Nostalgia

O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
Cinema
O Veredito Errado da Adolescência: Como as mídias dos anos 80 me afastaram de TRON — e por que redescobri o filme como uma obra-prima visionária
31 de maio de 2026 at 10:31 0
É engraçado como eu lembro de frases e comentários das revistas Bizz e Veja, e da Enciclopédia Abril, que eu lia na adolescência. Sobre o filme “Tron, uma odisseia eletrônica” - filme americano lançado em 1982, dirigido por Steven Lisberger e com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner nos papéis principais (96 min) -, os comentários eram mais ou menos os seguintes: visualmente deslumbrante, mas com roteiro fraquíssimo. Bem, imaginei que era uma coisa parecida com a imagem que acompanha o texto, em que seres humanos tinham umas roupas eletrônicas colantes cheias de fios e luzes, não me interessei tanto e acabei não assistindo ao filme. Mas, por algum motivo, “Tron: uma odisseia eletrônica” nunca me saiu da cabeça, até que resolvi assistir em um dia desses. Visto hoje, época em que a discussão sobre Inteligência Artificial é tão urgente, o filme, ao contrário do que a Revista Veja comentou na época, não tem um roteiro ruim – mais do que isso, mostrou-se bem adiantado no tempo. Ele conta a história de Kevin Flynn, um programador de computadores que é transportado para dentro do mundo digital de um computador de grande porte (mainframe), onde precisa lutar por sua vida em jogos de gladiadores eletrônicos para derrotar o tirânico Master Control Program, uma IA maligna que domina o ambiente, conhecido como “Grade”. Os ecos de HAL, o computador inteligente de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (filme de 1968 dirigido por Stanley Kubrick), me pareceram bem presentes. As atuações, por outro lado, achei fraquíssimas. Mas não é isso que me impressionou tanto em “Tron: uma odisseia eletrônica”: o filme é, visualmente, deslumbrante. As perseguições de motos virtuais, os ambientes com “lixo computacional”, os voos de espaçonaves eletrônicas têm um visual magnífico, com cores vívidas, e movimentos de imagens de computador que deixam a gente pensando o tempo todo: como eles lançaram esse negócio em 1982? Incrível! O início se passa todo fora do computador, mas quando Kevin Flynn entra no mainframe o que se vê são rostos humanos, distorcidos por filtros normalmente azulados, em roupas e ambientes computacionais belíssimos. E a história, não custa reforçar, não só é atual como é muito bem contada. Uma verdadeira obra-prima! Eu não esperava por essa, certamente.
Imagem que acompanha o texto: Divulgação Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
Música
Quem é vivo sempre aparece: 4.”The Real Thing”, do Faith No Mode
10 de janeiro de 2026 at 14:20 0
Os astros de rock dos anos 1980 — pelo menos os que eu ouvia — eram sempre impecáveis. As roupas eram bonitas e os cabelos armados com esmero. As cores podiam ser vibrantes ou em xadrez preto e branco, mas tudo era harmonioso. A maioria dos cantores abotoava as camisas até o pescoço, e muita gente imitava o visual do Velvet Underground. A batida era quase sempre seca, a ponto de ser fácil reconhecer o “toque dos anos 80” ao ouvir, hoje, alguma banda daquela época. Até que, em 1989, surgiu uma banda completamente diferente da paisagem da época: o Faith No More. O cantor, Mike Patton, usava bermuda (uma heresia), cabelos compridos (outra heresia) e, o pior de tudo, camisetas que mais pareciam roupas coloridas de criança. A voz não chegava a ser igual à do Pato Donald, mas lembrava um pouco o personagem da Disney. E, como se não bastasse, a banda tinha um instrumentista que usava barba! Quase ninguém no rock usava barba naquela época. Mesmo assim, a crítica — refiro-me à Bizz, a revista que eu lia e decorava — falava bem. Creio que até a Veja entrevistou Mike Patton, mas não tenho certeza. Segundo as descrições, o som era pesado, uma mistura de metal com rap que tinha tudo para me agradar — eu, que cheguei a enviar uma carta para a revista defendendo o primeiro disco dos Beastie Boys (que unia rock e hip hop, mas fora detestado pelos críticos da Bizz). De fato, como esperado, apesar do visual "problemático", amei o disco The Real Thing. Só anos mais tarde descobri que era o terceiro da banda, mas o primeiro com Mike Patton. A faixa-título sempre foi a minha preferida: com variações de ritmo, ora pesado, ora suave, e nuances vocais que alternavam entre o canto e o rap, seus mais de oito minutos me conquistaram de cara. O disco todo, nessa pegada de peso e suavidade, era praticamente perfeito. Inclusive, The Real Thing foi fundamental para o que viria a ser o "Nu Metal" ou "Alternative Metal", estilos que eu gosto muito até hoje. Já do álbum seguinte, Angel Dust (1992), não gostei nem um pouco; achei-o pretensioso e esquisito demais. Mais tarde, tive amigos que amavam a ampla discografia de Patton e suas inúmeras colaborações, mas não gostei de quase nada, exceto por uma coisa ou outra do Fantômas, o supergrupo que ele criou com Buzz Osborne, Trevor Dunn e Dave Lombardo. De tempos em tempos, volto a ouvir muito o The Real Thing, e ultimamente tenho estado em uma dessas fases. Por isso, achei uma boa ideia ressuscitar a série “Quem é vivo sempre aparece”, sobre sons retomados após muito tempo e músicos que eu nunca havia citado no blog. Se escrever este texto me fará dar uma chance ao restante da carreira de Mike Patton? Quem sabe. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida na Amazon.  
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