Literatura

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“Satíricon”, de Petrônio
12 de maio de 2019 at 18:03 0

Para um interessado nos costumes do Império Romano como eu, “Satíricon” (L&PM Pocket, 224 páginas, tradução do latim de Alessandro Zir), de Petrônio (27-66 d.C.), é ao mesmo tempo fascinante e frustrante, conforme explico a seguir.

O livro conta as a história de uma pequena trupe de vagabundos, Encólpio, seu amante Ascilto e seu servo Gitão, além do poeta Eumolpo, que se liga aos três no meio da história. Eles passam por diversas situações – quase sempre cômicas – envolvendo brigas, roubos, um banquete (onde aparece o famoso personagem Trimalquião, ex-escravo, vulgar e riquíssimo), recitações de poesia – sempre criticadas pelos demais personagens – por parte de Eumolpo, uma aventura com uma sacerdotisa do deus Príapo, e muito sexo – inclusive entre menores. A parte do fascínio de “Satíricon” está em que, sendo este um dos únicos romances em prosa da época que sobreviveram até os dias de hoje, é mais ou menos como ler um Balzac (famoso, entre outras coisas, pelo realismo de suas descrições da vida no Terceiro Império francês) do Império Romano: vemos os personagens se perdendo no escuro pois esqueceram suas tochas, participando de rituais pagãos, morando em apartamentos minúsculos, se alimentando em banquetes, se maquiando das maneiras mais esquisitas. E, o que é melhor, “Satíricon” é escrito de maneira debochada e vívida, agradabilíssimo de ler.

A parte frustrante é que a obra chegou até nós incompleta: o livro começa com a ação em andamento e os fragmentos vão ficando cada vez mais esparsos à medida que a ação transcorre. Nunca saberemos o que acabou acontecendo com os anti-heróis Encólpio, Ascilto, Gitão e Eumolpo.

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“Diário de um velho louco”, de Junichiro Tanizaki
5 de maio de 2019 at 16:13 0

“Não tenho nenhuma intenção de me apegar tenazmente à vida, mas uma vez que continuo vivo, não posso deixar de sentir atração pelo sexo oposto.” Esta frase, obtida do romance “Diário de um velho louco” (Estação Liberdade, 208 páginas, tradução do japonês de Leiko Gotoda), de Junichiro Tanizaki (1886-1965), é tão representativa do livro que estampa, solitária, sua contracapa.

Tokusuke Utsugi é um senhor de 77 anos, que vive com a esposa, uma enfermeira, seu filho Jokichi e a mulher dele, Satsuko. Apesar de impotente e com a condição física bastante deteriorada, o desejo sexual do patriarca da família Utsugi pela nora Satsuko vai ficando cada vez mais exacerbado à media que transcorrem os dias. Ele não esconde dela seu desejo, e vai conseguindo um favorzinho dela aqui, outro ali. Não dá para contar mais para não estragar a surpresa.

“Diário de um velho louco” é, em sua maior parte, escrito na forma do diário do próprio Utsugi e é fascinante na descrição da obsessão sexual do idoso pela nora. Uma obra-prima.

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“Desgracida”, de Dalton Trevisan
21 de abril de 2019 at 12:27 0

Muitos dos textos da segunda parte (“Mal Traçadas Linhas”) de “Desgracida”, de Dalton Trevisan (Record, 237 páginas) eu já tinha lido na compilação “Até tu, Capitu?”, da L&PM, já comentada por aqui. São textos em que o grande curitibano fala de literatura com uma franqueza pouco usual (fala mal de Guimarães Rosa e de “O general e seu labirinto”, de Gabriel García Márquez).

Já na primeira parte de “Desgracida”, chamada “Ministórias” (e que ocupa mais de 90% do livro), por outro lado, temos o Dalton Trevisan dos livros mais recentes (o livro publicado em 2010), cada vez mais conciso, contando histórias com grande dramaticidade em poucas linhas. Por exemplo, veja-se ou “O Braço Armado”, que consiste numa única frase: “O filho é o braço armado da mãe contra o monstro do pai”, ou “A Chupeta”, reproduzido a seguir:

“Ele confisca a chupeta da filha, que se consola sugando os pequeninos dedos.
Ah é? Não aprende?
E o pai queima com a brasa do cigarro todos os dedinhos.”

Mas Dalton Trevisan também sabe ser agridoce, como em “Amor de Velha”:

“O velho geme, espirra, tosse – e que tosse!
A velhinha, no fundo da cama:
‘Isso mesmo. Continue assim. Não se cuide.’
‘…’
‘Nada como um inverno bem frio.’
‘…’
‘Faça de mim na primavera a mais faceira das viúvas alegres.’”

Ou de humor ingênuo, como em “Nome Difícil”:

“A visita:
‘Bidu, como é o nome do teu pai?’
‘Raruruul…’
Isso mesmo, Raul.
‘Nossa! Que difícil.’
A pivete, dois aninhos:
‘Né, não.’
‘?’
‘Eu só chamo ele de pai.’”


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“’Ecos de mi pluma’ – Antología em prosa y verso”, de Sor Juana Inés de la Cruz
14 de abril de 2019 at 14:52 0

Mexicana-espanhola (o México era uma colônia espanhola durante sua vida), Sor Juana Inés de la Cruz (1648-1695) teve uma biografia para lá de inusual: resolveu ser monja – da ordem de São Jerônimo – porque gostava tanto de estudar que achava que a vida religiosa lhe daria a paz necessária para seus estudos. Escreveu comédias, autos sacramentais, exercícios espirituais e uma polêmica argumentação teológica. Deixou também duas cartas, uma dirigida a seu confessor, o jesuíta Antonio Nuñez de Miranda, outra ao bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que contêm valiosíssima informação autobiográfica. Mas foi como poetisa - profana e religiosa – pertencente ao estilo barroco que conseguiu destaque na literatura já em vida, e hoje é considerada um dos maiores expoentes do chamado “Século de Ouro” espanhol.

“’Ecos de mi pluma’ – Antología em prosa y verso” é uma edição conjunta da Penguin-Random House Grupo Editorial e da Universidad Nacional Autónoma de México (408 páginas), e dá um apanhado abrangente da poesia da Sor Juana Inés de la Cruz, além de apresentar as duas cartas citadas acima.

As poesias escolhidas têm uma grande variedade de temas: a ciência (“Primero Sueño” era considerada pela própria poetisa sua obra-prima), o estudo, elogios a pessoas proeminentes, jogos de adivinhação. Um dos temas principais – o que mostra a ousadia da monja – é o amor. A leitura da antologia apresenta dificuldades para o leitor não-especializado no barroco espanhol, conforme as palavras de Martha Lilia Tenorio, a organizadora da edição:


“(...) a poesia barroca está muito distante de nós, e o leitor não habituado a ela topará com usos linguísticos e recursos estilísticos que desconhece ou não entende.”

Para minimizar a dificuldade na leitura das poesias de Sor Juana Inés de la Cruz para o leitor contemporâneo, Martha Lilia Tenorio inseriu um grande número de notas de pé-de-página na edição da antologia: de fato, estas notas esclarecem os muitos trechos obscuros das poesias, mas com perda no ritmo na leitura.

Já as duas cartas escritas pela poetisa presentes na antologia são respostas a acusações, respectivamente de Antonio Nuñez de Miranda e Manuel Fernández de Santa Cruz, de que se dedicava demais à poesia profana e ao estudo: nelas, a grande poetisa mostrava ter também clareza nas ideias e grande capacidade argumentativa.

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“La vida es sueño”, de Calderón de la Barca
17 de março de 2019 at 18:29 0
Calderón de la Barca - fonte: Wikipedia

Tendo em vista as condições astrológicas, Segismundo nasceu no pior momento possível: pela previsão dos astros ele teria mau caráter, seria assassino, violento e traiçoeiro. Sabendo disso, seu pai, o rei polonês Basilio, colocou-o no cárcere praticamente desde que nasceu, sem contato com outros seres humanos fora Clotaldo, criado e professor do menino. Um tanto inseguro quanto às previsões astrológicas, Basilio bola um plano: manda dar drogas para seu filho e o faz pensar que é rei por um dia, ordenando inclusive a todos os cortesãos que o obedecessem. Se ele fosse mau durante esse dia significaria que as previsões estavam corretas e Basilio o devolveria para o cárcere – e Segismundo concluiria que o seu “dia de rei” não tinha passado de um sonho.

Esse é o mote principal de “La vida es sueño” (Penguin Clásicos, 231 páginas), obra-prima do “autor teatral barroco por excelência” (segundo a contracapa do livro), o espanhol Calderón de La Barca (1600-1681).

A peça merece sua grande fama: não só é emocionante, cheia de reviravoltas - fora a história principal, ainda tem uma secundária, “a restauração da honra” da personagem Rosaura -, como tem trechos inesquecíveis, sendo o mais famoso aquele falado por Segismundo:

“¿Qué es la vida? Un frenesí. / ¿Qué es la vida? Una ilusión, / una sombra, una ficción, / y el mayor bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son”.

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Trecho inicial da minha novela “Morrissey”
10 de março de 2019 at 12:18 0
Morrissey - fonte: Billboard

- De jeito nenhum, delegado.

- Mas como assim, como é que você pode ter certeza?

- Tenho. Ele é um poeta, um homem estudado...

- Poetas e homens estudados não podem acreditar?

- Eu acho que não.

- Mas você sabe que a coisa não é bem assim, né?

- Eu acho que nenhum homem estudado, com talento, pode acreditar em Deus.

- Tá, vá lá, então o Morrissey não acredita em Deus e escreveu uma música chamada I have forgiven Jesus porque na verdade queria falar do seu desejo de matar alguém.

- Qualquer um pode ver isso, delegado... ah lá: Why did you give me so much desire? / When there is nowhere I can go / To offload this desire? Tá aí. Tá com desejo de matar.

- Ele disse que está com desejo de amor, é só ler a continuação da letra: And why did you give me so much love / In a loveless world / When there is no one I can turn to / To unlock all this love? Então você está dizendo que o amor que ele fala aqui é “metafórico”?

- Claro.

- Baseado exatamente no quê?

- Se fosse desejo de sexo, e aí até eu poderia aceitar, ele ia falar sexo, não amor. Ou você acha que um cara que tem tanto desejo assim de amor ia reclamar de falta de amor? Ninguém tem desejo assim de amor!

("Morrissey" é a segunda novela do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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“O cavaleiro inexistente”, de Italo Calvino
17 de fevereiro de 2019 at 15:28 0
fonte: Stanford University

Agilulfo é um cavaleiro medieval do exército de Carlos Magno que porta o tempo todo uma armadura branca – o tempo todo mesmo, já que ele não existe. Quando abre a viseira do elmo, é o vazio que os demais veem dentro da armadura sempre imaculada. Agilulfo não se alimenta, nunca dorme e é um cavaleiro extremamente compenetrado, corajoso e detalhista. Seu escudeiro teve vários nomes, conforme o lugar do mundo em que morou, e agora é chamado de Gurdulu. Ele é deficiente mental, tem uma força descomunal e um excelente caráter – todo mundo gosta dele. Rambaldo é um jovem que quer lutar nas batalhas contra os “infiéis” muçulmanos para matar o emir Isoarre e assim vingar a morte do pai, o marquês de Rossiglione. Brabante é uma mulher que luta juntamente com os homens, gosta de fazer sexo com os demais soldados e se apaixona por Agilulfo. Já Torrismundo é um jovem cavaleiro que diz ter provas de que o cavaleiro inexistente não defendeu a virgindade de uma donzela quinze anos antes – defesa esta que permitiu a Agilulfo o título de paladino de Carlos Magno.

Os personagens acima são os principais de “O cavaleiro inexistente” (Companhia das Letras, 118 páginas), romance escrito em 1959 pelo escritor italiano Italo Calvino (1923-1985). Sobre o livro, Fernando A. R. de Gusmão escreve, por exemplo, que:

“(...) Em outra vertente, Agilulfo é, também, o homem pós-moderno, fracassado em seu projeto de ser alguém, de ser um ser específico, passando toda a vida como sujeito potencial, sempre reprimido, somente Ser enquanto subordinado aos interesses do Outro - social. Nesse sentido, podemos percebê-lo, também, como um ser-vitrine da atual sociedade/espetáculo, perdido em sua exterioridade, vivendo função de uma contemporaneidade artificial, descartável, que se cumpre na celeridade e na impessoalidade do fast-food, na qual ele não passa de mais um passante/intérprete/plateia do shopping/moda.”

Tudo bem, nada contra. Só que eu, por outro lado, não percebi sentido nenhum em “O cavaleiro inexistente”, que acho que seria um livro até divertido se tivesse apenas um quinto do seu tamanho. Do jeito que foi escrito, suas mais de cem páginas demoram uma eternidade para passar.

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Trecho inicial de “O verão de 54 (novelas)”
4 de fevereiro de 2019 at 20:25 0
Clarice Lispector - fonte: InstitutoMoreiraSalles

Tudo começou quando a Valéria me contou que havia sonhado com a Clarice Lispector lhe dizendo que eu teria que escrever um livro chamado “O verão de 54”. Além deste, a escritora acrescentava que eu deveria, ainda, compor outra obra, sobre a Rússia. Bem, o Stálin é um personagem fascinante e a ideia de escrever uma espécie de monólogo interior sobre os dias dramáticos depois da invasão da União Soviética pela Alemanha, quando o ditador soviético aparentemente entrou em colapso nervoso, pareceu-me, de cara, uma boa ideia. É claro que eu teria que ler muitas biografias do ditador russo, fazer pesquisas, coisas que meu trabalho como engenheiro impossibilitaria – ou, no mínimo, dificultaria muito. Quem sabe um dia.

Assim como a ideia do hipotético livro sobre a Rússia, a ideia da história do “O verão de 54” me veio imediatamente à cabeça. Seria a paixão de um homem mais velho por uma mulher bem mais jovem, ele muito rico, ela de classe média baixa, aqui em Curitiba mesmo. O problema estava no título: “O verão de 54” significava que o livro deveria se passar, pelo menos em parte, muitas décadas atrás. Meus pais nasceram no início dos anos 40, poderiam me ajudar com alguma informação sobre aquela época. Minha sogra nasceu nos anos 20, também poderia contribuir com alguma coisa.

Meu protagonista seria rico e jornalista. Rico e jornalista, naquela época, até onde eu sei, só se fosse proprietário de uma grande empresa de comunicação. Ele poderia então ser filho do dono de um grande jornal – uma solução interessante, já que eu não imaginava meu protagonista com grande espírito empresarial. Claro que um empreendedor de primeira linha (o que combinaria com um fundador de um grande jornal) poderia se apaixonar por uma moça mais jovem, mas eu imaginava um protagonista mais passivo.

Tudo começou com um sonho que Paulo teve com Maria, secretária de seu pai. Pai e filho trabalhavam em salas contíguas e ela ficava na antessala dos gabinetes dos dois, juntamente com outras duas secretárias, Nicole e Amanda.

Comecei. Consegui criar um ambiente, um local – será que as coisas eram assim mesmo na sede de um jornal décadas atrás?

(trecho inicial do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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