O grupo guerrilheiro alemão Baader-Meinhof, formalmente conhecido como Fração do Exército Vermelho (RAF), estruturou-se em três “gerações”:
- A geração dos fundadores: Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin. Esta é a fase mais célebre do grupo e encerrou-se com o suicídio coletivo dos três em 1977, na prisão de Stammheim.
- A segunda geração: Surgiu com o intuito de libertar os líderes da primeira geração, presos em 1972. Esta fase culminou no “Outono Alemão” de 1977, com o sequestro e assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer e o desvio do voo Landshut da Lufthansa. Os principais expoentes desta fase foram Siegfried Haag, Brigitte Mohnhaupt e Christian Klar.
- A terceira geração: Ao contrário das anteriores, esta foi a mais enigmática. Seus membros levavam vidas aparentemente normais e executaram atentados de precisão cirúrgica, como o assassinato de Alfred Herrhausen, chefe do Deutsche Bank, em 1989. O grupo dissolveu-se formalmente em abril de 1998, enviando um comunicado à imprensa declarando que “a guerrilha urbana sob a forma da RAF agora é história”.
Li recentemente a edição em inglês do extraordinário Baader-Meinhof: The Inside Story of the R.A.F., de Stefan Aust (460 páginas, tradução de Anthea Bell, Oxford University Press). Publicado originalmente em 1985, o livro detalha a gênese do grupo e o início da segunda geração. Aust, que era colega de redação da jornalista (e futura terrorista) Ulrike Meinhof, insere passagens em primeira pessoa, como o relato de quando resgatou as filhas dela — Regine e Bettina — de um acampamento na Sicília para devolvê-las ao pai. Essa trajetória é retratada no filme O Grupo Baader-Meinhof (2008), baseado na obra de Aust.
É possível assistir no YouTube ao documentário em seis partes The Red Army Faction (2017), dirigido por Anne Éven e Christopher Gerisch. Falado em alemão com legendas em inglês, a produção é espetacular, apresentando imagens de arquivo notáveis e conferindo importância equivalente às três gerações do movimento.
A República Democrática Alemã (RDA/DDR) — a face comunista da Alemanha dividida — ofereceu suporte estratégico à RAF. O regime não apenas forneceu apoio logístico e financeiro, como também serviu de refúgio, garantindo emprego e moradia a militantes que desejavam abandonar a luta armada. Com a Reunificação Alemã em 1990, foi relativamente simples para o novo governo identificar esses ex-membros, uma vez que a lista de cidadãos da Alemanha Ocidental que haviam obtido asilo no Leste era extremamente curta.
Esse panorama, explorado no documentário supracitado, despertou meu interesse por Stasilândia: Histórias por Trás do Muro de Berlim, de Anna Funder (376 páginas, tradução de George Schlesinger, Companhia das Letras). Escrito no estilo do New Journalism, o livro é narrado em primeira pessoa (descrevendo inclusive histórias do cotidiano da autora na Alemanha, como uma hilária visita a uma piscina pública) e resgata o cotidiano na antiga RDA através de entrevistas com vítimas e defensores do regime. Embora o tom das memórias seja sombrio, a leitura é fascinante e transformou a extinta DDR em um dos meus “interesses estranhos” — ao lado do Período Permiano, do Império Wari ou do Papado de Avignon. Aguardem novos textos sobre este país que não existe mais.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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