me pareceu um livro mais meloso do que poético, decepcionante enfim. Será que não sou só eu que tenho essa opinião e é por isso que quando fui procurar sobre o romance e seu autor em arquivos online de jornais e na internet eu não achei quase nada?
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“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
Literatura
“Crimes à moda antiga”, de Valêncio Xavier
13 de junho de 2021 at 12:52 0
Crimes à Moda Antiga (Publifolha), o mais recente livro do paulista radicado em Curitiba Valêncio Xavier, é composto por oito contos que descrevem crimes que aconteceram no Brasil do início do século 20. O livro é um mergulho nos becos mais obscuros da alma humana. Em muitos dos contos, os assassinos matam por motivos mais ou menos insignificantes, mostrando o pouco apreço que têm pela vida alheia. Assim são os crimes causados pela cobiça dos ladrões em “Os Estranguladores da Fé em Deus” e “Gângsteres Num País Tropical”; pelo ciúme em “O Outro Crime da Mala”; pela honra ultrajada e orgulho ferido em “A Noiva Não Manchada de Sangue”; pela certeza de impunidade dada pela riqueza em “O Crime de Cravinhos”. Além disso, duas histórias de Crimes à Moda Antiga se destacam pela violência extrema. Em “O Crime do Tenente Galinha”, tanto os assassinos quanto o assassinado (o tal Tenente Galinha) chegam a níveis absurdos de maldade e agressividade. “Aí Vem o Febrônio” é uma impressionante descrição da mente de um psicopata com delírios religiosos. Cada conto tem, em média, vinte páginas e é dividido em vários pequenos capítulos de mais ou menos uma página cada um. A narrativa é ágil e rápida – e exige bastante atenção por parte do leitor, dada a grande quantidade de detalhes apresentados em cada história. Já o aspecto visual de Crimes à Moda Antiga é importante mas não fundamental. As interessantíssimas ilustrações – feitas por Sérgio Niculitcheff e pelo próprio Valêncio Xavier, ao modo daquelas do início do século passado – servem mais como complemento do que como parte indispensável à compreensão das histórias - ao contrário do que ocorria em obras anteriores do autor, como O Mêz da Grippe, Maciste no Inferno e O Minotauro (in: O Mêz da Grippe e Outros Livros, Companhia das Letras, 1998). O estilo de Valêncio é impessoal, próximo da literatura e do jornalismo policiais –utilizando também, com maestria, diferentes técnicas descritivas. “Os Estranguladores da Fé em Deus”, por exemplo, apresenta, de maneira extensiva, os depoimentos judiciais (sempre entre aspas) dos criminosos para a descrição de seus próprios crimes. Um trecho de “A Noiva Não Manchada de Sangue” é composto apenas pelas falas da criminosa (entre aspas) e pelas reflexões do delegado (em negrito). Em alguns contos, as frases mostrando os pensamentos ou falas dos personagens surgem sem apresentação – e de maneira intermitente – no meio da descrição fria dos crimes. Assim aparecem em itálico raciocínios do suspeito em “A Mala Sinistra” e os delírios do assassino em “Aí Vem o Febrônio”, além das declarações em negrito do assassino José Pistone em “O Outro Crime da Mala”. A mistura de histórias escabrosas, narrador impessoal – que raramente julga seus personagens – e diferentes técnicas narrativas dá uma sensação de estranheza no leitor. É como se Valêncio Xavier nos transportasse para um angustiante universo paralelo, onde crimes estúpidos fossem a coisa mais normal do mundo. Bate-papo com Valêncio Xavier As histórias de Crimes à Moda Antiga são reais? São sim. Para me informar a respeito fui diversas vezes a São Paulo, para visitar tanto o Arquivo Oficial do Estado quanto a Biblioteca Pública de lá. Eu não podia inventar nada, pois sempre há o risco de ser processado. Para pesquisar sobre o crime ocorrido em Curitiba (do conto “Gângsteres Num País Tropical”) fui na Biblioteca Pública daqui. Algumas histórias são realmente escabrosas... Sim, a Sinhazinha Junqueira de “O Crime de Cravinhos ou da Rainha do Café”, por exemplo, era uma mulher muito rica, fazendeira de imensas posses. Ela comprava quem queria. Espantosa também foi a história de “Aí Vem o Febrônio”... Para mim, a história deste assassino psicopata com delírios religiosos é a mais impressionante de todas. Realmente, esta é assustadora. Fiz até um livro sobre este caso. Pode-se encontrar este livro nas livrarias? Não, está fora de catálogo há muito tempo já. Um fato que sempre é salientado é a preocupação com a parte gráfica de seus livros. Com certeza. Tudo o que você vê em Crimes à Moda Antiga – como desenhos, ilustrações e formatos de letras (negrito, itálico, etc) – já sai pronto daqui para a editora. Eles não mudam nada. São muito interessantes as ilustrações do livro. Eu fiz algumas ilustrações, conforme mostra o encarte. Mas a maioria foi feita pelo meu sobrinho, Sérgio Niculitcheff. E a técnica que ele mais usou foi desenho a partir de fotos de jornal. A maioria dessas ilustrações é baseada na realidade? Sim, a maioria é. O desenho da cama que aparece na primeira ilustração do conto “A Morte do Tenente Galinha”, por exemplo, é baseado totalmente na cama em que ele realmente morreu. E os símiles de jornais que aparecem em “O Outro Crime da Mala”? São reais, então? Sim. Tudo obtido em minhas viagens a São Paulo.  (publicado anteriormente no Mondo Bacana)
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“Solução de Dois Estados”, de Michel Laub
Literatura
“Solução de Dois Estados”, de Michel Laub
16 de maio de 2021 at 22:49 0
Raquel e Alexandre Tommazzi são dois irmãos que se odeiam. Ele acusa a irmã, uma artista performática obesa de cento e trinta quilos, de ter dilapidado o patrimônio da família. Ela acusa o irmão, dono de uma rede de academias ligadas a uma igreja evangélica, de ser miliciano. Os dois estão sendo entrevistados por Brenda Richter - uma alemã que perdeu o marido, que trabalhava numa ONG e foi assassinado numa comunidade do Rio de Janeiro – para um documentário chamado “Solução de Dois Estados”, nome de um romance recentemente publicado por Michel Laub e que é tema do presente texto (Companhia das Letras, 248 páginas). Alguns acontecimentos são citados frequentemente na obra: o bullying que Raquel tinha sofrido na infância e adolescência, quando era chamada de Vaca Mocha pelos colegas de escola; a falência do pai dos dois irmãos, causada pelo Plano Collor; a surra que ela levou de um seguidor de Alexandre quando foi se apresentar, nua, no auditório de um hotel; a carreira pornográfica da Raquel, que apanha diante das câmeras com fins artísticos; as joias que o irmão acusa a irmã de ter roubado; a ascensão financeira de Alexandre, ligada à igreja evangélica da qual participa e à sua academia; o enterro da mãe dos dois, quando Raquel xinga o irmão diante de todos. A narrativa do romance é circular, com fatos indo e voltando todo o tempo. “Solução de Dois Estados” é um livro claustrofóbico, cheio de ódio em quase todas as suas páginas, sem nenhum espaço para esperança ou conciliação. Se alguém pensar na política brasileira em 2021, bem, a sua influência no romance é óbvia e declarada – por mais que os acontecimentos do livro se passem em 2018, antes da pandemia do coronavírus.
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“A morte de Bunny Munro”, de Nick Cave
Literatura
“A morte de Bunny Munro”, de Nick Cave
9 de maio de 2021 at 17:38 0
Logo no início de A morte de Bunny Munro (Editora Record, 352 páginas), segundo romance do cantor australiano Nick Cave (o primeiro se chama And the ass saw the angel) o protagonista recebe um telefonema de sua mulher, em profunda crise depressiva, enquanto uma prostituta lhe faz sexo oral num hotel - perto de sua casa, onde está Liby, sua mulher, aliás. Bunny Munro não sai correndo para tentar ajudar a mulher, que toma remédios fortíssimos para aplacar seus problemas mentais, mas fica no hotel até o dia seguinte. Liby se suicida na mesma noite. Quando volta para casa, Munro - que é um daqueles vendedores de porta em porta de produtos de beleza femininos - vê sua casa de pernas para o ar, a mulher enforcada e seu filho, sem assistência nenhuma, assustado. Os problemas de Bunny Junior, o filho do protagonista, de nove anos, estão apenas começando. Seu pai não tem a menor ideia de como criar o filho. Tenta empurrá-lo para a mãe de Liby, mas esta, numa crueldade injustificável, diz que não pode ficar com o garoto já que este lhe lembra o genro, que ela odeia com todas as suas forças. Então começa o sofrimento do menino - A morte de Bunny Munro se lê com angústia. A única coisa que realmente importa para o vendedor de produtos de beleza é o órgão sexual feminino. Homem atraente e sedutor, ele tenta fazer sexo com grande parte das mulheres que passam pela sua frente - e muitos de seus pensamentos são utilizados em fantasias sexuais com mulheres famosas: ele tem desejos tão explícitos com Kylie Minogue e Avril Lavigne que Nick Cave chega a pedir desculpas para elas no final do livro. Além disso, ele é praticamente alcoólatra, bebendo sem parar. Um homem tão bêbado e obcecado por sexo realmente não está preparado para cuidar de um garoto de nove anos. Bunny Junior tem um problema sério na vista, mas não consegue fazer seu pai ouvi-lo pedir o colírio que pode impedi-lo de ficar cego. Sem ter com quem deixar o garoto, o pai sai pela cidade atrás de clientes e de sexo. O menino, nestas aventuras, fica esquecido dentro do carro. O seu pai fica cada vez mais maluco, e acaba morrendo - como promete o título do livro, aliás (tenho de confessar, com certa vergonha, que às vezes ficava torcendo para o personagem morrer de uma vez, para acabar o sofrimento). O final do livro utiliza o sobrenatural para dar um fio de esperança para o leitor - e Nick Cave faz isso com maestria, o que nem sempre é fácil. A morte de Bunny Munro me lembra dois clássicos da literatura, por dois motivos diferentes. O primeiro é Pelos olhos de Maisie, de Henry James (Companhia das Letras/Penguin), pelo sofrimento atroz que aqueles que deveriam cuidar dos filhos às vezes inflingem nestes. O segundo é O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (Companhia das Letras). Tanto o livro do grande escritor judeu americano quanto A morte de Bunny Munro revelam "pensamentos calhordas que os machos têm em relação às fêmeas, mas dificilmente saem falando por aí", no dizer de Thales de Menezes na crítica do livro de Nick Cave (Folha de São Paulo, 28 de agosto de 2010). (texto anteriormente publicado no Mondo Bacana)
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“O fim”, de Karl Ove Knausgård
História, Literatura
“O fim”, de Karl Ove Knausgård
18 de abril de 2021 at 13:37 0
Reconheço aqui que eu acessava o site da Companhia das Letras algumas vezes por mês para ver se finalmente tinha sido publicado em português o sexto e último volume da série de autoficção “Minha luta”, do norueguês Karl Ove Knausgård. Depois de uma longa espera, finalmente saiu “O fim” – título em português do livro tão aguardado, com tradução de Guilherme da Silva Braga –, e aí entendi por que o negócio demorou tanto (o anterior, chamado por aqui de “A descoberta da escrita”, tinha sido lançado por aqui em 2017): o sexto volume da série que catapultou Knausgård para o sucesso mundial tem 1054 páginas. Eu nem sei o tamanho da letra da edição impressa, já que eu li o livro no Kindle, mas tenho impressão, a partir de rápida folheada numa livraria, de que ela é pequena. Um romance realmente muito longo. Em “O fim” Knausgård dá muitos detalhes do medo que ele sentiu por ter apresentado fatos íntimos sobre diversas pessoas conhecidas nos romances anteriores da série, como a depressão da esposa e o processo que um tio ameaçou mover contra ele. Outro tema recorrente é a sua rotina como pai de três crianças, duas meninas e um menino, e a dificuldade da esposa em lidar com seu papel de mãe. Tudo isso com o estilo fascinante e ultradetalhado de Knausgård, que pode usar mais de cem páginas para descrever um jantar sem nunca parecer chato ou repetitivo. Mas “O fim” tem também um número enorme de páginas de teor ensaístico, de excelente qualidade aliás, nas quais se destacam dois temas: a análise de um pequeno poema do romeno, radicado na França, Emil Cioran, e a análise do livro “Minha luta” original, de Adolf Hitler, e do nazismo como um todo. Enfim, a leitura do ciclo “Minha luta” de Knausgård acabou. E eu tenho mais um livro dele aqui em casa, de nome “Winter”, mais recente e de outro ciclo chamado, na tradução em inglês, de “Seasons Quartet”. Será que eu o leio em inglês mesmo, arriscando a perder alguma coisa do sentido, ou fico entrando de novo no site da Companhia das Letras para ver se eles o publicam por aqui em português?
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“Cassino Hotel”, de André Takeda
Literatura
“Cassino Hotel”, de André Takeda
15 de abril de 2021 at 00:48 0
João Pedro é um guitarrista que fez muito sucesso, nos anos 80, com a banda gaúcha Gol. Depois da dissolução do grupo, passou a sobreviver como músico acompanhante de vários cantores de quem antes "falara mal em festas promovidas por socialites que faziam de tudo para passar de modernas". Quando Cassino Hotel, o segundo romance de André Takeda (Editora Rocco, 196 páginas), começa, ele é o guitarrista do conjunto de Mel X – nome artístico da cantora pop Melissa, uma menina recém-saída da adolescência, filha de um cantor sertanejo de sucesso (alguém aí pensou em Sandy ou Wanessa Camargo?). O complicador de tudo vem agora: João Pedro mantem um tórrido caso de amor com Mel X e o pai dela não gosta nada da história (alguém aí pensou nos pais de Sandy ou Wanessa Camargo?), principalmente devido ao passado de excessos do guitarrista. Pressionado pelo pai da cantora para que abandone o romance com Melissa, João Pedro toma uma decisão radical. Foge de São Paulo, onde participaria de um show dali a alguns dias, para a praia do Cassino, no litoral gaúcho – "o mais feio de toda a costa brasileira". E é lá, no Cassino Hotel, que João Pedro, com enormes dificuldades pessoais, começa a enfrentar os problemas do passado. Isto por que no hotel estão hospedados Letícia, a namorada que abandonara quando ela não quis se mudar para São Paulo com ele; seu ex-melhor amigo Mateus, agora casado com a mesma Letícia; e, principalmente, o seu pai, com quem o guitarrista havia perdido totalmente o contato – a família nunca se recuperara totalmente da perda de Cibele, irmã de João Pedro, quando ambos ainda eram crianças. Escrito em primeira pessoa, o livro é uma espécie de catarse para João Pedro – que, sintomaticamente, faz aniversário de trinta anos na ocasião. Voltando a ter contato com pessoas fundamentais do seu passado, o guitarrista é obrigado a enfrentar o fato de que sempre preferira escapar dos problemas a enfrentá-los: por isso a fuga nas drogas e no álcool, os quais [antes da parada definitiva, aos 27 anos] quase tinham acabado com sua vida. Passando por avanços e retrocessos, coragens e covardias, os diferentes estados de espírito de João Pedro são apresentados para o leitor. Mas, apesar de tanta tensão e insegurança, o livro termina esperançoso. Cassino Hotel é uma obra intensa, profundamente emocional e bem escrita- você a lê praticamente de um fôlego. Alguns trechos nos quais Takeda fala com o leitor [por exemplo, quando ele diz lá pelas tantas: "Você é capaz de ler? Você é capaz de decifrar? Você é capaz de me aceitar? Sem preconceitos, por favor"] parecem perfeitamente dispensáveis. E parte do Apêndice 2, onde ele escreve que o romance "não seria possível" sem a ajuda de vários grupos de música pop, está muito mais para texto de de blog do que para texto impresso – parto do óbvio pressuposto que o livro seria, sim, possível sem a ajuda das bandas citadas. Entretanto, isso em nada atrapalha o verdadeiro prazer que temos ao ler Cassino Hotel. (Texto publicado anteriormente no Mondo Bacana; fonte da foto: Buenos Porteños: André Takeda)  
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“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
Literatura
“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
14 de março de 2021 at 19:16 0
Shmuel Ash parece um urso de história em quadrinhos: é gordo, tem as barbas grandes e desgrenhadas, é gentil e meio atrapalhado – e não consegue prestar atenção no que os outros dizem. Ele vive na parte judia de Jerusalém no ano de 1959 – o estado de Israel tinha sido fundado pouco mais de uma década antes – e está passando por graves problemas: seus pais entram em falência e não vão mais conseguir pagar seus estudos e, como se não bastasse, sua noiva deixa dele e o troca por um hidrólogo “especialista em captação de águas pluviais”. Sem saber o que fazer da vida, consegue um trabalho em que tudo o que tem que fazer é companhia, por seis horas por dia, a Gershom Wald, um senhor muito culto que adora conversar. Além dele, na casa também mora Atalia, uma mulher de meia idade por quem Shmuel acaba se apaixonando. Ash é o personagem principal de “Judas”, do escritor israelense Amós Oz (eu li em espanhol, publicado pela Siruela, com 303 páginas e traduzido por Raquel García Lozano – a versão em português é da Companhia das Letras), publicado originalmente em 2014, quatro anos antes da morte do autor, em 2018. A tese na universidade que Ash queria defender versaria sobre Jesus na visão dos judeus. Segundo ele, Judas não foi um traidor, mas “o primeiro cristão”, um apaixonado por Cristo – opinião, aliás, do apócrifo “O Evangelho de Judas”, atribuído a gnósticos do século 2 – uma heresia para a Igreja, como se pode imaginar. Se o romance como um todo aborda vários assuntos interessantes – os problemas dos judeus contra os árabes em Israel, a visão dos judeus sobre Jesus, a temática da traição – a falta de empatia acaba prejudicando em muito a leitura de “Judas”: não consegui simpatizar nem um pouco com os dois personagens principais do romance. Shmuel Ash é terrivelmente autocentrado, parecendo quase incapaz de ter um sentimento de simpatia. Atalia, a mulher por quem ele se apaixona, é dos personagens mais frios com quem já tive contato. E assim é com tudo. “Judas” é um livro desesperançado e triste. Até a tese de um Judas apaixonado por Jesus é – desculpem – meio boba. Muito diferente é “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez (Record, tradução de Remy Gorga, Filho, 260 páginas), publicado originalmente em 1975. Contando a história de um ditador latino-americano cruel e sanguinário, o Prêmio Nobel de 1982 mostra um personagem tão complexo e interessante que é impossível não simpatizar com ele. Livro delirante, de leitura difícil, com frases longuíssimas e sem parágrafos, apenas com algumas divisões sem títulos, “O Outono do Patriarca” é tão espetacular que não sei direito como terminar este texto. Vou então citar o meu necrológio sobre Gabriel García Márquez, no qual escrevi que o colombiano “é um daqueles gigantes da literatura que nascem de vez em quando em nosso planeta”.
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