O Vampiro de Curitiba

“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
Literatura
“Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan
3 de junho de 2026 at 14:25 0

Eu confesso que não tinha lido inteiro “Antologia Pessoal”, de Dalton Trevisan (Record, 448 páginas, lançamento original: 2023), quando o coloquei na minha lista de livros preferidos mais recente. Mas não é assim tão difícil de saber por quê: como eu mesmo comentei naquele texto, “se o maior contista brasileiro acha que estes são os seus melhores contos, quem sou eu para discordar?”. Então não precisava lê-lo inteiro para colocá-lo em uma lista de livros preferidos. Além de ser muito mais longo que suas demais obras, a “Antologia Pessoal” dá um panorama bastante completo da obra do maior escritor já nascido no Estado do Paraná. Seria o livro dele que eu levaria se tivesse que ir para uma ilha deserta.

Ao mesmo tempo, é um livro um tanto estranho para os fãs. Nas primeiras obras, como “Cemitério de Elefantes” (1964) e “Novelas Nada Exemplares” (1959), ele ainda exibia certa distensão narrativa; já em suas obras mais recentes, como “Ah, É?” (1994), “Pico na Veia” (2002) e “99 Corruíras Nanicas” (2002), ele foi ficando mais e mais telegráfico, com contos cada vez menores. É meio estranho ver exemplares de todas estas fases juntas num livro só, já que seus lançamentos originais sempre tinham uma certa uniformidade temática e na dimensão dos contos. Mesmo em coletâneas como “Contos Eróticos” (1984) ou “A Guerra Conjugal” (1975), esta uniformidade aparecia — o que não acontece em “Antologia Pessoal”.
Outra coisa que chama a atenção é que, ao mesmo tempo que Dalton Trevisan odeia a modernidade de Curitiba – em contos nostálgico-críticos como “Em Busca da Curitiba Perdida”, “Minha Cidade” e “Que Fim Levou o Vampiro de Curitiba?” –, em seus contos mais recentes ele mostra seus personagens convivendo com problemas modernos, como roubos de celulares e vício em crack.
Dalton podia reclamar, como fez no conto “Em Busca da Curitiba Perdida”, do fim dos velhos bondes, do desaparecimento dos pinheirais (”minha terra já não tem pinheiro, o sabiá não canta mais”) e da extinção de figuras clássicas da província — como os imigrantes que vinham em carroças vender produtos da colônia —, mas ele sempre soube que seus personagens – frequentemente da mais extrema pobreza, com vícios, problemas familiares e conjugais – continuam por aqui, na nossa Curitiba, perdidos e desorientados como sempre.
Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Literatura
“Vampiro de Curitiba” e “Cemitério de Elefantes”, de Dalton Trevisan
22 de março de 2020 at 19:56 0

Lançados originalmente respectivamente em 1964 e 1965, “Cemitério de Elefantes” (Record, 126 páginas) e “O Vampiro de Curitiba” (Record, 142 páginas) são dois dos livros mais famosos de Dalton Trevisan - frequentemente apelidado, ele mesmo, de “vampiro de Curitiba”.

Em “O Vampiro de Curitiba”, todas as quinze histórias têm um personagem principal com o mesmo nome, “Nelsinho”, sempre obcecado por mulheres,  mas que não são necessariamente a mesma pessoa. 

Algumas histórias, envolvendo estupro, são chocantes até para leitores assíduos de Dalton Trevisan (“O Vampiro de Curitiba”, “Debaixo da Ponte Preta”). Outras, envolvendo carência feminina, são francamente patéticas (“Visita à Professora”, “A Velha Querida”, “A Noite da Paixão”, “Chapeuzinho Vermelho”). Em “Arara Bêbada” e “Menino Caçando Passarinho”, Nelsinho é um advogado que não dá bola para os limites éticos de sua profissão, assediando descaradamente suas clientes. “Último Aviso” mostra um Nelsinho ciumento e chantageador. “Na Pontinha da Orelha” e “Eterna Saudade” descrevem relacionamentos complexos, com atração mútua e alguns mal-entendidos.

Já “O Cemitério de Elefantes” fala de vingança (“O Primo”), morte (“Uma Vela para Dario”), violência (“O Baile”, “À Margem do Rio”), ciúme (“Bailarina Fantasista”), alcoolismo (“Os Botequins”), miséria (“Cemitério de Elefantes”). O tema principal do livro parece mesmo ser as relações familiares, sempre complicadas quando o assunto é Dalton Trevisan (“O Jantar”, “O Espião”, “Duas Rainhas”, “Angústia do Viúvo”, “A Casa de Lili”, “Dia de Matar Porco”) - tanto que um dos contos, sobre um marido violento, se chama “Questão de Família”. 

Tantos anos depois de publicados, os dois livros não envelheceram nadinha.

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