“Meu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, é: não consigo ler. Não consigo ler música nem qualquer outra coisa. No consultório do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optométrica até a última linha. Mas não sou capaz de ler palavras, e para ler música tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso há anos, procurei os melhores médicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta.”A autora da carta, Lilian Kallir, era uma pianista profissional que simplesmente não conseguia mais ler, fossem letras ou partituras. Continuou se apresentando com as músicas que sabia de cor. Já Patricia H. era a dona de uma galeria de arte que perdeu a capacidade de se comunicar com palavras depois de um acidente vascular cerebral:
“Pat (...) reconhecia as filhas, tinha noção de seu problema e de onde ela estava. Tinha seus apetites e desejos, sua personalidade, mas estava paralisada do lado direito e, o que era mais grave, não conseguia mais expressar seus pensamentos e sentimentos em palavras. Podia apenas olhar e fazer mímica, apontar ou gesticular. Sua compreensão da fala também estava muito prejudicada. Em resumo: estava afásica. ‘Afasia’ significa etimologicamente perda da fala, mas não é a fala propriamente dita que se perde, e sim a linguagem: sua expressão ou sua compreensão, total ou parcialmente.”Já em janeiro de 2002, o Dr. Oliver Sacks recebeu uma carta de Howard Engel, escritor canadense conhecido pela série de histórias do detetive Benny Cooperman, em que descrevia um estranho problema. Contou que alguns meses antes acordou certa manhã sentindo-se bem, vestiu-se, preparou o desjejum e foi até a varanda pegar o jornal. Mas o jornal ao pé da porta parecia ter sofrido uma transformação impressionante:
“O Globe and Mail de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composição, nas ilustrações, nos cabeçalhos e nas legendas menores. A única diferença era que eu não conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto inglês com as quais eu estava habituado. Só que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cirílico, ora coreano. Seria uma versão servo-croata do meu jornal, feita para exportação? (...) ‘Já que não é alguém fazendo uma brincadeira, só posso ter sofrido um derrame’.”O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurológicos:
“Desde que me conheço por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. Quando criança não me preocupava muito com isso, mas na adolescência, em um colégio novo, sofri muitos constrangimentos. Minha frequente incapacidade de reconhecer os colegas deixava-os pasmos, às vezes indignados. Não lhes ocorria (e por que deveria?) que eu tinha uma deficiência perceptual.”O caso de Oliver Sacks nem era tão grave comparado com o de um engenheiro de mina de carvão galesa, que passou a ter os seguintes sintomas depois de um derrame:
“Não consigo reconhecer pessoas em fotografias, nem a mim mesmo. No clube, vi um estranho me encarando e perguntei a um funcionário quem era. Você vai rir de mim: era eu mesmo, olhando no espelho. [...] Tempos depois fui a Londres e estive em vários cinemas e teatros. Não entendi coisa alguma dos enredos. Nunca sabia quem era quem. [...] Comprei alguns exemplares [das revistas] Men Only e London Opinion. Não pude apreciar as fotografias, como antes. Eu era capaz de decifrar os assuntos pelos detalhes, mas assim não tinha graça. É preciso entender tudo de relance.”Os trechos acima foram retirados de O Olhar da Mente, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 264 páginas, traduzido por Laura Teixeira Motta, ano de publicação original: 2010), livro do famoso médico e neurologista britânico que se popularizou contando casos clínicos de seus pacientes. Outros assuntos englobados no livro são a falta de visão estereoscópica (visão que permite ao cérebro enxergar em três dimensões) e como o cérebro de uma pessoa cega “vê”, mentalmente, objetos e ambientes reais. O meu interesse maior na leitura deste livro foi a pesquisa para o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, que trata de um programador de computadores que perde a visão. Mas, a princípio, a leitura não me ajudou muito: tanto cegos de nascença quanto aqueles que perderam a visão ao longo da vida imaginam o mundo de maneiras muito distintas. Existem desde aqueles que não conseguem “ver mentalmente” nada — com o cérebro basicamente processando apenas a linguagem —, até aqueles que “enxergam” com enorme precisão objetos, proporções, pessoas e cores. Mas, pensando bem, o livro até que me ajudou bastante: meu personagem pode estar em qualquer ponto entre esses dois extremos!
Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.


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