Literatura

“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
Literatura
“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
14 de março de 2021 at 19:16 0
Shmuel Ash parece um urso de história em quadrinhos: é gordo, tem as barbas grandes e desgrenhadas, é gentil e meio atrapalhado – e não consegue prestar atenção no que os outros dizem. Ele vive na parte judia de Jerusalém no ano de 1959 – o estado de Israel tinha sido fundado pouco mais de uma década antes – e está passando por graves problemas: seus pais entram em falência e não vão mais conseguir pagar seus estudos e, como se não bastasse, sua noiva deixa dele e o troca por um hidrólogo “especialista em captação de águas pluviais”. Sem saber o que fazer da vida, consegue um trabalho em que tudo o que tem que fazer é companhia, por seis horas por dia, a Gershom Wald, um senhor muito culto que adora conversar. Além dele, na casa também mora Atalia, uma mulher de meia idade por quem Shmuel acaba se apaixonando. Ash é o personagem principal de “Judas”, do escritor israelense Amós Oz (eu li em espanhol, publicado pela Siruela, com 303 páginas e traduzido por Raquel García Lozano – a versão em português é da Companhia das Letras), publicado originalmente em 2014, quatro anos antes da morte do autor, em 2018. A tese na universidade que Ash queria defender versaria sobre Jesus na visão dos judeus. Segundo ele, Judas não foi um traidor, mas “o primeiro cristão”, um apaixonado por Cristo – opinião, aliás, do apócrifo “O Evangelho de Judas”, atribuído a gnósticos do século 2 – uma heresia para a Igreja, como se pode imaginar. Se o romance como um todo aborda vários assuntos interessantes – os problemas dos judeus contra os árabes em Israel, a visão dos judeus sobre Jesus, a temática da traição – a falta de empatia acaba prejudicando em muito a leitura de “Judas”: não consegui simpatizar nem um pouco com os dois personagens principais do romance. Shmuel Ash é terrivelmente autocentrado, parecendo quase incapaz de ter um sentimento de simpatia. Atalia, a mulher por quem ele se apaixona, é dos personagens mais frios com quem já tive contato. E assim é com tudo. “Judas” é um livro desesperançado e triste. Até a tese de um Judas apaixonado por Jesus é – desculpem – meio boba. Muito diferente é “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez (Record, tradução de Remy Gorga, Filho, 260 páginas), publicado originalmente em 1975. Contando a história de um ditador latino-americano cruel e sanguinário, o Prêmio Nobel de 1982 mostra um personagem tão complexo e interessante que é impossível não simpatizar com ele. Livro delirante, de leitura difícil, com frases longuíssimas e sem parágrafos, apenas com algumas divisões sem títulos, “O Outono do Patriarca” é tão espetacular que não sei direito como terminar este texto. Vou então citar o meu necrológio sobre Gabriel García Márquez, no qual escrevi que o colombiano “é um daqueles gigantes da literatura que nascem de vez em quando em nosso planeta”.
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“Alias Grace”, “Vulgo Grace”
Literatura, Séries
“Alias Grace”, “Vulgo Grace”
7 de fevereiro de 2021 at 19:45 0
É muito comum se ouvir que o “livro é sempre melhor que o filme”. Eu não compartilho dessa opinião, e quando a escuto normalmente cito o livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, para mim bastante inferior ao filme homônimo de Stanley Kubrick. Séries não são filmes, mas achei que seria divertido comparar a minissérie “Alias Grace” (Netflix, seis episódios de cerca de 45 minutos cada um) com o livro que lhe deu origem, traduzido no Brasil como “Vulgo Grace”, da escritora canadense Margaret Atwood (Rocco, 512 páginas, tradução de Geni Hirata). Na verdade, fiquei tão entusiasmado com a série que acabei lendo o livro logo que acabei de assisti-la. A história é baseada num fato real: Grace Marks, uma irlandesa vivendo no Canadá, é condenada à morte em 1843 junto com o cocheiro James McDermott pelo assassinato do patrão dos dois, o fazendeiro Thomas Kinnear, e de sua governanta, Nancy Montgomery. McDermott é efetivamente enforcado, mas Grace Marks tem sua pena comutada para prisão perpétua. Na história contada pelo livro e pela série um médico, Dr. Simon Jordan, é contratado pelo reverendo Verrenger (vivido pelo grande diretor David Cronenberg!), líder de um grupo que luta pela absolvição de Grace Marks, para conseguir elementos psicológicos para inocentá-la. Acho que não vale a pena contar muito mais a respeito da história para não estragar a surpresa. Vamos à comparação entre a série e o livro, então. Inicialmente, é interessante notar que a própria Margaret Atwood, assim como tinha feito na série “Handmaid’s Tale”, também baseada num romance seu, faz uma pequena ponta em “Alias Grace” – ela mesma, portanto, não parece muito incomodada em querer defender a superioridade do livro em relação à série, né? Brincadeiras à parte, tanto “Alias Grace” quanto “Vulgo Grace” são obras de extrema qualidade, e a série é muito fiel ao livro – embora este, como normalmente acontece, seja mais detalhado do que aquela. E eu me emocionei igualmente com o final da série e o do livro, por mais que, quando li “Vulgo Grace”, eu já soubesse o que me esperava. Enfim, se eu fosse escolher um dos dois, escolheria a série mesmo. Não por nada, mas Sarah Gadon, a atriz que faz Grace Marks e que está na imagem que acompanha este texto, atua de maneira tão espetacular que desempata esse jogo que teria tudo para terminar com placar igual para os dois lados!
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Livros lidos recentemente
Literatura
Livros lidos recentemente
10 de janeiro de 2021 at 18:39 0
  • “O olho”, de Vladimir Nabokov (Alfaguara, 86 páginas, tradução de José Rubens Siqueira, publicado originalmente em 1965): quarto romance de Nabokov, ainda em sua fase russa, o livro discorre sobre Smurov, jovem russo pobre vivendo no exílio em Berlim e que se suicida logo no início da história. Se no início temos o Nabokov brilhante de sempre, o final do romance deixa um pouco a desejar.
  • “Madame Oráculo”, de Margaret Atwood (Círculo do Livro, 325 páginas, tradução de Domingos Demasi, publicado originalmente em 1976): uma escritora de romances açucarados só pode receber uma herança se emagrecer. O terceiro romance da autora de “O conto da aia” começa brilhantemente, mas, assim como o livro citado acima, se perde um pouco no final.
  • “Amiga de juventude”, de Alice Munro (Biblioteca Azul, 259 páginas, tradução de Elton Mesquita, publicado originalmente em 1990): comentei recentemente o seguinte sobre “A fugitiva”, outro livro de contos da escritora Prêmio Nobel de 2013: “já dá para perceber que a canadense, única pessoa a receber o Nobel de Literatura tendo escrito somente contos na carreira, tem um estilo todo próprio: o negócio então, para mim, é continuar lendo suas ótimas histórias, mesmo que o maravilhamento tenha diminuído muito da leitura de ‘Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento’ para cá”. Pois é, o mesmo vale para este “Amiga de juventude”.
  • “Philosophy, Pussycats, & Porn”, de Stoya (Not a Cult, 148 páginas, publicado originalmente em 2018): nesta coletânea de textos já publicados anteriormente em diversas mídias, a famosa atriz pornô Stoya fala sobre relacionamentos sexuais, apresentações ao vivo, questões relacionadas a trabalhadores do sexo, viagens de trabalho e, como diz o título, filosofia e gatos. Ela escreve muito bem, e o livro é de leitura extremamente agradável.
  • “O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras, 112 páginas, publicado originalmente em 2006): o narrador desta novela não sabe se vai dar ou não uma notícia ruim a seu irmão mais novo durante um Grenal no estádio Beira Rio, em Porto Alegre. O livro é tão bom quanto “A maçã envenenada”, do mesmo autor, sobre o qual eu tinha comentado aqui.
  • “A gafieira de dois tostões”, de Georges Simenon (Companhia das Letras, 150 páginas, tradução de Eduardo Brandão, publicado originalmente em 1931): antes de ser executado, o condenado Jean Lenoir confessa ao comissário Maigret que foi testemunha de um crime seis anos antes. Conforme o comentário do leitor Heitor Vieira de Resende no site da Amazon, “o pior livro de Simenon é ainda muito bom”. E este certamente não é o pior livro de Simenon!
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“Sanatório”, de Bruno Schulz
Literatura
“Sanatório”, de Bruno Schulz
10 de janeiro de 2021 at 18:38 0
O judeu polonês Bruno Schulz (1892-1942), assassinado durante o Holocausto, tem sua obra completa composta basicamente por dois livros: “Lojas de canela” e este “Sanatório” (Imago Editora, 236 páginas, tradução de Henryk Siewierski, publicado originalmente em 1937), uma sequência interligada de contos que, segundo o autor, é “uma tentativa de recobrar a história de uma certa família, uma certa casa numa cidade provinciana”. Boa parte dos contos fala sobre o pai do narrador: ou sendo um chefe tirânico em sua loja, ou trabalhando num estranho corpo de bombeiros, ou vivendo num sanatório onde o tempo passa mais devagar que o normal, ou ainda quando se transforma numa barata. Em outros contos, o narrador fala de um livro mítico ou descreve estações como a primavera ou o outono. “Sanatório” é bastante imaginativo e poético, mas sua leitura é terrivelmente cansativa em boa parte do tempo. (fonte da imagem: Wikipédia)
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“O sofá”, de Crébillon Fils, e “Les bijoux indiscrets”, de Denis Diderot
Filosofia, Literatura
“O sofá”, de Crébillon Fils, e “Les bijoux indiscrets”, de Denis Diderot
5 de janeiro de 2021 at 15:11 0
O sultão muçulmano Shah-Riar não era uma pessoa de muitas luzes, e fica impressionando quando seu Vizir, Amanzei, que era hindu, lhe diz que, devido ao seu mau comportamento, tinha sido condenado a ter sua alma vagando por diversos sofás. A descrição das aventuras de Amanzei neste estranho estado é o tema de “O sofá” (L&PM, 255 páginas, tradução de Carlota Gomes, publicado originalmente em 1742), do escritor moralista francês Crébillon Fils (1707-1777). Com a alma presa num sofá, Amanzei acaba sendo testemunha dos casos de diversas mulheres que normalmente não conseguem resistir às investidas sexuais de homens que tentam conquistá-las. Se a premissa parece interessante, as discussões morais entre as mulheres e seus conquistadores são terrivelmente chatas e confusas, epítetos que podem servir também ao livro como um todo. O filósofo Denis Diderot (1713-1784) era ainda relativamente jovem quando, a partir de uma aposta, tentou demonstrar a uma amante – a quem ajudou com a renda devida ao livro – que seria fácil fazer um livro como “O sofá”, colocando ainda nele temas mais sérios, de caráter filosófico.  O resultado desta aposta é o romance “Les bijoux indiscrets”, lançado originalmente em 1748 (eu li na versão em francês obtida na Amazon, e há uma versão em português chamada “As jóias indiscretas”, lançada pela Global em 1986 e traduzida por Eduardo Brandão). No caso de “Os bijoux indiscrets”, o sultão congolês Mangogul pede ao gênio Cucufa, que já tinha ajudado seus antepassados, que fizesse algo que o divertisse. Ele recebe dele então um anel que, apontado para uma mulher, fizesse com que seu sexo (a “jóia” do título) contasse o que a sua dona andava aprontando. Mais tarde Diderot acabou se arrependendo de ter escrito este romance libertino que, mesmo assim, consta da maioria das edições de suas melhores obras compiladas. Realmente, o livro é divertido e tem discussões filosóficas fora da licenciosidade – e é muito melhor que “O sofá”.
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“A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson
Literatura
“A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson
1 de janeiro de 2021 at 15:44 0
G. Willow Wilson é uma autora de HQs, criadora da super-heroína Kamala Khan da Marvel. A americana também é ensaísta e jornalista, e seu livro autobiográfico “A leitora do Alcorão” (Rocco, 318 páginas, tradução de Antônio E. de Moura Filho, lançado originalmente em 2010) é fascinante. Estudante de história e de língua e literatura árabes na Universidade de Boston, inicialmente ela tinha a visão blasée que boa parte da intelectualidade tem em relação à experiência religiosa. Com o tempo ela passou a sentir como que um “chamado divino”, e inicialmente pensou em se converter ao judaísmo, porque admirava “a ideia do Deus indivisível que é um e todo ao mesmo tempo”. Mais tarde, já vivendo no Cairo, aonde fora trabalhar como professora de inglês,  acabou se convertendo (ou se “revertendo”, pela terminologia muçulmana) ao Islã, religião pela qual ela já se sentia atraída um bom tempo antes. Também no Cairo ela se casa com Omar, um professor de física que era seu “guia cultural” local. Tudo é fascinante no livro de G. Willow Wilson: a descrição dos contrastes entre as culturas e hábitos ocidentais e egípcios, o relato do aprofundamento de sua relação com Islã - e com Deus, por consequência -, a coragem da autora em enfrentar todos os problemas causados por suas decisões. Segundo a Wikipédia, ela continua casada com o Omar – hoje um advogado especializado em refugiados – e, pela foto que acompanha este texto, obtida da mesma fonte, ela parece muito feliz como muçulmana, não acham?
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Os livros que mais gostei de ter lido em 2020
História, Literatura
Os livros que mais gostei de ter lido em 2020
31 de dezembro de 2020 at 15:16 0
  1. “Gengis Khan e a formação do mundo moderno”, de Jack Weatherford: provavelmente você não sabia que o grande imperador mongol (1158 – 1227) tinha uma mentalidade tão à frente do seu tempo.
  2. “Não me abandone jamais”, de Kazuo Ishiguro: poucos livros me perturbaram tanto.
  3. “O império de Hitler”, de Mark Mazower: sempre tive curiosidade de saber como os nazistas se comportavam como colonizadores, coisa que este livro monumental explica.
  4. “A destruição dos judeus europeus”, de Raul Hilberg: outro livro monumental, sobre o Holocausto neste caso.
  5. “O mapa e o território”, de Michel Houellebecq: fico mais feliz lendo uns autores do que outros, e Michel Houellebecq é um dos que me dão mais alegria na leitura.
  6. “Os testamentos”, de Margaret Atwood: continuação de “O conto da Aia”, não preciso explicar mais.
  7. “As luas de Júpiter”, de Alice Munro: tem gente que reclama do Prêmio Nobel de Literatura por causa disso e daquilo, mas eu provavelmente não conheceria autoras como esta canadense se não fosse a Academia Sueca.
  8. “A época da inocência”, de Edith Wharton: um amor mal resolvido e os preconceitos e costumes dos ricos americanos do final do século XIX e início do século XX numa obra-prima.
  9. “O dom”, de Vladimir Nabokov: Nabokov é Nabokov, e pronto.
  10. Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha: uma história em quadrinhos que comprova que God is a woman, como diz a Ariana Grande, uma favorita aqui da casa.
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“As luas de Júpiter”, de Alice Munro
Literatura
“As luas de Júpiter”, de Alice Munro
27 de dezembro de 2020 at 22:19 0
“As luas de Júpiter” (Biblioteca Azul, 295 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite, publicado originalmente em 1982), da escritora canadense Alice Munro, Nobel de Literatura de 2013, é composto por onze contos, basicamente sempre contados sob o ponto de vista feminino. As histórias são sempre narradas de modo sutil, seja um possível caso de dois trabalhadores homossexuais numa granja (“A temporada de Peru”), um relacionamentos extraconjugal entre um professor e uma professora (“Acidente”), uma paixão mal resolvida (“Bardon”), uma visita entre irmãos que não se viam há décadas (“Visitas”), uma mulher de meia idade que vai visitar seu pai doente no hospital (“As luas de Júpiter”), duas senhoras que se conhecem desde o jardim de infância e que agora estão juntas numa casa de repouso (“A Sra. Cross e a Sra. Kidd”), uma mulher que tem primas muito diferentes em termos de educação e comportamento de um lado e de outro da família (“Chaddeley e Flaming”), um jantar entre casais de amigos (“Jantar no Labor Day”), ou um caso amoroso cheio de nuanças (“Prue”). Fiquei muito entusiasmado com o primeiro livro que li de Alice Munro, “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”, conforme comentei aqui, entusiasmo que não diminuiu em nada depois de ler “A fugitiva” (ver aqui). Já “As luas de Júpiter” me surpreendeu bem menos, por mais que eu tenha amado a leitura do livro. Já dá para perceber que a canadense, única pessoa a receber o Nobel de Literatura tendo escrito somente contos na carreira, tem um estilo todo próprio: o negócio então, para mim, é continuar lendo suas ótimas histórias, mesmo que o maravilhamento tenha diminuído muito da leitura de “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” para cá. Fonte da foto: Alice_Munro.jpg (996×1348) (macleans.ca)
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