filmes de terror

O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
Cinema
O terror de ver tramas promissoras se arrastando em minutos desnecessários
13 de setembro de 2026 at 02:00 0
Um jogo de futebol tem noventa minutos. A grande maioria dos filmes noir dos anos 1940 e 1950 – meu estilo preferido ao lado do terror – tem noventa minutos. Quase todos os filmes de Woody Allen têm noventa minutos. Alguns longas a que assisti recentemente me fizeram pensar bastante nessa duração quase mágica. Em A Cura, de Gore Verbinski (Estados Unidos, 2016), um jovem e ambicioso executivo é enviado aos Alpes Suíços para resgatar o CEO de sua empresa em um misterioso centro de bem-estar, mas logo descobre segredos perturbadores por trás dos tratamentos milagrosos do local. É um ótimo filme de terror, mas gostaria que alguém me explicasse por que ele precisa de 146 minutos. A Última Casa (Estados Unidos, 2026), suspense apocalíptico com Wagner Moura, parte da premissa de um fenômeno desconhecido que impede qualquer pessoa de sair de casa. O filme foi amplamente detonado pela crítica, mas acredito que, se tivesse meia hora a menos em relação aos seus 112 minutos, o público – eu incluído – se irritaria bem menos. Já Continente, de Davi Pretto (Brasil, 2024), é um terror nacional em que uma espécie de vampirismo zumbi assola uma pequena comunidade rural no interior do Rio Grande do Sul — o que me fez lembrar, em vários momentos, a obra-prima Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. O filme cria uma atmosfera opressiva e misteriosa excelente, mas até eu cortaria meia hora do meio, meio na machadada; certamente a narrativa ganharia muito mais força do que nos seus 115 minutos originais. Por fim, o melhor exemplar recente: Insaciável, de Natalie Erika James (Estados Unidos, 2026), no qual uma estudante de medicina recorre a um método extremo de emagrecimento e passa a ser assombrada por manifestações sobrenaturais. O filme é tão bom que quase justifica seus 112 minutos, mas, francamente, no segundo ato a trama se torna desnecessariamente repetitiva. Essa questão do tempo assombrou um dos meus diretores preferidos, Erich von Stroheim: na era do cinema mudo, ele simplesmente não conseguia filmar em noventa minutos nem cumprir prazos e orçamentos. Sua carreira brilhante foi interrompida precocemente porque ninguém mais se dispunha a financiar suas aventuras geniais. No fim das contas, é difícil não dar razão aos produtores que retalharam, para desespero do cineasta, joias como A Marcha Nupcial ou Ouro e Maldição. Não me entendam mal: existem obras monumentais com bem mais de duas horas, como Kill Bill e Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino; Stalker e Solaris, de Andrei Tarkovsky; os citados Bacurau e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman; e Os Bons Companheiros e O Irlandês, de Martin Scorsese. Mas essas são as raras exceções. Se eu pudesse dar um conselho a qualquer realizador contemporâneo, seria: se você não é um Kleber Mendonça Filho ou um Quentin Tarantino, mantenha os pés no chão e faça filmes de noventa minutos.
Imagem obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O fascínio pelo mal sem motivo
Cinema
O fascínio pelo mal sem motivo
6 de setembro de 2026 at 00:56 0
Eu e a Valéria sempre assistimos a novelas e a séries juntos, mas filmes, raramente. Uma destas raras ocasiões deve ter sido uns quinze anos atrás: resolvemos ver um filme aleatório na TV a cabo e – coisa realmente rara, não custa reforçar – assistimos com atenção máxima do início até o fim. Era sobre um casal que está numa casa de campo quando são atacados por três mascarados. Eu não lembrava como o filme terminou, nem o seu nome, nem mais nada. Só sabia que uma atriz famosa, filha de um cantor de rock famoso, era a atriz principal. E só. E nunca mais esqueci do filme e – perguntando agora para a Valéria – acabei descobrindo que ela também nunca mais esqueceu: uma das coisas mais assustadoras a que já assistimos. Desde que o vi, acabei descobrindo o nome do filme, “Os Estranhos” (dirigido por Bryan Bertino, Estados Unidos, 85 min), mas tive que saber primeiro o nome da atriz (Liv Tyler), filha do famoso cantor do Aerosmith, Steven Tyler. Descobri também que o filme teve um impacto tão grande que acabou tendo desdobramentos, com uma sequência chamada “Os Estranhos: Caçada Noturna”, de 2018, e uma trilogia lançada entre 2024 e 2026 (“The Strangers: Chapter 1”, “The Strangers: Chapter 2” e “The Strangers: Chapter 3”). Como dá para imaginar, o projeto de rever aquele filme eu tenho desde aquela longínqua noite com minha esposa e, finalmente, o assisti de novo recentemente. “Os Estranhos” consegue ser muito melhor do que eu lembrava: os mascarados que invadem a casa são um homem e duas mulheres, e praticamente não falam nada durante o filme inteiro. O terror que eles perpetram contra o pobre casal é lento, esquisito, e vai crescendo desde que eles aparecem até o final. Não há nenhuma justificativa para suas ações, nada, o que deixa o filme mais impactante e, na minha opinião, muito melhor – aqui comento como é este terror injustificado o grande atrativo de filmes espetaculares, como “Canibais (The Farm)” e “Bacurau”. Por que será que o mal gratuito me atrai tanto no cinema? Provavelmente porque o mal, em si, não tem nada que o justifique; não adianta tentar me convencer do contrário. *** Imagem gerada pelo Claude. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
Cinema, Viagem
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
2 de agosto de 2026 at 03:06 0
Tive dois ataques de pânico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confiança nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que já era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de “cair sozinho”: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, não tenho medo nenhum. Amo andar de avião, inclusive. O primeiro ataque de pânico foi num show do Morrissey em 2012 no Espaço das Américas, atual Espaço Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos até chegar na minha poltrona, no primeiro balcão. Para chegar até meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baixíssimo, numa altura gigante – sei lá, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o pânico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espetáculo estava perfeito). O segundo ataque de pânico foi em Machu Picchu. A sequência do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ruínas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de ônibus que parece pertencer à série “Estradas Mortais”, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu já estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que é terrível para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ruínas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta - tudo me fez ter o segundo ataque de pânico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, não tinha como voltar no meio da pequena multidão, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame histórico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror não me dão medo nenhum, muito pelo contrário. O grande crítico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que “Obsessão” é um filme que, “de fato, dá medo”. Já eu, que também amei o filme, comentei aqui que ele “é um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles”. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. Até que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado “A queda”, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lançado originalmente em 2022, 107 min). O filme já começa assustador: um casal e uma amiga escalando um paredão praticamente vertical: eles estão todos se divertindo até que o cara cai lá de cima. A mulher entra em profunda depressão e, um ano depois, a amiga que estava junto no paredão, para animá-la, sugere que as duas vão escalar uma torre de rádio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem até o topo do negócio e lá começa o sofrimento, sobre o qual não vou comentar aqui para não estragar a surpresa. Só o que eu posso dizer é que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro até o topo e eu já estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa só piorou. Não sei para que tanto sofrimento, minha gente.
Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. Se você estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
Cinema
“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
24 de junho de 2026 at 10:22 0
Hoje em dia eu praticamente só assisto a filmes noir (americanos e franceses) e de terror, já devo ter comentado aqui. Os noir eu vou assistindo os que vêm nos ótimos DVDs da Versátil, e os de terror simplesmente escolho alguma coisa que me chama a atenção nos streamings (não sei por que o Prime Video e a Netflix me indicam filmes de terror assim que eu entro nas plataformas!). Depois de praticamente uma vida inteira assistindo só a filmes “recomendados”, normalmente pela crítica, gosto muito da sensação de cair num filme sem nem saber do que se trata. Com Obsessão (2026), dirigido por Curry Baker, a coisa mudou um pouco. Vi na página inicial do UOL comentários superlativos sobre o filme, gostei das fotos de divulgação (como a imagem que acompanha este texto) e acabei ficando obcecado de vontade de assistir — péssima piada, eu sei. Assisti no cinema, e realmente ele merece o sucesso que faz. Com orçamento baixíssimo, já é um dos filmes de terror de maior sucesso de todos os tempos, segundo dados do site AdoroCinema. A cena inicial é excelente: Bear (Michael Johnston), um rapaz tímido, treina a declaração que quer fazer para a amiga Nikki (Inde Navarrette), por quem é apaixonado há muito tempo. Esta paixão é o combustível para o início do filme — e, até aqui, parece que estamos assistindo a uma Sessão da Tarde. Mas ele acaba conseguindo que a garota se apaixone por ele, e a relação logo se transforma em um pesadelo violento e sobrenatural conforme o amor dela se torna uma obsessão assustadora e destrutiva. São muitas as qualidades da produção: a maneira como a história se desenrola, os sustos e a tensão permanente. Mas acho que o filme não teria o impacto que teve se não fosse o casal de protagonistas, vivido por Michael Johnston e, principalmente, pela extraordinária Inde Navarrette, assustadora de verdade como Nikki. É um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles.
Imagem: Divulgação. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
Séries
O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
5 de maio de 2026 at 16:29 0

Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.

Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.

A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.

Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui cadastre seu e-mail.
Leia mais +
Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
Cinema
Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
5 de outubro de 2025 at 08:08 0

Tenho assistido a muitos filmes de terror. Assim como minha outra paixão cinematográfica, os filmes noir americanos e franceses, em que eu simplesmente vou assistindo a todos os filmes de DVDs da Versátil sem me preocupar em saber o enredo ou a opinião da crítica, com os filmes de terror muitas vezes começo a assistir a algum título na Netflix ou no Amazon Prime sem me preocupar muito em saber do que se trata. Outra mania minha: só assisto a filmes de terror mais ou menos recentes. Manias não se explicam.

O filme americano Corra! (dirigido por Jordan Peele, 2017, EUA) foi escolhido como o quinto melhor do século XXI, em qualquer gênero, pelo jornal New York Times. Não achei o filme ruim, mas penso que grande parte da sua importância se deve à profunda crítica social que ele traz, e não ao terror em si.

De todo modo, o tipo de terror que Corra! representa é relativamente frequente em muitos filmes recentes: a história de alguém que chega a um lugar onde um grupo mais ou menos esquisito acaba se revelando muito mais estranho do que parecia à primeira vista. Filmes desse tipo que assisti recentemente são O Monastério (dirigido por Bartosz M. Kowalski, 2022, Polônia), A Freira (dirigido por Corin Hardy, 2018, EUA), Imaculada (dirigido por Michael Mohan, 2024, EUA e Itália), Piscina Infinita (dirigido por Brandon Cronenberg, 2023, Canadá, Croácia e Hungria), Suspiria (dirigido por Luca Guadagnino, 2018, EUA e Itália) e A Cura (dirigido por Gore Verbinski, 2017, EUA, Alemanha e Luxemburgo). O que mais gostei foi Midsommar (dirigido por Ari Aster, 2019, EUA e Suécia), em que o terror surge num lugar lindo, ensolarado (!) e bucólico no interior da Suécia.

Casos interessantes, para o público ocidental, são A Morte Sussurra (dirigido por Taweewat Wantha, 2023, Tailândia), um filme tailandês em que um exorcismo acontece sob o ponto de vista budista, e o excelente Umma (dirigido por Iris K. Shim, 2022, EUA), um filme americano em que uma mãe coreana atormenta a vida da filha, que nasceu na Coreia, mas vive nos Estados Unidos. Duas sequências de filmes que ainda não assisti inteiras estão entre as coisas mais assustadoras que já vi: V/H/S (dirigido por vários, 2012, EUA), que só assisti ao primeiro e que mostra uma série de pequenas histórias filmadas em VHS, e [REC] (dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, 2007, Espanha), que já assisti aos dois primeiros, uma série espanhola sobre uma possessão monstruosa num prédio em Barcelona. Esta última também tem uma versão americana, e é bom saber que ainda tenho bastante coisa — boa, espero — para assistir nessas séries. Muito assustador também é Canibais (dirigido por J.K. Bown, 2017, Estados Unidos), um filme em que seres humanos são criados como gado para o abate, sobre o qual já comentei aqui. Embora alguns filmes citados acima realmente me perturbem, é mais comum que os filmes de terror não me assustem muito, mas me divirtam bastante. Provavelmente o terror assusta mais o espectador quando o atinge em algum canto do seu inconsciente. É por isso que o filme A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2021, Coreia do Sul) foi um dos mais assustadores que já assisti: uma história de possessão com estudantes em uma universidade, com corredores escuros e estranhos, que me deixou realmente inquieto. Sim, grande parte dos meus sonhos e pesadelos se passa em corredores escuros e estranhos. Por sorte, a continuação de A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2023, Taiwan) é tão confusa que não chegou a me dar medo. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você tiver interesse em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
Leia mais +
Bacurau e Canibais (The Farm)
Cinema
Bacurau e Canibais (The Farm)
27 de julho de 2025 at 15:00 0
“Bacurau”, lançado em 2019 e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi um enorme sucesso de público e de crítica. O filme conquistou inúmeros prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio do Júri no Festival de Cannes (2019). A história se desenrola em um futuro próximo, na pequena e fictícia vila de Bacurau, no sertão de Pernambuco. Um grupo de estrangeiros – a maioria americanos e europeus – invade a cidade com o objetivo de realizar um "safári humano", caçando e matando os moradores por esporte. Para isso, eles chegam a fazer a vila desaparecer dos mapas online e do GPS. Em resposta, os moradores se unem para lutar contra os invasores. O filme é tenso, violento e mantém a atenção o tempo todo. A filmagem é intencionalmente "amadora", com luz natural e pouco "cinematográfica", enquadramentos que fogem do "perfeito" ou "simétrico", e movimentos de câmera muitas vezes bruscos. Essa abordagem "áspera" de filmagem me remete a filmes que aprecio, como “A Outra Terra” – que comentei recentemente aqui – e “O Império dos Sonhos” (Inland Empire), de David Lynch. Já o tema, que retrata um sertão nordestino violento e impiedoso, é claramente inspirado em obras como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o clássico brasileiro de 1964, dirigido pelo grande Glauber Rocha. Ao pensar nos dois filmes, a imagem de pistoleiros correndo pelo sertão me vem à mente: sim, também temos o nosso western de extrema qualidade! Se “Bacurau” foi um grande sucesso de público e de crítica, o mesmo não pode ser dito de “Canibais (The Farm)” (menciono o filme sempre assim para evitar confusão com outra obra de mesmo nome em português, de 2013). Este filme de terror independente, dirigido e escrito por Hans Stjernswärd, foi lançado em 2018. Na internet, é comum encontrar críticas à sua violência extrema, à falta de enredo e desenvolvimento de personagens, ao "choque pelo choque" e à péssima atuação dos atores principais. No entanto, confesso que gostei muito de “Canibais (The Farm)”, talvez por ter pouco contato com esse tipo de terror gore, ou talvez porque o filme seja realmente bom – só o tempo dirá. No filme, um casal, Nora (Nora Yessayan) e Alec (Alec Gaylord) – note que os nomes dos personagens são os mesmos dos atores –, está viajando e acaba parando em um local isolado. Eles rapidamente se veem em uma situação aterrorizante: uma fazenda onde seres humanos são tratados como gado, preparados para o consumo. O desespero e a agonia das vítimas são constantes e aterradores ao longo de todo o filme. Não há nenhum momento de trégua, e o fato de os perpetradores usarem máscaras de animais "inocentes" – porcos, vacas, ovelhas – torna tudo ainda mais assustador. Apesar da enorme diferença em termos de sucesso de público e de crítica, “Bacurau” e “Canibais (The Farm)” têm muitos pontos em comum, além de terem sido lançados com pouco tempo de diferença. A violência, seja a perpetrada pelos estrangeiros no primeiro ou pelos fazendeiros no segundo, é totalmente absurda, sem sentido e gratuita, fazendo com que ambos, em muitos momentos, pareçam um pesadelo sem sentido. Mais do que isso, ambos os filmes podem ser lidos sob uma ótica de crítica política e social. “Bacurau” é frequentemente visto como uma forte alegoria sobre o Brasil e suas complexidades, abordando a violência contra as populações mais vulneráveis, a exploração estrangeira e a importância da resistência e da união comunitária. Já “Canibais (The Farm)” é frequentemente interpretado como uma defesa dos animais e do veganismo, pois, ao inverter os papéis e mostrar seres humanos tratados como gado, expõe a crueldade do tratamento de animais de corte, buscando despertar empatia pelas vítimas. Pessoalmente, não me aprofundo muito nessas interpretações. Para mim, ambos os filmes são excelentes, entre outros motivos, por assustar justamente pela violência absurda que exibem na tela. *** Assisti a 'Bacurau' no Globoplay e a 'Canibais (The Farm)' no Prime Video. A foto que acompanha o texto foi obtida no site do Prime Video. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +