Biografia

O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
História
O dia em que um adolescente brasileiro acertou sobre Karl Lagerfeld – Uma memória de 1983, a gata Choupette e a fascinante biografia que confirmou uma intuição de infância
18 de outubro de 2026 at 04:47 0
Lembro bem da primeira vez que ouvi falar em Karl Lagerfeld: foi numa reportagem importante da Revista Veja em que o estilista era apresentado como o novo nome da Chanel, num desfile de enorme sucesso. Pesquisando na internet, descobri que este meu primeiro contato com ele deve ter sido em janeiro de 1983, quando ele apresentou sua primeira coleção da alta-costura (Primavera/Verão) para a maison. Até hoje me pergunto o que me fez simpatizar tão instantaneamente com aquele estilista de cabelos platinados e óculos escuros, abanando seu leque com sua mão cheia de anéis metálicos. Quem sabe o fato de ele ser alemão e fazer sucesso num meio tão francês como a moda: o adolescente que eu era, talvez, achasse que os frios e precisos alemães não tinham a capacidade de ter o glamour dos franceses, e ver que - pelo menos no caso de Lagerfeld - eu estava errado me fascinou de imediato. De todo modo, nunca me interessei por alta costura, e esta simpatia pelo estilista alemão sempre me divertiu – mesmo assim, não acompanhei a carreira dele enquanto ele era vivo. Nas notícias que se seguiram à sua morte devido ao câncer em 2019, com 85 anos, em Paris, fiquei sabendo de uma história que me fez simpatizar ainda mais com Lagerfeld: um amigo dele, o modelo francês Baptiste Giabiconi, deixou a sua gata, Choupette, para o estilista cuidar durante duas semanas. Quando o dono veio buscá-la, Lagerfeld simplesmente disse que não a devolveria: a gata, que ainda vive no luxo em 2026, passou a ter funcionários exclusivos para cuidar dela, e Lagerfeld a levava para todos os lugares possíveis. Ele parou de ouvir ópera, quando estava trabalhando, porque “Choupette odiava ópera”. Como a simpatia por Lagerfeld nunca acabou, resolvi ler a biografia “Paradise Now: The Extraordinary Life of Karl Lagerfeld”, de William Middleton (Harper Collins, lançada originalmente em 2023, 480 páginas), e fiquei impressionado com o que li. Lagerfeld não era só estilista: era fotógrafo, editor, designer de interiores e diretor de curtas metragens. Extremamente culto, lia muito e era praticamente um especialista na sua época preferida da história, o século XVIII francês. Homossexual, teve uma só paixão na vida, o bon vivant Jacques de Bascher, que tinha diversos casos mesmo sendo oficialmente parceiro de Lagerfeld – aparentemente, com o incentivo deste. Ele era workaholic, abstêmio e, pelo que tudo indica, praticamente assexual. Tinha uma imagem pública arrogante, mas era extremamente gentil em privado (“melhor assim do que o contrário, não acha?”, chegou a responder para alguém que descobriu esta sua dupla faceta), ao mesmo tempo que nunca perdoava as pessoas próximas que o decepcionavam. Uma pessoa fascinante em todos os aspectos. Eu fiz bem em simpatizar com ele em 1983.
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O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
História
O grupo terrorista Baader-Meinhof: 5. Dois livros e um documentário
5 de abril de 2026 at 09:55 0

O grupo guerrilheiro alemão Baader-Meinhof, formalmente conhecido como Fração do Exército Vermelho (RAF), estruturou-se em três “gerações”:

  1. A geração dos fundadores: Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin. Esta é a fase mais célebre do grupo e encerrou-se com o suicídio coletivo dos três em 1977, na prisão de Stammheim.
  2. A segunda geração: Surgiu com o intuito de libertar os líderes da primeira geração, presos em 1972. Esta fase culminou no “Outono Alemão” de 1977, com o sequestro e assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer e o desvio do voo Landshut da Lufthansa. Os principais expoentes desta fase foram Siegfried Haag, Brigitte Mohnhaupt e Christian Klar.
  3. A terceira geração: Ao contrário das anteriores, esta foi a mais enigmática. Seus membros levavam vidas aparentemente normais e executaram atentados de precisão cirúrgica, como o assassinato de Alfred Herrhausen, chefe do Deutsche Bank, em 1989. O grupo dissolveu-se formalmente em abril de 1998, enviando um comunicado à imprensa declarando que “a guerrilha urbana sob a forma da RAF agora é história”.
Li recentemente a edição em inglês do extraordinário Baader-Meinhof: The Inside Story of the R.A.F., de Stefan Aust (460 páginas, tradução de Anthea Bell, Oxford University Press). Publicado originalmente em 1985, o livro detalha a gênese do grupo e o início da segunda geração. Aust, que era colega de redação da jornalista (e futura terrorista) Ulrike Meinhof, insere passagens em primeira pessoa, como o relato de quando resgatou as filhas dela — Regine e Bettina — de um acampamento na Sicília para devolvê-las ao pai. Essa trajetória é retratada no filme O Grupo Baader-Meinhof (2008), baseado na obra de Aust.

É possível assistir no YouTube ao documentário em seis partes The Red Army Faction (2017), dirigido por Anne Éven e Christopher Gerisch. Falado em alemão com legendas em inglês, a produção é espetacular, apresentando imagens de arquivo notáveis e conferindo importância equivalente às três gerações do movimento.

A República Democrática Alemã (RDA/DDR) — a face comunista da Alemanha dividida — ofereceu suporte estratégico à RAF. O regime não apenas forneceu apoio logístico e financeiro, como também serviu de refúgio, garantindo emprego e moradia a militantes que desejavam abandonar a luta armada. Com a Reunificação Alemã em 1990, foi relativamente simples para o novo governo identificar esses ex-membros, uma vez que a lista de cidadãos da Alemanha Ocidental que haviam obtido asilo no Leste era extremamente curta. Esse panorama, explorado no documentário supracitado, despertou meu interesse por Stasilândia: Histórias por Trás do Muro de Berlim, de Anna Funder (376 páginas, tradução de George Schlesinger, Companhia das Letras). Escrito no estilo do New Journalism, o livro é narrado em primeira pessoa (descrevendo inclusive histórias do cotidiano da autora na Alemanha, como uma hilária visita a uma piscina pública) e resgata o cotidiano na antiga RDA através de entrevistas com vítimas e defensores do regime. Embora o tom das memórias seja sombrio, a leitura é fascinante e transformou a extinta DDR em um dos meus “interesses estranhos” — ao lado do Período Permiano, do Império Wari ou do Papado de Avignon. Aguardem novos textos sobre este país que não existe mais.

Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.

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