Literatura americana

A beleza oculta sob a fama de mau de Henry Chinaski
Literatura
A beleza oculta sob a fama de mau de Henry Chinaski
30 de agosto de 2026 at 01:06 0
Eu era adolescente quando li pela primeira vez Cartas na Rua, de Charles Bukowski (L&PM, 176 páginas, traduzido por Pedro Gonzaga, ano de publicação original: 1971), recomendado pela revista Veja. Não era o tipo de leitura a que eu estava acostumado – em sua maioria, livros clássicos recomendados pela Enciclopédia Abril —, mas mesmo assim gostei bastante. O fato de ele contar histórias totalmente diferentes da minha realidade não me atrapalhava em nada; eu achava a escrita do autor americano divertida e carismática. Resolvi reler Cartas na Rua, o primeiro romance escrito por Bukowski (1920-1994), escritor e poeta americano nascido na Alemanha, e, confesso, o prazer foi até maior do que na primeira leitura. Basicamente autobiográfico, o livro conta a história do alter ego do autor, Henry Chinaski: um sujeito que bebe em quantidades industriais, tem vários casos com diferentes mulheres – a maioria pobres como ele, embora uma fosse uma rica herdeira com apetite sexual insaciável —, trabalha num verdadeiro subemprego nos Correios e passa longas épocas apostando em corridas de cavalos.
Além da sua escrita absolutamente envolvente, outra qualidade do livro é que o narrador nunca é autoindulgente, nunca coloca a culpa nos outros pelos seus problemas e só tem má vontade com quem lhe é superior hierarquicamente e sem caráter. Em vários momentos da narrativa, inclusive, ele se mostra solidário e afetuoso com seus colegas de trabalho – mas é preciso prestar muita atenção para perceber isso, porque Henry Chinaski tem que manter a fama de mau, né?
Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Livros que minha mãe amava: 9. “Pastoral Americana”, de Philip Roth
Literatura
Livros que minha mãe amava: 9. “Pastoral Americana”, de Philip Roth
15 de junho de 2025 at 14:38 0
No final dos anos 1990, minha mãe comentou que seus dois escritores preferidos, Philip Roth e John Updike, haviam escrito espécies de épicos sobre a vida americana: “Pastoral Americana” (Planeta DeAgostini, 480 páginas, tradução de Rubens Figueiredo) e “Na Beleza dos Lírios”, respectivamente. Já na época, era impressionante como dois grandes nomes da literatura publicaram obras tão ambiciosas no mesmo ano, 1997. Minha mãe gostou mais de “Pastoral Americana”, de Philip Roth; eu, de “Na Beleza dos Lírios”. Para mim, o livro de John Updike era mais suave, otimista, e trazia um espaço para a fé em Deus – eu estava me convertendo, aos poucos, na época. Já a obra de Philip Roth era grosseira, pessimista, amarga. Eu não gostava do autor naquele tempo, e minha mãe sempre insistia para que eu lesse os livros dele. Eu reconhecia que eram tão bem escritos que acabava por lê-los rapidamente, mas achava os temas muito grosseiros (hoje, até acho meio engraçado comentar sobre isso, mas é quase certo que ele não recebeu o Prêmio Nobel por sua crueza excessiva). De lá para cá, virei fã incondicional de Philip Roth e resolvi reler recentemente “Pastoral Americana” numa edição que minha mãe comprou bem depois de nós dois termos lido as duas obras-primas lançadas originalmente em 1997. Que choque! O livro conta a história de Seymour "Sueco" Levov, um homem que personifica o "sonho americano" em sua versão mais idealizada – atleta de sucesso, empresário e pai de família. No entanto, sua vida é violentamente desestabilizada quando sua filha se radicaliza politicamente durante a Guerra do Vietnã e comete um ato terrorista. Judeu, o "Sueco" tenta se adaptar a tudo e a todos: à vida americana e a seus costumes, a seu pai dominador e inflexível, à sua filha perturbada e agressiva, e à sua mulher linda (ex-miss Newark), católica e de comportamento dissimulado. Ele parece, no início do livro, um sujeito alienado e feliz. Quanta ilusão! Com quase 500 páginas, o livro é um profundo mergulho nos Estados Unidos dos anos 1950 em diante. Um aspecto importante da obra é a desindustrialização, que começou a se acentuar no final dos anos 1960. As fábricas começavam a fechar ou a se mudar para outros lugares em busca de mão de obra mais barata e menos regulamentada. Isso levou ao declínio das cidades industriais como Newark (em Nova Jersey), à perda de empregos e à erosão do senso de comunidade e propósito para muitos trabalhadores. A desindustrialização, para Roth, não é apenas um fenômeno econômico, mas um processo que desmantela a estrutura social e moral de uma nação. A perda da base industrial, que sustentava uma certa ordem e um conjunto de valores, abriu espaço para as ambiguidades e a "fúria" de passeatas e protestos que levaram à desilusão geral do "sonho americano". É fato conhecido que Donald Trump se elegeu em 2016  e em 2024 com os votos dos estados do chamado "Cinturão da Ferrugem" (Rust Belt) – como Pensilvânia, Ohio, Michigan, Wisconsin e partes de Nova York e Illinois – onde uma enorme quantidade de trabalhadores sofreu os terríveis efeitos da desindustrialização americana. Nos trechos em que Philip Roth descrevia com a crueza e o detalhismo de sempre os efeitos da fuga de empregos industriais na cidade de Newark, no estado de Nova Jersey, eu só conseguia pensar comigo: a eleição de Trump começou aqui! Pretendo reler “Na Beleza dos Lírios”, mas, mesmo antes de relê-lo, posso afirmar sem nenhuma dúvida de que minha mãe estava certa e que “Pastoral Americana” é o melhor dos dois grandes romances. *** Foto que acompanha o texto obtida no site da revista New Yorker. *** Se você estiver interessado em ler este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu email.
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