Literatura

Literatura, Obra Literária
“O verão de 54 (novelas)”
16 de julho de 2019 at 02:03 0

“O verão de 54 (novelas)” , de Fabricio Muller (Editora Appris), é composto por quatro histórias bastante diferentes uma da outra.

O Verão de 54 é uma história de amor proibido. Conversão trata de família e religião, Morrissey é um policial sobre um assassino serial com “uma missão” e Sorry é uma novela para adolescentes. O Verão de 54 é uma história em metalinguagem. Conversão utiliza um narrador onisciente, Morrissey é em formato de diálogo e Sorry é um diário.

Como se vê, o leitor pode iniciar a leitura deste livro por qualquer uma das quatro novelas cujo tema lhe pareça mais interessante.

Entrevista na CBN: https://cbncuritiba.com/sonho-com-clarice-lispector-e-rock-ingles-inspiram-o-verao-de-54-livro-de-ficcao-ambientado-em-matinhos/

Prefácio: https://fabriciomuller.com.br/wp/?p=4064

Comprar: https://www.editoraappris.com.br/produto/3131-o-vero-de-54-novelas

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Literatura
“Essas malditas mulheres”, de Dalton Trevisan
23 de junho de 2019 at 19:25 0
Curitiba/Parana - Marcelo Rudini/Folha Imagem - 08/08/2008 - Dalton Trevisan saindo da Livraria Chaim

Já se sabe que o único romance publicado por Dalton Trevisan é “A Polaquinha”, de 1985, sobre o qual já comentei aqui. De todo modo, “Essas malditas mulheres”, lançado em 1982 (Editora Record, 130 páginas), é um livro de contos com muitas características de um romance. Explico: a história de João e Maria (são frequentes casais com esses dois nomes na obra dele) que Dalton Trevisan conta aqui perpassa a maioria dos contos do livro.

Em “Essas malditas mulheres” o João é um “doutor” – não é dita a sua formação específica – que tem uns vinte anos a mais que Maria, uma moça pobre e com pouca instrução. Dalton Trevisan utiliza principalmente o diálogo entre estas duas personagens para contar a história deles.

Durante a maior parte do tempo Maria conta para João as suas histórias de amor, quase sempre malfadadas: com um sargento cujo corpo ela admira; com um “baixinho da Bíblia”; com um viúvo; com um moço loiro. João é casado com outra mulher, ouve as histórias de Maria, lhe pede pequenos favores sexuais - alguns dos quais ela recusa, outros não. E ela lhe pede dinheiro, que ele quase sempre lhe dá.

A dinâmica da relação entre João e Maria é baseada principalmente no grande interesse que ele tem pela vida – e pelo corpo – dela, enquanto que ela não deixa transparecer muito se gosta ou não da sua companhia: Maria parece mais interessada no interesse dele por ela do que em qualquer outra coisa. Ela lhe diz, lá pelas tantas: “não gosto de você. João. Mas não fique triste: não gosto de ninguém. Nem de minha mãe eu gosto.”

Mesmo com traços amargos, “Essas malditas mulheres” é delicioso e tem um final divertido e espetacular.


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Literatura, Obra Literária
Prefácio de “O verão de 54 (novelas)”
9 de junho de 2019 at 17:41 0

Segue abaixo o prefácio do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado brevemente, escrito pelo escritor, tradutor, editor, professor e conferencista Robertson Frizero.

Há um conceito musical que se aplica perfeitamente ao livro que tens em mãos, caro leitor. Na música, chamamos rapsódia a um tipo de composição que reúne, em um só movimento, diferentes temas musicais que, sem seguir uma estrutura pré-definida, encantam por sua variedade de temas, tons e intensidade. Nesse sentido, O Verão de 54 pode ser visto como uma grande e multifacetada rapsódia literária que nos apresenta Fabrício Muller.

Composto por quatro novelas, a obra mostra a imensa capacidade narrativa de Muller, nada espantosa para os que conheceram o escritor em seu seu romance de estreia, Um amor como nenhum outro, um romance de formação que merece ser descoberto pelos leitores brasileiros. Seguindo a ideia de uma rapsódia narrativa, cada uma das novelas tem seu universo particular e – como traço inegável de domínio da escrita – uma estrutura narrativa própria e absolutamente distinta dos demais. Se o cenário une essas quatros novelas – o livro é universalmente curitibano –, cada uma das histórias encantará o leitor por diferentes razões.

A novela-título, Verão de 54, é uma das mais bem sucedidas experiências metalinguísticas que já li em forma de narrativa longa; a história de inocência e ousadia desse jogo farsesco proposto por Muller é entremeada pela voz desse autor onisciente intruso, que tudo sabe e sobre tudo opina – e que nos convida a acompanhar o próprio ato de criação, tornando-se quase uma aula sobre o ofício de escritor.

Morrissey é uma ousada novela em modo dramático, contada do início ao fim em um diálogo do qual o leitor dificilmente conseguirá se desprender; os fãs do cantor irão se deliciar com cada canção aqui recordada, e será impossível para quem não as conhece fugir da tentação de buscá-las de imediato. Não creio exagerar ao dizer que o próprio homenageado se divertiria muito ao ler essa narrativa policial que traz o vocalista do The Smiths até Curitiba na tentativa de solucionar uma série surpreendente de crimes.

Conversão é, em termos de estrutura, a mais tradicional das quatro partes desta rapsódia; a forma como o autor escolheu para abordar a questão central dessa novela – a fé –, no entanto, é inusitada e tão verossímil que certamente encontrará eco na experiência de vida de muitos leitores. Seu final é um bom exemplo de uma das principais características da literatura de Muller, um autor que oferece caminhos ao leitor, mas nunca respostas prontas; que confia na capacidade intrínseca do homem em buscar razões e preencher lacunas; que sabe usar a escrita para suscitar reflexões que vão muito além das obviedades cotidianas.

Sorry, o quarto movimento desta obra, é uma história deliciosa. Traz a voz narrativa de uma aluna da nona série, com todos os seus maneirismos e gírias, mas sem que isso ganhe tintas de exagero. É uma divertida história de amor adolescente temperada por pequenos tabus e estranhamentos, um refrigério que, ao final da rapsódia, deixa o ouvinte desejoso de conhecer mais e mais histórias cantadas por Muller.

Preciso apropriar-me desse autor intruso que surge em vários momentos deste livro para dizer que não há erros aqui – falo de ouvinte e histórias cantadas porque a música está intrinsecamente ligada a este Verão de 54. Fabrício Muller tem um texto musical, para ser lido em voz alta, e um sentido de composição e harmonia que remete aos grandes mestres daquela outra grandiosa forma de arte. Permita-se ouvir suas histórias como se as personagens estivessem vivendo cada episódio diante de seus olhos, leitor. Atesto que será um sarau particular – ou um concerto de rock – dos mais agradáveis.

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História, Literatura, Séries
Júlio César
2 de junho de 2019 at 22:17 0

Estou escrevendo um conto chamado “A mulher de César”, e abaixo seguem comentários sobre uma peça de teatro, uma biografia e uma série da Netflix que utilizei nas minhas pesquisas.

É interessante observar como o prefácio da edição de “Júlio César”, de William Shakespeare (1564-1616), da Penguin-Companhia das Letras, 186 páginas, escrito pelo grande crítico literário Harold Bloom, comenta como a peça é considerada “fria” por muitos especialistas. Ele cita, inclusive, as palavras do “maior especialista de todos”, Samuel Johnson: “nesta peça, vários trechos merecem a atenção, e a contenda e reconciliação de Bruto e Cássio são celebradas universalmente. Em mim, porém, a trama jamais causou grande comoção; chego a considerá-la um tanto fria e inócua, comparada a outras peças de Shakespeare; a maneira com que se prende à História e aos costumes romanos parece haver bloqueado o vigor natural de sua genialidade”.

Apesar do título, a peça se concentra basicamente na figura de Bruto (Roma, 85 a.C. - Filipos, 42 a.C), protegido, e posteriormente, um dos participantes famoso assassinato do líder político Júlio César (Roma,100 a.C. – Roma, 44 a.C.) no Senado Romano.

Na época em que ocorrem os acontecimentos apresentados na peça, Roma está no final da República. Júlio César já se declarou ditador perpétuo, e os conspiradores contra sua vida têm receio que ele queira transformar Roma num Império. Na peça, são apresentadas diversas cenas envolvendo o planejamento do homicídio do político, além do próprio assassinato de Júlio César e o início da reação popular contra os conspiradores (spoiler: eles se dão muito mal).

Entre todos os conspiradores, Bruto parece o único preocupado com o futuro de Roma – ao contrário dos demais, não parece ter nenhum interesse pessoal no assassinato, só entrando na conspiração para proteger a República Romana. É um grande personagem de uma grande peça de teatro – ao contrário dos críticos citados acima, não achei a peça nem um pouco fria.

Já a biografia “Júlio César”, de Joël Schmidt, impressiona ao descrever a inteligência maquiavélica do ditador romano (100-44 a.C.) ao manipular adversários políticos para conseguir o objetivo de acabar com a República Romana e fundar o Império – o que, se não conseguiu, abriu caminho para que Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), seu sobrinho, o fizesse anos depois de sua morte.

O Júlio César que emerge da biografia é de um homem bem quisto por seus soldados, excelente estrategista, e sexualmente voraz – era famoso por dormir com as mulheres de outros importantes líderes romanos. Não era mesquinho, embora tenha estado abaixo de sua grandeza, segundo Joël Schmidt, quando se irritou com o líder gaulês Vercingetórix quando da rendição deste em Alésia, na Gália (atual França), em 52 a.C.

Finalmente, “Império Romano”, da Netflix, é uma série em três temporadas no estilo dos documentários da History Channel/H2 (ou seja, com atores, permeada com comentários de especialistas), apresentando, em cada uma delas, a história de um dirigente romano.

A primeira temporada, com seis episódios, é dedicada a Cômodo (161-192), que foi imperador romano entre 180 e 192. Ele é considerado um dos responsáveis pelo início da decadência do Império, e a série da Netflix se concentra nas várias conspirações contra dele e no seu desejo de ser gladiador – chegou a lutar no Coliseu, inclusive - mesmo sendo mandatário romano. A terceira temporada, com quatro episódios, é dedicada ao imperador Calígula (12-41 d.C.). Ele iniciou bem seu mandato imperial, no ano de 37, mas depois de uma crise em que ficou semanas em coma, acordou irreconhecível, transformando-se num tirano paranoico.  A segunda temporada, com cinco episódios, é sobre Júlio César, sobre o qual já comentei acima.

Dá uma boa ideia da violência da sociedade romana o fato de que os três imperadores objeto da série da Netflix terem acabado seus dias assassinados.

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Literatura, Obra Literária
Trecho inicial de Sorry
26 de maio de 2019 at 19:58 0

Abaixo segue o trecho inicial de "Sorry", a quarta e última novela de "O verão de 54 (novelas)", a ser lançado proximamente, com prefácio do escritor, tradutor, editor, professor e conferencista Robertson Frizero.

Nona série


Segunda-feira, 4 de maio


Eu me chamo Renata e sou aluna da nona série. Aqui no Colégio a gente se senta por ordem alfabética, o que faz com que eu me sente atrás do Rafael. É o primeiro ano em que ele estuda aqui em Curitiba. Ele veio de Videira, lá onde o diabo perdeu as botas, e tem sotaque de catarinense, mas não muito. Explico: como ele morou também em Goiás o sotaque dele é meio misturado. Ele ri da minha cara cada vez que eu falo “leite”. Cariocas falam “leitch”, catarinenses não, mas, segundo o Rafael, só os curitibanos pronunciam de maneira tão ridícula o “te”. “Leite quente dá dor de dente”, é a frase que ele usa quando quer zoar o sotaque dos curitibanos. Estou tentando pensar num jeito de dar uma ideia para você, que me lê, de entender como o nosso sotaque é diferente (ridículo, segundo o Rafael), mas não tenho ideia de como fazer. Então, para você que não sabe como é o sotaque daqui, imagine uma coisa “peculiar”, que é uma expressão que meu pai usa de vez em quando. Às vezes ele vem com uma palavra muito nada a ver e eu e a minha mãe olhamos para ele como se ele fosse maluco e ele fica meio espantado, meio debochado, e acaba perguntando: “não tinha ideia de que vocês não sabiam o que (aí você coloca a palavra esquisita que meu pai falou) é”.


Tenho que ser justa com o Rafael. Ele não ri só do nosso sotaque. Ele é muito mais palhaço quando imita o sotaque do pessoal de Videira. Faz até umas caras diferentes, todo o mundo dá risada. Quando o Rafael chegou no Colégio ele, coitadinho, ainda estava meio deslocado, às vezes ficava sozinho no recreio e me partia o coração. Ainda bem que esta fase não durou muito, ele logo entrou para equipe de basquete do Colégio e agora todo o mundo gosta dele por aqui. Então. Eu preciso me concentrar, se não vem uma ideia, vem outra e daí você, que me lê, vai sair por aí falando que a “Renata se perde no meio da história”. Calma lá!

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Literatura
“Satíricon”, de Petrônio
12 de maio de 2019 at 18:03 0

Para um interessado nos costumes do Império Romano como eu, “Satíricon” (L&PM Pocket, 224 páginas, tradução do latim de Alessandro Zir), de Petrônio (27-66 d.C.), é ao mesmo tempo fascinante e frustrante, conforme explico a seguir.

O livro conta as a história de uma pequena trupe de vagabundos, Encólpio, seu amante Ascilto e seu servo Gitão, além do poeta Eumolpo, que se liga aos três no meio da história. Eles passam por diversas situações – quase sempre cômicas – envolvendo brigas, roubos, um banquete (onde aparece o famoso personagem Trimalquião, ex-escravo, vulgar e riquíssimo), recitações de poesia – sempre criticadas pelos demais personagens – por parte de Eumolpo, uma aventura com uma sacerdotisa do deus Príapo, e muito sexo – inclusive entre menores. A parte do fascínio de “Satíricon” está em que, sendo este um dos únicos romances em prosa da época que sobreviveram até os dias de hoje, é mais ou menos como ler um Balzac (famoso, entre outras coisas, pelo realismo de suas descrições da vida no Terceiro Império francês) do Império Romano: vemos os personagens se perdendo no escuro pois esqueceram suas tochas, participando de rituais pagãos, morando em apartamentos minúsculos, se alimentando em banquetes, se maquiando das maneiras mais esquisitas. E, o que é melhor, “Satíricon” é escrito de maneira debochada e vívida, agradabilíssimo de ler.

A parte frustrante é que a obra chegou até nós incompleta: o livro começa com a ação em andamento e os fragmentos vão ficando cada vez mais esparsos à medida que a ação transcorre. Nunca saberemos o que acabou acontecendo com os anti-heróis Encólpio, Ascilto, Gitão e Eumolpo.

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Literatura
“Diário de um velho louco”, de Junichiro Tanizaki
5 de maio de 2019 at 16:13 0

“Não tenho nenhuma intenção de me apegar tenazmente à vida, mas uma vez que continuo vivo, não posso deixar de sentir atração pelo sexo oposto.” Esta frase, obtida do romance “Diário de um velho louco” (Estação Liberdade, 208 páginas, tradução do japonês de Leiko Gotoda), de Junichiro Tanizaki (1886-1965), é tão representativa do livro que estampa, solitária, sua contracapa.

Tokusuke Utsugi é um senhor de 77 anos, que vive com a esposa, uma enfermeira, seu filho Jokichi e a mulher dele, Satsuko. Apesar de impotente e com a condição física bastante deteriorada, o desejo sexual do patriarca da família Utsugi pela nora Satsuko vai ficando cada vez mais exacerbado à media que transcorrem os dias. Ele não esconde dela seu desejo, e vai conseguindo um favorzinho dela aqui, outro ali. Não dá para contar mais para não estragar a surpresa.

“Diário de um velho louco” é, em sua maior parte, escrito na forma do diário do próprio Utsugi e é fascinante na descrição da obsessão sexual do idoso pela nora. Uma obra-prima.

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Literatura
“Desgracida”, de Dalton Trevisan
21 de abril de 2019 at 12:27 0

Muitos dos textos da segunda parte (“Mal Traçadas Linhas”) de “Desgracida”, de Dalton Trevisan (Record, 237 páginas) eu já tinha lido na compilação “Até tu, Capitu?”, da L&PM, já comentada por aqui. São textos em que o grande curitibano fala de literatura com uma franqueza pouco usual (fala mal de Guimarães Rosa e de “O general e seu labirinto”, de Gabriel García Márquez).

Já na primeira parte de “Desgracida”, chamada “Ministórias” (e que ocupa mais de 90% do livro), por outro lado, temos o Dalton Trevisan dos livros mais recentes (o livro publicado em 2010), cada vez mais conciso, contando histórias com grande dramaticidade em poucas linhas. Por exemplo, veja-se ou “O Braço Armado”, que consiste numa única frase: “O filho é o braço armado da mãe contra o monstro do pai”, ou “A Chupeta”, reproduzido a seguir:

“Ele confisca a chupeta da filha, que se consola sugando os pequeninos dedos.
Ah é? Não aprende?
E o pai queima com a brasa do cigarro todos os dedinhos.”

Mas Dalton Trevisan também sabe ser agridoce, como em “Amor de Velha”:

“O velho geme, espirra, tosse – e que tosse!
A velhinha, no fundo da cama:
‘Isso mesmo. Continue assim. Não se cuide.’
‘…’
‘Nada como um inverno bem frio.’
‘…’
‘Faça de mim na primavera a mais faceira das viúvas alegres.’”

Ou de humor ingênuo, como em “Nome Difícil”:

“A visita:
‘Bidu, como é o nome do teu pai?’
‘Raruruul…’
Isso mesmo, Raul.
‘Nossa! Que difícil.’
A pivete, dois aninhos:
‘Né, não.’
‘?’
‘Eu só chamo ele de pai.’”


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