História

História
Livros sobre o nazismo
3 de maio de 2020 at 14:38 0
fonte: Amazon

O regime nazista, comandado por Adolf Hitler na Alemanha, foi um dos mais brutais de todos os tempos, senão o mais brutal: não só provocou a Segunda Guerra Mundial como assassinou friamente, fora dos campos de batalha, cerca de seis milhões de judeus, quinhentos mil ciganos e cinco milhões de pessoas de outras etnias. Toda esta barbárie ainda chama muito a atenção dos historiadores e do público em geral, e novos lançamentos de história e de ficção abordam diferentes aspectos do regime nacional-socialista.

Falecido recentemente, o historiador alemão Joachim Fest escreveu aquela que é considerada por grande parte dos especialistas como a melhor de todas as biografias de Adolf Hitler. O segundo volume desta obra foi relançado em 2006 (o primeiro tinha saído em 2005): Hitler - vol. 2  (Nova Fronteira, 528 páginas).

O primeiro tomo cobria a vida de Hitler desde o seu nascimento até a posse como Chanceler (cargo equivalente ao Primeiro-Ministro de um país parlamentarista) alemão, em 30 de janeiro de 1933. Hitler - vol. 2 inicia-se nesta data e termina com a morte do Führer no seu bunker em Berlim, quando da derrota da Alemanha em 1945.

Os dois volumes desta biografia são extremamente detalhados, precisos e bem escritos, fruto de um trabalho sério e obsessivo do historiador. Merecem totalmente o imenso prestígio que obtiveram ao longo dos anos, desde a sua publicação na Alemanha em 1973.

Para o leitor leigo, uma boa introdução ao modo nazista de pensar e de governar encontra-se em Itália Nazista e Alemanha Nazista (Madras, 180 páginas), escrita pelo catedrático de História Europeia Moderna da Universidade Estadual da Carolina do Norte Alexander J. De Grand. A obra faz uma comparação entre os regimes fascista da Itália e nazista da Alemanha em relação a assuntos como a marcha para o poder, os sistemas econômicos, as comunidades, a cultura, os militares, a expansão e a guerra.

Dificilmente alguém que não tenha ficado chocado com a barbárie nazista não tenha algum dia se perguntado como estaria hoje o mundo se o Eixo - aliança entre a Alemanha, a Itália e o Japão - tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Uma fantasia - tétrica, como não poderia deixar de ser - neste sentido foi criada pelo escritor de ficção científica Philip K. Dick no romance O homem do castelo alto, publicado originalmente em 1962 e apenas agora lançado no Brasil (Aleph, 304 páginas).

O livro mostra como seria o início dos anos sessenta após a derrota dos Aliados. Neste assustador mundo fictício, os japoneses governam a Costa Oeste dos Estados Unidos e a Alemanha, a Costa Leste. Hitler está tão doente que já não tem mais condições de governar, e o ditador do Reich agora é o antigo fiel escudeiro do ex-Führer, Martin Bormann. Os dirigentes nazistas (como sempre ocorrera, aliás), travam ferozes lutas internas por nacos de poder: com Heinrich Himmler já falecido, os mais importantes mandatários alemães são o ministro da aeronáutica e ex-vice premiê Hermann Göring, o ministro da propaganda Joseph Goebbels, o ex-dirigente da juventude nazista, o moderado Baldur Von Schirach, e os cruéis Arthur Seyss-Inquart e Reinhard Heydrich – que, na ficção de Philip K. Dick, não tinha sido morto em decorrência de um atentado em Praga perpetrado por terroristas tchecos, conforme realmente ocorreu no ano de 1942. Na África, os nazistas promoveram um monstruoso genocídio contra a população negra e, em todo o mundo, dão total publicidade ao assassinato em massa de judeus nas câmaras de gás - que continua, claro, com todo o fôlego. Os eslavos que não são escravizados ou assassinados são mandados para regiões distantes da Sibéria. Não satisfeitos em colonizar a Terra, os alemães mandam os primeiros seres humanos para Marte. Ainda na parte tecnológica, os nazistas criam foguetes de linhas comerciais que fazem o trajeto Estados Unidos-Europa em menos de uma hora.

O homem do castelo alto se passa na Costa Oeste dos Estados Unidos, na região de San Francisco. No romance, os americanos são cidadãos de segunda classe, totalmente subjugados ao poder japonês, que é bem menos agressivo que o correspondente nazista: o governo imperial permite alguma liberdade de imprensa e jamais perseguiu judeus. Os japoneses, além disso, admiram a cultura americana, apreciando o jazz e o blues, e colecionam objetos fabricados nos Estados Unidos no período anterior à Segunda Guerra Mundial.

O livro conta a história de alguns personagens - quase todos aficionados pelo milenar livro chinês de adivinhação, o I Ching - vivendo nesta Costa Oeste fictícia. O espião alemão que quer, com grande risco de vida, passar informações extremamente importantes para o governo japonês. O artesão judeu que fez operações plásticas e mudou seus documentos para esconder sua origem. A mulher problemática que namora um rapaz pretensamente italiano que ela acaba descobrindo ser um espião alemão preparado para assassinar o escritor de um romance que contava a história de um mundo em que o Eixo perdeu a guerra. O comerciante americano de objetos antigos que está sempre querendo agradar os superiores japoneses. O burocrata japonês que sofre com as políticas nazistas e com as guerras de espionagem.

O homem do castelo alto é um livro sombrio e melancólico, e que gruda na memória do leitor.

Se a obra de Philip K. Dick angustia quando trata de um tempo presente que poderia ter acontecido com a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial, Diário de um skinhead - um infiltrado no movimento neonazista, do jornalista espanhol Antonio Salas (Planeta, 280 páginas) assusta ao falar do nazismo "de verdade" nos dias atuais.  O autor, que utilizou um pseudônimo para assinar o livro por motivos óbvios, passou mais de um ano como infiltrado entre violentos skinheads espanhóis, sempre filmando tudo com uma câmera escondida. O risco que ele correu nesta empreitada foi, obviamente, enorme, e o jornalista brasileiro Tim Lopes, brutalmente assassinado por traficantes cariocas ao fazer uma reportagem semelhante em 2002, é citado no livro do espanhol para dar uma idéia do perigo da situação.

Para infiltrar-se na extrema-direita espanhola, Salas começou pelo maior meio de comunicação dos skinheads na atualidade: a internet. Ele demorou cerca de três meses – por segurança, sempre em lan houses - navegando por chats e sites nazistas, entrando em contato com pessoas do movimento, aprendendo sua gíria especializada e seus códigos de conduta, antes de pegar coragem e conhecer pessoalmente alguns de seus objetos de estudo. Como era de se esperar, para ser um infiltrado convincente ele rapou o cabelo, passou a se vestir como um skinhead e a defender (somente em público, claro) ideias nazistas. As muitas aventuras perigosas pelas quais Salas passou e os sentimentos – muitas vezes contraditórios e surpreendentes – que ele teve neste empreitada perigosa são narrados com grande detalhe, resultando numa leitura de grande impacto na maior parte do tempo. Entre os resultados mais importantes da investigação do jornalista estão a descoberta das íntimas ligações dos skinheads com os partidos legais de extrema-direita (que sempre negaram este contato) e com muitas torcidas organizadas do futebol espanhol – o que ajuda a explicar o recente aumento do racismo observado em arquibancadas europeias.

(textos publicados em 2006 na Revista Dominical do jornal O Estado do Paraná)

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História, Literatura
Leituras na pandemia
20 de abril de 2020 at 21:52 0
foto do autor

“O império de Hitler”, do britânico Mark Mazower (Companhia das Letras, 801 páginas, tradução de Claudio Carina e Lucia Boldrini), conta o que os alemães aprontaram em toda a Europa quando colonizaram grande parte do continente entre 1939 e 1945. O livro mostra que a ideologia racial nazista era mais importante que considerações práticas ou econômicas – e que isto acabou tendo importância fundamental na derrota do regime de Hitler em 1945.

Não acho que a literatura deva defender posição política – não explicitamente, pelo menos. “A barata”, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 104 páginas, tradução de Jório Dauster), faz exatamente isso: o livro, em que uma barata se transforma no primeiro-ministro inglês (a alusão à “Metamorfose”, de Kafka, é óbvia), é declaradamente uma denúncia contra o Brexit – como o posfácio, escrito pelo autor, deixa muito claro. Mas o livro é muito divertido e, como sempre no caso do grande escritor inglês, é extremamente bem escrito.

Fiquei sabendo depois de ter comprado o livro que “Blade Runner”, de Philip K Dick (Aleph, 283 páginas, tradução de Ronaldo Bressane) se chamava inicialmente “Androides sonham com ovelhas elétricas”. Assisti ao filme baseado no livro muitos anos atrás, e lembro que gostei muito. O romance - uma ficção científica que conta a história de um caçador de androides que estavam causando perigo às pessoas - não me impressionou tanto (creio que se ele tivesse metade do tamanho seria melhor). De todo modo, as discussões que o livro desperta - sobre consciência, empatia e sobre o que, afinal, nos faz humanos – são muito interessantes.

Aparentemente, “Não me abandone jamais”, do escritor Prêmio Nobel de Literatura de 2017, o inglês Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras, 343 páginas, tradução de Beth Vieira), conta a história de uma escola na Inglaterra, com alunos vivendo as situações normais da infância/adolescência: o bullying, a amizade, a descoberta do sexo. Mas não é bem isso. Melhor não contar mais nada, mas vou dar uma dica: se você quiser ler o livro, recomendo que nem leia as orelhas do romance, uma obra-prima assustadora publicada originalmente em 2005.

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História, Literatura
Os livros que mais gostei de ter lido em 2019
22 de dezembro de 2019 at 16:03 0
Patti Smith: Kiss FM
  1. "Ecce homo", de Nietzsche: o título um dos capítulos do último livro escrito por Nietzsche é “por que escrevo livros tão bons”. O filósofo alemão sabia das coisas.
  2. “O ano do macaco”, de Patti Smith: a cada novo livro, a famosa cantora punk mostra que é possível ser genial em mais de uma área.
  3. “Oryx e Crake”, de Margaret Atwood: apesar de a escritora ter criado um universo distópico assustador no ótimo “O conto da aia”, em que foi baseada a espetacular série "The handmaid's tale", “Oryx e Crake” é um pouco melhor como literatura.
  4. “Verão”, de J.M.Coetzee: este ano reli meu livro preferido do grande escritor sul-africano, Nobel de 2003. Pretendo reler de novo qualquer hora.
  5. ”Serotonina”, de Michel Houellebecq: engraçado, triste, genial.
  6. “Desgracida”, de Dalton Trevisan, sempre provando que Curitiba pode criar alta literatura.
  7. “Diário de um velho louco”, de Junichiro Tanizaki: muito não é o que parece nesta história em que um velho impotente não consegue frear seus instintos sexuais.
  8. “Longe das Aldeias”, de Robertson Frizero: uma impressionante história das marcas de uma guerra.
  9. “Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa”, organizado por Daniel Aarão Reis: a história sendo criada, mostrada em documentos da época. Emocionante é pouco.
  10. “Légendes de Catherine M.”, de Jacques Henric: o fascínio do corpo feminino.
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História, Literatura, Séries
Júlio César
2 de junho de 2019 at 22:17 0

Estou escrevendo um conto chamado “A mulher de César”, e abaixo seguem comentários sobre uma peça de teatro, uma biografia e uma série da Netflix que utilizei nas minhas pesquisas.

É interessante observar como o prefácio da edição de “Júlio César”, de William Shakespeare (1564-1616), da Penguin-Companhia das Letras, 186 páginas, escrito pelo grande crítico literário Harold Bloom, comenta como a peça é considerada “fria” por muitos especialistas. Ele cita, inclusive, as palavras do “maior especialista de todos”, Samuel Johnson: “nesta peça, vários trechos merecem a atenção, e a contenda e reconciliação de Bruto e Cássio são celebradas universalmente. Em mim, porém, a trama jamais causou grande comoção; chego a considerá-la um tanto fria e inócua, comparada a outras peças de Shakespeare; a maneira com que se prende à História e aos costumes romanos parece haver bloqueado o vigor natural de sua genialidade”.

Apesar do título, a peça se concentra basicamente na figura de Bruto (Roma, 85 a.C. - Filipos, 42 a.C), protegido, e posteriormente, um dos participantes famoso assassinato do líder político Júlio César (Roma,100 a.C. – Roma, 44 a.C.) no Senado Romano.

Na época em que ocorrem os acontecimentos apresentados na peça, Roma está no final da República. Júlio César já se declarou ditador perpétuo, e os conspiradores contra sua vida têm receio que ele queira transformar Roma num Império. Na peça, são apresentadas diversas cenas envolvendo o planejamento do homicídio do político, além do próprio assassinato de Júlio César e o início da reação popular contra os conspiradores (spoiler: eles se dão muito mal).

Entre todos os conspiradores, Bruto parece o único preocupado com o futuro de Roma – ao contrário dos demais, não parece ter nenhum interesse pessoal no assassinato, só entrando na conspiração para proteger a República Romana. É um grande personagem de uma grande peça de teatro – ao contrário dos críticos citados acima, não achei a peça nem um pouco fria.

Já a biografia “Júlio César”, de Joël Schmidt, impressiona ao descrever a inteligência maquiavélica do ditador romano (100-44 a.C.) ao manipular adversários políticos para conseguir o objetivo de acabar com a República Romana e fundar o Império – o que, se não conseguiu, abriu caminho para que Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), seu sobrinho, o fizesse anos depois de sua morte.

O Júlio César que emerge da biografia é de um homem bem quisto por seus soldados, excelente estrategista, e sexualmente voraz – era famoso por dormir com as mulheres de outros importantes líderes romanos. Não era mesquinho, embora tenha estado abaixo de sua grandeza, segundo Joël Schmidt, quando se irritou com o líder gaulês Vercingetórix quando da rendição deste em Alésia, na Gália (atual França), em 52 a.C.

Finalmente, “Império Romano”, da Netflix, é uma série em três temporadas no estilo dos documentários da History Channel/H2 (ou seja, com atores, permeada com comentários de especialistas), apresentando, em cada uma delas, a história de um dirigente romano.

A primeira temporada, com seis episódios, é dedicada a Cômodo (161-192), que foi imperador romano entre 180 e 192. Ele é considerado um dos responsáveis pelo início da decadência do Império, e a série da Netflix se concentra nas várias conspirações contra dele e no seu desejo de ser gladiador – chegou a lutar no Coliseu, inclusive - mesmo sendo mandatário romano. A terceira temporada, com quatro episódios, é dedicada ao imperador Calígula (12-41 d.C.). Ele iniciou bem seu mandato imperial, no ano de 37, mas depois de uma crise em que ficou semanas em coma, acordou irreconhecível, transformando-se num tirano paranoico.  A segunda temporada, com cinco episódios, é sobre Júlio César, sobre o qual já comentei acima.

Dá uma boa ideia da violência da sociedade romana o fato de que os três imperadores objeto da série da Netflix terem acabado seus dias assassinados.

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História, Literatura
A relação entre a História (e a Sociologia) e a Literatura em três romances
27 de janeiro de 2019 at 21:01 0
o grande J.M.Coetzee - fonte: The Nation

Eu não lembro bem onde li que era possível aprender mais sobre a história do Segundo Império (1852-1870) com os romances de Honoré de Balzac (1799-1850) do que com livros de História. De fato, a relação entre a História (e a Sociologia) com a Literatura é um tema bastante rico, e é claro que aqueles voltados ao estudo das duas primeiras ciências humanas tendem a destacar, em algum romance, mais os seus aspectos históricos e sociológicos, enquanto que outros – entre os quais me incluo – estão mais interessados na sua relevância propriamente literária.

Lembrei bastante desses aspectos em três romances que li recentemente: “Nix” (2016), do americano Nathan Hill (Intrínseca, 672 páginas), “Oryx e Crake" (2003), da canadense Margaret Atwood (Rocco, 344 págs.) e “A Infância de Jesus” (2013), do sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 304 págs. – eu li na versão em espanhol, da Literatura Random House).

“Nix” conta a história de Samuel Anderson, um professor de literatura inglesa de cerca de 30 anos de idade que dá aulas numa universidade na região de Chicago, nos Estados Unidos, e que está viciado em um jogo on-line de computador chamado “World of Elfscape”. Sua mãe, Faye, que o tinha abandonado quando este era criança, aparece nos noticiários depois de jogar pedras num candidato ultraconservador, com riscos de cegá-lo. É quando – por motivos um tanto escusos – o filho vai procurar a mãe, depois de anos sem saber notícias dela. Este é o mote principal do longo romance de Nathan Hill, que tem um grande número de outros personagens e que passa por diversas fases da história americana – concentrando-se de maneira especial nas manifestações contra a Guerra do Vietnã em Chicago, em 1968, e no movimento “Occupy Wall Street”, de 2011. A vontade de marcar tanto a obra em termos históricos (com o objetivo de fazer “O Grande Romance Americano”?) e as idas e vindas da narrativa no tempo e no espaço irritam um pouco, mas os personagens criados por Hill são bem construídos e o livro prende a atenção em todas as suas muitas páginas.

Os personagens criados na distopia “Oryx e Crake” são ainda melhores que os de “Nix”: o livro de Margaret Atwood conta a história de um futuro em que ocorre uma grande catástrofe depois que cientistas começam a fazer modificações genéticas em grande escala nos animais e nos seres humanos, e o único sobrevivente do homem conforme conhecemos (há também alguns seres humanoides, criados por manipulação genética) em uma grande região litorânea é um homem que agora tem o apelido de “Homem das Neves”. A ligação com a Sociologia e a História no caso de “Oryx e Crake” é, conforme comentou Bernardo Carvalho na Folha de São Paulo em 3 de abril de 2004, está em que “o discurso de Atwood representa uma preocupação que está no ar hoje (entre ecologistas e ambientalistas sobretudo). É um discurso com mensagens um tanto óbvias, embora não menos pertinentes, que fala de um desdobramento possível: as experiências dos homens com a natureza podem sair do controle e acabar destruindo os próprios homens e o mundo em que vivem.” Conforme complementa Bernardo Carvalho, este é “o ponto mais fraco” do livro, “como se o texto não passasse de um meio para a transmissão das ideias da autora”. A literatura é muito mais que simples transmissão de ideias e, por sorte, “Oryx e Crake” é tão criativo, delirante e bem escrito que o romance é, sim, grande literatura – independentemente das ideias que defende.

Finalmente, “A Infância de Jesus” também uma espécie de distopia, na qual os personagens vão morar numa ilha onde perdem as lembranças de tudo o que ocorreu em sua vida antes da chegada por lá. No local todos vivem em paz e harmonia o tempo todo, ninguém quer ganhar mais do que o mínimo necessário para uma sobrevivência digna, e o sexo tem importância secundária. O recém-chegado Simón é um dos únicos que acham esta “vida nova” muito chata - e tem grandes dificuldades para se adaptar a ela. Ele também leva um garoto, chamado David, para tentar encontrar a sua mãe: Simón não lembra quem ela é, mas acha que vai encontrá-la – e a encontra (ou acha que encontra) em Inés, uma mulher solteira e rica, que, depois de uma estranheza inicial, acaba adotando o garoto. David, que tinha um bom comportamento enquanto vivia com Simón, passa a ter todos os sintomas de alguém muito mimado: mesmo sem saber ler nem fazer contas, não quer aprender porque acha que “já sabe”. Não se adapta na escola, tem dificuldades de concentração, e Inés apoia o garoto em tudo.

E, bem, não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história, que continua em “A vida escolar de Jesus”, que ainda não li. David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes? (E por que, algum engraçadinho poderia perguntar, este livro está sendo comentado aqui?)

“A infância de Jesus” – muito bem escrito, como sempre em se tratando de J.M. Coetzee – é um dos livros mais estranhos que já li.

Vejamos se na sua continuação a coisa passa a fazer algum sentido.

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História
Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa
21 de janeiro de 2019 at 21:16 0

À maneira de “O Brasil holandês”, de Evaldo Cabral de Melo, este “Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa”, com organização e introdução de Daniel Aarão Reis (Penguin Classics Companhia das Letras, 484 páginas), conta a história de um período histórico (a invasão holandesa no caso do primeiro livro, a Revolução Russa no caso do segundo) através de documentos da época. Os textos escolhidos por Daniel Aarão Reis – com período restringido entre fevereiro de 1917 e a paz de Brest-Litovski, em março de 1918 - são em geral curtos e englobam discursos, trechos de jornais, poemas e letras de músicas – cada um deles com uma pequena apresentação a cargo do organizador do livro. A maior parte dos textos, como não poderia deixar de ser, são documentos bolcheviques, que venceram revolução, mas são englobados basicamente textos de todos os lados do conflito. Em termos de qualidade literária, impressionam os discursos, cartas e artigos de V. Lênin, o primeiro presidente da Rússia socialista.

Os documentos apresentados em “Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa” conseguem passar para o leitor toda a efervescência de uma das épocas mais importantes da história recente – e é pena que toda aquela esperança num mundo melhor, mostrada com detalhes na coletânea de Daniel Aarão Reis, tenha descambado no stalinismo, cujo dia-a-dia é mostrado em obras impressionantes e dolorosas como “Sussurros: a vida privada na Rússia de Stalin”, de Orlando Figes.

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“A civilização do Ocidente medieval”, de Jacques Le Goff
História
“A civilização do Ocidente medieval”, de Jacques Le Goff
18 de julho de 2018 at 22:26 0
A Idade Média é conhecida como uma época de obscurantismo, ignorância, trevas, essas coisas todas. Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., os povos bárbaros passaram a impor seus próprios costumes à toda Europa Ocidental, e a tradição de toda a cultura clássica foi mantida, a duras penas, graças principalmente aos monastérios da Igreja. O controle político da região do entorno do Mediterrâneo, antes a cargo do Império Romano, foi se esfacelando até que se estabilizou num sistema fragmentário, o Feudalismo. A história desta época, que durou em torno de 1000 anos - normalmente seu fim é situado na queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, em 1453 -, é contada com grande quantidade de detalhes no ótimo “A civilização do Ocidente medieval”, do importante medievalista Jacques Le Goff (Vozes, 390 páginas). Basicamente todos os aspectos da sociedade medieval são cobertos pelo livro: as invasões bárbaras e a queda do Império Romano do Ocidente; os meios de subsistência (e a fome); o sistema político; a cultura; a vida privada; a influência decisiva da Igreja nas mentalidades, as heresias e o paganismo resistente. (mais…)
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