agosto 2026

De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
Cinema, Viagem
De um show do Morrissey até as ruínas de Machu Picchu, a lógica torta de quem ama aviões, mas treme na escada.
2 de agosto de 2026 at 03:06 0
Tive dois ataques de pânico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confiança nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que já era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de “cair sozinho”: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, não tenho medo nenhum. Amo andar de avião, inclusive. O primeiro ataque de pânico foi num show do Morrissey em 2012 no Espaço das Américas, atual Espaço Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos até chegar na minha poltrona, no primeiro balcão. Para chegar até meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baixíssimo, numa altura gigante – sei lá, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o pânico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espetáculo estava perfeito). O segundo ataque de pânico foi em Machu Picchu. A sequência do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ruínas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de ônibus que parece pertencer à série “Estradas Mortais”, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu já estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que é terrível para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ruínas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta - tudo me fez ter o segundo ataque de pânico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, não tinha como voltar no meio da pequena multidão, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame histórico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror não me dão medo nenhum, muito pelo contrário. O grande crítico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que “Obsessão” é um filme que, “de fato, dá medo”. Já eu, que também amei o filme, comentei aqui que ele “é um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles”. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. Até que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado “A queda”, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lançado originalmente em 2022, 107 min). O filme já começa assustador: um casal e uma amiga escalando um paredão praticamente vertical: eles estão todos se divertindo até que o cara cai lá de cima. A mulher entra em profunda depressão e, um ano depois, a amiga que estava junto no paredão, para animá-la, sugere que as duas vão escalar uma torre de rádio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem até o topo do negócio e lá começa o sofrimento, sobre o qual não vou comentar aqui para não estragar a surpresa. Só o que eu posso dizer é que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro até o topo e eu já estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa só piorou. Não sei para que tanto sofrimento, minha gente.
Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. Se você estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
Impressões
Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
1 de agosto de 2026 at 10:53 0
Tinha comentado aqui sobre “Mulheres e seus desejos”, o primeiro mangá erótico que li. O próximo da lista foi “Hakoiri”, de uma autora chamada Cuvie (Nova Sampa, 180 páginas, traduzido por Rafael Sanzio, publicado originalmente em 2007, volume único). O livro é formado por três histórias. A primeira, “Hakoiri”, é a mais longa e conta a história de Shion, uma rica e linda herdeira que se apaixona por um pobretão chamado Kouichi. O avô dela, milionário, faz de tudo para impedir o relacionamento dos dois — inclusive tentar casar Shion com outro herdeiro ricaço. “Hakoiri” é cheio de reviravoltas, e tudo se resolve com a ajuda de outra menina linda chamada Satoko. Depois de “Hakoiri”, o livro conta com duas histórias curtas: “Paixão do Jovem Lobo”, sobre um jovem sedutor e mentiroso, e “Anormal”, uma história sobre um professor que seduz duas alunas adolescentes. Mesmo com todo o erotismo, a primeira é na linha de “menina rica apaixonada por um rapaz pobre”, tão comum em folhetins. “Paixão do Jovem Lobo” é disparada a mais interessante, uma história original e que parece ter uma reviravolta a cada página. Já “Anormal” é uma espécie de glorificação do assédio, extremamente desconfortável, para dizer o mínimo. Ainda me atrapalho com a linguagem rápida e meio caótica dos mangás, mas é um mundo fascinante, sem dúvida. E o traço de Cuvie é lindo.
Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini.
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