Nostalgia

Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
Música
Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
10 de janeiro de 2026 at 14:20 0
Os astros de rock dos anos 1980 — pelo menos os que eu ouvia — eram sempre impecáveis. As roupas eram bonitas e os cabelos armados com esmero. As cores podiam ser vibrantes ou em xadrez preto e branco, mas tudo era harmonioso. A maioria dos cantores abotoava as camisas até o pescoço, e muita gente imitava o visual do Velvet Underground. A batida era quase sempre seca, a ponto de ser fácil reconhecer o “toque dos anos 80” ao ouvir, hoje, alguma banda daquela época. Até que, em 1989, surgiu uma banda completamente diferente da paisagem da época: o Faith No More. O cantor, Mike Patton, usava bermuda (uma heresia), cabelos compridos (outra heresia) e, o pior de tudo, camisetas que mais pareciam roupas coloridas de criança. A voz não chegava a ser igual à do Pato Donald, mas lembrava um pouco o personagem da Disney. E, como se não bastasse, a banda tinha um instrumentista que usava barba! Quase ninguém no rock usava barba naquela época. Mesmo assim, a crítica — refiro-me à Bizz, a revista que eu lia e decorava — falava bem. Creio que até a Veja entrevistou Mike Patton, mas não tenho certeza. Segundo as descrições, o som era pesado, uma mistura de metal com rap que tinha tudo para me agradar — eu, que cheguei a enviar uma carta para a revista defendendo o primeiro disco dos Beastie Boys (que unia rock e hip hop, mas fora detestado pelos críticos da Bizz). De fato, como esperado, apesar do visual "problemático", amei o disco The Real Thing. Só anos mais tarde descobri que era o terceiro da banda, mas o primeiro com Mike Patton. A faixa-título sempre foi a minha preferida: com variações de ritmo, ora pesado, ora suave, e nuances vocais que alternavam entre o canto e o rap, seus mais de oito minutos me conquistaram de cara. O disco todo, nessa pegada de peso e suavidade, era praticamente perfeito. Inclusive, The Real Thing foi fundamental para o que viria a ser o "Nu Metal" ou "Alternative Metal", estilos que eu gosto muito até hoje. Já do álbum seguinte, Angel Dust (1992), não gostei nem um pouco; achei-o pretensioso e esquisito demais. Mais tarde, tive amigos que amavam a ampla discografia de Patton e suas inúmeras colaborações, mas não gostei de quase nada, exceto por uma coisa ou outra do Fantômas, o supergrupo que ele criou com Buzz Osborne, Trevor Dunn e Dave Lombardo. De tempos em tempos, volto a ouvir muito o The Real Thing, e ultimamente tenho estado em uma dessas fases. Por isso, achei uma boa ideia ressuscitar a série “Quem é vivo sempre aparece”, sobre sons retomados após muito tempo e músicos que eu nunca havia citado no blog. Se escrever este texto me fará dar uma chance ao restante da carreira de Mike Patton? Quem sabe. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida na Amazon.  
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