Literatura

“Comment débuta Marcel Proust”, de Louis de Robert
Literatura
“Comment débuta Marcel Proust”, de Louis de Robert
7 de agosto de 2022 at 18:31 0
Escritor francês, Louis de Robert (1871-1937) foi a primeira pessoa a ler os originais de “Em busca do tempo perdido” e quem convenceu Marcel Proust (1871-1922) a não encurtar sua obra-prima. Boa parte da história da relação dos dois é apresentada em “Comment débuta Marcel Proust” (Como começou Marcel Proust, em português - L’Éveilleur, 130 páginas, edição prefaciada e anotada por Jérôme Bastianelli), que apresenta a correspondência entre os dois escritores. Grande parte das cartas apresentadas no livro mostram as angústias de Marcel Proust tentando publicar sua obra - como a discussão entre as editoras para quem ele a mandaria e, depois que ela foi aceita, sobre as sugestões recebidas, como diminuir o tamanho de cada edição (“Em busca do tempo perdido” tem sete livros, e as primeiras edições dividem cada um deles em mais de um volume).  O que é mais bonito em “Comment débuta Marcel Proust” é amizade entre os dois escritores (um fundamental, outro um tanto esquecido). Louis de Robert se oferece e entra em contato com várias pessoas para ajudar na publicação de “Em busca do tempo perdido”, enquanto Marcel Proust elogia o recém-lançado “Le roman du malade” de seu amigo, e lhe oferece dinheiro em caso de necessidade (Proust era riquíssimo).  E, como uma boa amizade que se preze, há umas rusguinhas aqui e ali: o capítulo final de “Comment débuta Marcel Proust” mostra uns textos com críticas relativamente severas de Louis de Robert sobre “Em busca do tempo perdido” - num tom que proustianos como eu não estamos acostumados!
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“Correntes”, de Olga Tokarczuk
Literatura, Obra Literária
“Correntes”, de Olga Tokarczuk
12 de junho de 2022 at 19:20 0
É estranha a minha relação com a escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de 2018. O primeiro livro dela que li, “Sobre os ossos dos mortos”, sobre o qual escrevi aqui, foi crescendo em qualidade na memória: enquanto estava lendo-o ele me cansou diversas vezes, mas quando fui escrever sobre o romance não consegui encontrar nenhum defeito nele. Hoje posso dizer que foi um dos livros mais marcantes da minha vida, tão vívidas e fortes suas descrições. Já com este excelente “Correntes” (Todavia, 400 páginas, tradução de Olga Bagińska-Shinzato, publicado originalmente em 2007) a estranheza vem de outro lugar. A obra é dividida em 116 capítulos, a maior parte deles muito curtos e aparentemente autobiográficos, e sem relação com os demais. Alguns trechos me lembraram meu próprio “Memórias”, segundo livro de “Rua Paraíba”, obra mais recente que publiquei. Para dar uma ideia da coisa, vou transcrever um capítulo completo de “Correntes” aqui:
“Um sujeito na lanchonete de um certo museu me disse que nada lhe dava mais satisfação do que conviver com um original. Também insistiu que quanto mais cópias houver no mundo, maior será o poder do original — que às vezes se aproxima do poder de uma relíquia sagrada. Pois o que é singular é significativo, com a ameaça de destruição que paira sobre ele. A confirmação dessas palavras veio na forma de um grupo de turistas que celebrava com concentração devotada uma pintura de Leonardo da Vinci. Apenas ocasionalmente, quando algum deles já não aguentava mais, ouvia-se o clique de uma máquina fotográfica, que soava como um amém falado numa nova língua digital.”
Já no meu “Memórias” eu tenho um capítulo assim:
“Escrevi um conto batido a máquina. Cabia numa folha A4, no modo paisagem. Era escrito em três colunas: lendo a primeira coluna, o conto tinha um sentido. Se se juntassem as linhas da primeira e da segunda colunas, o sentido se modificava. Juntando a primeira, a segunda e a terceira colunas, outro sentido ainda aparecia. Eu não devia ter mais que onze anos, e mostrei o conto para um colega do curso de francês. Ele, então, mostrou para o pai dele, que veio com a sentença: ‘esse menino vai ser um grande escritor’. Eu ri e ele respondeu, sério: ‘meu pai nunca se engana.’”
Duas lembranças de episódios longínquos no tempo, duas opiniões originais (esquisitas?) de desconhecidos: um gosta de pessoas originais, outro achava que eu iria ser um grande escritor. Mas “Correntes” tem muito mais do que pequenas lembranças: o livro fala sobre suas obsessões por viagens e por “gabinetes de curiosidades onde se coleciona e expõe objetos raros, únicos, bizarros e disformes”, como órgãos disformes de seres humanos conservados em formol (duas obsessões que, é interessante comentar, eu não tenho). Além disso, algumas histórias – não sei se ficcionais ou não – são contadas de maneira completa, como a de uma mãe e um filho que aparentemente desaparecem numa ilha turística, e a de uma nobre no século XVIII que pede desesperadamente, por cartas, para que Francisco, o Imperador da Áustria, dê um enterro digno para o seu pai. “Correntes” é um livro fascinante, aliás muito melhor que o meu “Memórias”. (foto que acompanha o texto obtido no site da Revista Veja)
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“La Paroi”, de Pierre Moustiers
Literatura
“La Paroi”, de Pierre Moustiers
8 de maio de 2022 at 16:07 0
O francês Pierre Moustiers (1924-2016), aparentemente, é um autor esquecido: sua página na Wikipédia em francês dá pouquíssimos detalhes sobre sua vida e obra e, quando se procura por ele no Google Notícias, não se encontra basicamente nenhuma informação recente.  Eu mesmo não lembro direito como recebi o livro “La paroi” (“o muro” em tradução livre, Bibliothèque do Temps Présent, 256 páginas), seu mais importante romance, vencedor do Grande Prêmio da Academia Francesa em 1969: pela data que eu coloquei na contracapa da minha bela edição em capa dura, eu ganhei o livro no dia 6 de novembro de 1989. Não lembro direito, mas acho que o pessoal da Aliança Francesa resolveu distribuir uns livros para os seus alunos, sabe Deus por quê. Eu me recordo vagamente de tê-lo escolhido, e é isso. Eu o li pouco tempo depois de tê-lo recebido: é uma história de alpinismo, meu medo de altura me fez ter calafrios durante a leitura, e é isso que ficou na minha memória. Acabei relendo “La paroi” recentemente: é uma história de uma relação complicada entre dois alpinistas, Philippe, professor da escola secundária numa pequena cidade do interior, e Anthime, empresário de sucesso. A história começa numa sexta-feira, quando Philippe resolve subir sozinho uma montanha e Anthime, sabendo que o clima não estava favorável para esse tipo de aventura, resolveu seguir o professor na escalada para que ele não tivesse problemas. Philippe despreza o empresário, e a relação entre os dois na subida da montanha é tensa, para dizer o mínimo. A verdade é que “La paroi” é um grande livro, e desenvolve com excelência não só a descrição dos personagens, como a complexa relação entre os dois. Mereceu, sim, o Grande Prêmio da Academia Francesa, e é pena que aparentemente ninguém mais se lembre dele. Pelo menos a Amazon tem mais alguns livros em papel do autor para vender.
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“La ronde de nuit”, de Patrick Modiano
Literatura
“La ronde de nuit”, de Patrick Modiano
1 de maio de 2022 at 13:18 0
Sou fã de Patrick Modiano, Prêmio Nobel de Literatura de 2014. O francês cria histórias que contam, em boa parte de seus romances sempre curtos, histórias baseadas em reminiscências não muito precisas de pessoas, ou de seus descendentes, que se aliaram aos nazistas durante a ocupação alemã na França na Segunda Guerra Mundial. O segundo romance publicado pelo autor, “La ronde de nuit” (a ronda da madrugada, em tradução livre - Folio, 154 páginas, publicado originalmente em 1969) não foge à regra: o personagem-narrador se alia a um grupo que presta serviços à Gestapo Francesa, promove extorsão de pessoas ligadas à Resistência e rouba casas de quem fugiu de Paris devido à ocupação alemã. O narrador também serve de agente duplo e se infiltra num grupo que se opõe aos nazistas. De todos os livros de Patrick Modiano que eu li (ver aqui), “La ronde de nuit” foi o que menos me agradou: a narrativa parece travada mais do que o necessário, a história parece meio inverossímil às vezes, o narrador é menos empático do que o normal nos livros de Modiano.  Ou quem sabe não tenha sido nada disso: um grande problema com a edição da Folio de “La ronde de nuit” é que na sua curta introdução um spoiler decisivo é apresentado logo de cara: possivelmente eu saber como acabaria o livro diminuiu um pouco meu interesse durante a leitura.
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“Rastejando até Belém”, de Joan Didion
Literatura
“Rastejando até Belém”, de Joan Didion
19 de março de 2022 at 17:58 0
Logo no início de “Rastejando até Belém”, de Joan Didion (Todavia, 240 páginas, tradução de Maria Cecilia Brandi, lançado originalmente em 1968) se lê que
“o Vale de San Bernardino fica a apenas uma hora de Los Angeles, na direção leste, pela rodovia San Bernardino, mas em certos sentidos é um lugar atípico: não a Califórnia costeira dos crepúsculos subtropicais e dos suaves ventos do oeste vindos do Pacífico, mas uma Califórnia mais severa, assombrada pelo Mojave do outro lado das montanhas, devastada pelo calor e pela secura do vento de Santa Ana, que desce pelas encostas a 160 quilômetros por hora, ruge pelos quebra-ventos de eucalipto e dá nos nervos. Outubro é o pior mês de ventania, o mês em que é difícil respirar e as colinas ardem espontaneamente. Não chove desde abril. Toda voz parece um grito. É a estação do suicídio, do divórcio e do pavor arrepiante, onde quer que o vento sopre.”
É um trecho impressionante e que faz parte do primeiro ensaio do livro, “Sonhadores de um sonho dourado”, sobre algumas famílias que foram criar uma comunidade no Vale de San Bernardino. E assim os ensaios vão transcorrendo, sempre descrevendo aspectos da vida americana. Uma escola fundada pela cantora Joan Baez. Um jantar com John Wayne no final da vida, quando estava com câncer e estava trabalhando em seu último filme. Um comunista, o camarada Laski. E algumas histórias pessoais, em que a autora fala de seu marido, sua filha, suas manias. O melhor ensaio do livro é o longo “Rastejando Até Belém”, que dá o título ao livro. É uma história de hippies: a autora vai até São Francisco na Califórnia no ápice da power flower, e o que ela mostra não tem nada a ver com paz e amor, mas sim com pessoas perdidas, sem rumo e drogadas o dia inteiro – sua descrição é fria e, às vezes, cruel. Na verdade, essa visão um tanto fria e amarga transpassa o livro inteiro que, por isso, acaba sendo meio cansativo – ao menos para mim. Mas que é escrito com maestria, não há dúvidas a respeito. (fonte da foto: Jornal Rascunho)
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“As rãs”, de Mo Yan
Literatura
“As rãs”, de Mo Yan
20 de fevereiro de 2022 at 20:22 0
Uma região do globo em que as pessoas tinham nomes como Chen Orelha, Chen Nariz e Wang Vesícula, numa época em que as mulheres não podiam ter mais de um filho e se desesperavam por isso. Um tempo em que a fome era tão grande que as crianças chegavam a comer carvão. Uma aldeia do interior em que as fofocas grassavam. Estes são os pontos que, para um leitor do Ocidente nos tempos atuais, mais chamam a atenção em inicialmente em “As rãs”, de Mo Yan (Companhia das Letras, 496 páginas, tradução de Amilton Reis, publicado originalmente em 2009), escritor chinês vencedor do Prêmio Nobel de 2012 por, segundo a Academia Sueca, escreve de maneira “que com realismo alucinatório funde contos populares, história e contemporaneidade". A história se passa numa região remota da China e se desenrola por algumas décadas, desde a fome no período de Mao Tsé-Tung até os tempos modernos - passando, claro, pelo período de controle rígido da natalidade iniciado na década dos anos 1970, que fazia algumas mulheres se desesperarem. A história principal é a da tia do narrador, Wan Perna, apelidado de Corre Corre por ser muito veloz em provas de atletismo. Ela é a melhor parteira da região, e é empregada pelo governo para controlar - com métodos às vezes violentos - a natalidade local. A tia é uma personalidade tão impressionante que um japonês acaba entrando em contato com Corre Corre para que este faça uma peça de teatro sobre ela. “As rãs” é um documento notável sobre uma época, bem-humorado e escrito com brilho e intensidade - parece que temos facilidade de “enxergar” tudo o que Mo Yan descreve. Um ótimo livro, que me lembrou as grandes histórias de Charles Dickens, famoso por criar personagens “maiores que a vida”: a tia do narrador de "As rãs", neste caso.
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Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
Literatura
Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
16 de janeiro de 2022 at 19:52 0
  1. “Vulgo Grace”, de Margaret Atwood: a história de um assassinato real ocorrido no século XIX foi o ponto de partida para um livro fascinante, transformado numa série tão fascinante quanto.
  2. “O fim”, de Karl Ove Knausgård: o final da monumental série “Minha luta” mistura ensaios, principalmente sobre o nazismo, e problemas pessoais ligados ao sucesso de seus livros anteriores e ao casamento do autor.
  3. “Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo”, de Michio Kaku: a estranha física moderna e valores humanos num livro afetivo e delicioso.
  4. “Os andarilhos do bem”, de Carlo Ginzburg: tudo é estranho neste livro de não-ficção que conta batalhas espirituais contra bruxas na Itália do século XVI.
  5. “O segundo tempo”, de Michel Laub: o narrador desta novela excelente não sabe se vai dar ou não uma notícia ruim a seu irmão mais novo durante um Grenal no estádio Beira Rio, em Porto Alegre.
  6. “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez: só Gabriel García Márquez para conseguir fazer o leitor sentir empatia por um caudilho sanguinário.
  7. “Rei, valete, dama”, de Vladimir Nabokov: já Nabokov não consegue fazer com que o leitor sinta empatia pelos personagens deste romance, mas ele escreve tão bem que isso pouco importa.
  8. “A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson: autora de HQs, criadora da super-heroína Kamala Khan da Marvel, G. Willow Wilson emociona na descrição de sua conversão ao Islã.
  9. “Amiga de juventude”, de Alice Munro: as histórias da canadense, Nobel de 2012, são pérolas da literatura.
  10. “A gafieira de dois tostões”, de Georges Simenon: conforme o comentário do leitor Heitor Vieira de Resende no site da Amazon, “o pior livro de Simenon é ainda muito bom”. E este certamente não é o pior livro de Simenon.
(foto: Karl Ove Knausgard, obtida no Rascunho)
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Os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov
Literatura
Os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov
5 de dezembro de 2021 at 20:22 0
Li recentemente os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov (1899-1977), “Mary” (Record, 175 páginas, tradução de Pinheiro de Lemos, publicado originalmente em 1926) e “Rei, Valete, Dama” (Artenova, 196 páginas, tradução de Affonso Blacheyre, publicado originalmente em 1928). Os dois livros são da fase russa de Nabokov, um dos raros grandes autores que escreveram partes importantes de sua obra em dois idiomas diferentes  (russo na primeira parte da carreira, inglês na segunda); o próprio escritor ajudou na tradução dos dois livros para a língua inglesa: a de “Mary” foi feita por Michael Glenny e publicada em 1970, enquanto a tradução de “Rei, Valete, Dama” foi feita pelo próprio filho do autor, Dmitri Nabokov, e publicada em 1969.  “Mary” (lançada também em outras edições com o título “Machenka”, conforme o original russo) conta a história, em primeira pessoa, de Lev Glebovich Ganin, um emigrante russo que mora em Berlim. O maior tema do romance é a paixão do narrador por Mary, uma moça por quem ele era apaixonado na infância/adolescência, quando ainda vivia na sua terra natal. Ganin descobre que ela vai chegar em Berlim e sua obsessão pela garota vai tomando conta de todos os aspectos de sua vida. Mas o romance também descreve, com grande quantidade de detalhes, a vida de outros moradores da pensão, como um velho poeta russo, Anton Sergeyevich Podtyagin, uma jovem menina alemã, Klara, a senhoria, Lydia Nikolaevna Dorn, e seu vizinho, Aleksey Ivanovich Alfyorov. “Rei, valete, dama” conta história de um triângulo amoroso: Martha Dreyer é casada com um rico empresário, Kurt Dreyer, e acaba tendo um tórrido caso com o sobrinho do marido, Franz Bubendorf, um jovem pobre que trabalha numa loja do tio. O caso entre Franz e Martha vai tomando ares cada vez mais sinistros, e logo os dois pensam em arranjar um jeito de assassinar Kurt Dreyer.  É difícil ter alguma empatia pelos três personagens principais de “Rei, valete, dama”: Martha e seu amante são frios e calculistas, enquanto Kurt Dreyer é totalmente autocentrado, embora não tenha nenhum traço de maldade. Mas, como escreve Nabokov! Suas descrições são precisas, claras, parece que conseguimos ver tudo o que o grande escritor descreve. Um grande romance do autor russo - como sempre, aliás.
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