junho 2026

“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
Cinema
“Obsessão” (2026): O romance que se transforma em um banho de sangue
24 de junho de 2026 at 10:22 0
Hoje em dia eu praticamente só assisto a filmes noir (americanos e franceses) e de terror, já devo ter comentado aqui. Os noir eu vou assistindo os que vêm nos ótimos DVDs da Versátil, e os de terror simplesmente escolho alguma coisa que me chama a atenção nos streamings (não sei por que o Prime Video e a Netflix me indicam filmes de terror assim que eu entro nas plataformas!). Depois de praticamente uma vida inteira assistindo só a filmes “recomendados”, normalmente pela crítica, gosto muito da sensação de cair num filme sem nem saber do que se trata. Com Obsessão (2026), dirigido por Curry Baker, a coisa mudou um pouco. Vi na página inicial do UOL comentários superlativos sobre o filme, gostei das fotos de divulgação (como a imagem que acompanha este texto) e acabei ficando obcecado de vontade de assistir — péssima piada, eu sei. Assisti no cinema, e realmente ele merece o sucesso que faz. Com orçamento baixíssimo, já é um dos filmes de terror de maior sucesso de todos os tempos, segundo dados do site AdoroCinema. A cena inicial é excelente: Bear (Michael Johnston), um rapaz tímido, treina a declaração que quer fazer para a amiga Nikki (Inde Navarrette), por quem é apaixonado há muito tempo. Esta paixão é o combustível para o início do filme — e, até aqui, parece que estamos assistindo a uma Sessão da Tarde. Mas ele acaba conseguindo que a garota se apaixone por ele, e a relação logo se transforma em um pesadelo violento e sobrenatural conforme o amor dela se torna uma obsessão assustadora e destrutiva. São muitas as qualidades da produção: a maneira como a história se desenrola, os sustos e a tensão permanente. Mas acho que o filme não teria o impacto que teve se não fosse o casal de protagonistas, vivido por Michael Johnston e, principalmente, pela extraordinária Inde Navarrette, assustadora de verdade como Nikki. É um prato cheio para fãs do estilo — mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e não se assustam muito com eles.
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Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
Literatura, Música
Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
21 de junho de 2026 at 04:41 0
Leitor da Revista Bizz, eu já tinha ouvido falar daquele que é considerado o maior crítico da história do rock, mas muito por cima. Conhecia o nome dele, sabia da fama, mas não muito mais que isso. Minha curiosidade sobre ele só surgiu mesmo com a excelente faixa “Lester Bangs”, do mais recente álbum de Morrissey, Make Up Is a Lie. É uma letra extraordinária, em que Morrissey mostra como era a caótica vida de Lester Bangs (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque elas pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias”), ao mesmo tempo que mostra como suas críticas tinham uma qualidade fora do comum: “Mas quando você levanta a caneta / Para escrever sobre [as bandas] Roxy Music e os [New York] Dolls / A [revista] Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”. Morrissey quer saber, enfim: “Como é ser você, Lester Bangs?”. Também fiquei curioso sobre este crítico lendário – vivido pelo grande Philip Seymour Hoffman num papel coadjuvante no filme Quase Famosos, de Cameron Crowe, de 2000. Li recentemente Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic, de Jim DeRogatis (Crown Publishing Group NY, 352 páginas, lançado originalmente em 2000, pegando carona no mesmo ano de lançamento do filme). A tradução do título é algo como “Deixe Sair: a vida e a época de Lester Bangs, o maior crítico de rock da América”, e Let It Blurt é a principal composição do crítico, que também era músico. Nascido em 1948 em Escondido, Califórnia, e falecido em 1982, em Nova York, Lester Bangs cresceu em um lar disfuncional. Seu pai, Conway Leslie Bangs, era um motorista de caminhão com um histórico de vida bastante conturbado e passagens pela prisão. Quando Lester ainda era muito pequeno, os seus pais se separaram e, quando o menino tinha cerca de nove anos, Conway faleceu tragicamente num incêndio. A mãe de Lester, Norma Belle, era uma Testemunha de Jeová bastante rigorosa, e tanto a morte do pai quanto a religiosidade da mãe marcaram profundamente toda a vida do crítico. Conhecido, entre outras coisas, pelo estilo passional e exuberante de suas críticas, e por ter criado e/ou popularizado os termos “punk” e “heavy metal”, Lester Bangs era alcoólatra, usuário pesado de drogas e, ironicamente, estava praticamente longe dos vícios quando morreu por overdose acidental de Darvon, um opioide. Ele era promíscuo sexualmente, mas sempre pareceu a todas as garotas com quem se relacionou como alguém profundamente romântico, e que nunca conseguiu se estabilizar emocionalmente. Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic não entra com grandes detalhes nos motivos que fazem com que sua obra ainda seja reconhecida como a melhor entre os críticos de rock, mas mostra como foram os acontecimentos e os hábitos de Lester Bangs. Assim, ficamos sabendo os detalhes do que Morrissey resumiu tão bem em sua letra: “A três mil milhas de distância, / este nerd se agarra à sua palavra. / Eu me apoio em você, e você é o apoio que depositam em mi. / Quando toda a minha vida estava tão errada, / drogas e livros de Allen Ginsberg, / todo dia é igual. / Lester, envolto em uma bandeira americana, / assiste ao jogo de futebol americano / Depois, Lester, solto no tapete, / tomado pela dor das 4 da manhã.”
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A Anatomia do Sexo em Amadora
Literatura
A Anatomia do Sexo em Amadora
16 de junho de 2026 at 17:39 0
A contracapa declara que “se você pensava que Anaïs Nin, Henry Miller e Charles Bukowski haviam esgotado todas as maneiras de narrar como homens e mulheres se entregam sem censura ao amor, precisa conhecer Ana Ferreira. Perto dela, Anaïs Nin era uma freira; Henry Miller, um frade; e Charles Bukowski, um sacristão. Amadoras revela o que muitas mulheres queriam falar. E o que muitos homens querem ouvir.” Dá mesmo para perceber a influência de Anaïs Nin e Charles Bukowski em Amadora, de Ana Ferreira (Geração Editorial, 150 páginas, ano de publicação original: 2001), já que o livro é uma série de histórias eróticas diferentes. A narradora, Angela, faz sexo por anos com um namorado em um circo, tem um relacionamento lésbico com uma cantora de sucesso, tem casos rápidos aqui e ali, transa por pena e se apaixona loucamente por um sujeito chamado Luiz. Ela narra bem as cenas sexuais e consegue chamar a atenção com sua personalidade, mas Ana Ferreira não tem a verve de Charles Bukowski nem a precisão cirúrgica de Anaïs Nin ao falar de sexo.
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A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
Literatura
A Perfeição Ficcional e o Peso da Memória em “Vida Querida”, de Alice Munro
13 de junho de 2026 at 23:20 0
Em seus muitos contos, a canadense Alice Munro (1931-2024), Prêmio Nobel de Literatura de 2013, saudada como “mestre do conto contemporâneo”, escreveu sobre casais em crise, relacionamentos extraconjugais, histórias mal contadas e segredos de família. É uma autora que frequentemente focou suas narrativas em núcleos familiares ou de pessoas próximas, sempre num tom intimista. Embora alguns acontecimentos históricos — como a Segunda Guerra ou a liberação sexual dos anos 1960 — tenham sua importância em certos contos, normalmente eles são apenas pano de fundo para o que está sendo narrado. As histórias de Alice Munro normalmente se passam no Canadá, mas poderiam se passar em São Paulo. Li recentemente “Vida querida” (Companhia das Letras, 320 páginas, traduzido por Caetano W. Galindo, ano de publicação original: 2012), que é o último livro que ela escreveu. Gostei muito de contos como o angustiante “Amundsen”, o trágico “Cascalho”, e de narrativas quase contemplativas e que cobrem longos períodos temporais, como “Orgulho” e “Trem”. Mas o meu preferido mesmo foi “Corrie”, que fala sobre uma mulher rica e independente que mantém um caso secreto de anos com um homem casado: o arranjo parece perfeito, até que uma revelação mostra que o relacionamento era baseado em uma mentira muito profunda. Os últimos quatro contos do livro — “O Olho”, “Noite”, “Vozes” e “Vida Querida” — trazem, segundo a própria autora, histórias biográficas contadas pela primeira vez. Apesar do interesse natural que os fãs — entre os quais me incluo — tenham em saber mais sobre a vida de Alice Munro, não tem como não achar que, literariamente, essas histórias são um pouco inferiores ao normal da autora, que recebeu o único Prêmio Nobel, até hoje, dado a alguém especialista em contos. A verdade é que as histórias de Alice Munro são quase sempre literariamente espetaculares e perfeitamente acabadas, enquanto os últimos contos de “Vida querida” parecem apenas um ajuste de contas da escritora com sua mãe.
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“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
Literatura
“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
3 de junho de 2026 at 14:25 0

Eu confesso que não tinha lido inteiro “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Record, 448 páginas, lançamento original: 2023), quando o coloquei na minha lista de livros preferidos mais recente. Mas não é assim tão difícil de saber por quê: como eu mesmo comentei naquele texto, “se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?”. Então não precisava lê-lo inteiro para colocá-lo em uma lista de livros preferidos. Além de ser muito mais longo que suas demais obras, a “Antologia Pessoal” dá um panorama bastante completo da obra do maior escritor já nascido no Estado do Paraná. Seria o livro dele que eu levaria se tivesse que ir para uma ilha deserta.

Ao mesmo tempo, é um livro um tanto estranho para os fãs. Nas primeiras obras, como “Cemitério de Elefantes” (1964) e “Novelas Nada Exemplares” (1959), ele ainda exibia certa distensão narrativa; já em suas obras mais recentes, como “Ah, É?” (1994), “Pico na Veia” (2002) e “99 Corruíras Nanicas” (2002), ele foi ficando mais e mais telegráfico, com contos cada vez menores. É meio estranho ver exemplares de todas estas fases juntas num livro só, já que seus lançamentos originais sempre tinham uma certa uniformidade temática e na dimensão dos contos. Mesmo em coletâneas como “Contos Eróticos” (1984) ou “A Guerra Conjugal” (1975), esta uniformidade aparecia — o que não acontece em “Antologia Pessoal”.
Outra coisa que chama a atenção é que, ao mesmo tempo que Dalton Trevisan odeia a modernidade de Curitiba – em contos nostálgico-críticos como “Em Busca da Curitiba Perdida”, “Minha Cidade” e “Que Fim Levou o Vampiro de Curitiba?” –, em seus contos mais recentes ele mostra seus personagens convivendo com problemas modernos, como roubos de celulares e vício em crack.
Dalton podia reclamar, como fez no conto “Em Busca da Curitiba Perdida”, do fim dos velhos bondes, do desaparecimento dos pinheirais (”minha terra já não tem pinheiro, o sabiá não canta mais”) e da extinção de figuras clássicas da província — como os imigrantes que vinham em carroças vender produtos da colônia —, mas ele sempre soube que seus personagens – frequentemente da mais extrema pobreza, com vícios, problemas familiares e conjugais – continuam por aqui, na nossa Curitiba, perdidos e desorientados como sempre.
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