Em seus muitos contos, a canadense Alice Munro (1931-2024), Prêmio Nobel de Literatura de 2013, saudada como “mestre do conto contemporâneo”, escreveu sobre casais em crise, relacionamentos extraconjugais, histórias mal contadas e segredos de família. É uma autora que frequentemente focou suas narrativas em núcleos familiares ou de pessoas próximas, sempre num tom intimista. Embora alguns acontecimentos históricos — como a Segunda Guerra ou a liberação sexual dos anos 1960 — tenham sua importância em certos contos, normalmente eles são apenas pano de fundo para o que está sendo narrado. As histórias de Alice Munro normalmente se passam no Canadá, mas poderiam se passar em São Paulo.
Li recentemente “Vida querida” (Companhia das Letras, 320 páginas, traduzido por Caetano W. Galindo, ano de publicação original: 2012), que é o último livro que ela escreveu. Gostei muito de contos como o angustiante “Amundsen”, o trágico “Cascalho”, e de narrativas quase contemplativas e que cobrem longos períodos temporais, como “Orgulho” e “Trem”. Mas o meu preferido mesmo foi “Corrie”, que fala sobre uma mulher rica e independente que mantém um caso secreto de anos com um homem casado: o arranjo parece perfeito, até que uma revelação mostra que o relacionamento era baseado em uma mentira muito profunda.
Os últimos quatro contos do livro — “O Olho”, “Noite”, “Vozes” e “Vida Querida” — trazem, segundo a própria autora, histórias biográficas contadas pela primeira vez. Apesar do interesse natural que os fãs — entre os quais me incluo — tenham em saber mais sobre a vida de Alice Munro, não tem como não achar que, literariamente, essas histórias são um pouco inferiores ao normal da autora, que recebeu o único Prêmio Nobel, até hoje, dado a alguém especialista em contos.
A verdade é que as histórias de Alice Munro são quase sempre literariamente espetaculares e perfeitamente acabadas, enquanto os últimos contos de “Vida querida” parecem apenas um ajuste de contas da escritora com sua mãe.
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Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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