3 de março de 2017
Acordo com uma sensação terrível: percebo, de repente, que assassinar pessoas é uma atividade horrenda, punida com prisão, muito malvista pela sociedade. O estranho, no caso, é que nunca matei ninguém, nem nunca tive vontade – mesmo assim, por que fico tão chocado? Em que canto horrível da minha mente assassinar é fácil e corriqueiro?15 de março de 2017
Doze dias depois, a sensação ruim não passa: se estou relaxado, pensando em nada, a sensação de incompreensão – não entender por que tirar a vida dos outros é considerado um crime grave – volta à minha mente com toda a força. Assim, acabo me lembrando da morte de um ex-amigo meu. Eu tinha achado mesmo estranho o acidente do Jairo depois de discutir comigo: ele me acusou de desonestidade – coisa absurda da parte dele, que sempre o ajudei quando precisava – e respondi que não falasse nunca mais comigo, que eu não o perdoaria jamais. Ele saiu batendo a porta e não nos falamos durante um mês, ao final do qual ele morreu num acidente horroroso na estrada da praia. Não senti nenhum remorso, nada. Nem fui ao enterro – tínhamos sido amigos inseparáveis, mas por sorte eu estava viajando (tinha ido ao Peru) quando da morte dele, não tinha como voltar, não precisei me justificar com nada. Na missa de sétimo dia acabei não indo também; minha presença não era tão requerida assim, ninguém veio me perguntar por que eu tinha faltado a uma ocasião tão importante. A morte de Jairo foi horrível: um caminhão desgovernado passou por cima do carro no qual ele estava, e ele não teve como desviar, nem fugir. As ferragens do próprio carro e do caminhão que o matou acabaram impedindo o resgate – ele ficou agonizante e ferido por algumas horas e, quando finalmente foi retirado daquele amontoado de metal retorcido, estava morto. Foi uma morte muito dolorosa, a respeito da qual eu não senti absolutamente nada. Não que eu sentisse ódio de Jairo; para mim, ele simplesmente já não existia mais, e sua morte apenas confirmou o que eu sentia por dentro. O pensamento de que Jairo pudesse ter morrido por algum suposto poder mediúnico meu nunca tinha me passado pela cabeça, mas, lembrando agora do ocorrido, não posso deixar de pensar que pode ter sido o caso.Se você tiver interesse em ler este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail
O texto acima é o o início de “Jack The Ripper”, conto que você pode ler em “A mulher de César”, meu mais recente livro e que você pode comprar aqui.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.“Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se alguém achar que isso tem valor por alguma razão, tudo bem para mim – todos devem ser livres para praticar sua religião. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica que pode ser dada é ‘nós não sabemos’. (...) Não é que eu queira ser simpática com pessoas religiosas pela única razão de ser agradável. Para começo de conversa, eu não sou exatamente conhecida como uma pessoa agradável. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que ‘não existe a possibilidade de um criador’, ou como Victor Stenger, que Deus é uma ‘hipótese falseada’, demonstram que não entendem o limite de seu próprio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declarações presunçosas.”Chamar o ateísmo de “teologia” – isso vindo de uma agnóstica ferrenha – meio que lava a minha alma.
Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.
Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.
Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
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