História

História, Literatura, Séries
Júlio César
2 de junho de 2019 at 22:17 0

Estou escrevendo um conto chamado “A mulher de César”, e abaixo seguem comentários sobre uma peça de teatro, uma biografia e uma série da Netflix que utilizei nas minhas pesquisas.

É interessante observar como o prefácio da edição de “Júlio César”, de William Shakespeare (1564-1616), da Penguin-Companhia das Letras, 186 páginas, escrito pelo grande crítico literário Harold Bloom, comenta como a peça é considerada “fria” por muitos especialistas. Ele cita, inclusive, as palavras do “maior especialista de todos”, Samuel Johnson: “nesta peça, vários trechos merecem a atenção, e a contenda e reconciliação de Bruto e Cássio são celebradas universalmente. Em mim, porém, a trama jamais causou grande comoção; chego a considerá-la um tanto fria e inócua, comparada a outras peças de Shakespeare; a maneira com que se prende à História e aos costumes romanos parece haver bloqueado o vigor natural de sua genialidade”.

Apesar do título, a peça se concentra basicamente na figura de Bruto (Roma, 85 a.C. - Filipos, 42 a.C), protegido, e posteriormente, um dos participantes famoso assassinato do líder político Júlio César (Roma,100 a.C. – Roma, 44 a.C.) no Senado Romano.

Na época em que ocorrem os acontecimentos apresentados na peça, Roma está no final da República. Júlio César já se declarou ditador perpétuo, e os conspiradores contra sua vida têm receio que ele queira transformar Roma num Império. Na peça, são apresentadas diversas cenas envolvendo o planejamento do homicídio do político, além do próprio assassinato de Júlio César e o início da reação popular contra os conspiradores (spoiler: eles se dão muito mal).

Entre todos os conspiradores, Bruto parece o único preocupado com o futuro de Roma – ao contrário dos demais, não parece ter nenhum interesse pessoal no assassinato, só entrando na conspiração para proteger a República Romana. É um grande personagem de uma grande peça de teatro – ao contrário dos críticos citados acima, não achei a peça nem um pouco fria.

Já a biografia “Júlio César”, de Joël Schmidt, impressiona ao descrever a inteligência maquiavélica do ditador romano (100-44 a.C.) ao manipular adversários políticos para conseguir o objetivo de acabar com a República Romana e fundar o Império – o que, se não conseguiu, abriu caminho para que Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), seu sobrinho, o fizesse anos depois de sua morte.

O Júlio César que emerge da biografia é de um homem bem quisto por seus soldados, excelente estrategista, e sexualmente voraz – era famoso por dormir com as mulheres de outros importantes líderes romanos. Não era mesquinho, embora tenha estado abaixo de sua grandeza, segundo Joël Schmidt, quando se irritou com o líder gaulês Vercingetórix quando da rendição deste em Alésia, na Gália (atual França), em 52 a.C.

Finalmente, “Império Romano”, da Netflix, é uma série em três temporadas no estilo dos documentários da History Channel/H2 (ou seja, com atores, permeada com comentários de especialistas), apresentando, em cada uma delas, a história de um dirigente romano.

A primeira temporada, com seis episódios, é dedicada a Cômodo (161-192), que foi imperador romano entre 180 e 192. Ele é considerado um dos responsáveis pelo início da decadência do Império, e a série da Netflix se concentra nas várias conspirações contra dele e no seu desejo de ser gladiador – chegou a lutar no Coliseu, inclusive - mesmo sendo mandatário romano. A terceira temporada, com quatro episódios, é dedicada ao imperador Calígula (12-41 d.C.). Ele iniciou bem seu mandato imperial, no ano de 37, mas depois de uma crise em que ficou semanas em coma, acordou irreconhecível, transformando-se num tirano paranoico.  A segunda temporada, com cinco episódios, é sobre Júlio César, sobre o qual já comentei acima.

Dá uma boa ideia da violência da sociedade romana o fato de que os três imperadores objeto da série da Netflix terem acabado seus dias assassinados.

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História, Literatura
A relação entre a História (e a Sociologia) e a Literatura em três romances
27 de janeiro de 2019 at 21:01 0
o grande J.M.Coetzee - fonte: The Nation

Eu não lembro bem onde li que era possível aprender mais sobre a história do Segundo Império (1852-1870) com os romances de Honoré de Balzac (1799-1850) do que com livros de História. De fato, a relação entre a História (e a Sociologia) com a Literatura é um tema bastante rico, e é claro que aqueles voltados ao estudo das duas primeiras ciências humanas tendem a destacar, em algum romance, mais os seus aspectos históricos e sociológicos, enquanto que outros – entre os quais me incluo – estão mais interessados na sua relevância propriamente literária.

Lembrei bastante desses aspectos em três romances que li recentemente: “Nix” (2016), do americano Nathan Hill (Intrínseca, 672 páginas), “Oryx e Crake" (2003), da canadense Margaret Atwood (Rocco, 344 págs.) e “A Infância de Jesus” (2013), do sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 304 págs. – eu li na versão em espanhol, da Literatura Random House).

“Nix” conta a história de Samuel Anderson, um professor de literatura inglesa de cerca de 30 anos de idade que dá aulas numa universidade na região de Chicago, nos Estados Unidos, e que está viciado em um jogo on-line de computador chamado “World of Elfscape”. Sua mãe, Faye, que o tinha abandonado quando este era criança, aparece nos noticiários depois de jogar pedras num candidato ultraconservador, com riscos de cegá-lo. É quando – por motivos um tanto escusos – o filho vai procurar a mãe, depois de anos sem saber notícias dela. Este é o mote principal do longo romance de Nathan Hill, que tem um grande número de outros personagens e que passa por diversas fases da história americana – concentrando-se de maneira especial nas manifestações contra a Guerra do Vietnã em Chicago, em 1968, e no movimento “Occupy Wall Street”, de 2011. A vontade de marcar tanto a obra em termos históricos (com o objetivo de fazer “O Grande Romance Americano”?) e as idas e vindas da narrativa no tempo e no espaço irritam um pouco, mas os personagens criados por Hill são bem construídos e o livro prende a atenção em todas as suas muitas páginas.

Os personagens criados na distopia “Oryx e Crake” são ainda melhores que os de “Nix”: o livro de Margaret Atwood conta a história de um futuro em que ocorre uma grande catástrofe depois que cientistas começam a fazer modificações genéticas em grande escala nos animais e nos seres humanos, e o único sobrevivente do homem conforme conhecemos (há também alguns seres humanoides, criados por manipulação genética) em uma grande região litorânea é um homem que agora tem o apelido de “Homem das Neves”. A ligação com a Sociologia e a História no caso de “Oryx e Crake” é, conforme comentou Bernardo Carvalho na Folha de São Paulo em 3 de abril de 2004, está em que “o discurso de Atwood representa uma preocupação que está no ar hoje (entre ecologistas e ambientalistas sobretudo). É um discurso com mensagens um tanto óbvias, embora não menos pertinentes, que fala de um desdobramento possível: as experiências dos homens com a natureza podem sair do controle e acabar destruindo os próprios homens e o mundo em que vivem.” Conforme complementa Bernardo Carvalho, este é “o ponto mais fraco” do livro, “como se o texto não passasse de um meio para a transmissão das ideias da autora”. A literatura é muito mais que simples transmissão de ideias e, por sorte, “Oryx e Crake” é tão criativo, delirante e bem escrito que o romance é, sim, grande literatura – independentemente das ideias que defende.

Finalmente, “A Infância de Jesus” também uma espécie de distopia, na qual os personagens vão morar numa ilha onde perdem as lembranças de tudo o que ocorreu em sua vida antes da chegada por lá. No local todos vivem em paz e harmonia o tempo todo, ninguém quer ganhar mais do que o mínimo necessário para uma sobrevivência digna, e o sexo tem importância secundária. O recém-chegado Simón é um dos únicos que acham esta “vida nova” muito chata - e tem grandes dificuldades para se adaptar a ela. Ele também leva um garoto, chamado David, para tentar encontrar a sua mãe: Simón não lembra quem ela é, mas acha que vai encontrá-la – e a encontra (ou acha que encontra) em Inés, uma mulher solteira e rica, que, depois de uma estranheza inicial, acaba adotando o garoto. David, que tinha um bom comportamento enquanto vivia com Simón, passa a ter todos os sintomas de alguém muito mimado: mesmo sem saber ler nem fazer contas, não quer aprender porque acha que “já sabe”. Não se adapta na escola, tem dificuldades de concentração, e Inés apoia o garoto em tudo.

E, bem, não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história, que continua em “A vida escolar de Jesus”, que ainda não li. David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes? (E por que, algum engraçadinho poderia perguntar, este livro está sendo comentado aqui?)

“A infância de Jesus” – muito bem escrito, como sempre em se tratando de J.M. Coetzee – é um dos livros mais estranhos que já li.

Vejamos se na sua continuação a coisa passa a fazer algum sentido.

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História
Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa
21 de janeiro de 2019 at 21:16 0

À maneira de “O Brasil holandês”, de Evaldo Cabral de Melo, este “Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa”, com organização e introdução de Daniel Aarão Reis (Penguin Classics Companhia das Letras, 484 páginas), conta a história de um período histórico (a invasão holandesa no caso do primeiro livro, a Revolução Russa no caso do segundo) através de documentos da época. Os textos escolhidos por Daniel Aarão Reis – com período restringido entre fevereiro de 1917 e a paz de Brest-Litovski, em março de 1918 - são em geral curtos e englobam discursos, trechos de jornais, poemas e letras de músicas – cada um deles com uma pequena apresentação a cargo do organizador do livro. A maior parte dos textos, como não poderia deixar de ser, são documentos bolcheviques, que venceram revolução, mas são englobados basicamente textos de todos os lados do conflito. Em termos de qualidade literária, impressionam os discursos, cartas e artigos de V. Lênin, o primeiro presidente da Rússia socialista.

Os documentos apresentados em “Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa” conseguem passar para o leitor toda a efervescência de uma das épocas mais importantes da história recente – e é pena que toda aquela esperança num mundo melhor, mostrada com detalhes na coletânea de Daniel Aarão Reis, tenha descambado no stalinismo, cujo dia-a-dia é mostrado em obras impressionantes e dolorosas como “Sussurros: a vida privada na Rússia de Stalin”, de Orlando Figes.

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“A civilização do Ocidente medieval”, de Jacques Le Goff
História
“A civilização do Ocidente medieval”, de Jacques Le Goff
18 de julho de 2018 at 22:26 0
A Idade Média é conhecida como uma época de obscurantismo, ignorância, trevas, essas coisas todas. Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., os povos bárbaros passaram a impor seus próprios costumes à toda Europa Ocidental, e a tradição de toda a cultura clássica foi mantida, a duras penas, graças principalmente aos monastérios da Igreja. O controle político da região do entorno do Mediterrâneo, antes a cargo do Império Romano, foi se esfacelando até que se estabilizou num sistema fragmentário, o Feudalismo. A história desta época, que durou em torno de 1000 anos - normalmente seu fim é situado na queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, em 1453 -, é contada com grande quantidade de detalhes no ótimo “A civilização do Ocidente medieval”, do importante medievalista Jacques Le Goff (Vozes, 390 páginas). Basicamente todos os aspectos da sociedade medieval são cobertos pelo livro: as invasões bárbaras e a queda do Império Romano do Ocidente; os meios de subsistência (e a fome); o sistema político; a cultura; a vida privada; a influência decisiva da Igreja nas mentalidades, as heresias e o paganismo resistente. (mais…)
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“SPQR – Uma história da Roma antiga”, de Mary Beard
História
“SPQR – Uma história da Roma antiga”, de Mary Beard
24 de junho de 2018 at 21:51 0
Uma pequena decepção que tive com este ótimo “SPQR – Uma história da Roma antiga”, da historiadora inglesa Mary Beard (Editorial Crítica, 576 páginas), é que a história contada no livro termina em 212 d.C., quando o então Imperador Caracala decretou que todos os habitantes livres do Império Romano, onde quer que vivessem, seriam, a partir de então, cidadãos romanos. O Império Romano do Ocidente, como se sabe, só caiu mais de dois séculos mais tarde, em 476 d.C. - e este intervalo restante de tempo não é coberto pela obra. (mais…)
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“edipus paranaensis”, de Cezar Benevides
História
“edipus paranaensis”, de Cezar Benevides
2 de maio de 2018 at 23:15 0
O avô da minha mulher, Octávio da Silveira (que ela não conheceu), foi um deputado federal cassado e preso pela ditadura de Vargas, em 1935, quando da Intentona Comunista. Estou casado com a Valéria há bastante tempo já, e tenho ouvido conversas na família dela sobre a prisão do patriarca, e sua luta pelos mais pobres, praticamente desde que começamos nosso relacionamento. (mais…)
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“The Witches – Salem, 1692”, de Stacy Schiff
História
“The Witches – Salem, 1692”, de Stacy Schiff
4 de abril de 2018 at 22:11 0
Betty Parris, de nove anos, e Abigail Williams, de onze, respectivamente a filha e a sobrinha do Pastor Samuel Parris, começaram a se contorcer “em posições estranhas”, a jogar coisas pelo quarto, a gritar e emitir sons desconexos. O ano era 1692 e a cidade, Salem, no Massachusetts. Num tempo em que não havia quem duvidasse da existência de Satã, a cidade começou a entrar em pânico com o sofrimento das meninas – pior do que isso, outras duas garotas, de doze anos, passaram a ter os mesmos sintomas: Ann Putnam, Jr., de doze anos, e Elizabeth Hubbard, de dezoito. (mais…)
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