História

O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
História
O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
18 de outubro de 2026 at 04:47 0
Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que - pelo menos no caso de Lagerfeld - eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983.
Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
Entre o Mito da Internet e a Realidade das Termópilas: Uma Resenha de “The Spartans”
História
Entre o Mito da Internet e a Realidade das Termópilas: Uma Resenha de “The Spartans”
20 de setembro de 2026 at 03:33 0
Acho difícil para alguém fascinado por História não se fascinar também por Esparta. A cidade-estado grega, grande inimiga e, às vezes, aliada de Atenas, é famosa por sua educação extremamente rígida e por moldar seus cidadãos, basicamente, para que fossem excelentes guerreiros. O historiador Thiago Braga fez alguns vídeos em seu canal do YouTube (Brasão de Armas) avacalhando com a coragem e o caráter dos espartanos e, para tirar a cisma, resolvi procurar algum livro que descrevesse a história real da cidade. Em uma rápida pesquisa na internet, o primeiro escolhido foi "The Spartans", de Paul Cartledge (Channel Four Books, 285 páginas, ano de publicação original: 2002). Embora apresente elementos da trajetória completa da cidade, desde as origens até o período helenístico, o livro se concentra basicamente no Período Clássico da Grécia Antiga (séculos V a.C. e IV a.C.), que representa o auge do poder militar, político e cultural de Esparta. Muito do que o historiador comenta é surpreendente para alguém, como eu, desconhecedor da história espartana. Por exemplo, as mulheres da cidade tinham muito mais liberdade — inclusive a de serem proprietárias — que as correspondentes gregas da mesma época: são muitas as críticas, vindas até de intelectuais como Aristóteles, em relação a como os espartanos obedeciam às suas esposas e mães, e como as garotas estudavam quase como os rapazes, fazendo inclusive exercícios nuas ou com pouquíssima roupa. Os espartanos também eram profundamente religiosos, deixando de guerrear se os augúrios não fossem bons. Outro detalhe que me chamou a atenção é que os guerreiros deixavam seus cabelos longos, ao contrário do costume de quase toda a Antiguidade Clássica — inclusive a romana. E, vale ressaltar, Paul Cartledge declara que, sim, os espartanos eram combatentes formidáveis e que a história dos “300” — quando três mil e trezentos soldados gregos, liderados por trezentos espartanos e pelo Rei Leônidas, sacrificaram-se heroicamente no estreito desfiladeiro das Termópilas para atrasar o massivo exército persa e inspirar a união da Grécia — aconteceu praticamente do jeito que a lenda conta. Infelizmente, “The Spartans” entra em detalhes excessivos sobre diversos personagens da história local — não à toa o título da tradução em português é “Os Espartanos” —, tornando a leitura um pouco confusa para quem ainda não está familiarizado com o tema, como eu. Apesar disso, é um livro brilhante sobre uma sociedade realmente fascinante.
Imagem obtida no ChatGPT Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente por e-mail, clique aqui e cadastre seu e-mail
Leia mais +
Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
Ciência, História
Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
16 de maio de 2026 at 15:18 0
Faço listas basicamente desde que tive acesso à internet: melhores filmes, melhores músicas, melhores discos etc. Acho que é um bom e divertido exercício de lembrar de experiências agradáveis em vários aspectos. A lista do texto de hoje é uma que penso em fazer há tempos: quais os livros de não-ficção e não-religiosos que mais me marcaram? A lista segue abaixo, sem ordem de preferência. Alguns deles eu li há muitos anos já e nem tenho mais comigo, então eu coloco as informações de alguma edição recente.
  • A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 páginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publicação original: 1900)
A cada nova revelação deste longo, didático e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: “Nossa, isso faz tanto sentido”. Minha terapeuta não é freudiana, mas frequentemente rimos que alguma história pessoal minha bate com o que Freud dizia no começo do século XX.
  • Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 páginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publicação original: 1996)
Muitos estudiosos reclamam da conclusão principal de Goldhagen, de que os alemães realmente queriam matar judeus, dizendo que havia, sim, alemães contra o homicídio de judeus. Mas é muito difícil ler os capítulos sobre os Einsatzgruppen (esquadrões móveis que realizaram fuzilamentos em massa no início da invasão da União Soviética) e as Marchas da Morte (evacuações forçadas e brutais de prisioneiros dos campos de concentração no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e não achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro é tão perturbador que me atrapalhou o sono por semanas – e, em última análise, me impede até hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em Os Carrascos Voluntários de Hitler é pior do que qualquer terror cinematográfico.
  • O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 páginas, ano de publicação original: 1995)
Quem, como eu, acompanhava muita política nos anos 1980 pela televisão certamente se lembra bem de como o político Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e rápido, e tinha uma obsessão enorme em fazer com que todas as crianças passassem o dia na escola. Quando, no início dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (já que o político Darcy Ribeiro não me impressionava muito) e como O Povo Brasileiro realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a história da miscigenação dos povos que formaram o Brasil – brancos, negros e índios – de uma maneira como você nunca imaginou naquelas aulas chatas de história na escola.
  • Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 páginas, ano de publicação original: 1936)
Eu odeio a expressão “obrigatório” para se referir a livros, filmes, músicas: ninguém é obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria Raízes do Brasil, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro é que, ao contrário dos europeus do norte, que prezam a “fria” competência no trabalho, os brasileiros - assim como eram os portugueses colonizadores - se importam muito mais com relações pessoais. A famosa frase de que o “brasileiro é um povo cordial” tem a ver com relações “cordiais” (do coração) e não com uma suposta afetividade. Bem, é só ver o noticiário para saber de onde vem esse nosso “jeitinho” tão prejudicial para o país como um todo.
  • A Ciência Tem Todas as Respostas?, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 páginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publicação original: 2022)
Aqui eu tinha escrito um texto sobre este que é a obra de divulgação científica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso:
“Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se alguém achar que isso tem valor por alguma razão, tudo bem para mim – todos devem ser livres para praticar sua religião. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica que pode ser dada é ‘nós não sabemos’. (...) Não é que eu queira ser simpática com pessoas religiosas pela única razão de ser agradável. Para começo de conversa, eu não sou exatamente conhecida como uma pessoa agradável. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que ‘não existe a possibilidade de um criador’, ou como Victor Stenger, que Deus é uma ‘hipótese falseada’, demonstram que não entendem o limite de seu próprio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declarações presunçosas.”
Chamar o ateísmo de “teologia” – isso vindo de uma agnóstica ferrenha – meio que lava a minha alma.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
Ciência, História
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
26 de abril de 2026 at 11:31 0
Reinaldo José Lopes é um dos jornalistas mais interessantes da nossa imprensa. Católico praticante, ele é especialista em religião e ciência. Seu blog se chama “Darwin e Deus”, com a explicação de que é “um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas”. Ele é um ótimo exemplo de que você não precisa ser ateu ou agnóstico para tratar de assuntos de ciência em geral e evolução das espécies em particular – ele inclusive escreveu, com o youtuber e biólogo ateu Pirulla (força, menino), o livro “Darwin sem frescura”. Reinaldo também é um dos maiores especialistas brasileiros em J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, tendo traduzido diversas obras e dedicado seu mestrado e doutorado ao estudo do escritor inglês (ao contrário das outras especialidades do autor, sobre esta eu nunca tive nenhum interesse – nada é perfeito neste mundo). Apesar de acompanhar a carreira de Reinaldo José Lopes há muitos anos, finalmente li um de seus livros, chamado “1499” (uma homenagem bem-humorada aos grandes sucessos de Laurentino Gomes: “1808”, “1822” e “1889”). Como se pode imaginar, “1499” (Harper Collins) foca no ano imediatamente anterior ao Descobrimento do Brasil e se concentra nas pesquisas mais recentes sobre os povos nativos. Maior sucesso literário da carreira do jornalista, a obra venceu o Prêmio Jabuti em 2018 na categoria Humanidades. O fato de ser tão atualizado é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do livro. “1499” descortina um mundo que a grande maioria das pessoas não conhecia, com cidades enormes na Amazônia e uma infraestrutura espetacular. Embora as edificações fossem de madeira e palha (que se perderam no tempo), o desenho dessas cidades — feito com grandes movimentações de terra, valas e estradas — sobreviveu e hoje pode ser visto até do espaço. Entre outros aspectos pouco conhecidos está o fato de que a Amazônia não é uma “floresta intocada”: na verdade, a quantidade relativa de plantas úteis para o ser humano é muito maior do que seria caso a região não tivesse sido habitada por populações nativas. No livro, Reinaldo defende (baseado no consenso atual da arqueologia e da botânica) que houve um manejo consciente das plantas. Os povos indígenas praticavam a "arboricultura": eles não apenas coletavam, mas selecionavam, plantavam e limpavam o terreno para favorecer espécies como o açaí, a castanha-do-pará e o cacau. Ainda se discute a escala disso em algumas regiões específicas, mas a "floresta cultural" ou "antropogênica" é hoje considerada uma construção ativa. Embora a maior parte do estudo se concentre na Região Amazônica, “1499” ainda apresenta temas como os caminhos dos primeiros seres humanos que chegaram ao Brasil e sua origem — tanto em termos arqueológicos quanto genéticos —, o modo de adestrar as plantas, análises linguísticas e as primeiras impressões dos europeus sobre os povos originários. Como mencionei, a “fraqueza” do livro reside no fato de que muito do que se está estudando ainda se encontra em fase inicial; portanto, muitas conclusões sobre o Brasil pré-1500 são preliminares e objeto de debate entre os pesquisadores. Mas esta é a própria “fraqueza” da ciência: existem coisas que não sabemos e talvez nunca saberemos, o que pode ser frustrante. No entanto, essa limitação não impede que nos deleitemos com todo o fascinante mundo que se descortina na leitura de “1499”.
Imagem obtida no Gemini Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
5 de abril de 2026 at 09:55 0

O grupo guerrilheiro alemão Baader-Meinhof, formalmente conhecido como Fração do Exército Vermelho (RAF), estruturou-se em três “gerações”:

  1. A geração dos fundadores: Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin. Esta é a fase mais célebre do grupo e encerrou-se com o suicídio coletivo dos três em 1977, na prisão de Stammheim.
  2. A segunda geração: Surgiu com o intuito de libertar os líderes da primeira geração, presos em 1972. Esta fase culminou no “Outono Alemão” de 1977, com o sequestro e assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer e o desvio do voo Landshut da Lufthansa. Os principais expoentes desta fase foram Siegfried Haag, Brigitte Mohnhaupt e Christian Klar.
  3. A terceira geração: Ao contrário das anteriores, esta foi a mais enigmática. Seus membros levavam vidas aparentemente normais e executaram atentados de precisão cirúrgica, como o assassinato de Alfred Herrhausen, chefe do Deutsche Bank, em 1989. O grupo dissolveu-se formalmente em abril de 1998, enviando um comunicado à imprensa declarando que “a guerrilha urbana sob a forma da RAF agora é história”.
Li recentemente a edição em inglês do extraordinário Baader-Meinhof: The Inside Story of the R.A.F., de Stefan Aust (460 páginas, tradução de Anthea Bell, Oxford University Press). Publicado originalmente em 1985, o livro detalha a gênese do grupo e o início da segunda geração. Aust, que era colega de redação da jornalista (e futura terrorista) Ulrike Meinhof, insere passagens em primeira pessoa, como o relato de quando resgatou as filhas dela — Regine e Bettina — de um acampamento na Sicília para devolvê-las ao pai. Essa trajetória é retratada no filme O Grupo Baader-Meinhof (2008), baseado na obra de Aust.

É possível assistir no YouTube ao documentário em seis partes The Red Army Faction (2017), dirigido por Anne Éven e Christopher Gerisch. Falado em alemão com legendas em inglês, a produção é espetacular, apresentando imagens de arquivo notáveis e conferindo importância equivalente às três gerações do movimento.

A República Democrática Alemã (RDA/DDR) — a face comunista da Alemanha dividida — ofereceu suporte estratégico à RAF. O regime não apenas forneceu apoio logístico e financeiro, como também serviu de refúgio, garantindo emprego e moradia a militantes que desejavam abandonar a luta armada. Com a Reunificação Alemã em 1990, foi relativamente simples para o novo governo identificar esses ex-membros, uma vez que a lista de cidadãos da Alemanha Ocidental que haviam obtido asilo no Leste era extremamente curta. Esse panorama, explorado no documentário supracitado, despertou meu interesse por Stasilândia: Histórias por Trás do Muro de Berlim, de Anna Funder (376 páginas, tradução de George Schlesinger, Companhia das Letras). Escrito no estilo do New Journalism, o livro é narrado em primeira pessoa (descrevendo inclusive histórias do cotidiano da autora na Alemanha, como uma hilária visita a uma piscina pública) e resgata o cotidiano na antiga RDA através de entrevistas com vítimas e defensores do regime. Embora o tom das memórias seja sombrio, a leitura é fascinante e transformou a extinta DDR em um dos meus “interesses estranhos” — ao lado do Período Permiano, do Império Wari ou do Papado de Avignon. Aguardem novos textos sobre este país que não existe mais.

Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.

Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.

Leia mais +
Por que ainda precisamos do mistério
Ciência, História, Literatura
Por que ainda precisamos do mistério
29 de março de 2026 at 10:04 0

Leitura sugerida por amigos, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de Janaína Marcoantonio), é uma obra de narrativa ágil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajetória da espécie humana, desde as origens na África até a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previsões audaciosas para o futuro.

Algumas teses defendidas por Harari são notáveis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot não “existe” no mundo físico; seria uma abstração, um mito jurídico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as fábricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas físicas permaneceriam, mas a “Peugeot” desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de “ordens imaginadas” aos países, ao dinheiro e ao próprio capitalismo: seriam construções intersubjetivas aceitas coletivamente.

Outros pontos são igualmente instigantes, como a análise de como o crédito moderno viabilizou a Revolução Industrial e o progresso técnico, ou como as religiões permitiram a cooperação de grupos humanos em escalas muito superiores às comunidades primitivas.

Contudo, compartilho do incômodo de muitos críticos em relação à obra, especialmente em um ponto central. A cientista alemã Sabine Hossenfelder defende que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus não existe ou que não há vida após a morte, ele deixa de fazer ciência para praticar teologia. De forma irônica, ela comenta que aqueles que usam o método científico para “provar” a inexistência do divino deveriam ser livres para “praticar sua religião”, mas ressalta: “Quero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica possível é ‘nós não sabemos’”. Para Hossenfelder — que é agnóstica —, a ciência carece de elementos para refutar o que está além do plano empírico. É precisamente essa postura que me incomoda em Sapiens. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a dúvida; ele faz afirmações peremptórias em temas que exigem o contraditório. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com reverência sobre o “mistério” da existência e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplicável — como a improvável ascensão de religiões como o Cristianismo e o Islã — ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua visão, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista. Em contrapartida à ausência de mistérios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de Escrever é muito perigoso (Todavia, 2019), descreve a própria criação literária como um processo misterioso. Para ela, as palavras e histórias parecem surgir “do nada”, como se os livros já estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, não sei a origem exata das histórias que escrevo. A sensação de que a obra preexiste ao ato de escrever é um mistério que a frieza dos acasos de Harari não consegue alcançar.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 4. Filme “Se Não Nós, Quem?”
4 de janeiro de 2026 at 11:13 0

Ao lado do namorado Andreas Baader, Gudrun Ensslin foi a principal liderança do grupo terrorista alemão conhecido popularmente como Baader-Meinhof — embora o nome oficial da organização fosse RAF (Rote Armee Fraktion ou Fração do Exército Vermelho). O apelido jornalístico, curiosamente, destacava a jornalista Ulrike Meinhof em vez de Ensslin.

Nascida em 15 de agosto de 1940, Gudrun teve uma formação marcada pelo brilhantismo intelectual e por uma ética rigorosa herdada de seu pai, um pastor liberal. Estudante de elite e bolsista da Studienstiftung des deutschen Volkes, ela buscou confrontar o silêncio sobre o passado nazista alemão através da literatura e da filosofia. Chegou a fundar uma editora com seu companheiro Bernward Vesper, com quem teve um filho em 1967.

O ponto de ruptura em sua trajetória ocorreu em junho de 1967, quando o assassinato do estudante Benno Ohnesorg pela polícia a convenceu de que o Estado alemão era uma extensão do fascismo, combatível apenas pelas armas. Ao encontrar Andreas Baader, Ensslin abandonou família e carreira para se tornar a força teórica e estratégica do grupo, enxergando nele o executor necessário para colocar em prática sua decisão de transformar o mundo através da violência revolucionária.

O filme alemão Se Não Nós, Quem? (2011), dirigido por Andres Veiel, narra o início da vida de Gudrun (vivida por Lena Lauzemis), concentrando-se em sua relação conturbada com Bernward Vesper (August Diehl). A obra é brilhante ao descrever as inquietações socialistas do casal, o conflito dela com a figura paterna e seu crescente radicalismo — culminando no impacto avassalador da entrada de Andreas Baader (Alexander Fehling) em sua vida. Este filme funciona como um prelúdio perfeito para O Grupo Baader-Meinhof (2008), que retoma a história praticamente onde a obra de Veiel termina. São dois filmes extraordinários, e Lena Lauzemis interpreta a terrorista com a mesma intensidade que Martina Gedeck no filme posterior. No fim, Gudrun Ensslin é uma figura histórica extremamente bem representada no cinema.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
Cinema, História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 3. Três Filmes: Terrorismo, Olimpíadas e Drogas na Alemanha dos Anos 70
14 de dezembro de 2025 at 13:55 0
“O Grupo Baader-Meinhof” (Alemanha/França/República Tcheca, 2008, 150 min) é um filme dirigido por Uli Edel e estrelado por Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu e Johanna Wokalek. A obra narra a história da “primeira geração” do grupo terrorista alemão, composta por Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Ulrike Meinhof. O filme é baseado em “Der Baader-Meinhof Komplex”, de Stefan Aust, publicado em 1985 e considerado um dos melhores livros sobre o tema. É interessante como algumas cenas do livro são fielmente reproduzidas no filme. Posso citar a tensão — cultural e disciplinar — entre terroristas palestinos e os ativistas alemães, que ficavam nus — homens e mulheres juntos — em público durante um treinamento militar na Jordânia. Outra cena marcante é a de Andreas Baader dando de presente seu casaco de couro para um terrorista recém-chegado, só porque o novato havia gostado da peça. O filme é excelente, mantendo a tensão o tempo todo e com atuações extraordinárias. A semelhança entre Johanna Wokalek, a atriz que interpreta Gudrun Ensslin, e a própria terrorista é tão grande que chega a ser assustadora. Ensslin era namorada de Andreas Baader e era mais importante dentro do grupo do que Ulrike Meinhof, apesar de o nome desta última compor o título popular do grupo, que era oficialmente chamado de Rote Armee Fraktion (RAF).

Nestas pesquisas sobre a Alemanha dos anos 1970, acabei tendo a sorte de encontrar, como propaganda principal da Prime Video, o filme de 2024/2025, “Setembro 5”, dirigido por Timur Bekmambetov (Alemanha/EUA - 94 min). O filme se concentra na transmissão esportiva da rede americana ABC durante o Massacre de Munique em 1972, o ataque terrorista a atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos. “Setembro 5” é filmado como se fosse uma película dos anos 1970, e o cuidado com a reprodução da tecnologia daquela época é espetacular. Os técnicos da rede americana ABC tinham que lutar pelo único satélite disponível para os Estados Unidos; muitas informações eram obtidas por uma rádio local – e apenas uma tradutora (vivida pela atriz Lena Urzendowsky) conseguia traduzir para os americanos o que se dizia. Havia também uma dificuldade gigantesca em transportar as enormes câmeras para os locais onde o atentado estava ocorrendo, e assim por diante. Fascinante. Existia sim uma relação entre os terroristas palestinos, do grupo Setembro Negro, que assassinaram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972, e os terroristas alemães. Essencialmente, o Baader-Meinhof atuava como uma célula de apoio local para o Setembro Negro em solo alemão, baseada na convicção de que todos estavam lutando contra o mesmo sistema ocidental. Conforme discutido anteriormente, inclusive, os ativistas alemães fizeram treinamento militar com os palestinos na Jordânia. Para corroborar este fato, uma das principais reivindicações do Setembro Negro era a libertação de centenas de prisioneiros palestinos detidos em Israel. Crucialmente, eles também exigiram a libertação de líderes da RAF, como Andreas Baader e Ulrike Meinhof, que estavam presos em cadeias alemãs.

Também foi uma sorte ter encontrado na Prime Video o anúncio de “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” (1981, Alemanha Ocidental - 131 min), baseado no livro de mesmo nome. A história da garota de classe média que se vicia em heroína na Berlim Ocidental dos anos 1970 e acaba se prostituindo para sustentar o vício resultou num dos livros mais importantes que li na vida: eu era adolescente e fiquei tão assustado com o relato – e as fotos – da obra que tenho certeza que esta leitura me tirou toda e qualquer vontade de usar drogas ilícitas, até hoje. Mas nunca tinha visto o filme, ao qual só assisti agora. Como todos os citados neste texto, ele é extraordinário, com ótimas atuações e tensão do início ao fim. Pode-se argumentar que o que conecta as histórias de Christiane F. e do Baader-Meinhof é o desespero de uma juventude que se sentia isolada e sem futuro, seja encontrando sentido na revolução ou no vício. Tenho minhas ressalvas em relação a esta teoria, dados os problemas que muitas pessoas enfrentam com o uso abusivo de drogas, seja na Berlim dos anos 1970 ou em muitos outros lugares e épocas. Mas há sim algumas relações inequívocas entre as duas obras: no filme de 1981, a cena da primeira relação entre Christiane F. e seu namorado Detlev ocorre num quarto onde, com grande destaque, aparece o famoso pôster de “Procura-se” da polícia alemã com a foto do rosto de Ulrike Meinhof. Mais do que isso, o alemão Uli Edel é o diretor dos dois filmes! Não tem como não dizer que as histórias trágicas do grupo Baader-Meinhof e de Christiane F. não estão relacionadas.
Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +