Um dos motivos que fazem com que eu escreva sobre os livros que leio é para não me esquecer se li ou não determinada obra – uma preocupação pertinente para alguém como eu, que lê muito desde criança. Minha mãe era uma leitora ainda mais voraz que eu, e frequentemente esquecia se tinha ou não lido determinada obra.
No caso de “Amor sem fim”, romance do escritor inglês Ian McEwan (Companhia das Letras, traduzido por Jorio Dauster, lançado originalmente em 1997, 296 páginas) aconteceu uma coisa rara: eu achava que tinha lido o livro, mas não tinha certeza. O que aconteceu foi o seguinte: certo de que o romance era espetacular, como todos os do autor que li, dei de presente para a minha mãe sem nem saber sobre o que se tratava. Ainda mais com este nome, “Amor sem fim”, devia ser lindo e romântico.
Não sei se a minha mãe leu, mas a edição que eu tenho ela certamente carregou por muito tempo, porque tem uma foto com dedicatória que ela tirou, um origami que ela fez, e um santinho de Nossa Senhora Aparecida. De todo modo, nunca conversamos sobre o livro.
“Amor sem fim” começa com um acidente: o personagem que narra em primeira pessoa o romance, Joe Rose, físico e jornalista de divulgação científica, está com sua companheira, Clarissa Mellon, uma acadêmica especialista em Keats, num piquenique no campo. Lá eles ouvem gritos e Joe e outras pessoas vão ver o que estava acontecendo: um menino estava num balão, e era difícil controlar o aparelho, porque o vento estava muito forte. Ali acontece uma tragédia, quando uma das pessoas que tentava segurar o balão fica pendurado nele e acaba caindo.
Isto acontece logo no início do romance. Poucos dias depois da tragédia, Jed Parry, que também tentou segurar o balão, procura Joe. O sujeito se convence de que Joe compartilha de um amor divino e recíproco com ele, dando início a uma perseguição obsessiva, cartas perturbadoras e ameaças veladas que destroem a sanidade e a segurança de Joe, enquanto as pessoas ao seu redor começam a duvidar de sua versão dos fatos.
O “amor sem fim”, portanto, é um título sarcástico neste romance perturbador – e espetacular, como todos os de Ian McEwan - que nada tem de romântico. Sei lá se minha mãe gostou – se leu, provavelmente sim, porque afinal de contas ela tinha bom gosto e, ao contrário de mim, não se deixava iludir por títulos irônicos.
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Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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