História

Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem
História
Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem
26 de junho de 2021 at 14:46 0
O historiador marxista inglês Eric Hobsbawn contou a história dos últimos séculos em quatro livros que ficaram famosos: Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991) – eu mesmo só li os dois primeiros. Em discussão recente no jornal Folha de São Paulo, o sociólogo brasileiro Demétrio Magnoli reconhece que o seu Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem (1915-1945) Vol. 1, (Editora Record, escrito em colaboração com Elaine Senise Barbosa), é uma contraposição ao quarto volume da obra de Hobsbawn. Enquanto o inglês é um marxista empedernido (que acredita, portanto, na igualdade entre os homens), Magnoli visa a provar que não há possibilidade de conviverem, lado a lado, liberdade e igualdade. Segundo o brasileiro, todas as tentativas de promover a igualdade entre os homens acabam descambando, inevitavelmente, para um totalitarismo atroz. Esta tese não é nova, e um dos mais brilhantes defensores dela é Friedrich Hayek, em seu O Caminho da Servidão. O que Magnoli quer é contar a história do mundo entre o final da Primeira Guerra Mundial e o final da Segunda sob um prisma liberal – e não o prisma marxista de Hobsbawn. Fora esta, existe uma diferença importante entre as obras. Nos livros da série de Hobsbawn – e não custa reforçar que só li os dois primeiros – o historiador inglês se preocupa enormemente em dar um "sentido" aos acontecimentos. Em A Era das Revoluções, as ligações entre a Revolução Francesa (de cunho político) e a Revolução Industrial (de cunho econômico) são mostradas a todo momento. O leitor sente que está vendo a "história acontecer" e grandes movimentos históricos são descortinados diante de nossos olhos. Tudo parece ter um sentido profundo. Apesar de não ser nem de longe um defensor de ideias marxistas ou socialistas, gostei muito da maneira como Hobsbawn descreve a História. Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa por outro lado, tentam ser mais sutis em mostrar sua visão de mundo. Sim, eles acham mesmo que, se um governo prioriza a igualdade, a liberdade sairá prejudicada. Esta maneira de ver as coisas realmente aparece aqui e ali no livro. Mas a obra, frequentemente, parece uma descrição de fatos históricos e ideias sem muita ligação uns com os outros. Não temos, ao ler Liberdade Versus Igualdade, a sensação de estarmos "compreendendo o que está por trás" dos acontecimentos históricos. Seria este então o desejo de Magnoli e Senise Barbosa? Como bons liberais, será que eles acham que o leitor deve ter a liberdade (opa!) de concluir o que bem lhe der na veneta? Pode ser. De todo modo, apesar de menos "emocionante" que os livros de Hobsbawn, a leitura deste primeiro volume Liberdade Versus Igualdade me parece indispensável para quem quer ter uma ideia do que aconteceu naquele período tão conturbado da história humana - e sob um prisma, no meu modo de entender, mais correto que o prisma marxista de Hobsbawn. (texto publicado em 2011 no Mondo Bacana)
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Qual a quantidade real de mortos devido à COVID-19?
História
Qual a quantidade real de mortos devido à COVID-19?
20 de junho de 2021 at 22:36 0
Qual o tamanho da tragédia mundial do COVID-19? Desde o início da pandemia, ficava me perguntando qual a quantidade de mortos a mais do que o previsto desde março de 2020. Cheguei a pesquisar alguma coisa nos dados estatísticos de sites como o do Banco Mundial, mas não fui adiante – até que saiu a notícia na imprensa de que o mundo pode ter o dobro de mortes do que dizem os números oficiais. Fui então pesquisar alguns artigos sobre o assunto, e o presente texto apresenta o resumo do artigo “Estimation of total mortality due to COVID-19”, do IMHE (Institute for Health Metrics and Evaluation), cujo link pode ser obtido aqui. Pretendo voltar nesse assunto por aqui ainda. Segundo o artigo, o parâmetro que calcula “a quantidade de mortos a mais do que o previsto” se chama “excesso de mortes”, “definido como a diferença entre o número observado de mortes em períodos de tempo específicos e o número esperado de mortes nos mesmos períodos de tempo”. Para avaliar a mortalidade total por COVID-19, foi necessário verificar se a quantidade de mortos foi subnotificada, e possíveis razões para esta subnotificação incluem:
  • A capacidade de teste varia acentuadamente entre os países e dentro dos países ao longo do tempo;
  • Em muitos países de alta renda, as mortes por COVID-19 em indivíduos mais velhos, especialmente em instituições de longa permanência, não foram registradas nos primeiros meses da pandemia;
  • Em outros países, como Equador, Peru e Federação Russa, a discrepância entre as mortes relatadas e o “excesso de mortes” sugere que a taxa de mortalidade total do COVID-19 é muitíssimo maior do que os relatórios oficiais.
O “excesso de mortes” para o caso da COVID-19 é influenciado por seis fatores de mortalidade que se relacionam com a pandemia e o distanciamento social que veio com ela. Esses seis fatores são: a) a taxa total de mortalidade por COVID-19, ou seja, todas as mortes diretamente relacionadas à infecção por COVID-19; b) o aumento da mortalidade devido ao adiamento dos cuidados de saúde necessários durante a pandemia; c) o crescimento da mortalidade devido ao aumento dos transtornos mentais, incluindo depressão, abuso de álcool e de opioides; d) a redução na mortalidade devido a diminuições nas lesões devidas a reduções gerais na mobilidade (diminuição de acidentes de carro, por exemplo); e) diminuição no número de mortos devido à menor transmissão de outros vírus, principalmente influenza, vírus sincicial respiratório e sarampo; e f) redução na mortalidade devido a algumas condições crônicas, como doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas, que ocorrem quando indivíduos frágeis que teriam morrido por essas condições morreram mais cedo de COVID-19. O artigo do IMHE calcula as reduções de mortes em torno de 615.000 mortes ou mais, decorrentes de mudanças comportamentais em nível global. Os principais aumentos potenciais no excesso de mortalidade devido ao tratamento adiado e aumentos na overdose de drogas e depressão são difíceis de quantificar, ou de magnitude muito menor. Dado que não há evidências suficientes para estimar essas contribuições para a mortalidade excessiva, assumiu-se que o total de mortes por COVID-19 é igual ao “excesso de mortes” mas, devido a razões apresentadas no artigo do IMHE, concluiu-se que isto provavelmente foi subestimado. À medida que as evidências se fortalecem nos próximos meses e anos, é provável que sejam revisadas as estimativas de mortes por COVID-19 para cima em próximos trabalhos. A principal conclusão do artigo “Estimation of total mortality due to COVID-19” é apresentada num gráfico, que é a imagem que acompanha este texto, em que a linha mais clara superior é a quantidade diária real de mortos, enquanto a de baixo, mais escura, é o número oficial. Em termos de números totais, do início da pandemia até 31 e maio de 2021, segundo o artigo da IMHE a quantidade real de mortos chegou a 7,1 milhão de mortos, enquanto o número oficial correspondente foi de 3,33 milhões. O artigo do IMHE também apresenta a subnotificação estimada para países e estados no mundo inteiro, calculada pela divisão entre o número de mortos real e o oficial, apresentada abaixo. Na figura, quanto mais próximo do azul escuro, maior a subnotificação e, quanto mais próximo do laranja vivo, menor este valor. Em termos de Brasil, do início da pandemia até 31 de maio de 2021 foram reportados 423.307 mortos, enquanto o número real calculado no artigo chegou a 616.914, numa subnotificação de 1,46.
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Xadrez e Covid-19
Esporte, História
Xadrez e Covid-19
6 de junho de 2021 at 03:19 0
Ainda um pouco antes do boom mundial de xadrez, causado pela popular série da Netflix Gambito da Rainha, houve um aumento expressivo no número de jogadores do jogo devido à pandemia, já que as pessoas de uma hora para outra passaram a ficar em casa com mais tempo livre. Eu mesmo, que tinha jogado e estudado um pouco de xadrez na adolescência - ensinado basicamente pelo meu grande amigo Edson Luciani de Oliveira -, retomei o gosto pelo jogo aí pelo meio do ano passado, principalmente por causa dos canais do YouTube Xadrez Brasil, de Rafael Leite, e GothamChess, de Levy Rozman. Ainda gostaria de falar mais sobre o assunto, mas o objetivo deste texto é bem mais específico, e para isto basta dizer que pratico principalmente xadrez online na plataforma Chess.com, e que lá cada jogador tem seu rating - um número que, segundo a Wikipédia, calcula a força relativa e cada jogador. O melhor jogador o mundo na atualidade, o norueguês Magnus Carlsen, tem um rating de cerca de 2847; super grandes mestres (ou Super GMs) – como o russo Ian Nepomniachtchi, que vai desafiar o campeão mundial em novembro, ou o ítalo-americano Fabiano Caruana - têm ratings acima ou próximos de 2800; com mais de 2000 o jogador normalmente já pode ser considerado profissional, ou semiprofissional; eu, com 1096 de rating no Chess.com no dia em que escrevo este texto (6 de junho de 2021), posso apenas ser considerado um amador que tem uma noção mínima do jogo. O rating de 1100 parece ser o meu limite se eu não estudar com afinco – coisa que não pretendo fazer, na verdade. Respondendo a perguntas de seus seguidores, por coincidência ontem ainda o Grande Mestre Rafael Leitão comentou que, para passar deste rating, é necessário estudar; e eu prefiro só assistir a vídeos de xadrez no YouTube e jogar partidas online no Chess.com contra adversários com capacidade técnica semelhante à minha. O gráfico abaixo, que apresenta meu rating desde que entrei na plataforma até o início de março de 2021, mostra que vai ser bem complicado de eu passar de 1100 se eu não me esforçar: Falando agora do principal objetivo deste texto: no dia 16 de março de 2021 fui diagnosticado com Covid-19. Além de dar graças a Deus por nem eu nem minha família termos tido casos graves da doença, tive como principal sintoma um cansaço profundo e duradouro. Olhando meu gráfico de rating de xadrez a partir desta data, notei um persistente declínio, conforme mostra a figura que acompanha este texto, que apresenta o meu desempenho no Chess.com nos últimos 90 dias. O gráfico é, de certa forma, impressionante: se no dia do meu diagnóstico eu estava com um rating de 1042, pouco mais de um mês depois, em 27 de abril, eu tinha caído para 902. Só fui passar de 1000 no dia 22 de maio, mais de dois meses depois do meu diagnóstico, e desde então não baixei mais deste limiar, chegando no valor de 1096 no dia de hoje. É claro, repito, que só tenho de agradecer a Deus por ter sido só isso, mas achei interessante compartilhar esta minha experiência específica com esta doença terrível.
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Ciência e religião
História, Religião
Ciência e religião
23 de maio de 2021 at 19:08 0
Santa Clara (1194-1253) era amiga de São Francisco de Assis e acabou, com a assistência dele, criando a Ordem das Clarissas. Interessado que sou na vida de santos em geral e na de São Francisco em particular, achei que era uma boa ideia ler a biografia “Clara, a primeira plantinha de Francisco”, de Chiara Augusta Lainati (Paulinas, tradução de Leonilda Menossi, 120 páginas). Infelizmente, o livro pouco conta sobre a história da santa e, numa linguagem empolada e cansativa, fica elogiando Santa Clara sem parar – ela não precisa disso, né? A alemã Edith Stein (1891-1942) era uma filósofa importante, de origem judaica, e que resolveu virar monja carmelita. Perseguida pelos nazistas devido às suas raízes, foi assassinada em Auschwitz. Em 1998 ela foi canonizada como mártir, com o nome de Santa Teresa Benedita da Cruz, o que causou protestos na comunidade judaica, que considera que ela foi morta apenas por ser judia – os católicos rebatem que seu martírio foi causado por ela pertencer à Igreja Católica da Holanda, cuja oposição ao nazismo gerou perseguição de judeus convertidos ao catolicismo (Folha de São Paulo, edição de 12 de outubro de 1998). Polêmicas à parte, a curtíssima biografia (li em menos de uma hora) “Edith Stein”, de Vittoria Fabretti (Paulinas, 78 páginas, tradução de Antonio Efro Feltrin), ao contrário da de Santa Clara citada anteriormente, é extremamente objetiva, mostrando uma mulher forte, corajosa - e que aparentemente quis mesmo se martirizar por sua fé e por sua raça. Recomendo fortemente a leitura. A física moderna, queiram ou não, é uma doideira. Partículas que estão em dois lugares ao mesmo tempo, espaço pluridimensional, matéria escura (que se sabe que existe, mas que não se tem ideia do que seja), energia escura (que expande o universo, mas que também ninguém tem ideia exata no que consiste) e outros temas afins são muito bem explicados em “Astrofísica para Apressados”, do astrofísico americano Neil deGrasse Tyson (Planeta, 190 páginas, tradução de Alexandre Martins). Ilustra este texto uma "representação, a fresco, de Santa Clara por Simone Martini (13121320), localizada na Basílica de São FranciscoAssisItália" - fonte: Wikipédia
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“Quero Matar Hitler”, de Edward Moorhouse
História
“Quero Matar Hitler”, de Edward Moorhouse
22 de maio de 2021 at 15:07 0
Hoje qualquer um pode (e deve) ser antinazista. Na Alemanha entre os anos 1933 e 1945, por outro lado, a coisa era muito diferente. Pequenos deslizes, pertencer ao povo “errado”, opiniões divergentes do usual – qualquer coisa podia fazer a pessoa ser torturada e assassinada em algum dos muitos campos de concentração espalhados pelo território ocupado pelos nazistas. É por causa deste tenebroso pano de fundo que são tão admiráveis os muitos casos de bravura descritos em Quero Matar Hitler, do historiador Edward Moorhouse (Ediouro). Como o próprio nome sugere, o livre descreve diversas tentativas de matar o ditador, sejam individuais, sejam parte de movimentos maiores de resistência. Tendo em vista que Hitler se suicidou em 1945, desde o início se sabe que nenhuma destas ações conseguiu seu atingir seu objetivo. Os dois capítulos iniciais são também os mais tocantes. Eles tratam de duas tentativas individuais de matar o Führer, uma por parte do estudante suíço Maurice Bavaud e outra perpetrada por um comunista alemão chamado Georg Elser. Bavaud, católico fervoroso, tentou assassinar o ditador por diversas maneiras e por causa de uma delas acabou preso e posteriormente assassinado em um campo de concentração. O suíço chegou próximo de seu objetivo em 1938, quando Hitler passava por um carro aberto em um desfile em Munique enquanto Maurice estava armado com uma pistola automática na platéia. Neste dia o sanguinário ditador acabou passando mais longe do que o estudante previra e, por isto, este acabou não atirando. Já Georg Elser plantou uma bomba-relógio na cervejaria em que Hitler iria discursar, em 8 de novembro de 1939, também em Munique. A bomba explodiu conforme o planejado, às 21h20. Mas o sanguinário ditador, como fazia frequentemente, saiu do local mais cedo do que o previsto e escapou da morte por treze minutos. O resultado da explosão foram sessenta e três pessoas gravemente feridas e oito mortas. Tanto Bavaud quanto Elser praticamente não tiveram ajuda de outras pessoas, o que faz as ações deles serem ainda mais admiráveis. Quero Matar Hitler, aliás, mostra como estas duas tentativas também foram possibilitadas pelo fraco sistema de segurança nazista da época (final dos anos 30). À medida que os anos foram passando, ações como as de Maurice e Georg praticamente não seriam mais possíveis, graças ao crescente aumento na segurança pessoal do chefe nazista Um capítulo de Quero Matar Hitler, como não poderia deixar de ser, é dedicado ao mais famoso dos atentados contra Hitler, aquele perpetrado pelo tenente-coronel alemão Claus Von Stauffenberg, cuja história inspirou o recente filme Operação Valkiria, estrelado por Tom Cruise. A bomba que o militar plantou perto do ditador em uma reunião, no dia 20 de julho de 1944, não o matou por muito pouco – e ainda reforçou a ideia que Hitler tinha de si próprio, de que ele era um escolhido pela Providência. Outro aspecto importante deste caso é como o exército alemão (a Wehrmacht) ainda conseguia ser um foco de resistência ao regime nazista, já que da conspiração de Stauffenberg faziam parte um grande número de militares de alta patente. Aliás, quase todos brutalmente assassinados como represália ao atentado. Outro capítulo de Quero Matar Hitler descreve as tentativas de Albert Speer, já no final da guerra, para assassinar o ditador. Speer, segundo relatos, era o único dos nazistas de altíssimo escalão “que parecia uma pessoa normal, não um psicopata”. Apesar da proximidade com Hitler e dos importantes cargos que ocupou, parece que realmente Speer não participou ativamente das maiores crueldades nazistas – tanto assim que ele não fora condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberg (mas a uma pena de 20 anos de prisão). De todo modo, o fato de Speer ter ou não pensado realmente a sério em matar Hitler no final da guerra é um assunto controverso até hoje. Os demais capítulos do livro não se concentram em tentativas de matar Hitler, mas são descrições de movimentos de resistência (polonês, russo. britânico) nos quais o assassinato do ditador era, por vezes, aventado. A conclusão descreve como seria a morte do ditador. Quero Matar Hitler é uma leitura ágil e interessante. O autor mostra uma grande preocupação em inserir as tentativas de assassinato do Führer dentro do contexto histórico, o que muito enriquece a leitura. É pena que a tradução da Ediouro seja tão descuidada - mas nada que uma boa e séria revisão futura não resolva. (texto publicado em 2010 no Mondo Bacana - foto: Revista Veja)  
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“Os andarilhos do bem”, de Carlo Ginzburg
História
“Os andarilhos do bem”, de Carlo Ginzburg
2 de maio de 2021 at 14:05 0
Nas quintas-feiras do Quatro Tempos (segundo a Wikipédia, “a semana de santa Lúcia em dezembro, Quarta-Feira de Cinzas, domingo de Pentecostes e no domingo de Exaltação da Santa Cruz em setembro”) os benandanti (ou seja, “andarilhos do bem”) são convocados para a batalha noturna contra as bruxas. Caso aqueles sejam vencedores das lutas, a colheita terá sucesso; em caso contrário, ela será um fracasso e a fome grassará no Friul, região no nordeste da Itália. Os benandanti são os “empelicados”, ou seja, aqueles que nasceram sem o rompimento do “pelico” - ou bolsa amniótica -, que muitas vezes o carregam consigo pelo restante da vida. Os “andarilhos do bem” batalham apenas em espírito, ou seja, ficam deitados na cama, imóveis, enquanto suas almas vão lutar contra as bruxas pelo bem da colheita e, em última análise, da comunidade - importante ressaltar que eles não podem ser acordados ou mexidos nessas ocasiões porque a alma corre o risco de não voltar para o corpo. A Inquisição acaba sabendo da existência sobre desses estranhos benandanti e vários processos são instalados com o intuito de descobrir o quanto o procedimento deles é contrário às leis da Igreja. Apesar de um ou outro benandanti ser condenado à fogueira, na grande maioria dos casos os inquisidores, muito mais preocupados contra heresias protestantes, acabam deixando os bruxos do bem em paz. O que foi descrito acima aconteceu entre o final do século XVI e o início do século XVII, e é descrito com detalhes em “Os andarilhos do bem”, do historiador italiano Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 283 páginas, tradução de Jônatas Batista Neto, publicado pela primeira vez em 1966). E o livro é tão fascinante quanto parece.
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“Como fazíamos sem” e coleção “Baú de Histórias”
História
“Como fazíamos sem” e coleção “Baú de Histórias”
2 de maio de 2021 at 13:40 0
Existem alguns assuntos de conversa que são melhores que outros. Diferenças lingüísticas, por exemplo. Experimente, numa roda de amigos, dizer que o chinês é uma língua tonal, o que significa que uma palavra muda totalmente o sentido se você a pronunciar como um pergunta, como uma afirmação ou como uma ordem, que você vai ver a reação fascinada da maioria das pessoas. Outras dicas: diga, por exemplo, que o japonês tem três alfabetos, um deles copiado do chinês, o que faz com que uma pessoa japonesa consiga entender por alto um texto escrito em chinês, por mais as duas línguas sejam totalmente diferentes. Que o vietnamita é uma língua tonal como o chinês, mas que o governo comunista de lá resolveu mudar do alfabeto antigo para o alfabeto latino (o nosso). Resultado: para dar conta dos diversos tons utilizando as nossas letras, o vietnamita é escrito com mais de dez acentos, que se situam acima, no meio e abaixo das letras! Isto até pode ser "cultura inútil", que não vai fazer aumentar nossos salários, mas que diverte e fascina. Outro assunto de conversa interessantíssimo é a chamada "história da vida privada", a história, não das grandes personalidades e líderes, mas do dia-a-dia da intimidade das pessoas. Entre os assuntos que este tipo de "história íntima" analisa está o "como vivíamos sem" um ou outro novo produto ou aparelho. A tecnologia tem mudado radicalmente a vida dos seres humanos: muitas pessoas de mais de quarenta anos mal conseguem acreditar como viviam sem celulares na juventude (por mais que ninguém sentisse falta do aparelhinho na época!). Um dos grandes fascínios da recente série Roma¸ da HBO, por exemplo, é o cuidado dos produtores em mostrar a vida na República Romana (pouco antes do início do Império) exatamente como ela era: as pessoas comiam com as mãos, usavam tochas para iluminação (não havia luz elétrica) e até uma trepanação - cirurgia que consistia em fazer buracos no crânio usando uma pedra para libertar os espíritos ruins que tinham se alojado no corpo do doente - é mostrada no seriado. Comer com as mãos, tochas para iluminação e trepanação são alguns dos exemplos citados no delicioso "Como fazíamos sem", da jornalista mineira Bárbara Soalheiro (Panda Books, 144 páginas). O livro é bem-humorado - na medida certa, ou seja, nada "engraçadinho" - e muito bem ilustrado. Em seus capítulos curtos, mostra o que as pessoas faziam quando não havia anestesia, geladeira, armário, dinheiro... Alguns exemplos apresentados no livro são particularmente interessantes. Antes da invenção do vaso sanitário, "o matinho era a privada de nossos antepassados. Lá pelo século XVIII, quando as cidades começaram a crescer e já não havia tanto mato por perto, a solução foi usar baldes. E é por isso que os maiores beneficiados com a invenção de privadas não foram os que estavam com vontade de usar o toalete (afinal, cá para nós, quando a vontade é grande mesmo o lugar pouco importa), mas os transeuntes das grandes capitais. Depois que acabavam de fazer suas necessidades, as pessoas despejavam o conteúdo dos baldes nas ruas. Em Paris, para alertar quem passava, gritavam 'Água vá!' antes de jogar fezes e urina pela janela. No Rio de Janeiro ou em Salvador, nem isso eles faziam." Sem avião, sem automóveis e sem boas estradas, a viagem de "Ouro Preto ao Rio de Janeiro - as duas principais cidades brasileiras no século XVII - levava pelo menos 12 dias. Hoje, é assunto resolvido com apenas 50 minutos dentro de um avião. E se você é daqueles que reclamam depois de algumas horas dentro do carro e acha que o maior problema naquele tempo era ter paciência para agüentar quase duas semanas de viagem, é porque não tem idéia do quanto elas eram desconfortáveis. Quem fazia a viagem com mais freqüência eram os tropeiros, encarregados do comércio de animais - em geral, bois. Eles iam a cavalo, parando em fazendas para pernoitar. Um dos problemas que enfrentavam - além dos percalços da estrada como lama, mosquitos e bandidos - era levar alimentos que não perecessem em uma viagem tão longa. Foi dessas dificuldades que nasceram alguns pratos que comemos até hoje. Um dia, por exemplo, alguém que gostava muito de feijão teve a idéia de misturá-lo com farinha. Assim ficava mais fácil transportar - e o feijão se mantinha conservado por mais tempo. Resultado: nasceu o feijão tropeiro, um clássico da comida nacional." "Como fazíamos sem" ainda tem muitas outras curiosidades sobre como era a vida de nossos antepassados, como o motivo pelo qual os ingleses são pontuais e os brasileiros não. Mas, para saber mais, o negócio é comprar os livro. Se você for fã de cultura inútil ou de um bom papo, não vai se arrepender. _____________________________________________________________ Segundo a sua coordenadora de publicação, Mary del Priore, a coleção Baú de histórias, da José Olympio Editora, apresenta raridades bibliográficas, inéditas até hoje e marcadas pela indiferença e o esquecimento, que têm interesse literário, histórico e etnográfico, "raros testemunhos de um universo e um tempo que perdemos". Dois exemplares desta coleção tratam da escravidão durante o período do Império Brasileiro: Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro, do pastor anglicano Pascoe Grenfell Hill (123 páginas) e Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista, do estudioso francês Francis de Castelnau. O mais interessante entre eles é Cinqüenta dias... Em 1842 os brasileiros e portugueses ainda não tinham abolido o tráfico de escravos da África para o Brasil, e os navios negreiros eram considerados fora-da-lei pela legislação internacional. O livro do pastor Grenfell Hill conta uma história real: uma apreensão de um navio transportando escravos por uma barcaça inglesa. O que poderia ser uma história de final feliz com a libertação dos cativos, infelizmente, resultou em uma tragédia. Os ingleses não podiam, simplesmente, mandar os escravos para um local próximo na costa africana porque eles seriam escravizados de novo (eram próprios negros africanos que vendiam seus semelhantes). A solução era liberá-los em um lugar distante, mas os ingleses não tinham o menor conhecimento de como transportar uma grande quantidade de pessoas no espaço exíguo de um navio e com poucos víveres. Resultado da expedição descrita por Grenfell Hill: uma quantidade muito maior de mortos entre os negros do que quando os portugueses ou brasileiros - que tinham grande experiência no transporte de escravos -comandavam os navios negreiros. O grande interesse de Francis de Castelnau em Entrevistas... é saber mais sobre a possível existência de uma tribo africana cujos membros tinham rabos (!). Vários escravos entrevistados contam rapidamente suas histórias, das guerras que participaram, e de como foram apreendidos para serem vendidos - além, é claro, de contar o que sabiam sobre a tal estranha tribo. Se a leitura do livro de Castelnau é um pouco cansativa às vezes - principalmente quando descreve a geografia dos lugares pelos quais os escravos passaram - por outro o livro, como documento histórico de uma época, é de um fascínio inegável. Também sobre a escravidão é o estudo Feitio de viver - memórias de descendentes de escravos, da carioca e professora da Universidade de Londrina Gizêlda Melo do Nascimento (Eduel, 167 páginas), que apresenta 41 entrevistas com depoimentos de descendentes de escravos e sua análise, em linguagem acadêmica. (publicado no suplemento dominical do jornal O Estado do Paraná em 2006)
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“Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico”, de Guilherme Fiuza
História
“Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico”, de Guilherme Fiuza
25 de abril de 2021 at 13:52 0
Todo o mundo já deve ter ouvido aquela teoria de que os “verdadeiros” grandes traficantes do Rio de Janeiro moram confortavelmente em apartamentos na Zona Sul carioca, não nos morros. Quando se lê o subtítulo de Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico, de Guilherme Fiuza (Editora Record, 336 páginas), pode-se pensar que estamos diante de um caso destes – ou seja, o de um traficante realmente grande com educação burguesa. Sinto decepcionar os partidários desta teoria da conspiração, mas a história contada neste excelente livro é um pouco diferente. Meu Nome Não é Johnny conta a história de João Guilherme Estrella, rapaz bem nascido que gosta de tocar músicas em seu violão e que cedo começou a se envolver no meio artístico. A partir da convivência com a “turma” vêm as primeiras experiências com drogas. Primeiro a maconha, depois o LSD e então a cocaína – que acaba viciando-o. Como necessita de cada vez maiores quantidades para consumo próprio, ele começa a vender pó (ainda em pequena escala) para arranjar dinheiro. Isto o faz entrar em contato com alguns traficantes e a coisa vai aumentando. Estrella arruma esquemas para traficar quantidades cada vez maiores diretamente da Bolívia: a cocaína que ele conseguia lá – apelidada de “Nelore Puro” – era a mais pura do mercado de drogas no Rio da época (final dos anos 80/início dos 90). Juntando o grande conhecimento da sociedade carioca que tem João Guilherme Estrella (ele sempre fora um sujeito extremamente sociável e simpático) com a qualidade insuperável de seu pó, é óbvio que o resultado só pode ser um. O rapaz da Zona Sul transforma-se em um grande atacadista de drogas, chegando a fazer viagens para Amsterdam para fazer grandes vendas do “Nelore Puro” na Europa). E, claro, neste tempo todo ele continua ingerindo quantidades fenomenais de cocaína. Mas se Estrella já passa a ser um grande traficante em termos de quantidade, em termos de violência ele não pode ser comparado aos chefões do morro. Impulsivo, pouco se importando com as conseqüências de seus atos, não só ele não tem segurança pessoal como sequer anda armado. Logo a Lei está atrás dele. Na primeira vez consegue se safar da polícia através de suborno. Na outra isto não é mais possível. É preso, recebendo uma condenação leve, em um grande momento da juíza que o condenou – pois ela, acertadamente, acreditava no caráter de João Guilherme Estrella. Mas nem por isto o sofrimento que o protagonista passa, tanto na cadeia quanto no manicômio judiciário, são pequenos. Todos estes maus momentos acabam ajudando o rapaz da Zona Sul a se redimir. Atualmente, ele trabalha como produtor musical, não trafica mais e está recuperado do vício da cocaína. Meu Nome Não é Johnny (o título é baseado na notícia do Jornal do Brasil; quando da prisão do traficante, o diário carioca escreveu que seu apelido era Johnny – o que nunca fora verdade) é uma obra extremamente bem escrita, em uma linguagem simples, direta e envolvente. É o tipo do livro difícil de parar de ler. Outra qualidade é que, em nenhum momento, o autor Guilherme Fiuza parece querer dar uma lição de moral aos leitores. Fiuza nem precisa disto, na verdade. A história fala por si. (Publicado no Mondo Bacana em 2008) (foto obtida no Posfácio)
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