Erich von Stroheim

Algumas histórias minhas com Erich von Stroheim
Cinema
Algumas histórias minhas com Erich von Stroheim
7 de março de 2021 at 17:38 0
Isso aconteceu há alguns anos. Estava mudando de canal até que apareceu a imagem de Erich von Stroheim na tela do Telecine Cult. Era um filme mudo que estava bem no final, e os poucos minutos a que assisti foram marcantes, nunca mais me esqueci deles. Várias imagens passaram na minha mente depois que ele terminou. A primeira, claro, foi a do verbete da Enciclopédia Abril que eu tinha lido diversas vezes na adolescência e que reproduzi aqui. Nele, se dizia que Stroheim (austríaco, nascido em 1885, e que fez sua carreira como diretor em Hollywood) era um caso “típico” de “poder criador liquidado pelo sistema industrial”. O verbete dizia que, devido ao seu “naturalismo delirante”, seus filmes sofriam impedimentos de “ordem moral” por parte dos produtores e, para exemplificar isto, é citado o texto de um crítico cinematográfico segundo o qual um de seus filmes, “Foolish Wives”, “deveria ser interditado”, pois era um caso de “alta traição contra a América e um insulto à mulher em geral” – o crítico citado ainda comenta que “mataria o homem que levasse meus filhos a assistir este filme”. Além do fato de um diretor de cinema ocupar quase duas páginas na Enciclopédia Abril, muitas coisas me fascinavam em Erich von Stroheim. O fato de o diretor ter uma aparência tão militar (só ver a foto que acompanha este texto, obtida aqui) e mesmo assim ser um gênio do cinema. O fato de ele ser uma pessoa que inventava seu passado (o “von”, partícula que indica nobreza, de seu nome foi criação sua). A injustiça que Hollywood fez com ele, que não conseguiu mais papéis como diretor, mas apenas como ator – vale aqui reproduzir, com pequenas adaptações, a parte do verbete que fala de sua participação no clássico “O Crepúsculo dos Deuses”: “Em 1950, trabalhou em outro filme de prestígio, ‘Sunset Boulevard’, de Billy Wilder. Seu papel é o de um grande diretor cinematográfico dos tempos de cinema mudo que, para sobreviver na nova era de som e imagem, torna-se mordomo de uma ex-estrela dos anos de 1920. Para fugir à depressão, a antiga ‘diva’ (interpretada por Gloria Swanson) relembra os tempos áureos mandando projetar fragmentos do velho ‘Queen Kelly’ (dirigido por Stroheim e interpretado pela própria Gloria Swanson). Certos críticos viram em ‘Crepúsculos dos Deuses’ um exercício de sadomasoquismo para o velho diretor. Bob Bergut chegou a dizer que ‘Hollywood vingou-se cruelmente de Stroheim’ fazendo-o trabalhar nesse filme ‘que ultrapassou até os limites da decência’”. A outra lembrança que me veio à mente quando vi o trecho do filme de Stroheim no Telecine Cult é divertida, e meio ridícula. Foi assim: eu ainda namorava a Valéria e a levei para assistir “Ouro e Maldição”, tradução brasileira de “Greed”, considerado por muitos críticos um dos dez melhores filmes de todos os tempos. Quem conheceu a antiga Cinemateca do Museu Guido Viaro aqui em Curitiba sabe que a sala de projeção era pequena, com bancos desconfortáveis de madeira e, frequentemente, com problemas no ar-condicionado. Pois bem, foi lá que eu a levei para assistir a este clássico do cinema. A cópia de “Ouro e Maldição” tinha intertítulos (as legendas do cinema mudo) em inglês e, para resolver a questão de idioma, tinha um sujeito na primeira fila traduzindo o que estava escrito na tela para os espectadores. Só que o filme era estranho, e não só por ser mudo: a história não fazia muito sentido. E eu, o namorado que tinha levado a namorada naquele programa esquisito, estava obviamente desconfortável. Pois bem: lá pelas tantas o filme acaba e os espectadores não conseguem disfarçar o incômodo. É quando o “tradutor” vem à frente da sala de projeção e explica o porquê da estranheza: o filme tinha três rolos, e um deles não tinha sido projetado. É por isso que ele era tão estranho! Enfim, o sujeito pediu desculpas para a plateia e pergunta se queríamos ver o primeiro rolo. Queríamos, claro (mas não sei se a Valéria estava muito a fim de ver, haha). Em outra ocasião, não sei se já estava casado ou não, a levei novamente para ver “Ouro e Maldição”, desta vez na ordem certa. Eu amei, mas não sei até hoje se minha – hoje – esposa gostou ou não. De todo modo, não me saiu da lembrança o comentário que meu falecido sogro, nascido em 1917, fez quando a Valéria lhe contou sobre nossas aventuras com Stroheim na Cinemateca: “um grande diretor, um grande ator”. O último filme dirigido pelo diretor, o já citado “Queen Kelly”, foi lançado em 1932, o que significa que meu sogro acompanhou o auge comercial de Stroheim – apenas para comparação, minha mãe, que amava cinema na juventude e que nasceu em 1943, nunca tinha ouvido falar nele. Agora estou com um projeto pessoal de ver todos os filmes dirigidos por Erich von Stroheim, e já assisti a cinco dos nove que ele realizou (todos podem ser vistos de graça no YouTube, aliás). Estou lendo também a ótima biografia “Stroheim”, de Arthur Lenning (The University Press of Kentucky, 588 páginas). Pretendo comentar sobre os filmes e o livro por aqui ainda. É claro que, neste processo de assistir aos filmes de Erich von Stroheim, eu estava curioso para saber qual era aquele citado no início deste texto. Acabei descobrindo: era “The Wedding March”, que teve uma continuação, chamada “Honeymoon”, que infelizmente se perdeu num incêndio em Paris. Na biografia de Arthur Lenning consta uma descrição minuciosa do que se sabe sobre este filme perdido, que ainda não li. Como nota final, acabei procurando sobre a transmissão de “The Wedding March” no Telecine Cult, e encontrei este texto na revista de cinema Contracampo, que comenta que a versão transmitida foi a restaurada - e eu lembro bem da excelente qualidade da imagem. Pois bem: infelizmente, a que eu assisti no YouTube está bem desgastada. Fui procurar o filme no canal de streaming da Telecine e, obviamente, nada de “The Wedding March”. Que ódio.
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