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O livro que minha mãe carregou – Sobre o hábito da leitura, a memória que falha e os rastros que deixamos nas páginas dos livros.
Impressões, Literatura
O livro que minha mãe carregou – Sobre o hábito da leitura, a memória que falha e os rastros que deixamos nas páginas dos livros.
8 de novembro de 2026 at 00:33 0
Um dos motivos que fazem com que eu escreva sobre os livros que leio é para não me esquecer se li ou não determinada obra – uma preocupação pertinente para alguém como eu, que lê muito desde criança. Minha mãe era uma leitora ainda mais voraz que eu, e frequentemente esquecia se tinha ou não lido determinada obra. No caso de “Amor sem fim”, romance do escritor inglês Ian McEwan (Companhia das Letras, traduzido por Jorio Dauster, lançado originalmente em 1997, 296 páginas) aconteceu uma coisa rara: eu achava que tinha lido o livro, mas não tinha certeza. O que aconteceu foi o seguinte: certo de que o romance era espetacular, como todos os do autor que li, dei de presente para a minha mãe sem nem saber sobre o que se tratava. Ainda mais com este nome, “Amor sem fim”, devia ser lindo e romântico. Não sei se a minha mãe leu, mas a edição que eu tenho ela certamente carregou por muito tempo, porque tem uma foto com dedicatória que ela tirou, um origami que ela fez, e um santinho de Nossa Senhora Aparecida. De todo modo, nunca conversamos sobre o livro. “Amor sem fim” começa com um acidente: o personagem que narra em primeira pessoa o romance, Joe Rose, físico e jornalista de divulgação científica, está com sua companheira, Clarissa Mellon, uma acadêmica especialista em Keats, num piquenique no campo. Lá eles ouvem gritos e Joe e outras pessoas vão ver o que estava acontecendo: um menino estava num balão, e era difícil controlar o aparelho, porque o vento estava muito forte. Ali acontece uma tragédia, quando uma das pessoas que tentava segurar o balão fica pendurado nele e acaba caindo. Isto acontece logo no início do romance. Poucos dias depois da tragédia, Jed Parry, que também tentou segurar o balão, procura Joe. O sujeito se convence de que Joe compartilha de um amor divino e recíproco com ele, dando início a uma perseguição obsessiva, cartas perturbadoras e ameaças veladas que destroem a sanidade e a segurança de Joe, enquanto as pessoas ao seu redor começam a duvidar de sua versão dos fatos. O “amor sem fim”, portanto, é um título sarcástico neste romance perturbador – e espetacular, como todos os de Ian McEwan - que nada tem de romântico. Sei lá se minha mãe gostou – se leu, provavelmente sim, porque afinal de contas ela tinha bom gosto e, ao contrário de mim, não se deixava iludir por títulos irônicos. *** Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
História
O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
18 de outubro de 2026 at 04:47 0
Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que - pelo menos no caso de Lagerfeld - eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983.
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“Degenerado”, de Chloé Cruchaudet
Literatura
“Degenerado”, de Chloé Cruchaudet
29 de agosto de 2026 at 15:40 0
O casal Paul e Louise Grappe se conhece em 1910, e em 1914 eclode a Grande Guerra — como era chamada na época a Primeira Guerra Mundial —, levando Paul para o front. Lá, apavorado com o horror dos combates, ele chega a decepar um dedo para tentar conseguir dispensa médica, mas a farsa é descoberta pelos seus superiores. Desesperado, Paul deserta e volta para casa, sendo acolhido por Louise. Para não ser preso e condenado à morte, ele passa a se vestir com roupas femininas e assume a identidade de Suzanne, sem deixar de viver o casamento com a esposa. Louise sustenta a casa com dificuldade, trabalhando como costureira, e Suzanne começa a ajudá-la na fábrica. Acontece que Paul/Suzanne logo se cansa da rotina de trabalho e passa boa parte do tempo em um bosque de Paris, entregando-se a encontros sexuais com homens e mulheres que compartilham da mesma busca por prazer. A partir daí, a história toma rumos surpreendentes que valem a leitura sem spoilers. Esta é a trama de “Degenerado”, de Chloé Cruchaudet (Nemo, 160 páginas, tradução de Fernando Scheibe, lançamento original: 2013), uma HQ impressionante em todos os sentidos. O traço em tons de sépia e carvão é expressivo e marcante; a narrativa tem um ritmo impecável; e, mesmo sendo inspirada em fatos reais, os personagens ganham uma profundidade psicológica formidável. O livro faz jus a todo o sucesso que alcançou, incluindo o Prêmio do Público no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême em 2014.
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Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
Ciência, Obra Literária
Quando o Cérebro Reescreve o Mundo
16 de agosto de 2026 at 01:32 0
Em janeiro de 1999, o Dr. Oliver Sacks recebeu a seguinte carta:
“Meu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, é: não consigo ler. Não consigo ler música nem qualquer outra coisa. No consultório do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optométrica até a última linha. Mas não sou capaz de ler palavras, e para ler música tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso há anos, procurei os melhores médicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta.”
A autora da carta, Lilian Kallir, era uma pianista profissional que simplesmente não conseguia mais ler, fossem letras ou partituras. Continuou se apresentando com as músicas que sabia de cor. Já Patricia H. era a dona de uma galeria de arte que perdeu a capacidade de se comunicar com palavras depois de um acidente vascular cerebral:
“Pat (...) reconhecia as filhas, tinha noção de seu problema e de onde ela estava. Tinha seus apetites e desejos, sua personalidade, mas estava paralisada do lado direito e, o que era mais grave, não conseguia mais expressar seus pensamentos e sentimentos em palavras. Podia apenas olhar e fazer mímica, apontar ou gesticular. Sua compreensão da fala também estava muito prejudicada. Em resumo: estava afásica. ‘Afasia’ significa etimologicamente perda da fala, mas não é a fala propriamente dita que se perde, e sim a linguagem: sua expressão ou sua compreensão, total ou parcialmente.”
Já em janeiro de 2002, o Dr. Oliver Sacks recebeu uma carta de Howard Engel, escritor canadense conhecido pela série de histórias do detetive Benny Cooperman, em que descrevia um estranho problema. Contou que alguns meses antes acordou certa manhã sentindo-se bem, vestiu-se, preparou o desjejum e foi até a varanda pegar o jornal. Mas o jornal ao pé da porta parecia ter sofrido uma transformação impressionante:
“O Globe and Mail de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composição, nas ilustrações, nos cabeçalhos e nas legendas menores. A única diferença era que eu não conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto inglês com as quais eu estava habituado. Só que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cirílico, ora coreano. Seria uma versão servo-croata do meu jornal, feita para exportação? (...) ‘Já que não é alguém fazendo uma brincadeira, só posso ter sofrido um derrame’.”
O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurológicos:
“Desde que me conheço por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. Quando criança não me preocupava muito com isso, mas na adolescência, em um colégio novo, sofri muitos constrangimentos. Minha frequente incapacidade de reconhecer os colegas deixava-os pasmos, às vezes indignados. Não lhes ocorria (e por que deveria?) que eu tinha uma deficiência perceptual.”
O caso de Oliver Sacks nem era tão grave comparado com o de um engenheiro de mina de carvão galesa, que passou a ter os seguintes sintomas depois de um derrame:
“Não consigo reconhecer pessoas em fotografias, nem a mim mesmo. No clube, vi um estranho me encarando e perguntei a um funcionário quem era. Você vai rir de mim: era eu mesmo, olhando no espelho. [...] Tempos depois fui a Londres e estive em vários cinemas e teatros. Não entendi coisa alguma dos enredos. Nunca sabia quem era quem. [...] Comprei alguns exemplares [das revistas] Men Only e London Opinion. Não pude apreciar as fotografias, como antes. Eu era capaz de decifrar os assuntos pelos detalhes, mas assim não tinha graça. É preciso entender tudo de relance.”
Os trechos acima foram retirados de O Olhar da Mente, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 264 páginas, traduzido por Laura Teixeira Motta, ano de publicação original: 2010), livro do famoso médico e neurologista britânico que se popularizou contando casos clínicos de seus pacientes. Outros assuntos englobados no livro são a falta de visão estereoscópica (visão que permite ao cérebro enxergar em três dimensões) e como o cérebro de uma pessoa cega “vê”, mentalmente, objetos e ambientes reais. O meu interesse maior na leitura deste livro foi a pesquisa para o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, que trata de um programador de computadores que perde a visão. Mas, a princípio, a leitura não me ajudou muito: tanto cegos de nascença quanto aqueles que perderam a visão ao longo da vida imaginam o mundo de maneiras muito distintas. Existem desde aqueles que não conseguem “ver mentalmente” nada — com o cérebro basicamente processando apenas a linguagem —, até aqueles que “enxergam” com enorme precisão objetos, proporções, pessoas e cores. Mas, pensando bem, o livro até que me ajudou bastante: meu personagem pode estar em qualquer ponto entre esses dois extremos!
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Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
Impressões
Entre a inocência e o excesso: Minha leitura de Hakoiri
1 de agosto de 2026 at 10:53 0
Tinha comentado aqui sobre “Mulheres e seus desejos”, o primeiro mangá erótico que li. O próximo da lista foi “Hakoiri”, de uma autora chamada Cuvie (Nova Sampa, 180 páginas, traduzido por Rafael Sanzio, publicado originalmente em 2007, volume único). O livro é formado por três histórias. A primeira, “Hakoiri”, é a mais longa e conta a história de Shion, uma rica e linda herdeira que se apaixona por um pobretão chamado Kouichi. O avô dela, milionário, faz de tudo para impedir o relacionamento dos dois — inclusive tentar casar Shion com outro herdeiro ricaço. “Hakoiri” é cheio de reviravoltas, e tudo se resolve com a ajuda de outra menina linda chamada Satoko. Depois de “Hakoiri”, o livro conta com duas histórias curtas: “Paixão do Jovem Lobo”, sobre um jovem sedutor e mentiroso, e “Anormal”, uma história sobre um professor que seduz duas alunas adolescentes. Mesmo com todo o erotismo, a primeira é na linha de “menina rica apaixonada por um rapaz pobre”, tão comum em folhetins. “Paixão do Jovem Lobo” é disparada a mais interessante, uma história original e que parece ter uma reviravolta a cada página. Já “Anormal” é uma espécie de glorificação do assédio, extremamente desconfortável, para dizer o mínimo. Ainda me atrapalho com a linguagem rápida e meio caótica dos mangás, mas é um mundo fascinante, sem dúvida. E o traço de Cuvie é lindo.
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