Glauber Rocha

Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
Cinema
Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha: O transe que não termina)
15 de março de 2026 at 17:47 0
Não sei direito quantas vezes assisti a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, lançado em 1964 (120 minutos). A cada vez que vejo este filme, uma nova camada da história vai se descortinando e mais fico impressionado com sua genialidade. Segundo a Wikipédia, no filme:
O sertanejo Manoel e sua mulher, Rosa, levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era o do patrão. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa. Ele e sua esposa resolvem ir embora, deixando tudo para trás.
Assim que mata o coronel, Manoel (vivido por Geraldo Del Rey) e sua mulher (vivida por Yoná Magalhães) começam uma fuga que vai durar o filme todo. Primeiro, encontram o Beato Sebastião (Lídio Silva), um religioso messiânico na linha de Antônio Conselheiro, o líder de Canudos; depois, o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), que está praticamente sozinho após a morte de Lampião. Em todo esse percurso, tanto o beato quanto o cangaceiro são perseguidos pelo matador Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um dos personagens mais impressionantes do cinema brasileiro, que ainda estrelaria um filme posterior de Glauber Rocha: “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de 1969 (chamado simplesmente de “Antonio das Mortes” no exterior). Considerado universalmente um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” tem inúmeras qualidades: os personagens não são esquemáticos (todos têm defeitos e virtudes); a filmagem é delirante e meio assustadora; a música é maravilhosa — de Sérgio Ricardo, com letra do próprio Glauber Rocha — e “narra” o filme; as atuações são impressionantes. Até o título é impactante e irônico: “Deus” é o Beato Sebastião, que não tem nada de santo, e o “Diabo” é Corisco, que possui um caráter tão ambíguo quanto o do líder messiânico — ou tão ambíguo quanto o do próprio vaqueiro Manoel. Ao contrário de outros filmes de que gosto muito — como “Persona” e “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman; “Stalker”, de Andrei Tarkovski; “Limite”, de Mário Peixoto; ou “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho —, eu nunca havia conseguido escrever sobre “Deus e o Diabo na Terra do Sol” até chegar a este texto. Talvez eu achasse que qualquer coisa que escrevesse não faria justiça a essa obra-prima. Assisti ao filme esta semana e, novamente, não sabia o que dizer. Até que este texto saiu. Espero não ter feito tão feio assim.   (Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Os filmes não policiais a que eu mais gostei de ter assistido em 2021
Cinema
Os filmes não policiais a que eu mais gostei de ter assistido em 2021
19 de dezembro de 2021 at 19:57 0
Os filmes não policiais que eu mais gostei de ter assistido esse ano seguem abaixo. Logo lanço a lista dos noir e polar, como tenho feito há uns poucos anos. Quando for o caso, clicando no título você pode ir para meu comentário original sobre o filme.
  1. “Anjos caídos”, de Wong Kar-Wai (1995): esse filme tem um matador de aluguel com uma parceira misteriosa, um surdo-mudo muito doido, e algum amor envolvido. Os filmes de Wong Kar-Wai são lindos e esquisitos, e eu amo.
  1. The wedding march”, de Erich von Stroheim (1928): meu filme preferido de um dos meus diretores preferidos.
  1. À meia-noite levarei sua alma”, de Zé do Caixão (1964): o filme de estreia do Zé do Caixão tem uma qualidade artística que independente do baixo orçamento.
  1. “Crepúsculo dos deuses”, de Billy Wilder (1950): a decadência dos grandes artistas do cinema mudo em Hollywood depois do advento do cinema falado nunca foi mostrada de maneira tão cruel quanto neste clássico absoluto.
  1. “A grande ilusão”, de Jean Renoir (1949): este filme, cuja história se passa na Primeira Guerra Mundial mas que foi lançado poucos anos antes do início da Segunda, mostra o cavalheirismo - que as grandes guerras sepultaram para sempre - entre nobres de países inimigos.
  1. “Império dos sonhos”, de David Lynch (2006): por que eu gosto tanto desse filme maluco de duas horas e cinquenta e dois minutos de duração? Não sei, mas revi essa coisa doida esse ano e quero rever muitas vezes ainda.
  1. “Amores expressos”, de Wong Kar-Wai (1994): uma história de sessão da tarde filmada por um maníaco.
  1. “Ordet”, de Carl Theodor Dreyer (1955): uma história e um filme milagrosos. Literalmente.
  1. Twin Peaks: os últimos dias de Laura Palmer”, de David Lynch (1992): muito mais assustador que a famosa série na qual o filme foi baseado. Muito mais mesmo.
  1. “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha (1964): uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.
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