Um jogo de futebol tem noventa minutos. A grande maioria dos filmes noir dos anos 1940 e 1950 – meu estilo preferido ao lado do terror – tem noventa minutos. Quase todos os filmes de Woody Allen têm noventa minutos. Alguns longas a que assisti recentemente me fizeram pensar bastante nessa duração quase mágica.
Em A Cura, de Gore Verbinski (Estados Unidos, 2016), um jovem e ambicioso executivo é enviado aos Alpes Suíços para resgatar o CEO de sua empresa em um misterioso centro de bem-estar, mas logo descobre segredos perturbadores por trás dos tratamentos milagrosos do local. É um ótimo filme de terror, mas gostaria que alguém me explicasse por que ele precisa de 146 minutos.
A Última Casa (Estados Unidos, 2026), suspense apocalíptico com Wagner Moura, parte da premissa de um fenômeno desconhecido que impede qualquer pessoa de sair de casa. O filme foi amplamente detonado pela crítica, mas acredito que, se tivesse meia hora a menos em relação aos seus 112 minutos, o público – eu incluído – se irritaria bem menos.
Já Continente, de Davi Pretto (Brasil, 2024), é um terror nacional em que uma espécie de vampirismo zumbi assola uma pequena comunidade rural no interior do Rio Grande do Sul — o que me fez lembrar, em vários momentos, a obra-prima Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. O filme cria uma atmosfera opressiva e misteriosa excelente, mas até eu cortaria meia hora do meio, meio na machadada; certamente a narrativa ganharia muito mais força do que nos seus 115 minutos originais.
Por fim, o melhor exemplar recente: Insaciável, de Natalie Erika James (Estados Unidos, 2026), no qual uma estudante de medicina recorre a um método extremo de emagrecimento e passa a ser assombrada por manifestações sobrenaturais. O filme é tão bom que quase justifica seus 112 minutos, mas, francamente, no segundo ato a trama se torna desnecessariamente repetitiva.
Essa questão do tempo assombrou um dos meus diretores preferidos, Erich von Stroheim: na era do cinema mudo, ele simplesmente não conseguia filmar em noventa minutos nem cumprir prazos e orçamentos. Sua carreira brilhante foi interrompida precocemente porque ninguém mais se dispunha a financiar suas aventuras geniais. No fim das contas, é difícil não dar razão aos produtores que retalharam, para desespero do cineasta, joias como A Marcha Nupcial ou Ouro e Maldição.
Não me entendam mal: existem obras monumentais com bem mais de duas horas, como Kill Bill e Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino; Stalker e Solaris, de Andrei Tarkovsky; os citados Bacurau e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman; e Os Bons Companheiros e O Irlandês, de Martin Scorsese. Mas essas são as raras exceções.
Se eu pudesse dar um conselho a qualquer realizador contemporâneo, seria: se você não é um Kleber Mendonça Filho ou um Quentin Tarantino, mantenha os pés no chão e faça filmes de noventa minutos.
Imagem obtida no Gemini.
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