julho 2026

Justiça Tardia ao Arquivo X: Por que decidi quebrar meu próprio preconceito e dar uma chance real à polêmica 9ª temporada
Séries
Justiça Tardia ao Arquivo X: Por que decidi quebrar meu próprio preconceito e dar uma chance real à polêmica 9ª temporada
26 de julho de 2026 at 04:19 0
No final da sétima temporada de Arquivo X, por volta do ano 2000, o ator David Duchovny, que interpretava o agente do FBI Fox Mulder, não queria mais saber da série – e acabou fazendo apenas participações especiais na oitava e na nona temporadas, as últimas antes do revival de Arquivo X, em 2016 e 2018. Muitos fãs ao redor do mundo – eu incluído – se desanimaram bastante com a ausência. Lembro que, na época, assisti a alguns episódios das duas últimas temporadas, mas não me animava muito, por mais que reconhecesse que grande parte das qualidades que fizeram de Arquivo X minha série preferida de todos os tempos – sim, eu sei que tem muito de memória afetiva nisso – estavam lá. Para tentar saber se eu estava assim tão enganado com meu desânimo, resolvi assistir à nona temporada, do início ao fim. Nela, a agente Dana Scully (Gillian Anderson) trabalhava como professora no FBI e aparecia nos episódios como uma consultora para os dois novos agentes do Arquivo X, que era o departamento fictício do FBI que tratava de casos inexplicáveis envolvendo, por exemplo, seres extraterrenos e parapsicologia. O nome destes agentes são John Doggett (vivido por Robert Patrick) e Monica Reyes (vivida por Annabeth Gish): ele entrou no início da oitava temporada, ela no final. Na nona, a que assisti recentemente, os dois já eram basicamente os novos Mulder e Scully, mas com uma diferença fundamental: enquanto a agente Scully era a cética do início de Arquivo X, este comportamento passou a ser vivido por John Doggett; inversamente, Mulder era o aberto a explicações heterodoxas para os casos em que eles se envolviam, e Reyes era a “crédula”. Os episódios de Arquivo X se dividem basicamente em “mitológicos” - episódios focados na grande história central da série, envolvendo conspirações governamentais e a colonização alienígena da Terra - e “monstros da semana” - episódios isolados com começo, meio e fim, onde os agentes investigam criaturas bizarras, lendas urbanas ou fenômenos paranormais sem ligação com a trama principal. A história “mitológica” da nona temporada – com super-humanos e a filha de Scully – é bastante confusa, mas os “monstros da semana” englobam episódios que são quase todos obras-primas, com destaque para “Insolação” (episódio 18), “Assustador” (episódio 14), “Improvável” (episódio 13), “Sob a superfície” (episódio 12), “4-D” (episódio 4) e “Audrey Pauley” (episódio 11). Enfim, a nova temporada é muito melhor do que eu lembrava, não só pelas obras-primas citadas acima, como pelo fato de que John Doggett e Monica Reyes, vividos brilhantemente por Robert Patrick e Annabeth Gish, são basicamente tão interessantes e carismáticos quanto Mulder e Scully. E eu confesso que não lembrava como Annabeth Gish é bonita!
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Mulheres por Cima: A Revolução das Fantasias e do Desejo Feminino
Literatura
Mulheres por Cima: A Revolução das Fantasias e do Desejo Feminino
23 de julho de 2026 at 12:01 0
"Mulheres por Cima" (Women on Top), lançado em 1991 pela jornalista e escritora norte-americana Nancy Friday, é uma das obras mais marcantes sobre a psicologia do desejo e as fantasias sexuais femininas. A tradução da edição brasileira é de Raquel Mendes, com 494 páginas, e o livro foi lançado por aqui em 1994. O livro dá sequência à investigação iniciada no célebre Meu Jardim Secreto (1973), no qual a autora já havia quebrado tabus ao expor anonimamente o universo íntimo e imaginário das mulheres. Não li ainda Meu Jardim Secreto, mas a proposta é basicamente a mesma do trabalho anterior: Nancy Friday distribuiu questionários em diversos lugares  - comunidades, igrejas, locais de trabalho - para que mulheres de diversas idades e faixas sociais pudessem, de forma anônima, descrever suas principais fantasias sexuais. O livro é dividido em uma introdução em duas partes, em que ela aprofunda questões apresentadas no livro anterior, e a parte das fantasias propriamente ditas, de mais de 400 páginas, dividido em: “Mulheres sexualmente dominadoras, sedutoras, às vezes sádicas”, “Mulheres com mulheres” e “Mulheres insaciáveis: clamando por ‘Mais!”. As fantasias basicamente têm sempre o mesmo roteiro: a mulher conta sua história - se é casada ou não, quando foi sua primeira vez, como é sua vida sexual - e depois passa para as fantasias propriamente ditas. As mulheres imaginam de tudo: elas podem ser objeto de diversos homens se masturbando ao mesmo tempo; podem ter casos com amigos, parentes e colegas; mesmo estupros e zoofilia não são raros. A fantasia feminina basicamente não tem limites em “Mulheres por cima”, um livro interessante - e às vezes chocante.
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Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
Literatura
Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
19 de julho de 2026 at 01:53 0
Lá em casa tínhamos algumas estantes de livros. A mais bonita, envidraçada, era minha. Eu passava horas arrumando minhas obras por preferência, autor, temática. Ali havia algumas enciclopédias e coleções bonitas, e os meus livros: Thomas Mann, William Faulkner, Virginia Woolf, muitos livros que eu lia e entendia e tantos outros que eu lia e não entendia. As estantes da minha mãe eram bem mais caóticas (como é, aliás, a minha atualmente): livros desordenados, quase todos lidos e deixados de lado. Minha mãe não fazia muito diferente do que eu faço hoje em dia: eu leio e guardo o livro, sem me preocupar onde armazenar na estante, e se é fácil encontrá-lo ou não. A diferença é que minha mãe nunca se desfazia dos livros dela – dizia que ficariam para mim –, ao contrário de mim, que passo para frente quando não pretendo reler. Outro aspecto importante de mãe e filho fanáticos por leitura, como éramos nós, era o Círculo do Livro: mensalmente recebíamos o catálogo da editora, em forma de revista, e bastava fazer o pedido do livro e esperar por ele. Uma espécie de Amazon dos anos 1980. A qualidade das edições – sempre em capa dura – era espetacular, e até hoje tenho muitos livros do Círculo do Livro na minha estante (muitos, é preciso que se diga, foram comprados bem mais recentemente, na Estante Virtual https://www.estantevirtual.com.br). Quando olhava os livros da minha estante, dois livros estavam sempre juntos e chamavam minha atenção, porque eu não conhecia os autores, nunca tinha ouvido falar das obras fora dali, e mesmo assim estavam entre os meus livros: minha mãe os tinha escolhidos no catálogo do Círculo do Livro, e foram parar na minha estante, quem sabe porque eu achei as edições bonitas, mas não lembro direito. Um deles, com uma sofisticada capa apresentando uma lebre, era "A longa jornada", de Richard Adams, um estranho clássico sobre uma sociedade de coelhos que eu li até a metade uns dez anos atrás; o outro é o tema deste texto: "Quando os Adams saíram de férias", de Mendal W. Johnson (Círculo do Livro, 277 páginas, traduzido por Carmen Ballot, ano de publicação original: 1974). A capa já entregava tudo: cinco crianças no umbral de uma porta, e uma garota amarrada se contorcendo no chão. Lembro de minha mãe dizendo, com desgosto, que no livro “as crianças ficavam torturando a babá sem parar”. Provavelmente minha mãe não terminou de ler o romance: a última dobra do papel está na página 126, e dá perfeitamente para entender por que ela parou ali. Já eu fui até o fim. No livro, Barbara, 20 anos, é a babá contratada para cuidar de Bobby (14 anos) e Cindy (10 anos), filhos dos Adams, que se unem aos irmãos vizinhos Dianne (17 anos) e Paul McVeigh, e ao amigo John (17 anos), para aprisioná-la. No prólogo, a babá está em paz levando as crianças para a igreja e para um banho no rio, mas logo em seguida ela se vê dopada e amarrada – e o sofrimento dela só está começando. O livro é bastante criticado pelo sofrimento gratuito, mas, em épocas de zoossadismo na internet perpetrado por crianças, nem sei se o livro é tão exagerado assim. A história do autor, Mendal W. Johnson, é trágica. Tendo lançado o livro em 1974, faleceu dois anos depois, vítima de alcoolismo, sem conseguir terminar os três romances que estava escrevendo. O livro também tem uma história esquisita: lançado com grande sucesso (a Abril Cultural também lançou “Quando os Adams saíram de férias” em bancas de jornais na época), ficou posteriormente décadas fora de catálogo, tendo sido relançado no exterior pela Valancourt Books em 2020, e no Brasil pela DarkSide Books/Macabra Filmes em 2022. Hoje é uma obra cultuada por amantes de literatura de terror. E merece o status que tem: “Quando os Adams saíram de férias” é extremamente bem escrito, e Mendal W. Johnson consegue descrever com profundidade os pensamentos e motivações – mesmo os de cunho mais psicopata – de seus personagens. *** Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.  
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A ilusão da camisa
Esporte
A ilusão da camisa
6 de julho de 2026 at 18:36 0
Acho que a maioria dos brasileiros – e muita gente pelo mundo – considera o futebol brasileiro o melhor do mundo. Quando acontece uma derrota dramática em fases intermediárias da Copa do Mundo, é frequente buscar um culpado: é o técnico, é o jogador, é a preparação, é qualquer coisa. Mas eu tenho uma ideia meio diferente, que parece óbvia, mas quem sabe não seja: as Copas do Mundo não são jogadas por países, mas por alguns jogadores por país. Acho que me manquei disso quando vi a festa no vestiário da Espanha depois da vitória em 2010: eram alguns sujeitos pulando, em fila – se não me engano, eram divididos entre os pró e contra a independência da Catalunha, mas minha memória pode estar me enganando. Era um pequeno grupo de homens, não era “A Espanha”. A Espanha é um país enorme, com vários milhões de habitantes. Então, cada vez mais eu me convenço de que não existe o “futebol brasileiro” em Copas do Mundo; existe um pequeno grupo de jogadores que representa os milhões de brasileiros. E é aí que o excepcional faz diferença. Ou alguém acha que Pelé e Garrincha não foram os principais responsáveis pelos primeiros títulos mundiais do Brasil? Romário por 1994, Rivaldo e Ronaldo por 2002? Zidane por 1998 e o vice em 2006? Maradona por 1986, Messi por 2022, Mbappé por 2018? É claro que existem outros fatores, claro: em 1982 Zico não conseguiu ganhar uma Copa do Mundo, nem Cruyff em 1974, nem Puskás em 1954. Mas são inesquecíveis. E às vezes um conjunto é tão bem azeitado que o time passa a ser o excepcional, como provavelmente aconteceu na supracitada Espanha em 2010, e com a Alemanha em 2014. Mas o que conta mesmo, numa Copa do Mundo, não é o país. É um ou dois jogadores num pequeno grupo. Como Flavio Prado falou ontem, Haaland nasceu na Noruega; se tivesse nascido no Brasil, a gente venceria. O excepcional, como tantas vezes acontece, fez a diferença em mais uma derrota da seleção brasileira, que só teve um jogador excepcional desde 2002: Neymar, que quase sempre esteve sem condições físicas ideais nas Copas do Mundo de que participou. *** Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem obtida no Google Gemini.
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Olhando de perto o desejo: Uma crítica de Delta De Vênus, de Anaïs Nin
Literatura
Olhando de perto o desejo: Uma crítica de Delta De Vênus, de Anaïs Nin
5 de julho de 2026 at 15:21 0
A primeira vez que li “Delta de Vênus”, de Anaïs Nin (L&PM, 304 páginas, traduzido por Lúcia Brito, ano de publicação original: 1977) eu não gostei muito. A autora, nascida em na França em 1903 e falecida em Los Angeles, Estados Unidos, em 1977, tinha autorizado a publicação dos contos eróticos que fazem parte do livro e que tinham sido escritos muito antes, no início dos anos 1940, para um cliente rico que queria ler histórias de cunho sexual explícito. Amante do grande escritor Henry Miller, Anaïs Nin usava tanto histórias pessoais quanto dos amigos próximos para escrever os contos. Três coisas me desagradaram sobremaneira na primeira leitura: a maneira como os personagens entram nas histórias sem nenhuma apresentação: lá pelas tantas, um nome (Pierre, por exemplo) aparece como se o leitor soubesse quem ele é; muitas vezes temas terríveis como pedofilia, estupro e necrofilia aparecem sem nenhum julgamento moral; muitos temas complexos – mulheres com desejos masculinos, homens frágeis psicologicamente – são descritos com uma mão pesada, com a autora descrevendo o comportamento dos personagens sem deixar nenhum espaço para o leitor chegar a uma conclusão por si só. Nesta releitura, esta frieza da descrição me agradou bem mais: Anaïs Nin não julga ninguém, e não demonstra nenhuma simpatia por quem quer que seja, sejam homens ou mulheres – por mais que ela tenha sido avançada, em termos sociológicos, por escrever sobre assuntos tão pesados há tanto tempo, é até interessante que sua visão do sexo não tem absolutamente nada de feminista: em seus contos, homens e mulheres têm suas vidas totalmente chacoalhadas por pulsões sexuais violentas, e ela se coloca na posição de quem não está ali para julgar. *** Imagem obtida no Google Gemini.
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Vale a pena ler “A Classe de Grego”, livro de Han Kang sem edição no Brasil? – Uma análise crítica do romance de 2011 da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
Literatura
Vale a pena ler “A Classe de Grego”, livro de Han Kang sem edição no Brasil? – Uma análise crítica do romance de 2011 da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
5 de julho de 2026 at 11:00 0
Recentemente, li “O Livro Branco”, da coreana Han Kang, vencedora do Prêmio Nobel de 2024. É um dos livros mais pungentes e bonitos que já li. Anteriormente, eu tinha escrito sobre “A Vegetariana”, da mesma autora, um excelente romance explosivo de sexualidade e loucura. Foi com a maior das expectativas que comecei a ler a versão em espanhol (“La clase de griego”, Random House, 176 páginas, traduzido por Sunme Yoon, ano de publicação original: 2011) de um romance de Han Kang que ainda não tem edição brasileira. O meu entusiasmo com o livro é justificado não somente porque amei os dois livros supracitados da autora, mas porque o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, tem um personagem que fica cego, do mesmo modo que nesta obra. Achei que a leitura poderia me familiarizar um pouco com o tema. O livro de Han Kang conta a história de um homem na faixa dos trinta anos, um coreano que estudou e trabalhou na Alemanha boa parte da vida, especialista em grego clássico. Ele dá aulas em um curso noturno em Seul para alguns alunos – a maioria estudando a língua de maneira diletante –, e uma de suas alunas é uma mulher muda: ela pode ouvir, mas não consegue emitir palavras. Os dois são solitários. O professor tem uma vida simples, com poucos amigos, e aparentemente foi se acomodando no emprego e na falta total de qualquer ambição. A lenta perda da visão é encarada de maneira estoica, sem grandes dramas. Já a estudante muda tem um filho de um relacionamento fracassado, e o pai do menino consegue a guarda dele. O mutismo da estudante aconteceu de forma súbita após seus traumas: ela sempre tendeu a ser calada, mas o silêncio tomou tal dimensão que, quando ela conhece o professor, tornou-se totalmente muda. Sim, é uma espécie de loucura, um tanto semelhante à da personagem principal de “A Vegetariana”. É até difícil descrever o abismo de solidão que é a vida dos dois personagens principais: Han Kang consegue, com a maestria de sempre, fazer o leitor mergulhar em sensações de profunda dor, tão grandes que parece não haver palavras para descrevê-las. Mais do que dor, parece que o tempo, em “A Classe de Grego”, parou em algum lugar, um lugar frio, solitário e sem esperança. Francamente, por mais que eu reconheça a maestria de Han Kang, neste livro ela pesou demais a mão na solidão e na loucura. “A Classe de Grego” é estático, dolorido e solitário um pouco além da conta. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem obtida no Google Gemini.
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Do Japão aos EUA: Uma Iniciação Surpreendente nos Quadrinhos Eróticos
Literatura
Do Japão aos EUA: Uma Iniciação Surpreendente nos Quadrinhos Eróticos
1 de julho de 2026 at 14:25 0
Conheço pouquíssimo de história em quadrinhos, e menos ainda sobre quadrinhos eróticos. Para conhecer alguma coisa sobre o assunto, pesquisei na Amazon e li recentemente "Mulheres e Seus Segredos", de Takeshi Ohmi (NewPOP, 168 páginas, traduzido por Thiago Nojiri, ano de publicação original: 2016), e "Omaha: A Stripper", de Reed Waller e Kate Worley (Conrad, 130 páginas, traduzido por Michele De Aguiar Vartuli, ano de publicação original: 1978). Acho que comecei bem. “Mulheres e Seus Segredos” é um mangá erótico em que oito mulheres são chamadas a responder ao seguinte questionamento: “qual foi o sexo mais memorável que você já teve?”. A obra é baseada em relatos e confissões reais enviados por leitoras à revista onde as histórias eram originalmente publicadas no Japão. Aparentemente, a proposta do autor foi justamente compilar essas experiências de oito mulheres comuns para abordar seus fetiches, desejos e o apetite sexual feminino de forma crua, tentando desmistificar certos tabus. São histórias bem variadas: a voyeur, a esposa tentando salvar seu casamento, a que tem uma experiência maravilhosa com um homem experiente, a que tenta conquistar um garoto tímido, e por aí vai. Como tenho pouco conhecimento em HQs, fiquei agradavelmente surpreso ao ver como, nas histórias, tantos detalhes podem ser contados apenas visualmente. Já “Omaha” lembra mais uma obra de literatura. A HQ mistura o estilo de personagens antropomórficos (animais com corpos, comportamentos e dilemas humanos) com uma narrativa densa de novela dramática (soap opera) e erotismo explícito. A história se passa na cidade fictícia de Mipple City e acompanha Susie Jensen, uma gata que sai do interior para tentar a vida na cidade grande. Para se sustentar, ela adota o nome artístico de Omaha e começa a trabalhar como dançarina exótica (stripper) no clube Kitty Korner Klub. A trama é muito bem contada, mesclando romance — ela se apaixona e tem um ótimo relacionamento com Chuck, um artista sensível — com política e aventura policial, envolvendo as campanhas de censura americana ao erotismo, políticos corruptos e gangsterismo. As duas HQs são excelentes, e é interessante observar uma diferença fundamental entre elas: em “Mulheres e Seus Segredos”, os personagens são seres humanos e, à moda japonesa, os genitais são escondidos por uma mancha branca nas cenas de sexo; enquanto isso, os personagens de “Omaha” são animais — cães, gatos, porcos, aves — com corpos humanos e órgãos genitais mostrados em detalhes.
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