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O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
Séries
O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
5 de maio de 2026 at 16:29 0

Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.

Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.

A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.

Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui cadastre seu e-mail.
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Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
Cinema
Cinema em 2025: Uma Retrospectiva Pessoal
21 de dezembro de 2025 at 12:17 0
Em 2025, li muito menos que o meu normal, mas compensei isso assistindo a muitos filmes. Seguem os vinte de que mais gostei, em ordem de preferência — alguns contêm links que se referem a textos meus escritos anteriormente.
  1. A Outra Terra (Another Earth) Este filme americano de 2011, dirigido por Mike Cahill, tem 92 minutos de duração. A trama de ficção científica acompanha Rhoda Williams, uma jovem estudante de astrofísica que busca redenção após causar um acidente fatal, ao mesmo tempo em que o surgimento de um planeta duplicado ("Terra 2") oferece a perspectiva de uma segunda chance. Um filme maravilhoso e pouco conhecido, que parece um sonho.
  2. Bacurau Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, este filme brasileiro/francês foi lançado em 2019 e tem 131 minutos. A história narra a luta violenta pela sobrevivência da pequena comunidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, após seus moradores descobrirem que o vilarejo desapareceu dos mapas e está sob ataque de mercenários estrangeiros. Claramente inspirado em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, esta obra prova que uma obra-prima pode influenciar outra.
  3. Os Canibais (The Farm) Com 80 minutos de duração, este filme de survival horror americano de 2018 foi dirigido por Hans Stjernswärd. A trama segue um jovem casal sequestrado e mantido em cativeiro em uma fazenda isolada, onde são tratados como animais de criação. É, provavelmente, o filme mais assustador a que já assisti.
  4. Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone) Dirigido por Robert Allan Ackerman, este filme americano de 2003 tem 99 minutos. Baseado em um romance de Tennessee Williams, conta a história de uma atriz americana de meia-idade que, após a morte do marido, se envolve com um jovem gigolô italiano em Roma, mas a trama não se desenvolve como se espera, o que faz a força do filme.
  5. V/H/S/85 Esta antologia de terror found footage é uma coprodução entre EUA e México, lançada em 2023, com 110 minutos de duração. A narrativa se desenrola através de um documentário fictício que revela cinco contos arrepiantes com a estética da década de 1980. Os segmentos interligados "No Wake" e "Ambrosia", dirigidos por Mike P. Nelson, são tão espetaculares que deveriam ser expandidos para longas-metragens — e não sou só eu quem pensa assim.
  6. X - A Marca da Morte (X) Este slasher de terror de 2022, dirigido por Ti West, tem 105 minutos. A trama acompanha um grupo de cineastas amadores que tenta gravar um filme adulto em uma fazenda isolada no Texas, mas se torna alvo de anfitriões idosos e assassinos. Reúne gore, erotismo, intensidade e a excelente Mia Goth.
  7. Kill Bill: Volume 1 e 2 (Kill Bill: Vol. 1 & 2) Filmes de Quentin Tarantino lançados em 2003 e 2004, com cerca de 248 minutos de duração total. Com Uma Thurman e grande elenco, a obra segue a assassina Beatrix Kiddo em uma jornada que mistura artes marciais e faroeste. Celebrada como o épico de vingança definitivo de Tarantino, só agora assisti a esta obra-prima. "Antes tarde do que mais tarde", como diz minha filha Teresa.
  8. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar) Lançado em 2019 e dirigido por Ari Aster, tem 147 minutos de duração. O filme acompanha um casal em um festival sueco de solstício de verão que ocorre a cada 90 anos, mas a celebração se torna um pesadelo de rituais pagãos. Pareciam hippies, mas não eram: a luminosidade extrema desta obra-prima deixa tudo mais bonito e muito mais perturbador.
  9. Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape) Este drama de 1989, dirigido por Steven Soderbergh, tem 100 minutos. A trama explora a vida de quatro pessoas cujos segredos e insatisfações sexuais afloram após a chegada de um homem que grava entrevistas sobre fantasias íntimas. Um filme profundo e carinhoso com os seus personagens.
  10. Swingers: Os Limites do Amor (Hranice Lásky) Dirigido por Tomasz Winski, este filme tcheco de 2022 tem 95 minutos. Acompanha um casal que decide explorar a não-monogamia e o swinging, testando os limites do amor e do ciúme. Parece libertário, mas não é.
  11. Barbie Esta sátira de 2023, dirigida por Greta Gerwig, tem 114 minutos. Barbie e Ken deixam a Barbielândia para visitar o Mundo Real, onde descobrem realidades sobre gênero e patriarcado. Um filme delicioso e divertido que levanta questões profundas, embora pudesse ter meia hora a menos.
  12. Um Lugar Secreto (John and the Hole) Filme de Pascual Sisto (2021) com 103 minutos. Conta a história de John, um garoto de 13 anos que prende a sua família num bunker inacabado no quintal de casa. Além de parecer um sonho sinistro, possui uma história paralela sobre uma menina abandonada que torna tudo ainda mais perturbador.
  13. Os Imorais (The Grifters) Dirigido por Stephen Frears, este noir de 1990 tem 119 minutos. Três vigaristas profissionais mergulham no submundo do crime e da traição em Los Angeles. Ainda pretendo comentar aqui sobre este e outros filmes neo-noir da década de 1990 e as suas cores maravilhosas.
  14. Ninfomaníaca - Volumes 1 e 2 Esta obra de Lars von Trier (2013) tem 241 minutos no total. Desenrola-se a partir dos relatos de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca, sobre as suas experiências. Alta cultura e vício em uma obra-prima perturbadora.
  15. O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex) Drama histórico de 2008 dirigido por Uli Edel, com 149 minutos. Narra a ascensão e queda da Fração do Exército Vermelho (RAF) na Alemanha Ocidental. É fiel ao livro de Stefan Aust; a semelhança da atriz que interpreta Gudrun Ensslin com a verdadeira terrorista é impressionante.
  16. A Maldição da Ponte (The Bridge Curse) Terror taiwanês de 2020 dirigido por Lester Hsi. Estudantes decidem testar o mito de uma ponte assombrada em uma transmissão ao vivo. Meus sonhos e pesadelos parecem-se com este filme.
  17. O Agente Secreto Thriller político de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, com 158 minutos. Ambientado no Recife de 1977, foca na vigilância e repressão da ditadura militar. Quase tão bom quanto Bacurau.
  18. Anora Comédia dramática de Sean Baker (2024) com 138 minutos. Uma stripper do Brooklyn casa-se impulsivamente com o filho de um oligarca russo. Embora eu sempre torça pelo Brasil, reconheço que Anora é superior a Ainda Estou Aqui.
  19. Ligadas pelo Desejo (Bound) Thriller neo-noir de 1996 dirigido pelas irmãs Wachowski. Foca no romance entre uma ex-presidiária e a namorada de um mafioso, que planejam um roubo milionário. Outra obra-prima que pretendo detalhar em breve.
  20. O Babadook (The Babadook) Filme de Jennifer Kent (2014) com 94 minutos. Uma viúva enfrenta o medo do filho de um monstro infantil, que serve como metáfora para o luto. Um filme assustador de verdade.
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Literatura
“Carrie, a estranha”, de Stephen King
21 de julho de 2019 at 17:49 0

Sempre que alguém comenta "que os livros são sempre melhores do que os filmes baseados neles” eu lembro que “Laranja Mecânica”, o filme de Stanley Kubrick (1971), me pareceu muito melhor do que o livro correspondente de Anthony Burgess, publicado em 1962. Já com “Carrie, a estranha” (Objetiva, 200 páginas), a disputa filme x livro é bem acirrada.

Assisti ao filme de 1976 (há outras duas versões, uma de 2002 e outra de 2013), de Brian De Palma, com Sissy Spacek no papel principal, há muitos anos já. Carrie é uma garota que tem poderes de telecinese (basicamente, mover objetos com o poder da mente) e sofre bullying na escola em que estuda. Tentando aliviar a barra da moça, um garoto, convencido pela namorada, convida Carrie para o baile de formatura – e chega de contar a história. 

O livro - que li recentemente e que foi o primeiro publicado por Stephen King, em 1974 -, à maneira de H.P. Lovecraft, descreve com linguajar científico e detalhado a história da pobre garota e dos seus poderes mentais, o que acaba fazendo com que assistir ao filme - muito mais direto - seja muito mais assustador do que ler o livro. De todo modo, o sofrimento de Carrie, personagem baseada em duas meninas que o autor realmente conheceu, é mostrado em cores bem mais fortes no romance - o que faz com que o jogo termine praticamente empatado, no final das contas.

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