Análise Literária

Olhando de perto o desejo: Uma crítica de Delta De Vênus, de Anaïs Nin
Literatura
Olhando de perto o desejo: Uma crítica de Delta De Vênus, de Anaïs Nin
5 de julho de 2026 at 15:21 0
A primeira vez que li “Delta de Vênus”, de Anaïs Nin (L&PM, 304 páginas, traduzido por Lúcia Brito, ano de publicação original: 1977) eu não gostei muito. A autora, nascida em na França em 1903 e falecida em Los Angeles, Estados Unidos, em 1977, tinha autorizado a publicação dos contos eróticos que fazem parte do livro e que tinham sido escritos muito antes, no início dos anos 1940, para um cliente rico que queria ler histórias de cunho sexual explícito. Amante do grande escritor Henry Miller, Anaïs Nin usava tanto histórias pessoais quanto dos amigos próximos para escrever os contos. Três coisas me desagradaram sobremaneira na primeira leitura: a maneira como os personagens entram nas histórias sem nenhuma apresentação: lá pelas tantas, um nome (Pierre, por exemplo) aparece como se o leitor soubesse quem ele é; muitas vezes temas terríveis como pedofilia, estupro e necrofilia aparecem sem nenhum julgamento moral; muitos temas complexos – mulheres com desejos masculinos, homens frágeis psicologicamente – são descritos com uma mão pesada, com a autora descrevendo o comportamento dos personagens sem deixar nenhum espaço para o leitor chegar a uma conclusão por si só. Nesta releitura, esta frieza da descrição me agradou bem mais: Anaïs Nin não julga ninguém, e não demonstra nenhuma simpatia por quem quer que seja, sejam homens ou mulheres – por mais que ela tenha sido avançada, em termos sociológicos, por escrever sobre assuntos tão pesados há tanto tempo, é até interessante que sua visão do sexo não tem absolutamente nada de feminista: em seus contos, homens e mulheres têm suas vidas totalmente chacoalhadas por pulsões sexuais violentas, e ela se coloca na posição de quem não está ali para julgar. *** Imagem obtida no Google Gemini.
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O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
Literatura
O Leitor Descuidado – Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles
5 de maio de 2026 at 16:13 0
Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que não tinha a menor condição de entender – os três principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, já reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles até o final da minha vida. Não importa muito, na verdade. O engraçado nesta história é que eu tinha certeza de que tinha amado, mas não lembrava de quase nada de Passeio ao Farol, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 páginas, traduzido por Lya Luft, ano de publicação original: 1927). Eu sei lá, eu achava que era um romance melancólico e bonito sobre um relacionamento amoroso próximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra. Mas não era bem assim: o livro conta a história do casal Ramsay — um filósofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa belíssima —, que passa o verão em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Escócia. Com eles, estão seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como satélites: um estudante acadêmico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matemático, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado é um dos fios condutores da primeira parte. No mínimo, é um livro de difícil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens são descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem está pensando sobre o quê e quem. A passagem do tempo é contada de maneira genial: o livro é dividido em três partes, sendo que a primeira e a última focam em dias específicos, separadas por um intervalo de dez anos que é narrado de forma acelerada e poética na parte central. O tom geral é muito melancólico e os personagens normalmente têm frustrações enormes e reprimidas – nada a ver com a lembrança que eu tinha, de uma história romântica e de beleza natural. Mas Passeio ao Farol é uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos são os detalhes que eu gostaria de rever por outro ângulo. Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que também brincam com a linguagem e a técnica literária, mas que eu nunca havia lido antes: a edição em espanhol Boquitas pintadas, de Manuel Puig (Booket, 224 páginas, ano de publicação original: 1969) e As meninas, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 páginas, ano de publicação original: 1973). Se “Passeio ao Farol” se concentra em análises de personagens cultos e reprimidos, “Boquitas pintadas” é um melodrama rasgado, contando a história do galã da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem belíssimo, mas tuberculoso. Um bom número de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante é o de uma empregada doméstica, “La Raba”, que se apaixona por um operário da construção que se torna policial, Pancho (amigo do galã supracitado). Cada capítulo é uma “entrega”, uma espécie de baú com diferentes documentos cada um: cartas, relatórios de polícia, diálogos, fofocas. A leitura de “Boquitas Pintadas” é frequentemente difícil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem “apresentados”, e pelos muitos diálogos cujos participantes nem sempre são nomeados de imediato. Mas é uma leitura divertida e autoirônica. Finalmente, “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, narra a história de três estudantes universitárias que vivem em um pensionato em São Paulo. Lorena é rica, apaixonada por um homem casado e costuma apoiar as amigas, especialmente Lia, uma jovem de origem humilde e militante da luta armada. Já Ana Clara é uma jovem belíssima, que enfrenta crises existenciais e problemas com drogas. Recomendo a todos que pretendem ler “As Meninas” que se informem sobre essas três personagens antes de começar! O romance é construído em primeira e terceira pessoas, e as transições entre os fluxos de pensamento de cada uma nunca são explícitas — é pelo estilo e pelo tipo de ideia que descobrimos quem está com a voz. Mas não se preocupem: depois de pegar o jeito, a leitura de “As Meninas” flui maravilhosamente.   Imagem obtida no Gemini Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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