Revista Bizz

Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
Literatura, Música
Como é ser você, Lester Bangs? – A mente brilhante por trás dos termos “Punk” e “Heavy Metal”, a infância disfuncional e o romantismo incorrigível do lendário crítico Lester Bangs.
21 de junho de 2026 at 04:41 0
Leitor da Revista Bizz, eu já tinha ouvido falar daquele que é considerado o maior crítico da história do rock, mas muito por cima. Conhecia o nome dele, sabia da fama, mas não muito mais que isso. Minha curiosidade sobre ele só surgiu mesmo com a excelente faixa “Lester Bangs”, do mais recente álbum de Morrissey, Make Up Is a Lie. É uma letra extraordinária, em que Morrissey mostra como era a caótica vida de Lester Bangs (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque elas pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias”), ao mesmo tempo que mostra como suas críticas tinham uma qualidade fora do comum: “Mas quando você levanta a caneta / Para escrever sobre [as bandas] Roxy Music e os [New York] Dolls / A [revista] Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”. Morrissey quer saber, enfim: “Como é ser você, Lester Bangs?”. Também fiquei curioso sobre este crítico lendário – vivido pelo grande Philip Seymour Hoffman num papel coadjuvante no filme Quase Famosos, de Cameron Crowe, de 2000. Li recentemente Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic, de Jim DeRogatis (Crown Publishing Group NY, 352 páginas, lançado originalmente em 2000, pegando carona no mesmo ano de lançamento do filme). A tradução do título é algo como “Deixe Sair: a vida e a época de Lester Bangs, o maior crítico de rock da América”, e Let It Blurt é a principal composição do crítico, que também era músico. Nascido em 1948 em Escondido, Califórnia, e falecido em 1982, em Nova York, Lester Bangs cresceu em um lar disfuncional. Seu pai, Conway Leslie Bangs, era um motorista de caminhão com um histórico de vida bastante conturbado e passagens pela prisão. Quando Lester ainda era muito pequeno, os seus pais se separaram e, quando o menino tinha cerca de nove anos, Conway faleceu tragicamente num incêndio. A mãe de Lester, Norma Belle, era uma Testemunha de Jeová bastante rigorosa, e tanto a morte do pai quanto a religiosidade da mãe marcaram profundamente toda a vida do crítico. Conhecido, entre outras coisas, pelo estilo passional e exuberante de suas críticas, e por ter criado e/ou popularizado os termos “punk” e “heavy metal”, Lester Bangs era alcoólatra, usuário pesado de drogas e, ironicamente, estava praticamente longe dos vícios quando morreu por overdose acidental de Darvon, um opioide. Ele era promíscuo sexualmente, mas sempre pareceu a todas as garotas com quem se relacionou como alguém profundamente romântico, e que nunca conseguiu se estabilizar emocionalmente. Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs, America's Greatest Rock Critic não entra com grandes detalhes nos motivos que fazem com que sua obra ainda seja reconhecida como a melhor entre os críticos de rock, mas mostra como foram os acontecimentos e os hábitos de Lester Bangs. Assim, ficamos sabendo os detalhes do que Morrissey resumiu tão bem em sua letra: “A três mil milhas de distância, / este nerd se agarra à sua palavra. / Eu me apoio em você, e você é o apoio que depositam em mi. / Quando toda a minha vida estava tão errada, / drogas e livros de Allen Ginsberg, / todo dia é igual. / Lester, envolto em uma bandeira americana, / assiste ao jogo de futebol americano / Depois, Lester, solto no tapete, / tomado pela dor das 4 da manhã.”
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O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
Cinema
O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
31 de maio de 2026 at 10:31 0
É engraçado como eu lembro de frases e comentários das revistas Bizz e Veja, e da Enciclopédia Abril, que eu lia na adolescência. Sobre o filme “Tron, uma odisseia eletrônica” - filme americano lançado em 1982, dirigido por Steven Lisberger e com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner nos papéis principais (96 min) -, os comentários eram mais ou menos os seguintes: visualmente deslumbrante, mas com roteiro fraquíssimo. Bem, imaginei que era uma coisa parecida com a imagem que acompanha o texto, em que seres humanos tinham umas roupas eletrônicas colantes cheias de fios e luzes, não me interessei tanto e acabei não assistindo ao filme. Mas, por algum motivo, “Tron: uma odisseia eletrônica” nunca me saiu da cabeça, até que resolvi assistir em um dia desses. Visto hoje, época em que a discussão sobre Inteligência Artificial é tão urgente, o filme, ao contrário do que a Revista Veja comentou na época, não tem um roteiro ruim – mais do que isso, mostrou-se bem adiantado no tempo. Ele conta a história de Kevin Flynn, um programador de computadores que é transportado para dentro do mundo digital de um computador de grande porte (mainframe), onde precisa lutar por sua vida em jogos de gladiadores eletrônicos para derrotar o tirânico Master Control Program, uma IA maligna que domina o ambiente, conhecido como “Grade”. Os ecos de HAL, o computador inteligente de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (filme de 1968 dirigido por Stanley Kubrick), me pareceram bem presentes. As atuações, por outro lado, achei fraquíssimas. Mas não é isso que me impressionou tanto em “Tron: uma odisseia eletrônica”: o filme é, visualmente, deslumbrante. As perseguições de motos virtuais, os ambientes com “lixo computacional”, os voos de espaçonaves eletrônicas têm um visual magnífico, com cores vívidas, e movimentos de imagens de computador que deixam a gente pensando o tempo todo: como eles lançaram esse negócio em 1982? Incrível! O início se passa todo fora do computador, mas quando Kevin Flynn entra no mainframe o que se vê são rostos humanos, distorcidos por filtros normalmente azulados, em roupas e ambientes computacionais belíssimos. E a história, não custa reforçar, não só é atual como é muito bem contada. Uma verdadeira obra-prima! Eu não esperava por essa, certamente.
Imagem que acompanha o texto: Divulgação Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
Música
Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
10 de janeiro de 2026 at 14:20 0
Os astros de rock dos anos 1980 — pelo menos os que eu ouvia — eram sempre impecáveis. As roupas eram bonitas e os cabelos armados com esmero. As cores podiam ser vibrantes ou em xadrez preto e branco, mas tudo era harmonioso. A maioria dos cantores abotoava as camisas até o pescoço, e muita gente imitava o visual do Velvet Underground. A batida era quase sempre seca, a ponto de ser fácil reconhecer o “toque dos anos 80” ao ouvir, hoje, alguma banda daquela época. Até que, em 1989, surgiu uma banda completamente diferente da paisagem da época: o Faith No More. O cantor, Mike Patton, usava bermuda (uma heresia), cabelos compridos (outra heresia) e, o pior de tudo, camisetas que mais pareciam roupas coloridas de criança. A voz não chegava a ser igual à do Pato Donald, mas lembrava um pouco o personagem da Disney. E, como se não bastasse, a banda tinha um instrumentista que usava barba! Quase ninguém no rock usava barba naquela época. Mesmo assim, a crítica — refiro-me à Bizz, a revista que eu lia e decorava — falava bem. Creio que até a Veja entrevistou Mike Patton, mas não tenho certeza. Segundo as descrições, o som era pesado, uma mistura de metal com rap que tinha tudo para me agradar — eu, que cheguei a enviar uma carta para a revista defendendo o primeiro disco dos Beastie Boys (que unia rock e hip hop, mas fora detestado pelos críticos da Bizz). De fato, como esperado, apesar do visual "problemático", amei o disco The Real Thing. Só anos mais tarde descobri que era o terceiro da banda, mas o primeiro com Mike Patton. A faixa-título sempre foi a minha preferida: com variações de ritmo, ora pesado, ora suave, e nuances vocais que alternavam entre o canto e o rap, seus mais de oito minutos me conquistaram de cara. O disco todo, nessa pegada de peso e suavidade, era praticamente perfeito. Inclusive, The Real Thing foi fundamental para o que viria a ser o "Nu Metal" ou "Alternative Metal", estilos que eu gosto muito até hoje. Já do álbum seguinte, Angel Dust (1992), não gostei nem um pouco; achei-o pretensioso e esquisito demais. Mais tarde, tive amigos que amavam a ampla discografia de Patton e suas inúmeras colaborações, mas não gostei de quase nada, exceto por uma coisa ou outra do Fantômas, o supergrupo que ele criou com Buzz Osborne, Trevor Dunn e Dave Lombardo. De tempos em tempos, volto a ouvir muito o The Real Thing, e ultimamente tenho estado em uma dessas fases. Por isso, achei uma boa ideia ressuscitar a série “Quem é vivo sempre aparece”, sobre sons retomados após muito tempo e músicos que eu nunca havia citado no blog. Se escrever este texto me fará dar uma chance ao restante da carreira de Mike Patton? Quem sabe. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida na Amazon.  
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Quem é vivo sempre aparece: 1. Hüsker Dü
Música
Quem é vivo sempre aparece: 1. Hüsker Dü
3 de março de 2024 at 15:35 0
Vendo aqui a relação das coisas que tenho ouvido ultimamente, além dos preferidos de sempre da casa (a pianista Hélène Grimaud, Bones, Elvis Presley, Arctic Monkeys, Bach), percebi que boa parte são músicas que eu já tinha deixado de lado há anos, às vezes décadas, e sobre as quais nunca comentei aqui. Pensei então em criar uma nova série no site sobre estes sons retomados depois de muito tempo, nos moldes daquela sobre os livros que minha mãe amava. Só que o título da série não vinha nunca. “Das profundezas da memória”? “Inéditos no site”? “Deixados de lado, mas nunca esquecidos”? Todos eles me pareceram meio pedantes, meio autoindulgentes. “Quem é vivo sempre aparece”, por outro lado, apesar de ser falso em muitos casos (Lester Young, por exemplo, o próximo da lista, já é falecido), é engraçadinho, com o tipo de humor infame que me agrada sobremaneira. O primeiro da lista desta nova série, a banda americana Hüsker Dü, é um dos mais difíceis de comentar, por um motivo que logo conto. A banda existiu entre 1979 e 1987 e era do estado americano do Minnesota. Segundo o AllMusic, o grupo foi um “trio punk influente de Minneapolis que conciliava habilmente a introspecção barulhenta de Bob Mold com o romantismo pop mordaz de Grant Hart”. Como muita coisa nos anos 1980, comprei os dois álbuns da banda lançados por aqui (“Candy Apple Grey” e “Warehouse: Songs and Stories”, duplo) por influência da revista Bizz, e várias coisas me chamaram a atenção neles. Praticamente todas as músicas eram assinadas e interpretadas ou pelo baterista Grant Hart (falecido em 2017) ou pelo guitarrista Bob Mould - já o baixista Greg Norton, que postava um bigode completamente fora de moda para a época, nem compunha nem cantava. As capas eram lindas e coloridas (é só ver a imagem que acompanha este texto, de “Warehouse: Songs and Stories”, obtida no site da Amazon), e mesmo a foto da banda no encarte, com colunas e flores, era bem diferente do visual do rock da época. Mas o que sempre mais me marcou na banda, e que torna este texto meio difícil de escrever, era sua irregularidade - pelo menos para meus ouvidos: ou as músicas eram absolutamente irritantes, gritadas e apenas barulhentas, ou conseguiam fazer uma síntese maravilhosa entre belíssimas melodias e um punk/hardcore pesado. Ouvindo a banda hoje, infelizmente as músicas irritantes continuam irritantes. A categoria de músicas perfeitas, por outro lado - da qual fazem parte, por exemplo, “Eiffel Tower High” ou “Ice Cold Ice” - me emocionava nos anos 1980, e me emociona igualmente em 2024.  
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Agradecimento a André Forastieri e Rogério de Campos
Música
Agradecimento a André Forastieri e Rogério de Campos
11 de maio de 2015 at 01:27 2
Carta publicada na Revista Bizz, edição 97, de agosto de 1993: Nunca (mas nunca mesmo) me senti tão ofendido com uma matéria da BIZZ quanto com aquela infeliz relação dos "piores de todos os tempos". Afinal o que se pode dizer de uma relação que coloca como "oitavo pior disco" o Meat is Murder, dos Smiths? Foi a brincadeira mais sem graça que já li nesta revista. O pior é que o comentário que acompanha cada disco é impessoal - parece que é a opinião da revista. Vocês, que se consideram tão fodões e corajosos, por que não publicaram a lista de cada crítico? E não me digam que faltou espaço, afinal vocês gastaram dez (dez, meu Deus!) páginas com a mais medíocre e pretensiosa banda do mundo, os Titãs (com direito a conveniente puxada de saco por parte do sr. Carlos Eduardo Miranda). É de chorar. Fabricio Müller Curitiba - Pr Resposta da Revista: Primeiro: não foi a redação da BIZZ que elegeu aquela lista e sim um conjunto de vinte críticos. Segundo: não publicamos a votação pessoal de cada um porque não tinha espaço - e agora é que não vamos publicar mesmo, porque vocês são uns fanáticos sem senso de humor e perigam sair caçando a pau quem detonou os Smiths (como o Rogério, por exemplo).
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